Em A possibilidade de uma ilha, terceiro livro do polêmico Michel Houllebecq, encontramos a mesma ironia ácida, o mesmo desdém com a miséria afetiva da humanidade e uma preocupação aguda em relação ao sexo (e seus momentos beirando a misoginia) e a morte, todos temas já tratados em suas obras anteriores. No entanto, nesse romance Houllebecq não apenas flerta com a Ficção-Científica, o livro é decididamente sci-fi slipstream, adulto, ácido e especulativo trazendo a clonagem e a religiosidade tecnológica como panos de fundo para refletir sobre a condição de humanos e de pós-humanos (que ele chama no livro de neohumanos). Os relatos de vida de Daniel 1 somados aos comentários de Daniel24 e Daniel25 (seus clones e sucessores) fazem a lição de casa da FC de qualidade: extrapolam as questões técnicas sobre a biotecnologia em um presente/futuro próximo pensando em um futuro mais longínquo no qual os humanos ou se tornariam selvagens (ao estilo distópico quase Mad Max) ou neohumanos (aqueles que abdicaram da vida em prol da imortalidade adquirida via clonagem através da conversão à seita elohimita). Senti um tom super new wave e philipkdickiano em vários momentos em que os personagens hesitam entre o que seria realidade, sonho ou delírio e no que tange as questões religiosas da seita elohimita e até mesmo a temática da sexualidade, característica da NW e também de JG Ballard em relação ás gerações anteriores. No entanto, as tintas distópicas e ora antihumanistas ora nostálgicas a respeito da condição humana reequlibram a narrativa dotando a mesma de um tom mais crítico em relação à liberdade da geração 68. Se, em Partículas Elementares, Houllebecq flertou timidamente com possibilidades científico-ficcionais, em A possibilidade de uma ilha ele não deixa dúvidas de que pode ser considerado tanto um escritor mainstream quanto um escritor de FC. Isso é claro, se pensarmos nas tendências de ordem mais existencial e filosófica iniciadas pelas gerações de escritores de FC dos anos 60/70 e na ordem da extrapolação de uma tecnologia (no caso a biotecnologia e seus desdobramentos sobre a vida humana, a cultura e as relações sociais). Está tudo lá, o personagem com tendências a anti-herói, a tecnologia, um acontecimento/evento que aciona a narrativa (no caso a finitude da raça humana e o surgimento de novos seres a partir de um experimento científico e religioso) e uma descrição do devir humano em sua busca por compreensão da vida. Tanto o autor em sua prosa estilo “dedo sarcástico na ferida” quanto os relatos de vida dos personagens não oferece nenhuma salvação ou solução para o futuro, mas traça um panorama refinado da caminhada do homem contemporâneo nietzscheanamente rumo ao seu processo de transmutação. Agora estou curiosíssima para ler o mais novo romance dele ” La carte et le territoire” lançado ao final de 2010, em que há um personagem que é o próprio Houllebecq conforme indica a resenha do Guardian .
Quando a literatura francesa encontra a ficção-científica contemporânea
30 janPolítica de compartilhamento sob ataque
27 janVale a pena conferir o artigo Política de compartilhamento sob ataque do colega Sergio Amadeu da Silveira em que ele questiona as políticas da nova Ministra da Cultura, Ana de Holanda ao retirar as licenças Creative Commons do site do Minc. É um ponto em que o Brasil tinha avançado muito no governo anterior e se continuar assim, retrocede. Espalhem e discutam.
Métodos de Pesquisa para Internet – a capa
25 janEis ai o preview da capa de Métodos de Pesquisa para Internet, meu novo livro em co-autoria com Suely Fragoso e Raquel Recuero que sai pela editora Sulina em fevereiro/ março mais tardar. Aguardem em breve o release, a data e local do lançamento que será divulgado na sequência.
