Lastfm – entrevista, recomendação e práticas de social tagging

O ReadWriteWeb está publicando nos últimos três dias uma entrevista com o fundador do Last.fm, Richard Jones. A partir de sua fala e dos comentários de Travis Katz , CEO do MySpace ontem no Digital Age – onde ele falou que o centro do Myspace não é a música mas sim os perfis de nicho dos usuários- fiz algumas elocubrações em andamento sobre as especificidades das plataformas de música online, objeto de minha atual pesquisa.
São apenas considerações iniciais para uma tentativa de definição e análise desse tipo específico de plataforma ou mídia social (não percam o post da Raquel Recuero tentando definir o termo ) cuja lógica opera, em certo sentido, em um misto de micromídia e mídia de nicho (Thornton, 1996) no qual as disputas simbólicas de capital subcultural e de DIY entre os fãs (Jenkins, 2006) enquanto curadores desse acervo (Jennings, 2008) – nesse caso entre gêneros musicais – aparecem com força.

Na parte 1, ele fala sobre a competição na esfera da música online, discutindo os modelos de negócios. Destaco a questão da recomendação e da descoberta: “Recommendation and discovery is key in this space now – and we’ve been working on this for 6 years, and every day we continue to refine the process, so we’re confident that we can continue to offer a better, more personalised music experience than anyone else online“.

Hang the blessed DJ! Because the music that they constantly
play.
It says nothing to me about my life

Como tenho analisado, a recomendação aponta para o agenciamento dos gêneros musicais, remediando a crítica musical – ou indicando sua “morte” ? – através das práticas de social tagging e sua relação com os gêneros musicais (2007). Esses artefatos culturais possuem uma força simbólica dimensionada através das próprias experiências empíricas e das práticas produzidas pelas comunidades. No caso do Last.fm podemos situá-lo como folksonomia estreita (Quintarelli, 2005) uma vez que seu contexto são os gêneros e subgêneros musicais e a relação “afetiva” dos mesmos com os fãs/usuários.

Contudo, as “armadilhas subjetivas da folksonomia” que constituem o coração desse sistema de recomendação faz com que um usuário – como o que reclamou na entrevista, procure por piano e New Orleans style e encontre Elton John. Em um artigo recente que produzi junto com a colega Maria Clara Aquino, ampliamos um pouco a análise da plataforma e observamos que “tais práticas de indexação através de tags mascaradas no Last.fm podem afastar alguns usuários do site, pois dificultam a busca e a recuperação de dados sobre determinados gêneros musicais. Essa prática de esconder informação através das tags mascaradas faz com que muito conteúdo não seja encontrado no site por aqueles que desconhecem essas tags, inibindo assim sua participação na plataforma”. (Amaral & Aquino, 2008).

Essas foram algumas considerações iniciais e passíveis de discussão. Na segunda parte da entrevista, o tema foi os modelos de negócios e a disputa majors X independentes, acirradas pelo lançamento do MyspaceMusic e pelo crescimento do Imeem. Mais adiante comento sobre isso.

UPDATE:
Já saiu a parte 3 da entrevista a respeito do design e features.

Algumas referências:

AMARAL, A. 2007. Categorização dos gêneros musicais na Internet – Para uma etnografia virtual das práticas comunicacionais na plataforma social Last.FM. In: J. FREIRE FILHO, M.HERSCHMANN. (Orgs.). Novos rumos da cultura da mídia. Indústrias, produtos e audiências. Rio de Janeiro, Mauad, p. 227-242.
AMARAL, A., AQUINO, M. Práticas de folksonomia e social tagging no Last.fm. In: Anais do IHC’08, VIII Simpósio Brasileiro de Fatores Humanos em Sistemas Computacionais, a ser apresentado.
JENKINS, H. 2006. Fans, bloggers and gamers. Exploring participatory culture. NY, New York University Press.
JENNINGS, D. 2008. Fans will be the most comprehensive curators. In: Net, blogs and rock n’roll, 23/05/2008.

QUINTARELLI, E. 2005. Folksonomies: power to the people. In: ISKO Italy-UniMIB Meeting, Milan, Jun. 2005.

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