Há futuro para a Ficção Científica?


Como eu disse no post de ontem, enquanto esperava pela minha conexão em Congonhas, resolvi comprar a Revista Galileu. Tudo porque na capa estava a chamada para a matéria “Há futuro para a Ficção Científica?“. De cara já achei o título um tanto quanto sensacionalista, mas tudo bem, eu guardo como material de pesquisa. Quando eu fui ler a matéria – que não está disponível na versão online – foi a decepção completa. E já dou meus motivos:

1) Não era uma matéria original, e sim uma tradução de um artigo publicado na revista New Scientist de novembro de 2008 que se chama Is science fiction dying? Eles já começaram errando o nome do cara que escreveu a matéria, que se chama Marcus Chown e na matéria consta Marcus Shown (com S). A tradução da matéria então nem se fala, parece que colocaram em algum tradutor automático de tão podre, certamente feita por alguém que não tem a menor noção do assunto porque traduzir mainstream fiction por literatura clássica e escritores de hard sci-fi por escritores de ficção “pesada“, assim mesmo entre aspas me causou uma revolta no estômago…rs. Custava o tradutor e mesmo os editores que afinal disponibilizaram a matéria irem se informar sobre a questão de gueto que envolve o gênero (para entender essa relação mainstream/FC), bem como observar que Hard Sci-Fi é um subgênero? É muita preguiça e/ou falta de preparo jornalístico para o assunto;

2) Além dessa mera transposição mal feita, que ainda conta com os depoimentos de alguns autores em boxes complementares, mas sem nenhum contexto da importância dos mesmos ou de suas obras – tirando o destaque para o texto do William Gibson, que também fazia parte do especial da New Scientist. Além disso, ainda tem uma entrevista com Keanu Reeves e o diretor do remake de “O dia em que a Terra parou” , além de uma resenha do mesmo que não dizem nada com nada e que não se concatenam com o resto. Meramente para atrair leitores interessados no filme. E ai não compreendi se a editoria da revista queria falar sobre o “futuro” da literatura de FC, do cinema ou sobre ambos (também há uma brevíssima menção aos games mas nenhuma referência a quadrinhos, etc). Nem mesmo as convenções como JediCon e os eventos específicos como Invisibilidades e Fantasticon foram mencionados;

3) Apesar de ser uma matéria gringa, eles poderiam ter aproveitado o espaço dos boxes – e/ou da resenha/entrevista – para falar com pesquisadores do tema. Simplesmente eles ignoraram que há teoria sobre o assunto inclusive no Brasil. Não consultaram um livro/artigo sequer, seja de teóricos internacionais ou mesmo nacionais, o que se reflete na tal lista dos 10 melhores filmes de FC eleita pelo que eles chamam de “especialistas”. O único “especialista” mesmo de FC que eles consultaram para a elaboração dessa lista foi o Alfredo Suppia (Anhembi-Morumbi), cuja tese de doutorado é sobre cinema de FC na América Latina e com quem inclusive escrevi um capítulo de livro que ainda está no prelo; todo o resto são físicos, cientistas – o que até acho saudável – mas pasmem Zeca Camargo e Cacá Diegues. Gente, fala sério, de onde que Zeca Camargo e Cacá Diegues são especialistas em FC? Não estou reclamando por corporativismo, mas sim porque acho absurdo ignorarem a produção acadêmica sobre o assunto em diversas áreas (em literatura, em comunicação) que tem crescido a cada ano, além de haverem outros jornalistas como o Jacques Barcia, o Silvio Alexandre e o Rodolfo S. Filho, que poderiam contribuir também;

4) Sobre a matéria em si, ela não trouxe nada de novo e as discussões que tem sido feitas nos eventos como Fantasticon e Invisibilidades foram muito mais produtivas. No entanto, vale por pelo menos “levantar a lebre” sobre o tema e também para dar uma introdução aos não-iniciados, o que certamente era um dos objetivos da revista. Contudo, poderiam ter sido citados autores mais contemporâneos e traçado um próprio panorama da história do gênero – se era para manter esse caráter didático – pois ficou tudo muito sem contextualização. Foi uma tentativa, mas falhou miseravelmente e proporcionou algumas distorções sobre o campo, uma vez que parece vincular o entendimento/gosto da FC somente a cientistas das “hard sciences” alimentando estereótipos e a erros grotescos mesmo como o caso da tradução. O jornalismo de divulgação científica pode fazer bem mais, como por exemplo o Dossiê que a revista ComCiência fez em 2004 sobre o assunto, mas para isso é preciso preparo, dedicação e melhor apuração de fontes.

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