Prefácio de Os dias da Peste

Conforme eu já falei em um post anterior, o romance de ficção-científica de Fábio Fernandes, Os Dias da Peste já se encontra em pré-venda através do site. Como amostra grátis, a Tarja editorial liberou o meu prefácio e um trecho do primeiro capítulo, que reproduzo abaixo para quem não quiser acessar o pdf.

No future for you!
“A ficção científica não prevê: descreve” nos diz Ursula K. Le Guin. Essa frase nunca foi tão facilmente visível e aplicável quanto em Os dias da Peste de Fábio Fernandes que você leitor fetichista do papel segura em suas mãos nesse momento – quem sabe também em breve em formato digital em um Kindle ou qualquer outro dispositivo do gênero. Conheço Fábio desde o início dos anos 00 ou melhor, segundo os “critérios presenciais” de muitas pessoas, somente o conheci em 2006 quando ele veio à Curitiba e conseguimos depois de anos de trocas de mensagens, efetivamente sair dos perfis online e tomar um café. E o que isso tem a ver com esse prefácio, perguntaria um leitor mais desavisado. Ora, tudo! Porque o trabalho autoral literário de Fábio está imerso (eu sei, é um trocadilho infame!) com a persona online de Fábio na blogosfera – e em outros sites de redes sociais – com seu trabalho de pesquisador, tradutor, professor universitário, jornalista, blogueiro, twitteiro, agitador do fandom, curador de eventos de ficção científica, etc.

Fábio em sua multimidialidade pessoal/profissional observa como insider as potencialidades e apropriações empíricas “das máquinas” e ferramentas digitais como poucos e também daí talvez advenha sua imensa capacidade de descrição que torna a sua Ficção Científica tão “real” – o termo é tão abominável e árido quanto um deserto, perdoem-me por mais um trocadilho infame, Baudrillard deve estar se revirando no túmulo! – e tão próxima de um cotidiano tecnologicamente mediado, pervasivo e vigilante. Mas é na descrição acurada e não na extrapolação, como diz Le Guin que a FC, ou sci-fi (eu prefiro o termo sci-fi por conta de seus aspectos subculturais como bem nos apontou Norman Spinrad lá nos anos 90) mata a cobra e mostra pau! Deixando de lado os aspectos fálicos da frase anterior, se a scifi enquanto gênero continua viva e respirando – por meios artificiais e maquínicos diriam alguns – é devido em grande parte ao seu caráter “presencialista” e descritivo que se adapta às condições normais de temperatura e pressão do mercado literário tanto quanto às tecnologias e aos novos públicos, e não a um futuro seja ele distópico ou utópico.

Em Os dias da Peste, o autor faz sua “saída do armário” como autor de FC em grande estilo – não que o fandom inteiro já não soubesse disso há um bom tempo – no entanto, renova o gênero mostrando que não é preciso incluir índios ou elementos folclóricos para fazer uma literatura que é também mainstream – no bom sentido – e também nacional, mas é muito mais “pós-geográfica”, como diria William Gibson e se encontra em um “entre-lugar” como nos diz Homi Bhabba.
Ambientado em um Rio de Janeiro nada estereotipado e multicultural, o livro dialoga com vários nichos de espectadores e em distintas camadas de leitura, em suas temáticas tão variadas que vão do pós-humanismo às teorias da inteligência artificial com propriedade. Em suas layers photoshopadas de um momento cultural e social efervescente, a obra dialoga com seus leitores-modelos em vários níveis, com a cultura do entretenimento e com a tradição clássica da Ficção Científica – e porque não dizer também da “tradição narrativa cyberpunk”, entenda-se nessa equação: mistura de linguagem das ruas com a linguagem literária hard + conglomerados midiáticos e corporativos dominantes + anti-herói solitário em busca de uma musa geek + fusão homem-máquina + citações e referências de cultura pop + “jacking in” + sexo + underground.

Numa outra camada, estão as discussões epistemológicas e lingüísticas que dão mais consistência ao livro: a preocupação com uma sociedade vigilante e claustrofóbica, a ubiqüidade das máquinas em um cotidiano cada vez mais violento que nos persegue em cada cidade de um país de terceiro-mundo aparentemente em ascensão no panorama diplomático mundial, e as noções ainda cartesianas, tão “Die Mensch Maschine” cantadas e decantadas pelo Kraftwerk, pelo Daft Punk entre outros, tanto quanto por toda a trajetória filosófica ocidental.

Em uma outra camada, temos ainda o próprio fazer literário e o sentido de fazer “Ficção-Científica” entremeadas por uma reflexão sobre a própria validade e longevidade do gênero. Há também outras nuances de destaque, como a própria linguagem “escrita nas redes” em seus recursos quase transmidiáticos: tags, diálogos de listas de discussões, emails, podcasts; uma personagem feminina que não espera pelo “mocinho” e acaba por se tornar quase protagonista aos 45 do segundo tempo e o humor sarcástico nerd acadêmico-pop, que tem consciência de sua própria condição mas não se leva a sério demais, brincando com conceitos e com as notas de rodapé.

Se você esperava por um prefácio cheio de #spoilers, eu provavelmente te frustei. Seria relativamente fácil contar que o livro se passa num futuro bem próximo no qual a relação homem-máquina torna-se indissociável, mas aí você não poderia ter certeza se fui mesmo eu que prefaciei o livro ou se foi alguma programação em nuvem que juntou palavras-chaves clichezonas dos meus papers ou de arquivos dentro da minha máquina. Seguindo a tradição da “escola da dúvida nietzscheana” deixo os leitores com essa “pulga atrás da orelha” sobre o prefácio, mas nunca em dúvida sobre esse ser um belo romance slipstream de estréia.
Adriana Amaral a.k.a. Lady A
Em trânsito entre Curitiba-Guarulhos-Atlanta-Boston
Outubro de 2009

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