Breves reflexões sobre o mapa interativo do Last.fm

A notícia saiu primeiramente na Wired. É interessante como curiosidade, e talvez, na seqüência como ferramenta pra a compreensão do “etiquetamento social” e construção de gêneros musicais a partir de ferramentas de compartilhamento de músicas. É o mapa interativo do Last.fm, produzido pelo doutorando da Universidade de Budapest, Nepusz Tamás.

Visualização do grafo de Tamás

De acordo com o blog Remixtures, “o mapa representa graficamente as mais de quatro milhões de relações de similaridade entre os artistas que constam da base de dados da rede social. Os círculos representam os artistas, bandas e músicos que podem ser encontrados na secção de música do site. As linhas ligam os artistas com sonoridades mais próximas, em função dos hábitos musicais dos utilizadores. Cada estilo musical encontra-se sob a forma de uma cor, tendo em conta as etiquetas associadas pelos utilizadores aos artistas: o rock a vermelho, o metal a cinzento escuro, a electrónica a laranja, o hip-hop e o rap a azul, o jazz a amarelo, o reggae e o ska a violeta, a música clássica a azul ciano, o pop a verde e o country, folk e world music a castanho. O tamanho dos círculos varia consoante a popularidade dos artistas. “.

PrintScreen da maioria do meus artistas favoritos (adriamaral),
situados numa zona entre a eletrônica e o rock

O mapa foi gerado a partir da API aberta do Last.fm e permite descobrir a localização dos artistas inserindo o nome ou mesmo descobrir os artistas preferidos a partir do nome de tela do usuário do last.fm. O mapa de Tamás não possui a função zoom, no entanto, nessa versão (basta clicar na quinta categoria), isso é possível (embora perca o link que leva à página do artista no sistema).

Do colecionismo e das tags de estilos musicais

Acredito que o mapa poderia ser enriquecido se houvesse uma maior variedade de tags coletadas a partir dos usuários para categorização dos estilos musicais, contribuindo para análise dos usos e formas de colecionismo de música online através do social tagging. Essa discussão tem sido proposta por autores como Lamere (2008) e Turnbull, Barrington e Lanckriet (2008) – que discutem a questão do efeito de “bias de popularidade” seja em termos de gêneros e canções mais populares (short-head) e menos populares (cauda longa) Assim, se o mapa propusesse uma categorização que fosse além dos estilos “básicos” propostos em sua aplicação, talvez permitisse a visualização em zoom tanto das hibridizações inter-gêneros, que de certa forma surgem a partir das linhas, como das próprias relações sociais de “amizade” que se configuram no sistema a partir da constituição do gosto musical, conforme nos indicam Baym & Ledbetter (2008), possibilitada pelos próprios medidores de gosto ou de nível de “mainstreamness” – ok, isso é uma hipótese minha.

Se, o Last.fm per se, como apontam Baym & Ledbetter não leva a laços fortes – salvo se for utilizado conjuntamente com outras plataformas – que tipo de capital social e/ou subcultural ele produz? É um capital de conhecimento enciclopédico (Eco) ou cognitivo (Montardo, 2008)? Uma vez que a “identidade” nessa plataforma é constituída basicamente a partir do gosto musical, como se dá a construção de reputação já que ele e um sistema pouco conversacional e muito mais de visibilidade e colecionismo? Talvez essa reputação possa ser observada em formação nos aspectos de mídia de nicho e micromídia (Thornton, 1996) – acontecendo muito mais pela adesão e legitimação do “saber” dos “pares musicais”, uma rede de filiação como propõe a Raquel Recuero – encontrados no sistema e na questão de multiplexidade midiática (Haythornthwaite, 2005) que proporcionariam o fortalecimento dos laços.

Todavia, ainda acredito que o social tagging (Amaral & Aquino, 2008) em uma dimensão da ordem da organização das buscas e informação sobre um núcleo de estilos musicais – e as possibilidades de recomendação possam ser fatores importante nessa constituição, pois a partir desses dois elementos (taggeamento e recomendação) que podemos medir/visualizar presença e permanência na plataforma afetando assim a constituição da reputação e mesmo da autoridade (normalmente vinculado aos grupos/subculturas de cunho musical) no sistema.

Essas são apenas algumas idéias que trago para discussão aqui e que me ocorreram ao olhar o mapa pensando nos desdobramentos da minha pesquisa sobre plataformas de música.

Referências:

Amaral, A., Aquino, M.C. (2008). Práticas de folksonomia e social tagging no Last.fm. In: Anais do IHC´08, VII Simpósio Brasileiro de Fatores Humanos em Sistemas Computacionais.

Baym, N, Ledbetter, A. (2008). Tunes that Bind? Predicting Friendship Strength in a Music-Based Social Network, Aoir, 2008.

Lamere, P. (2008) Duke Listens. in: http://blogs.sun.com/plamere/

Haythornthwaite, C. (2005). Social networks and Internet connectivity effects. Information, Communication, & Society, 8 (2), 125-147.

Thornton, S. (1996). Club cultures. Music, media and subcultural capital. Connecticut: WYUPress.

Turnbull, D., Barrington, L., & Lanckriet, G.(2008) Five approaches to colleting tags for music. In: ISMIR 2008 – Session 2c – Knowledge Representation, Tags, Metadata.

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