No final do ano passado, o jornal Guardian publicou uma matéria chamada Growing-up for Goths comentando o atual projeto de pesquisa do sociólogo britânico Paul Hodkinson sobre o processo de envelhecimento dentro do contexto das subculturas. Hodkinson estudou o desenvolvimento das identidades dentro da cena gótica inglesa enquanto os participantes saíam da adolescência e se tornavam adultos. Alguns dos resultados da pesquisa indicam uma privatização da identidade, afinal as pessoas crescem, trabalham, tem filhos e passam a selecionar mais em quais shows/festivais/clubs irão. No entanto, dentro do caso dos góticos percebe-se que é uma subcultura na qual há uma trajetória de continuidade de pertencimento na cena. Leia-se uma vez trevoso, trevoso até o fim LOL. Em seu site, Hodkinson disse que NÃO manifestou que isso NÃO aconteceria em outras subculturas conforme está na matéria (jornalistões falhando com as subculturas desde os anos 60 rs).
Além dessa matéria, Henrique Kipper, participante ativo na cena de São Paulo, entrevistou Hodkinson para o webzine Gothic Station no qual ele trata desse tema e questiona o uso do termo subcultura juvenil como algo relacionado estritamente com a juventude.
“Resumindo, há uma pressuposição na qual a juventude constitui um período temporário de rebelião seguido por uma eventual acomodação em uma vida adulta normal. A pressuposição é que pessoas jovens são capazes de vivenciar a rebelião cultural de uma forma que os adultos, com suas responsabilidades maiores, não são. Isto dificulta como entender as coisas quando pessoas mais velhas continuam a manter uma forte conexão com as subculturas aparentemente “jovens” ou “joviais”. Essas pessoas deveriam ser vistas como se agarrando a sua juventude, como falhando em crescer ou como em negação de suas crescentes realidades adultas? Eu tendo a discordar desta interpretação como um todo. Há um elemento de juventude na participação dos mais velhos em cenas como a gótica (ainda envolve sair, beber, montar um visual e tudo mais), mas frequentemente a participação das pessoas se adapta e muda na medida em que elas envelhecem- elas encontram formas de permanecerem envolvidas que são compatíveis com suas vidas adultas. Assim, pensaria a continuidade da participação mais como um acompanhamento de formas especiais de vida adulta, e não como uma fixação na adolescência.”
Outro ponto que achei bem interessante é a questão de como à medida em que os participantes ficam mais velhos, eles moldam e adaptam os elementos visuais, acessórios e o modo de vestir – um dos marcadores semióticos mais fortes nas subculturas em geral, sobretudo no caso dos góticos – conforme as necessidades e o conforto. Ou seja, eles continuam utilizando elementos demarcadores de identidade, mas de uma forma mais “sutil” ou “amenizada”. A questão da classe social, que foi de algum modo renegada por parte dos pesquisadores inseridos no contexto pós-subcultural dos anos 90 é redimensionada, uma vez que a cultura gótica é via de regra “classe média” (acredito que o mesmo poderia ser pensado a respeito dos indies por exemplo). Acompanho há um bom tempo o trabalho do Hodkinson e achei que essa abordagem dele sobre a duração e o crescimento dos participantes de subculturas é bastante original e desmitifica preconceitos em relação à idade e ao comportamento subcultural. Acho muito preconceituoso e me irrita quando determinadas pessoas começam a tentar regular o que a pessoa pode ou não pode fazer dentro de determinada faixa etária. Ou então quando incorporam o discurso senso comum do “tenho que agir assim, afinal todos agem”.
Penso hipoteticamente que os tipos de capital subcultural, para utilizar a apropriação que Thornton (1996) fez da idéia de Bourdieu, atinge diferentes estágios conforme a idade do participante. Por um lado, à medida que envelhece ele (ou ela) adquire um status maior devido a sua experiência e conhecimento sobre a cena, mas por outro lado, o afastamento presencial de determinados eventos e uma possível falta de atualização decorrente dele pode abrir uma lacuna e dminuir esse capital acumulado. Novos subgêneros musicais aparecem, outras práticas entram em moda. A internet, nesse caso talvez atue como um mediador dessas questões por vezes acentuando disputas, por vezes complementando a participação na cena. São questões a serem pensadas e debatidas.
Vale a pena ler o artigo completo, Ageing in a spectacular ‘youth culture’: continuity, change and community amongst older goths com os resultados da pesquisa que está publicado no British Journal of Sociology de Junho de 2011. Já informo que a revista é de acesso fechado
Caso alguém tenha interesse no assunto, basta me solicitar o paper via comentários do blog.
Agradeço à Ana Lucia Araujo e ao Guilherme Corrêa pelo acesso ao artigo, uma vez que tentei a partir da base de dados a qual acesso mas ela só disponibilizava um artigo por edição desse periódico.











