Breves apontamentos a respeito dos estudos sobre fãs e fandom

Faz um bom tempo que desejo compartilhar alguns pensamentos acerca dos estudos sobre fãs e fandom, em especial a partir de uma análise das audiências em relação às narrativas, culturas e códigos que se formam em torno dos produtos e processos midiáticos. O campo dos fan studies é herdeiro da tradição dos estudos culturais mas também pode ser encontrado em trabalhos da área da comunicação, da história, da antropologia e, mais recentemente da cibercultura – ok, ainda há questionamentos e dúvidas se a cibercultura é um campo ou se devemos mudar a nomenclatura para estudos sobre culturas digitais, mídias digitais ou softwares sociais/ software studies (como propõe o Manovich), todavia esse seria um outro post.

Os estudos sobre fãs e fandom tiveram um início relacionando a temática a questões nitidamente de ordem psicológica – sendo esse comportamento apontado enquanto uma patologia, obsessão, etc – e lentamente foram transitando para o domínio dos estudos sobre o cotidiano, as mídias e as audiências, limpando um pouco do estigma dessa figura, o fã, cujo conhecimento e/ou saber é constituído em outras esferas que não as das instituições legitimidas pela sociedade como a escola por exemplo. O próprio Jenkins, cujo livro Convergence Culture – que foi lançado em português ano passado – tem chamado atenção de marketeiros e virou um certo hype foi um dos pioneiros nesse tipo de estudo, tendo pesquisado a fundo os fandoms de ficção-científica, como o de Star Trek. Em relação ao Brasil, parece que, aos poucos, algumas pesquisas começam a ser desenvolvidas nesse sentido e tenho visto alguns trabalhos em congressos e revistas, muitos deles com estudos de caso (fãs de Avril Lavigne, do Big Brother, cosplayers, fãs de Lost, etc) ou mesmo teorizando sobre comportamento/consumo/práticas sociais dos fãs em relação à materialidade dos eventos/artistas/produtos culturais (bastante centrado nos estudos de cenas musicais ou dos games por ex). Estou organizando uma lista que compartilharei em breve.

Nos últimos dias, dois posts em blogs de autores dessa área (Nancy Baym e Henry Jenkins) fizeram com que eu amplificasse diversas questões que venho tentando organizar sobre isso a partir de minha pesquisa sobre as plataformas de música. Primeiramente veio o post Music Fandom vs. Narrative Fandom de Nancy Baym, onde ela expôs preliminarmente algumas diferenças no consumo e no comportamento entre os fandoms de música e os fandoms de narrativas como seriados, filmes, livros etc; indicando que os primeiros tendem a uma relação maior com os aspectos informativos – info sobre turnês, álbuns, etc – e o segundo com uma apropriação criativa que inclui as fanfics, entre outros materiais. Obviamente que existem os remixes, mashups, etc que são sim apropriações criativas, mas em geral o aspecto informativo tende a sobressair e não é à toa que a maior parte das editorias de música de jornais, revistas e sites se utilizam disso até mesmo para a construção dos hypes. Vejam o caso do show do Radiohead, no qual nas últimas semanas temos tido um bombardeio de entrevistas e programas especiais na MTV, e em revistas, rádios e jornais que talvez até um tempo atrás ignorassem a banda. Ainda em relação à questão relacionamento entre fandom de música e fãs, aproveitando a cobertura do evento SXSW que rolou ao longo da semana, a Wired fez uma interessante matéria sobre como as bandas e artistas têm utilizado ou não os sites de redes sociais no relacionamento com a base de fãs e suas estratégias de visibilidade. Vale a pena conferir.

Já o post History and Fan Studies: A Conversation Between Barbara Ryan and Daniel Cavicchi (Part I) discutiu algumas questões de ordem teórico-metodológico descrevendo um diálogo entre dois pesquisadores da área da história tecendo observações de como é possível compreender os fan studies a partir de diferentes conceitos mas sendo incorporados aos estudos de micro-história, indo além da questão da documentação e trazendo de volta as vozes dos estudados. Cavicchi desconstrói a ideia de fandom como mídia, mas sim como “a degree of audiencing, a realm of marked cultural participation that is always relative to, and defined against, “normal” or unmarked cultural participation. These degrees of audiencing might manifest themselves in all sorts of ways in different historical and social contexts“. Outra importante discussão do texto trata da relação reflexiva de proximidade ou não entre o pesquisador e o objeto e discutem bastante a questão da autoetnografia, assunto polêmico que abordei em meu artigo da Compós do ano passado – Autonetnografia e inserção online – e que em breve deve ser publicado com algumas ampliações na Revista Fronteiras (Unisinos).



Depois da leitura desses textos, me peguei pensando em alguns casos. O primeiro trata da repercussão da
discussão via twitter entre Trent Reznor e Chris Cornell, onde Reznor escrachou sua opinião negativa sobre o álbum de Cornell, produzido pelo Timbaland e Cornell replicou. Rapidamente ao retwittar a informação, percebi a reação mais efusiva do fãs ou admiradores de Reznor, já bastante conhecido por seu uso de social media como ARGS, blogs, flickr, etc para se comunicar com os fãs – o que certamente repercutiu nas vendas sem intermediação do último álbum do NIN e mesmo uma grande curiosidade, inclusive de fãs de Cornell que também afirmaram não terem gostado do álbum. Temos aqui também uma questão tipicamente relacionada à autenticidade, ou seja, é aceitável Madonna ter um álbum produzido por Timbaland; porém para Cornell cuja trajetória mítica estava ligada ao rock alternativo dos anos 90 (o movimento grunge do qual fez parte com sua ex-banda Soundgarden) esse fato gera um outro tipo de expectativa. Talvez nesse exemplo, possamos observar que os fãs de música se articulam sim em torno de práticas mais ligadas à disseminação e à troca de informações e ao mesmo tempo mostre a apropriação criativa pela própria atitude de adicionar/seguir expressando sua opinião favorável ou contrária através dos sites de relacionamento e comentando em blogs, perfis, etc. Tenho mais alguns exemplos desse domínio “marcado da participação cultural das audiências”, mas comento com mais tempo em outro post, afinal pretendo voltar bastante a essa temática já que está no cerne dos trabalhos que tenho desenvolvido de 2007 em diante. Stay tuned!

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