1975 no Uruguai, minha mãe trabalhada no color blocking já grávida de mim, que segundo ela, gosto de viajar pq viajei desde essa época
Nesse dia das mães, em vez de escrever alguma coisa, resolvi usar algumas palavras da minha própria mãe que partiu há quase dois anos, embora em pensamento jamais tenha me abandonado.Ontem enquanto desempacotava uma das caixas do meu escritório encontrei bem em cima duas cartas que ela me enviou enquanto eu morava nos EUA – tempo em que fiz meu estágio de doutorado por lá. Parece que foi ontem, mas já se passaram 8 anos. Digito aqui alguns trechos dela como forma de lembrança e agradecimento por tudo que vivemos juntas. Ela que sempre me acompanhou e apoiou em cada pequeno e grande passo da minha vida.
Quero chegar aos 41 anos tão bem quanto minha mãe. Desde bem pequena trabalhada no color blocking lol
Porto Alegre, 19 de Novembro de 2004.
Querida Filha,
Aqui são 8h20 da manhã, o dia amanheceu meio frio e ventoso. Aliás, a primavera este ano está bastante fria e muito chuvosa. Estou te escrevendo pra contar algumas coisas, pois não dá para contar tudo por telefone. Estamos todos bem (…)
(…) Adri, já está chegando o Natal. Aqui as lojas estão todas enfeitadas. Para mim não parece que está acontecendo nada porque vou sentir muito a tua falta, apesar de alguns desentendimentos, mas tu sabes que eu te amo. (…).
Do primeiro dia de escola até a defesa da minha tese. Sempre juntas
Porto Alegre, 22 de Dezembro de 2004,
A saudade está cada vez apertando mais. Hoje para mim foi um dia melancólico. A partir de amanhã já quero cuidar dos últimos retoques da casa e fazer alguns quitutes para sexta-feira à noite (…) Para não me esquecer de te dizer, mandamos um email para o Diego, pois hoje ele está de aniversário [que se não me engano estava na Europa nessa época].
Adri, aqui o verão chegou hoje, mas nem parece verão, parece um verão com cara de inverno, pois está bem frio e estou até de casaco de lã. Fiz uma saia muito bonita para a Bruna. Ela está muito feliz (…) O Alexandre e a Fernanda passarão o Natal na casa da namorada e do namorado (…)
(…) Filha, quando leres esta carta pensa em mim com muita falta de ti, mas logo logo estaremos juntas novamente. Falta pouco, estou contando os dias. Recebi teu email dizendo a hora e o dia em que chegas. (…)
(…) Filha, te desejo um feliz Natal com muita saúde. Vê se não adoece, pois fico muito preocupada contigo. Te cuida do frio e da neve, isso é muito bonito para o cinema, mas cuidado com o resfriado. Estou, mais uma vez contando os dias. Não vejo a hora de ir até o aeroporto te esperar.
* Gostei bastante de A Googlelização de Tudo de Siva Vaidhyanathan, lançado no final do ano passado pela editora Cultrix. Embora um tanto utópico, o autor nos traz alertas interessantes sobre a pervasividade e a privacidade dos dados implícitos nas buscas;
* Eu tenho ingressos pro show da Madonna no Olímpico. Não é brinquedo não!!
* Avengersé um dos melhores filmes de super-heróis já feito. Adorei mesmo!
* Maio iniciou num ritmo corrido, mas cheio de novidades:
>>A Especialização em Cultura Digital e Redes Sociais, cuja primeira turma iniciou no mês passado na Unisinos/CIEE recebeu seu primeiro professor convidado: Zé Claudio Castanheira da UFSC que ministrou uma Unidade Temática sobre Teorias das Materialidades e Cultura Digital no final de semana passado. No blog e na fanpage Cultura Digital e Redes Sociais tem mais informações sobre o curso, curte lá.
