"Talking shit": breve insight sobre Twitter, BBB, disputas simbólicas e subculturas

Qual a principal “acusação” contra as atualizações de status no Facebook ou tweets e outras atualizações personalizadas nos sites de redes sociais? A irrelevância informativa. Um debate interminável que constititui uma conversação (ou muitas vezes um mero monólogo observado e respondido por replys e comentários?) vai-e-vem sobre bobagens, trivialidades e irrelevâncias do cotidiano. É fato e, talvez seja essa a principal dificuldade dos usuários que entram inicialmente em uma rede como o Twitter ou o FB sintam, o que pode marcar o seu engajamento ou não no uso de tais ferramentas.

Mas, o que me interessa aqui é justamente a “irrelevância” das informações e conversações postadas, ou o que o antropólogo Michael Bell (1975) chamou de “talking shit“, ou seja, aquelas conversações onde um assunto é substituído pelo outro com rapidez e que caracteriza ambientes micro como bares – campo de análise do autor. Esse tipo de fala que aparece e reaparece de forma completamente aleatória e sem profundidade tece uma espécie de matriz comunicacional em fluxo que pode nos dar pistas sobre disputas simbólicas, hierarquias e comportamentos, embora elas sejam extremamente enfadonhas e chatas. Pensando é claro, a partir de um modelo/conceito de comunicação que leve em consideração seu contexto e não apenas a mera transmissão de uma informação. Tais mecanismos cotidianos, na maioria das vezes, servem como reprodução da ordem social como já nos apontavam vários autores da Escola de Palo Alto, por exemplo. Mecanismos de linguagem que carregam em si traços performativos dos atores sociais que necessitam enfatizar seu pertencimento ou não em determinados “campos de batalha”.
Tomemos como exemplo as discussões/”falas” sobre o BBB no Twitter e tais demarcações já aparecem de antemão. Tanto o Twitter quanto o BB são constituídos desse tipo de conversação (talking shit) e disputas. A primeira delas é a disputa de quem não gosta que se comente sobre o programa X quem comenta engajadamente. São feitas postagens-alertas do tipo “vou postar sobre o BBB e quem quiser dê unfollow” ou então “esse twitter é BBB free” avisando aos seus interlocutores do lado escolhido em uma espécie de exercício de normatização de condutas. No mesmo sentido o debate sobre quem estava assistindo/comentando BBB X quem estava assistindo/comentando o Globo de Ouro no domingo passado. Algumas pessoas do primeiro grupo acusavam as do segundo de estarem “posando de intelectual”, por exemplo. Toda essa disputa simbólica é travada através de códigos semânticos e simbólicos que vão sendo apreendidos cotidianamente pelos usuários mais engajados. Passam pelas criação coletiva de hashtags que podem ou não figurar nos Trending Topics (como #goldenglobe ou #bbb10), por RTs (retweets) de “atores sociais relevantes – não entrarei na discussão acerca dos critérios de relevância ou não nesse momento – no contexto twitteiro ou de blogs sobre celebridades por exemplo” e em discussões privadas (via Direct Messages), entre outros formatos.

Tais disputas, protocolos e hierarquias nos possibilitam o desenho de um complexo mapa no qual tremula ao fundo a tentativa mercadologica e publicitariamente acertada da mídia de massa em buscar ser representada pela sua audiência no contexto de uma mídia de nicho (a própria “relevância” do Twitter se dá por isso) e ao mesmo tempo inserir elementos simbólicos desse campo em um programa de alcance nacional. Essa estratégia não difere tanto assim do velho truque de “roubar” alguém que está fazendo sucesso do concorrente, com a peculiaridade de que aqui não há exatamente concorrência – como no caso das redes televisivas – mas complementariedade. Até essa submissão por parte de determinadas figuras tão esterotípicas de seus ambientes  online (“o emo do fotolog” e a “patricinha esperta deslumbrada com a web que quer ser famosa”) à mídia massiva adquire, seja enquanto imagem, seja pelo discurso de seus opositores (ou “ressentidos” como afirmam o fandom de tais perfis), um caráter de “cooptação”, conforme discutiram vários teóricos das subculturas e pós-subculturas. A cooptação, em bom português, pode ser traduzida como o momento Dado Dollabella X João Gordo: “ah você se vendeu para o sistema!”. [OBS: Eu não podia perder essa piada].

Obviamente que esse tipo de jogo acontece sempre que há essa (pre)tensão mainstream x underground que se reconfigura no sentido de que, no caso do Twitter, muito dos “atores sociais relevantes” em geral assumem uma performance extramamente ambígua em que o número de possibilidades aumenta em função de cada situação, aqui num entendimento um tanto Goffmaniano ou, no popular,  acender uma vela para cada santo.