Nativos Digitais e Imigrantes Digitais – criticando os termos
25 jan
Há um bom tempo venho comentando com colegas e alunos em congressos, palestras, bancas, eventos, aulas e até mesmo aqui no blog o quanto me causa incômodo essa divisão “mercadológica” entre nativos digitais e imigrantes digitais. É uma dicotomia tão tola baseada em um “insight mezzo marketeiro” sem evidências de amostragem, dados ou evidências científicas. E o que é mais preocupante é que essa divisão – ou outras que significam a mesma coisa como Geração Net (Tapscott) ou Millenials (Howe & Strauss) – tem sido adotada quase como um modelo ou conceito, o que ela nunca foi. E assim, os termos seguem sendo reproduzidos desde matérias em telejornais até em dissertações ou teses sem grandes preocupações em relação à discussão e profundidade dos significados dos mesmos. O que considero mais grave é que não parece haver contrapontos. Tempos atrás vi a danah boyd mencionar algumas críticas aos termos, fora isso, do pouco que li até o momento, muitas pessoas tendem a concordar com a adoção dessa divisão. Mas essa semana lendo minhas feeds encontrei um post do blog de English Language Teaching da editora da Universidade de Oxford que faz uma boa relativização. Em Digital Natives: Fact of Fiction? Zöe Handley, professora de lingüística do departamento de Educação da Universidade de Oxford traça um resgate histórico dos termos, desde a publicação do primeiro texto de Prensky em 2001, até algumas reconsiderações de autores que apontam a falta de evidências cognitivas e neurológicas para tal abordagem. Segundo ela, o próprio Prensky reconsidera suas posições em um artigo de 2009, que a maioria dos que se engajaram em disseminar os termos parece fazer questão de ignorar. Embora o post seja bastante voltado à questão da educação, uma vez que o foco do blog é o ensino de língua inglesa, há aspectos bem interessantes levantados pela autora, em especial os resultados de pesquisas – cujas referências são citadas e linkadas até – que mostram que os supostos nativos digitais (nascidos a partir de 1982) não necessariamente usam as tecnologias de forma “produtiva”ou produzem conteúdo, embora estejam engajados nas redes sociais e constantemente online, ao passo que muitos dos “imigrantes digitais” podem se mostrar usuários muito mais frequentes. Os estudos mais recentes apontam que há uma variação muito grande nas experiências dos estudantes com as tecnologias, o que invalidaria uma dicotomia geracional por si só. Bem, gostei bastante da abordagem crítica do texto, que embora breve fornece algumas pistas – que podem ser melhor desenvolvidas – sobre o fato de que os “imigrantes digitais” através de suas práticas e experiências com as tecnologias podem vir a se tornar nativos e que os “nativos” nem sempre possuem toda a “performance” que lhe é atribuída. Julgo fundamental mais pesquisas e discussões acerca da adoção seja ela midiática ou acadêmica em relação a essas nomenclaturas, a fim de não acirrarmos ainda mais as distâncias entre gerações (em especial na questão professor-aluno) através da tecnologia como vetor ou como uma espécie de imposição devido a uma data de nascimento. São pontos a serem pensados com maior precisão daqui para frente.
A mão do Diabo – Dean Vincent Carter
23 jan
A mão do diabo, primeiro romance de Dean Vincent Carter foi uma agradável surpresa para mim, que andava bem descrente do gênero terror (embora a Livraria Cultura tenha catalogado o livro como Infanto Juvenil). O livro foi lançado em 2006 mas só em 2010 ganhou uma tradução no Brasil pela editora Bertrand Brasil. Entre o suspense, a aventura e o horror, a narrativa se equilibra muito bem entre a mistura de lendas urbanas e entomologia a que o autor se propõe. O livro conta a aventura do jornalista inglês Ashley Reeves que vê na carta do (até então desconhecido) Reginald C. Mather uma chance para conseguir uma pauta quente para a revista de divulgação científica na qual trabalha. Mather afirma ter consigo “O vermelho do Ganges”, exemplar raro de mosquito gigante e atrai Reeves para sua residência na soturna ilha de Aries a fim de dar uma entrevista sobre o assunto. Ao chegar na localidade, Reeves começa a perceber que coisas tão ou mais estranhas quanto os poderes da “Dama”(como Mathes faz questão de chamar o mosquito) acontecem na ilha. Confesso que li o livro em menos de um dia porque a curiosidade sobre o que iria acontecer no embate psicológico entre Reeves, Mathes a Dama e outros personagens que participam da narrativa era enorme. Ponto positivo para Carter que injetou sangue novo – com o perdão do clichê e do trocadilho infame em se tratando de um mosquito – em um gênero que muitas vezes se repete demais.[Atenção, SPOILERS] Achei a circularidade e viralidade da lenda, acrescida dos crimes praticados pelo psicopata uma boa solução para a narrativa. Claro tem todo um tom de referência um tanto “A ilha do Dr. Moreau” mas o livro cumpre o que promete e causa um incômodo quase contínuo no leitor, seja pelas boas (e nojentas) descrições, seja pela sensação de medo que vai tomando conta de Reeves, que conta a estória a posteriori em primeira pessoa. Gostei bastante do estilo despojado mas incisivo do autor que após A mão do diabo (The hand of the Devil) já lançou mais dois livros: The Haunting Season e Bloodwater.
