O eterno retorno dos vampiros


Eu acho fascinante como as mitologias conseguem se reciclar e serem readaptadas e reapropriadas em diferentes contextos. O imaginário e a mitologia vampírica são elementos culturais poderosíssimos e que continuam a exercer excitação e fascínio sobre as pessoas, desde os tempos mais remotos até o século XXI. São vários os autores que apontam as raízes do mito vampírico no Ocidente e no Oriente – posso fazer uma lista deles mais adiante.

Não sei se eu já comentei por aqui, mas no final de 2001 quando estava pensando em fazer o doutorado, possuía dois projetos de pesquisa e estava indecisa de qual deles aplicar. O primeiro, que acabou se transformando na tese era sobre cultura cyberpunk e o segundo, sobre representações dos vampiros nos produtos midiáticos. Acabei optando pelo primeiro, mas sempre mantive um “pé” afundado nos mitos vampíricos em paralelo (óbvio que hoje em dia, por falta de tempo e excesso de trabalho, eu nem consigo mais dar conta de ler o que sai e de me manter atualizada, quem sabe uma hora eu retomo).

E, por uma dessas coincidências – na falta de um termo melhor – quando fiz meu sanduíche no Boston College, descobri que lá havia um grupo de pesquisa fortíssimo justamente sobre representações dos vampiros na contemporaneidade.. rs Em minhas “pesquisas de campo” inclusive travei contato com algumas pessoas da subcultura Vampírica de New York City, o que por si só mereceria um post dadas as circunstâncias engraçadas e o contexto bizarro. Mas fica para algum dia em que estiver inspirada.

Retomando o raciocínio, o que interessa é que os vampiros sempre dão um jeito de retornar, o que já lhes garante um lugar cativo nos elementos mais marcantes da cultura popular e folclórica à cultura massiva e pop. Em 2008 eles voltaram ainda mais fortes do que nos últimos anos por dois motivos: o sucesso da série de livros Crepúsculo de Stephenie Meyer. Ainda não li os livros – mas já estou com o primeiro deles aqui pra começar a ler essa semana e ir ao cinema ver a adaptação. Pelo que sei é algo mais voltado ao público pre-teen ou teen e virou um fenômeno de vendas. Depois que eu ler e ver o filme comento alguma coisa.

No entanto, o que me motivou a escrever esse post foi a maratona da 1a. temporada da série True Blood que fiz durante o final de semana, da HBO e produzida pelo ex-roteirista de Six Feet Under (que eu adorava). A série estreou nos EUA em setembro de 2008, e começa dia 18 de janeiro na HBO brasileira, de acordo com o blog fora de série. Eu andava órfã de séries sobre o assunto desde que o seriado canadense Blood Ties foi interrompido ao findar da 2a temporada. Moonlight que tb trazia um vampiro como protagonista não me animou, portanto as expectativas eram altas.

O seriado é baseado na série de livros de Charlaine Harris intitulados Southern Vampires, centrada na personagem Sookie Stackhouse, uma garçonete com poderes telepáticos e na cidade ficcional de Bon Temps na Louisiana – o sotaque sulista é um destaque na série – na qual uma série de eventos estranhos e mortes trágicas começam a acontecer a partir do momento que Sookie (Anna Paquin) se apaixona por Bill Comptom, um vampiro. Há dois anos os vampiros “saíram do armário” nacionalmente e vivem de True Blood, um sangue sintético fabricado pelos japoneses. Não vou dar spoilers da série rs, mas adorei essa primeira temporada. O ritmo começa lento com intuito de apresentar os personagens e vai se tornando alucinante, trash e cheio de cliffhangers a partir do quarto episódio. Eles conseguiram recriar uma atmosfera que junta um ar de filme B (garçonetes, “rednecks e hillbillies”, o club Fang-tasia com o povo vestido de preto e vampiros de ar rocker) com uma crítica irônica à sociedade norte-americana – a luta pelos direitos civis da “minoria” vampírica está impagável, sem contar várias tiradinhas bacanas do tipo “Angelina Jolie adota bebê vampiro“.

Bill e Sookie

Claro que, em meio a tudo isso, tem a clássica estorinha de amor e tragédia entre Sookie e o vampirão charmoso Bill, afinal a esperança de “amor eterno” é um dos mitos que perpetuam por gerações e eu como romântica torço por ele na fantasia. Os personagens secundários vão crescendo à medida que a trama vai se desencadeando.

Achei interessante também as pequenas alterações mitológicas que são apresentadas, como o fato de o sangue vampírico ser traficado como droga, um misto de viagra com ecstasy e LSD; o próprio composto TB, além dos xerifes e juízes dos vampiros apresentando as normas entre os “ninhos” e solitários. Obviamente que a questão da alteridade e da inversão de papéis identitários – agora há humanos que caçam vampiros em busca da droga – também fazem parte dos subtextos da trama.

A segunda temporada já está garantida. Pelo visto os vampiros continuarão rondando por muito tempo – isso que eu nem falei dos representantes nacionais do gênero literário como André Vianco, Giulia Moon e Martha Argel.

Para fechar, recomendo a trilha da série, abaixo com a excelente abertura, o country rock de Jace Everett, “Bad things”

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