>>Paper feito em co-autoria com Raquel Recuero e Camila Monteiro sobre Fandoms no Twitter foi aprovado para a 13a Conferência Anual da Aoir que acontecerá em Salford na Inglaterra, de 18 a 21 de Outubro de 2012.
>> Ah sim, esse mês teve um item diferente que ocasionou o afastamento do blog, mudança de casa. Já estou no novo apto e feliz da vida. O escritório ainda está caótico, mas aos poucos vai tudo para o lugar.
>> No mais, já estou lendo o 4o. volume de Songs of Ice and Fire, intitulado A feast for crows. O desfecho de A storm of swords foi um dos melhores que já li, cheio de cliffhangers e reviravoltas na narrativa.
hey honey what you trying to say as i stand here don’t you walk away and the world comes tumbling down hand in hand in a violent life
Março não foi nada fácil, o que me obrigou a postergar as postagens por um misto de cansaço, excesso de trabalho e um certo choque em relação a alguns acontecimentos. Existem coisas sobre as quais é preciso refletir e silenciar. Mas é fato que a carga de atividades desse mês (um volume de deadlines absurdo) e acontecimentos negativos contribuiu demais para essa parada. Além disso, as viagens a Santa Maria, Curitiba e São Paulo também quebraram meu ritmo de escrita, apesar de terem sido proveitosas.
# As complicações de março incluíram o cancelamento de 2 shows aos quais eu já havia me programado: Morrissey em Porto Alegre e Atari Teenage Riot em São Paulo. Felizmente o ATR apenas transferiu o show para o dia 15/6. Mesmo assim, fiquei bastante chateada pois já estava com tudo organizado para ir. Mas nada superou o fato de que fui assaltada a poucas quadras de minha casa e tive meu notebook e o celular roubados (e minha mochila). Pior do que ter sido assaltada a caminho do trabalho de manhã, do que ter um prejuízo financeiro que eu não podia sobretudo nesse mês foi ir na delegacia e não poder fazer o o BO devido à greve. Foi revoltante!
# Mas nem tudo foi negativo. Durante as viagens pude rever colegas e amigos e consegui visitar a magnífica Ocupação Angeli no Instituto Itaú Cultural em São Paulo. Essa exposição com a trajetória de Angeli está simplesmente fantástica. Se puderem, confiram. Outro destaque desse mês conturbado que se encerrou foi ver Roger Waters com o show The Wall Live. Uma experiência sensorial completa. Um dos melhores shows que já vi sem sombra de dúvida. Valeu cada centavo pago. Posicionamento político, estética, emoção e boa música.
i take my aim and i fake my words i’m just your long time curse and if you walk away i can’t take it
# Estou no processo de encerramento da minha pesquisa e me encaminhando para novas questões. Algumas das minhas considerações iniciais sobre a questão do gosto e de como ele é debatido no âmbito dos sites de redes sociais apareceram no artigo que publiquei no Caderno Cultura de Zero Hora do dia 24 de Março de 2012 e também, de forma mais condensada no comentário em formato de vídeo intitulado Patrulhas do gosto.
# Além desse texto cujo formato é mais ensaístico/jornalístico, o paper que produzi com a minha orientanda de mestrado Camila Monteiro, intitulado “Eses roquero não curte ”: performance de gosto e fãs de música no Unidos Contra o Rock do Facebook foi aprovado para ser apresentado no GT Comunicação e Cibercultura da Compós, que acontecerá em junho de 2012 e que aprofunda algumas questões relativas à performatização do gosto e a questão de fãs e anti-fãs nos sites de redes sociais, a partir do estudo de um objeto um tanto quanto bizarro.
# Abril trouxe novos ventos gelados com o início da 2a temporada de Game of Thrones logo no primeiro dia do mês. Juntei alguns fãs da saga na minha casa para assistirem a transmissão do episódio que estrategicamente a HBO disponibilizou ao mesmo tempo em que os Estados Unidos. Foi uma experiência social bem divertida e com a qual eu não me envolvia desde o tempo do video-cassete – quando juntava os amigos para maratonas de filmes – ou mesmo algumas transmissões do Oscar que assistia com algumas amigas nos idos de 2000.
