A década da materialização (e morte?) da cibercultura

Curtindo uns dias de férias antes de retomar os estudos, fiquei refletindo bastante sobre uma possível reflexão do que representam as transformações conceituais, técnicas, históricas e sociais que experimentamos em nossas relações com a cultura digital nos últimos dez anos. Tive vontade de fazer uma retrospectiva, mas me dei conta que não tenho apontamentos suficientes para dar conta desses dez anos e seria leviano falar de tanta coisa. Então vou elencar aleatoriamente alguns temas que acredito terem se destacado e que transcenderam barreiras de áreas, conteúdo, métodos, etc.. É uma visão bem pessoal. Quem sabe eu consigo, ao longo do ano, fazer um post sobre cada um deles.

Acredito que as pesquisas se diversificaram muito em enfoques, temáticas, métodos  – como pude observar tanto nos eventos internacionais quanto nos nacionais – e também em um aumento no número de pesquisadores (aqui falo especificamente sobre o contexto brasileiro, a partir do número de trabalhos apresentados em eventos, bem como de um levantamento preliminar sobre teses defendidas nos programas de pós-graduação que a Maria Clara Aquino apresentou em nossa mesa temática da ABCiber 2009). Alíás, o próprio surgimento da ABCiber dentro do campo, além do GT Comunicação e Cibercultura (ex-TICs) da Compós e do NP Cibercultura da Intercom mostra uma tentativa de redesenho de pesquisa cujas consequências devem aparecer nos próximos anos.

Apenas citei a questão quantitativa, evidente que qualitativamente algumas mudanças também ocorreram, se nos anos 90 e até a primeira metade dos 00 tivemos uma predominância teórica de prerrogativas e grandes temáticas  – simulacros, liberação do polo emissor, comunidades virtuais, cultura cyberpunk, hackers e outras subculturas, interatividade, sociabilidade, dimensão espaço-temporal, entretenimento e reconfiguração das indústrias da cultura (fonográfica, audiovisual), pós-humanismo –  observa-se a partir da segunda metade enfoques mais voltados ao micro, como em fenômenos específicos,  e a emergência de ferramentas como blogs, microblogs, games, celulares, e seus hábitos de uso e consumo (blogosfera, redes sociais, etc). Também as práticas e rotinas produtivas profissionais como o webmarketing, a publicidade online e o jornalismo digital, se mantiveram no topo dos temas.

Houve um aumento de trabalhos de viés empírico – impulsionado tanto pelo acréscimo do número de usuários que adotaram as tecnologias de comunicação quanto por uma nova geração de autores que se doutorou até a metade da década mais ou menos. Além da “virada” empírica e dos estudos aplicados, começam a surgir algumas proposições teórico-metodológicas e observa-se os fenômenos de forma mais voltada a sua lógica interna. Outra discussão que surge com mais força nessa década diz respeito à materialidade dos objetos técnicos e seus efeitos sensoriais, estéticos, etc. Por fim as discussões sobre a validade temporal e histórica do próprio termo cibercultura vem à tona através de algumas teorizações. [Essa questão foi apontada pelo trabalho do Erick Felinto em dois momentos: primeiramente no SIC da PUCRS e depois na mesa temática da ABCiber no ano passado].

Para efeito de comparação, posto aqui a tabela de conceitos sobre cibercultura desenvolvida por Jakub Macek no seu artigo Defining Cyberculture de 2005. Acredito que ela ainda pode ser retrabalhada incluindo também os aspectos distópicos (estando no mesmo registro dos utópicos) porém incluindo aspectos “materiais” logo após os epistemológicos. Enfim, foi apenas um breve insight e essa próxima década deve trazer muito mais e reconfigurar outros fenômenos dados como pré-estabelecidos.

PS: Também tenho a intenção de fazer posts de retrospectiva sobre as plataformas de música online, sobre cultura pop, música e sci-fi durante as férias. Vamos ver se vai dar tempo.

2 comentários

  1. Ceila Santos · janeiro 6, 2010

    Nossaaaaaaaaaaaaa!!! Volto aqui depois de séculos e ( de novo) vc escreve exatamente o que eu procurava. Esse seu insight valeu como aula pra mim… Obrigada, obrigada e obrigada!Não sei se ainda lembra de mim, mas falamos muito no passado quando ainda blogava como Freelancer- o profissional que rala (2005). Montei outro blog e agora registro minha caminhada pela busca do mestrado. Decidi fazê-lo, mas talvez em 2011 ou 2012… enfim, imagina o quanto seu post foi precioso (risos!!!) Bjkas e um 2010 cheio de bons encontros como esse foi pra mim.

  2. Adriana Amaral · janeiro 6, 2010

    Lembro sim Ceila, claro! Que bom que te ajudei na busca. Continue voltando. abs

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