Someday when my crying’s done. I’m gonna wear a smile and walk in the sun
20 janNo momento flashback das férias, A-ha regravando um clássico dos Everly Brothers – Crying in the rain.
Férias, mas não do blog
16 janEntrei em férias ontem e finalmente reativarei as postagens aqui no blog. Os últimos meses foram os mais difíceis de toda minha vida, mas sobrevivi e cá estou, um dia de cada vez. Já estou devidamente instalada no novo apartamento mas ainda organizando tudo. O que eu achava ser uma gripe foi uma crise de sinusite aguda mas que agora está devidamente medicada. Assim, nessa semana posso me dedicar à casa nova, ao blog, aos amigos e a outras leituras. Aproveitando o domingão deixo para vocês uma tirinha dos Passarinhos que achei super apropriada

Exposição Multimídia INSERT COIN no Paço da Liberdade em Curitiba
16 janPara quem estiver em Curitiba e curte arte e tecnologia, vale a pena conferir a exposição multimídia Insert Coin, no Paço da Liberdade, do qual participam Fabricio Castro (DJ Gorpo) e Iuri Kato. Abaixo o release:
Blips e blops de 8-bits, soprar o cartucho para fazer funcionar, floppy-disks de 1.44 MB, prompts de comando, modem de 28800 Bps, fichas de fliperama, uma frase piscando na tela do arcade enquanto uma demonstração do jogo passa continuamente: INSERT COIN.
A exposição se faz do resultado das pesquisas da Oficina de Produção de Audio Experimental realizada no NULIB (Núcleo de Arte e Tecnologia do Paço da Liberdade) durante o segundo semestre de 2010. Fabrício Castro(Gorpo) e Iuri Kato apresentam uma exposição audiovisual pautada na estética low-tech dos videogames 8-bits e da informática do século XX. Estas tecnologias, apesar de recentes, já estão suficientemente defasadas comparadas às atuais, porém, de maneira alguma, descartáveis de valor. INSERT COIN explora um passado tecnológico e questiona o que ele tem a oferecer enquanto experiência estética híbrida entre som e imagem em pleno século XXI. Onde tal passado se enquadra em um mundo no qual o que agora é high-tech logo torna-se low-tech?
De 111 à 203
Paço da Liberdade Sesc Paraná
Praça Generoso Marques, 189
Centro – Curitiba, PR
41 3234 4200
www.sescpr.com.br
Mudança, calor e gripe
11 janFinalmente a mudança de Curitiba chegou. Em meio a defesas e qualificações de doutorado, entrega de relatórios, reuniões, deadlines e a formatura da minha sobrinha. E ah sim, o calor insuportável de Porto Alegre aliado a uma gripe que está me causando um estrago danado. Isso tudo explica minha ausência do blog mas não justifica. Tenho 2 micro-resenhas quase prontas na cabeça sobre os livros de Mark Dery e Rudiger Safransky. Posto assim que essa função toda se encerrar, dentro de alguns dias. Eu volto já já.
2011 with magic, dreams and good madness
2 janFaço minhas as palavras de Neil Gaiman:
May your coming year be filled with magic and dreams and good madness. I hope you read some fine books and kiss someone who thinks you’re wonderful, and don’t forget to make some art — write or draw or build or sing or live as only you can. And I hope, somewhere in the next year, you surprise yourself.