# Espero que o céu de abril seja menos tenso e traga um pouquinho mais de tempo. Só isso e uma bela canção do Jesus & Mary Chain para fechar essa songpost.
under the april skies under the april sun sun grows cold sky gets black and you broke me up and now you won’t come back shaking hand, life is dead and a broken heart and a screaming head under the april sky
Estive afastada do blog devido ao feriadão de Carnaval. Passei esses dias em Curitiba descansando bastante – o início de semestre será pesado – revendo pessoas e acompanhando o Psycho Carnival, tradicional festival da cena psychobilly nacional. É impressionante como o evento cresceu. Fui em todas as edições a partir de 2006 (quando mudei para CWB) à exceção do ano passado, pois estava em processo de mudança. A cada ano que passa mais pessoas participam e o profissionalismo do evento aumenta. A organização desse ano está de parabéns novamente. Ótimos shows a preços acessíveis e infra-estrutura na medida certa. Essa cena e o próprio festival merece um trabalho etnográfico sério, preciso ver isso. Temos de admirar pessoas que conseguem fazer um festival internacional desse nível no Brasil e fazer com que ele dure 13 anos . Não é fácil. Todos que como eu já produziram eventos fora do mainstream entendem as dificuldades. É muito legal ver a popularização de um evento cujo foco é o rock n roll direto e sem firulas. Não sou membro dessa cena, embora a admire e não ganho um centavo divulgando nada. Faço isso porque acho bem louvável o empenho do pessoal que gerencia tudo isso. Em tempo, curti bastante a banda The Rocker Covers, de Brighton, Inglaterra. As versões e mashups de Cure, Ace of Base e Greenday em versões rockabilly e ska foram muito divertidas. As companhias do meu eterno companheiro Gorpo (<3), e dos divertidos Líbera e Blob de Porto Alegre garantiram muita diversão e fanfarronice.
Dentre as tantas atividades que rolaram durante esses dias, a Zombie Walk CWB também cresceu bastante. Segundo o que me informou o Docca, um dos organizadores, os dados da PM indicaram que foram 4.500 pessoas marchando como zumbis em pleno domingo de carnaval. Percebi muita mistura de zumbis com cosplay. Há muitos cosplayers em Curitiba e na região, o que justifica essa vertente. Outra fator que me chamou a atenção foi a nítida influência do seriado The Walking Dead, o que certamente também deu visibilidade aos zumbis e ajudou a aumentar o número de participantes.
Novidades
Esse fevereiro tem sido muito produtivo para mim. É um período em que consigo me concentrar no andamento da minha pesquisa, colocar leituras em dia etc. No momento, tenho me detido basicamente em duas questões: 1) as mobilizações e disputas entre fãs e anti-fãs amplificadas nos sites de redes sociais, sobretudo no Twitter; 2) a performatização do gosto e suas manifestações subjetivas, mais especificamente a partir dos perfis do Facebook. Produzi um artigo novo sobre isso conjuntamente com a Camila Monteiro e assim que possível, comento mais detalhamente por aqui.
Também nesse mês fiz minha estreia como colunista/colaboradora da Revista Warung – veículo impresso do club de música eletrônica homônimo. Assim que a edição for lançada informo a todos. Em março chega às livrarias a segunda edição do livro Métodos de Pesquisa para Internet (editado pela Sulina e produzido a 6 mãos entre as colegas Raquel Recuero, Suely Fragoso e eu).
