O modelo de fansourcing do NIN

Ou Como não admirar Trent Reznor?

Na semana passada a Wired fez uma reportagem bem extensa sobre as estratégias e o modelo de “fansourcing” (fãs + crowdsourcing) e consumo do NIN, tomando como princípio o lançamento do aplicativo para o iPhone que permitirá a confluência entre todas as plataformas e distribuição de material midiático da banda com atualizações (fotos, vídeos, áudios) de fãs diretos dos shows e integração com o google maps, GPS, etc. O aplicativo também enfatizar a questão da conversação entre os fãs criando uma base de dados completa sobre o perfil do fã da banda (veja o vídeo abaixo para os detalhes) na qual eles podem localizar outros fãs dentro do sistema, em uma espécie de rede social móvel dos fãs da banda.

Reznor vinha lançando teasers sobre essas apps via twitter há um tempinho e hoje finalmente o aplicativo estará disponível para download gratuitamente é claro, como tudo que ele tem disponibilizado desde que conseguiu se libertar do contrato com a major Universal e tornou-se seu próprio mediador/agente/marketeiro ao incorporar a sólida base de fãs do NIN em suas apropriações tecnológicas.

O mais interessante disso, no meu ponto de vista enquanto pesquisadora que têm acompanhado sistematicamente essas práticas não são os aplicativos ou ferramentas em si, mas a relação entre a reconfiguração da indústria fonográfica, a experimentação criativa das ferramentas digitais e a sociabilidade entre os fãs – se utilizando de um sentimento que é muito anterior à tecnologia: os laços afetivos entre artista e a audiência devotada. Ora, para quem foi fã, como eu, em um tempo em que o único acesso possível a uma banda era através dos meios massivos, é muito interessante ver a intersecção e complementariedade entre online e offline e a clareza nas estratégias com as quais Reznor está gerenciando o capital emocional desses fãs , que segundo ele, foram deixados à deriva pelas majors e sua incapacidade de compreender a significação desses artefatos culturais. Anyone who’s an executive at a record label does not understand what the internet is, how it works, how people use it, how fans and consumers interact no idea,” he declares. “I’m surprised they know how to use e-mail. They have built a business around selling plastic discs, and nobody wants plastic discs any more. Meanwhile, the entire system that for a lucky few turned those discs into hits — rock radio, MTV, music mags, CD megastores — has crumbled, and label execs have no idea where to turn. “They’re in such a state of denial it’s impossible for them to understand what’s happening,” Reznor says. “As an artist, you are now the marketer.”

A fala de Trent está em uníssono – trocadilho infame, mas válido – com a de Amanda Palmer que recentemente declarou em uma carta aberta que gostaria de ser “demitida” do seu selo por conta deles não compreenderem o uso das mídias digitais na sua relação com os fãs. Segundo a pesquisadora Nancy Baym, Amanda tem mais de 17 mil seguidores no Twitter e escreve posts bem pessoais em seu blog, (coisa que ela já vinha fazendo há muito tempo no blog do Dresden Dolls banda da qual ela faz parte, embora nesse momento esteja trabalhando em seu disco solo que tem inclusive a participação de outro hábil mestre da relação fã-artista: Neil Gaiman). [Não coincidentemente creio eu, os DD abriram para o NIN durante uma leg da tour do álbum “With teeth” de 2005].

De acordo com Amanda ela teve que explicar aos executivos o que era o twitter: ” I had to EXPLAIN to the so-called “head of digital media” of roadrunner australia WHAT TWITTER WAS. and his brush-off that “it hasn’t caught on here yet” was ABSURD because the next day i twittered that i was doing an impromptu gathering in a public park and 12 hours later, 150 underage fans – who couldn’t attend the show – showed up to get their records signed. no manager knew! i didn’t even warn or tell her! no agents! no security! no venue! we were in a fucking public park! life is becoming awesome”.



Mas, voltando à questão do NIN, esse capital emocional dos fãs já havia sido anteriormente explorado por ele com sucesso na criação do ARG (Alternative Reality Game) de lançamento do álbum Year Zero (em 2007), produzido por Reznor, Rob Sheridan – que é um colaborador dos projetos do NIN – e a empresa 42 Enterteinment. Esse ARG virou até objeto de um paper, intitulado Is art resistance?:An entertainment-education analysis of Nine Inch Nails Year Zero online
alternate reality game
de Keith R. Okrosy apresentado em 2008 no congresso da International Communication Association. Além disso, Reznor mantém “super-fãs” trabalhando enquanto colaboradores, mediadores de comunidades e produtores de conteúdo em pontos chaves como a wiki, o site e na abertura da área de remixes, cujas bases originais e tracks são disponibilizadas online para remixagem diretamente. Até agora, a partir dessas estratégias de peering, já são 11 mil remixes disponíveis e mais de 30 mil fotos e vídeos, sem contar a base de dados que conta com 2 milhões de endereços de email gerados a partir do cadastro preenchido para o download de material. Essa base de dados, com o aplicativo indicará inclusive a localização dos fãs a partir de mapas que já vem sendo desenhados durante a última tour no qual os fãs postavam material via site, blogs e flickr. Temos um elenco de práticas comunicacionais recombinantes que certamente dão a Reznor o título de músico mais transmidiático (conforme diria Jenkins) do final dos anos 00. Acredito que cada vez mais esse tipo de iniciativa vá alterar a produção, a circulação e o consumo da música daqui para frente.

Parece que Michael Trent Reznor- que além de ser nerd, fazer música em seus “brinquedinhos da apple” e jogar videogame compulsivamente – vêm trabalhando a partir da tecnologia para atingir seus ideais de ubiquidade e pervasividade descritos na letra de “I do not want this” lá de 1994 (do álbum Downward Spiral). “I want to know everything/ I want to be everywhere/ I want to fuck everyone in the world/ I want to do something that matters“.

Para fechar a sessão NIN, o novo trailer de Terminator – Salvation (aquele mesmo em que Christian Bale teve o seu “piti” que rodou em áudio pela rede) que conta com a track “The day the world went away como trilha, mostrando que o imaginário e a narrativa distópica da sci-fi ressucitam mitologicamente de tempos em tempos.. mas esse é assunto para um outro post.

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