Perfil de Cory Doctorow no Guardian

Acabo de ler um perfil que o jornal inglês Guardian fez sobre o escritor de sci-fi e ciberativista Cory Doctorow, com o subtítulo de Willing Science fiction into fact. A questão da FC /fato social inclusa ai no título é uma daquelas discussões que tem me perturbado ao longo dos anos (mais insistentemente desde o doutorado) e Doctorow novamente re-enforça o caráter presenteísta e não futurista da sci-fi sobre o qual muito debatem os teóricos do campo e ao qual os desinformados sempre me perguntam “mas FC não faz previsão de futuro? ” Argh! Jornalista que começa uma entrevista assim é porque não fez a lição de casa, ou seja, não leu e não preparou bem a pauta.

All science fiction writers, whether they admit it or not, are writing metaphorically about the present. To extrapolate the future is really to comment on the now. “

O que eu mais admiro no Doctorow é a coerência e o encaixe do seu trabalho, tanto como ficcionista de obras como “Down and Out in the Magic Kingdom“, de 2003, que fala muito do valor da reputação em um “mundo” onde a moeda são os “whuffies” e não dinheiro, (olha ai as transações econômicas dos mundos virtuais, SRS, etc); quanto como blogueiro da revista boing boing e ativista pelos direitos na rede atuando em entidades como EFF – Electronic Frontier Foundation, Participatory Culture Foundation, Open Rights Group, além é claro de disponibilizar todos os seus trabalhos online gratuitamente e ainda acolher as apropriações e “remixes” via creative commons em cima das obras produzidas por fãs como fanfics, traduções, etc. “If a book is adopted as an identity marker by a social group, it earns a secondary use that goes beyond reading to participating in the community that goes around it.

Essa divisão entre escritor/ativista ficam bem compreendida quando ele faz a distinção entre ambos “The job of a science fiction writer, historically, has been to understand how technology and social factors interact,” he says, “how technology is changing society. An activist’s job is to try to direct that change.”

Isto posto, quero saber que editora vai tomar coragem e lançar a tradução de Little Brother – seu mais recente livro para o português – afinal seria muito bom eu poder passar para os alunos que não lêem em inglês uma novela sobre vigilância e contra-vigilância, facilitaria bastante algumas aulas😉. Além disso, já fica a sugestão para qualquer evento próximo, Campus Party, ABCiber, Invisibilidades, etc, por favor, alguém traga o Cory ao Brasil pra trocar umas idéias com a gente.

[momento veneno]… obviamente doctorow que é super cult lá fora não será publicado no Brasil pela “todo-poderosa” editora Companhia das Letras, afinal segundo consta em seu site (entrem no menu em “contato’ e depois em “análise de originais” para ler o que transcrevo aqui) ela diz que não publicamos livros de auto-ajuda, gestão empresarial, marketing, esoterismo, ficção científica ou espiritualismo. Vejam bem (só fiquei sabendo disso quando fui ao Invisibilidades em outubro), para a “editora da elite intelectual do bananão”, auto-ajuda, esoterismo e ficção-científica ESTÃO exatamente no mesmo patamar e são até sinônimos. Afinal, toda a discussão que a FC mais contemporânea levanta em relação à sociedade atual e seus processos tecno-científicos-culturais não lhes interessa. Por essas e outras que o mercado editorial no Brasil, em geral, me causa náuseas. [/momento veneno]

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