E, antes tarde do que nunca, parece que lentamente áreas mais tradicionais como a da Educação e a da Letras estão se interessando por fenômenos “mais contemporâneos”, sobretudo por conta da visibilidade alcançada pelas fan-fics na internet, pelo menos foi essa a ênfase da matéria “Fãs recriam na web novos caminhos para histórias consagradas”. Fan Fictions não são novidade para quem acompanha fandoms de sci-fi ou fantasia pelo menos desde os anos 60 (Star Trek, etc). Mas parece que alguns educadores estão finalmente compreendendo que essa prática pode sim ser um exercício de criatividade “legítimo”. Dei “alguns pitacos” como fonte na matéria acima.
Agora é juntar forças e se reorganizar para um início de semestre com muito trabalho e novidades. Tenho uma impressão bem boa a respeito desse ano, acho que ele vai ser de muita criatividade e execução de projetos profissionais e pessoais.
Acho que 2012 tem tudo para ser um bom ano. Primeiro porque eu sempre preferi anos pares – à exceção dos anos com o número 5. Ok, é uma preferência besta e sem nenhum traço lógico. Mas nem só de lógica e racionalidade somos feitos, não? Segundo porque estou praticando seriamente (ou pelo menos tentando e levando a sério isso pela primeira vez em muito tempo) a antiga arte do desapego. O ano passado demonstrou claramente que eu investia afetividade demais em pessoas que não me consideravam tanto assim – explicado através do velho refrão thesmithiano de Heaven Knows I’m Miserable Now:
“In my life
Why do I give valuable time
To people who don’t care
If I live or die?”
Ok Moz sempre exagera um pouco, mas o bom de ter passado por essas “decepções” demasiadamente humanas foi de ter conseguido redimensionar que, para além da minha mudança física – de endereço e trabalho – havia também uma mudança interior e de “núcleo da novela/seriado”. Passei 2011 ruminando essas mudanças. Num primeiro momento tentei entender porquê tudo aquilo havia acontecido e de que maneira esses afastamentos e aproximações inesperadas haviam acontecido – a descrição, de forma abrupta era só a ponta do iceberg. À medida em que tudo foi se esclarecendo percebi que os roteiristas redistribuiram os personagens e, evidentemente, eu não fazia mais parte do núcleo central, não daquela narrativa em particular. A verdade é que eu mereci meu próprio spin-off . Essa pequena epifania foi útil para deixar mágoas de lado e compreender que meu seriado sempre havia sido outro, mas devido a contingências narrativas, alguns universos se encontravam, talvez por tempo demais e agora haviam vencido o prazo de validade. Acabou a temporada, a missão se encerrou e o grupo de “heróis” se desmembra e cada um toma seu rumo. Viram como ter lido coisas como Crise nas Infinitas Terras serviu para algo?
Mas, voltando a 2012. Eu espero sinceramente – e farei tudo para viabilizar isso – que o desapego seja a tônica. Comecei tirando sacolas de papel do meu escritório, doando roupas e percebendo por quem vale a pena lutar de verdade. Assim, o peso dos ombros talvez seja um pouco mais fácil, sem hard feelings. Não quer dizer que criei inimigos ou que sairei dando tiros a torto e a direito (longe disso), mas que eu me importo cada vez menos do que eu me importava e mantenho tudo nos limites da civilidade. Tenho outras coisas por fazer, por sentir, por viver. A nova temporada exige desafios diferentes e superação, afinal já não me encaixo mais na maioria das coisas em que me sentia confortável e, ao mesmo tempo, continuo a mesma de sempre com meus gostos “esquisitos” e minhas incompreensões.
2012 para mim vai ser isso: desapego do senso comum; de algumas manias; de pessoas que não fazem mais sentido no meu cotidiano; de excessos negativos; de julgamentos precipitados; de peso na bagagem.
Feriado e para variar acordei tarde. Lembra quando eu resmungava que tu me ligava muito cedo nos domingos e feriados? Dai tu começaste a ligar à tarde e eu nunca mais resmunguei. Sinceramente preferia continuar sendo acordada com o teu telefonema do que nunca mais ouvir tua voz no telefone como acontece agora. Dai eu contaria minha semana e os preparativos para as próximas viagens e coisas que estou fazendo. Tu te alegraria com as minhas conquistas e se entristeceria com o que me faz mal, mas diria que tudo vai passar, com aquela certeza que me fazia também acreditar sempre que o pior já havia passado. Depois de contarmos os acontecimentos óbvios da semana, tu passaria o fone para o meu pai que me perguntaria se eu já vi o novo seriado/ filme de ação/ suspense/ scifi em cartaz. Lamento não ter podido comentar sobre Thor, sobre Game of Thrones e as últimas coisas que vi nesses dois anos em que ele não estava mais ai para comentar. Daí o fone voltaria para ti e comentaríamos sobre outras coisas como meu jeito “sem jeito” para arrumar a casa ou ideias de receitas e soluções para coisas como “tirar manchas” de alguma roupa. Pois é, nunca tive grande talento para isso, mas ocasionalmente eu tento. Sei que jamais conseguiria fazer isso tão bem quanto tu, mas aprendi contigo mesma que meus talentos sempre foram outros.
Durante a última semana eu usei uma echarpe tua, aquela preta de petit poas brancas. Fiquei com todas elas, que darão todos os passeios possíveis que tu sempre gostou. Incrível, como a cada ano que passo me acho mais parecida contigo. Toda vez que eu sento na frente do espelho para me maquiar eu revejo a cena em que te via se arrumando, prendendo o cabelo, passando rímel, lápis e o batom vermelho. Eu assisti a essa cena boa parte da minha vida e agora a repito sem pestanejar, virando o olho para cima para passar o lápis na parte interna. Acho essa uma metáfora interessante sobre a condição feminina nesse mundo e aprendi contigo. Às vezes escorre uma lágrima, às vezes borramos e precisamos repetir, mas na medida certa dá aquele toque estético que faz a diferença. Pequenos gestos que nos lembram do que é realmente importante na vida.
Ontem estava contando uma história a uma amiga e precisei descrever detalhes sobre um vestido de festa vermelho que usei em umas formaturas nos anos 90. Lembra quando tu fizeste ele, do quanto brigamos? Pois é, foi eu sempre brigava porque detesto experimentar roupas na costureira. Mas recordei do quanto ele foi importante e marcou um período em que eu fui absurdamente feliz, uma felicidade vermelho carmim que incomodava a tantas pessoas. Cada objeto sempre guarda lembranças, artefatos contam narrativas de vida. Naquela época eu não tinha essa percepção e me desfiz quando achei que ele havia saído de moda.
Sim, eu tenho ido ao médico, estou tomando os remédios certinhos para o meu problema no estômago. Estou me cuidando, claro e como saladas mesmo as detestando em geral. Tenho sentido o peso dos 30 e poucos, certas coisas não tem jeito mesmo. Mas ok, continuo ouvindo música alta e dançando no meio da sala enquanto ninguém olha, como eu fazia desde que me conheço por gente. Também tive uma atitude genuinamente caridosa num dia da semana e recebi algo inesperado no dia posterior. Como tu sempre falava, “quem é generoso sem pensar, recebe em dobro sem saber nem de onde”. Não tenho visto meus irmãos tanto quanto deveria, o tempo e o volume de trabalho é sempre complicador. Mas no domingo vi a Julia e a Manu que está absurdamente parecida contigo: o cabelo, o sorriso e até o jeito de falar.
Escrevo essa carta que nunca poderei enviar 24h antes de completar um ano daquele dia fatídico, 3 de novembro de 2010. A dor ficou guardada em uma certa medida e as poucos vai se apaziguando. A saudade e as boas memórias permanecem. Agora vou sair e aproveitar o resto desta tarde ensolarada porque sei que tu acharia que essa é a atitude adequada, em vez de ficar chorando no cemitério. Estou apenas repetindo as palavras que tu sempre me ensinaste. Sim, viver a vida e fazer o bem pelas pessoas que amamos enquanto elas estão aqui e não depois quando já não há mais tempo. E é com essa consciência que coloco o ponto final.
Agosto e setembro se despediram e com eles os últimos resquícios de um ano conturbado. Sim, eu conto o ano pelo mês do meu aniversário e não pela troca de calendário. Foi um ano de ligar os pontos e perceber os sinais que a vida estava emitindo. Me perdi pelo caminho, desviei das rotas mas consegui retomar a estrada. Quem sabe eu não fico boa em recomeçar? São tantas idas e vindas.
A million miles away Your signal in the distance To whom it may concern I think I lost my way Getting good at starting over Every time that I return
Houve um momento em que achei que a minha identidade havia escapulido pelo sufocamento cotidiano, pelo excesso de compromissos, pelos do’s and dont’s que a vida nos coloca. Também cheguei a imaginar que pertencia a algo maior, a um grupo e que talvez eu devesse me adaptar “adjust to fit in”. Era ilusório como todo o resto. Afinal, estou sempre reaprendendo e consequentemente frustrando as expectativas alheias, uma vez que possivelmente nunca vou me adaptar completamente a modelos e padrões pré-determinados pelo senso comum. Me sentia como Dave Grohl nesse vídeo no momento em que ele olha para o lado e vê um adesivo do Bush e olha para o outro e dá de cara com um sticker do Coldplay. Faltava só criar coragem, abandonar o carro no meio do engarrafamento e fazer outra rota a pé.
Learning to walk again I believe I’ve waited long enough Where do I begin? Learning to talk again Can’t you see I’ve waited long enough Where do I begin?
Faltava, não falta mais. Por que existem coisas que levam tempo sedimentando, que podem ser sufocadas, mas um dia elas retornam e ai aquela fúria toda emerge exorcizando o passado. Sim, Wasting light é um álbum de exorcismo do que Grohl viveu nos anos 90. Cada um a seu jeito, tambem exorcizo os demônios interiores e novamente aprendo a andar. A vida é assim, feita de rupturas e continuidades, de passagens, de flaneurie, de saber que nada dura para sempre, nem mesmo a chuva fria de novembro. Resgatei as raízes e agora um novo episódio do seriado me aguarda sem nenhum spoiler pela frente.
Do you remember the days We built these paper mountains And sat and watched them burn I think I found my place Can’t you feel it growing stronger Little conqueror
Esse agosto já começou a mil por hora. Achei que eu teria mais tempo para atualizar o blog e fiquei sumida por vários dias por conta de uma série de compromissos de trabalho, familiares e de saúde. Aos poucos tudo vai se resolvendo e vou retomando as postagens já que tenho uma série de coisas para postar. Nesse momento vou comentar apenas os trending topics que tem tomado conta dos meus dias.
# O II Encontro de Jornalismo Digital que ocorreu durante o dia de hoje na Escola de Design da Unisinos em Porto Alegre. Depois farei algumas considerações sobre os principais tópicos discutidos. O evento foi muito bacana.
# Além do recomeço das aulas na graduação (no dia 8/8), na quarta-feira, dia 10/8 teve início a disciplina Tópicos de Comunicação e Cultura Pop no PPG em Ciências da Comunicação, ministrada por mim e pelo colega Fabricio Silveira. A turma está lotada de alunos do programa, alunos não-regulares e inclusive alunos de outros PPGs como UFRGS, UFSM e UFG. As discussões e debates iniciais desse primeiro dia foram muito boas e nossa expectativa para a continuidade do curso são as melhores possíveis. A animação e os comentários de todos nos contagiaram.
# Também participei ativamente do grupo que produziu o novo currículo do curso de Jornalismo. Foi um trabalho intensamente colaborativo que teve início no ano passado e terminou somente nessa semana.
Oh, I want life Life wants me To breathe in its love
Andy Bell. Foto by Tadeu Vilani / Agencia RBS
# E, porque a vida não é feita apenas de trabalho na quinta-feira dia 11/8 – dia em que meu irmão mais novo completou 50 anos e em que completei um ano de volta à Poa – assisti ao emocionante show do Erasure. O show foi epicamente nostálgico e mostrou a excelente forma e alcance vocal de Andy Bell, os synths caprichados de Vince Clark e a elegância das backing vocals. Eu já tinha visto eles nos anos 90, mas dessa vez foi ainda mais legal e contagiante. Synthpop é vida, é lusho, é tudo de bom. O visual estava super eficiente, tanto nos figurinos como nos pedestais de LED dos microfones. Incrível como as letras continuam fazendo sentido (eu e meu melhor amigo Neco passavamos horas comentando as letras deles). O show foi excelente, destaque para Victims of love, Breathe of Life e Always que ganhou uma chuva de papel picado cheia de glitter e uma coreô especial pra lembrar do Robot Unicorn Attack.
# E termino com o início da semana nessa retrospectiva não-linear. Completei 36 anos na segunda-feira dia 8/8 e refleti muito sobre o significado disso e das transformações decorrentes da idade a semana toda. No entanto, duas quotes do Erasure mataram a charada. Pura auto-ajuda musical no bom sentido:
Go ahead with your dreamin’ For what it’s worth
Or you’ll be stricken-bound kickin’ up dirt For when it’s dark You never know what the night will bring
Já a segunda, dá aquela real mais do que necessária:
One rule for us, for you another
Do unto yourself as you see fit for your brother Is that not within your realm of understanding? A fifty-second capacity of mind, too demanding?
Woah, then poor unfortunate you There are a myriad of things that you can do
Like pick up a pen and paper (pick up a pen and paper)
Go and talk to a friend (go and talk to a friend)
The history of the future (history of the future) No violence or revenge
Your shame is never ending
Just one psychological drama after another You are guilty (guilty) And how you ever entered into this life
God only knows the infinite complexities of love
We all have the ability Our freedom is fragile We all laugh and we cry, don’t we? We all bleed and we smile
Dentro de alguns dias (11 de agosto para falar mais especificamente) completa um ano que voltei a morar em Porto Alegre. É estranho pensar em como tudo aconteceu. Minha vida teve mais uma daquelas guinadas radicais com direito a mudança de emprego, de cidade, de Estado. Engraçado, e até certo ponto ilusório, pensava eu que essa mudança seria muito mais fácil do que a de 2005 quando migrei para Curitiba praticamente sem lenço e sem documento sob o inverno de agosto. Achava que o retorno seria infinitamente mais fácil. Afinal, minhas raízes estavam aqui (família, amigos), minhas referências eram aqui. Tinha uma sensação de que tudo se ajeitaria muito mais tranquilamente justamente por conhecer as entranhas da cidade e boa parte da cultura local – pelo menos até certo ponto. O fato é que não foi bem assim. Não foi nem fácil, nem tranqüilo e toda a percepção que eu tinha de antes (dos anos que passei aqui) pouco me ajudaram. Uma das lições disso foi: cada mudança é sempre diferente, por mais clichê que isso soe. Até porque quando eu havia saído daqui, estava em uma determinada etapa da vida, e quando retornei tudo havia mudado e eu principalmente era outra pessoa, embora muito da essência houvesse permanecido.
Primeiro foram as dificuldades de ordem prática. Mudar a vida de duas pessoas (eu e o marido) foi como equilibrar uma pilha de copos de cristal em um restaurante lotado. Tem também o fator “destino”/”acaso” não sei como nomear, uma vez que minha família havia passado por 2 grandes perdas em 2 anos diferentes – meu irmão do meio em 2008 e meu pai no finalzinho de 2009 – e estava na iminência de uma terceira, pois cheguei aqui exatamente no dia em que minha mãe saía do hospital após uma cirurgia complicada e estava muito fraca. Daí para frente foram 3 meses de sofrimento e agonia com minha mãe cada vez mais enfraquecida e tendo de passar por hemodiálise; de viver em uma casa que não era mais minha (a casa de minha mãe) e organizar toda a vida doméstica de lá; de tentar compreender os meandros do novo trabalho, desde as rotinas mais básicas do tipo como postar uma nota no novo sistema até outras coisas mais complexas; da procura por outro lugar para morar por exemplo. Para culminar toda essa saga, no início de novembro, minha mãe falece e precisei lidar com a dolorosa perda, além de me encontrar morando sozinha na casa que era dela e de meu pai. Foi um golpe duro que devastou toda e qualquer ilusão de que temos algum tipo de controle sobre nossas vidas. Afinal, eu havia feito diversos esforços para retornar ao RS justamente para ficar mais perto da família e, sobretudo de minha mãe que ainda sofria a perda do filho e do marido e sempre me cobrava o retorno. A sensação de que “meus pés não tocavam o chão” nunca foi tão real.
Passados esses primeiros meses em que tudo parecia confuso, ainda assim as dificuldades continuaram. Embora dessa vez tenha sido bem mais fácil achar um apartamento, coisas de ordem muito mais subjetiva me atormentavam. Foi um momento de sair de cena como eu nunca havia feito, uma retirada estratégica que serviu para me mostrar visões extemporâneas e percepções dos outros sobre mim. O fato é que eu não havia percebido um pequeno e enganoso detalhe: durante o tempo em que eu não morava aqui e vinha frequentemente, eu era uma visita e não tinha a percepção de que, no fundo, estava tudo completamente diferente de antes, em especial as relações entre pessoas que eu até achava que conhecia. Ao findar de quase um ano ficou tudo claro e entendo que nada mais será como era quando eu morava aqui antes, pois a fase do game mudou, eu mudei, as pessoas mudaram. E o fato de eu estar na mesma cidade de antes não tem nenhum significado em relação a isso. Minha fala aqui não é ressentida nem nostálgica, é apenas uma constatação empírica a partir de dados e fatos.
E o que ficou desse um ano? Me sinto mais forte, perdi bastante (boa parte, não toda) a obsessão por controle em relação as acontecimentos da vida e compreendo melhor a relação passado-presente-futuro. Nessa função toda, boa parte da minha efusividade – que parecia me caracterizar – parece ter ficado dormente, mas por outro lado, uma certa dose de misantropia, que eu sempre tive, embora disfarçasse, foi resgatada. Ontem enquanto entrava na sala de exames de um hospital para fazer uma endoscopia, todos esses acontecimentos de um ano inteiro se delinearam na minha mente e, ao sair, bastante lenta e grogue por conta da medicação, uma canção se “materializou” no meu inconsciente: “At the time they cut me free/I was brimming with defiance/ Doctors looking down on me/ Breaking every law of science/ How’d I ever end up here? / A latent strain of color blindness/ Then it seemed to dawn on me/ Haemoglobin is the key”
Essa é uma das minhas músicas favoritas do Black Market Music (2000) do Placebo e a versão acústica consegue ser tão intensa quanto a original. As estrofes finais poderiam resumir bem a trajetória desse um ano por aqui. Vai ver por isso minha memória foi acionada ontem. Apesar disso tudo, estou feliz e onde eu queria estar. … E vamos para mais um ano perseverando, “cause haemoglobin is the key”.
As they drag me to my feet I was filled with incoherence Theories of conspiracy The whole world wants my disappearance I’ll go fighting nail and teeth You’ve never seen such perseverance Gonna make you scared of me Cause haemoglobin is the key
Penúltima semana do semestre, na minha mente a frase “Come Armaggedon, come” fica repetindo em looping. Para animar um pouco e resgatar as forças, um magnífico show do bom e velho Morrissey no Festival de Glastonbury, completo em HD. A dica foi do @evilfeelings e da @patignipper Enjoy it! Por que só a música salva!