Até a suposta divisão em “tribos” e/ou subculturas – termo que talvez seja equivocado no contexto do programa em si –  que o BBB10 “pretendia alcançar e apresentar” acaba diluída em personas e estereótipos comportamentais que normatizam e reforçam a ordem social vigente fazendo uma representação caricata e que atinge e reproduz confortavelmente a grande audiência do programa, utilizando uma função comunicacional de reforço e endereçamento do senso comum em vigor na sociedade: “apesar da internet são pessoas normais”, ou mesmo, “age assim porque é emo” (substituir por qualquer outro atributo/rótulo demarcado pela produção do programa).
Dado tais artefatos culturais (Twitter e BBB10) integrados a partir dessas conversações, mecanismos e estratégias de dissenso e convergência é preciso pensar nos possíveis empregos que são deles feitos a partir de diferentes culturas. O caso BBB10 é uma observação com uma localização nacional e que difere de exemplos ligados a outras culturas embora mantenha relações de parentesco. Nesse breve insight tentei decompor  – a partir de uma rude observação sem pretensões de legitimação científica – alguns padrões a partir de um só elemento operador, o “talking shit” sobre o programa. Muitos outros aspectos podem ainda ser descritos a partir dele. Cabe observamos com lupas mais vigorosas esse contínuo e descontínuo fluxo midiático que nos alcança cotidianamente.

12 comentários

  1. Guerreiro Cheetos · janeiro 21, 2010

    kct… que texto. Vou precisar ler mais vezes para ter certeza que entendi. Talvez eu vá atrás do Miachel Bell também, já que não o conhecia.De qualquer forma, obrigado pelo material de grande valor que você gerou e abriu para quem quiser ver.twitter.com/piuas

  2. Simone Pereira de Sá · janeiro 21, 2010

    Usar a noção de "Talking shit" é uma ótima sacada, Adriana!Bjs,S.

  3. Adriana Amaral · janeiro 21, 2010

    Guerreiro: Obrigada, foi um insight da madrugada heheSimone: Pois é, estava relendo uns textos clássicos sobre Palo Alto, etnografia e me cai essa noção me deu esse insight mas penso que pode render ainda mais. bjo

  4. Suzana Gutierrez · janeiro 21, 2010

    Oi AdriGostei muito do texto (uma ajeitadinha e vira qualis :)))Ontem, em razão de um textinho que escrevi sobre o twitter no blog, na linha da "rude observação sem pretensões de legitimação científica", andei olhando a página do BBB e vendo o uso que eles fizeram do twitter.Achei bem característica (globo) aquela forma de domesticar o aplicativo dentro do site, agregando as contribuições dos BBs e da audiência.Se a ideia foi colocar 'celebridades' twitter no BBB e transitar\mobilizar a rede via twitter, penso que eles amarraram o bico do passarinho heheheabraços!Su

  5. Suzana Gutierrez · janeiro 21, 2010

    Esqueci uma falinha :o)É sobre o carácter histórico e de memória desta conversa trivial que perpassa a rede via twitter, blogs, …Ela caracteriza o contexto de uma época e colore o pano de fundo daquilo que se tem por relevante neste contexto.bjsSuzana

  6. Adriana Amaral · janeiro 21, 2010

    Suzana: realmente esse tipo de conversação está ligada a memório e ao próprio "espírito do tempo", dá pra tirar muita coisa dela nesse sentido. Obrigada pela leitura hehe mas não sei se vou ter paciência em "academicizar" o texto pra publicá-lo numa qualis rs

  7. Camila Santana · janeiro 22, 2010

    mesmo sem academicizar para tornar qualis, ja vou começar na socialização do texto com algumas pessoas. Ficou bem legal, uma percepção científica sobre esse fenômeno mais que cotidiano do verão brasileiro, anualmente.

  8. Adriana Amaral · janeiro 22, 2010

    CAMILA: Obrigada, o mais interessante está sendo o colorido e os contornos das discussões. bjo

  9. Gigi · janeiro 23, 2010

    Interessante o conceito de "talking shit". Gostei muito da tua análise, obrigada pelos insights mais aprofundados sobre BBB e Twitter, vou refletir. =]

  10. Adriana Amaral · janeiro 23, 2010

    Giseleh: pois é, a partir daquele teu post q eu nao soube exlicar muito bem comecei a matutar algumas coisas. esse é o bom da conversação em rede hehe. bj

  11. Lia Schulz · fevereiro 9, 2010

    Adriana, muito legal teu texto e teu blog também!Foi muito bom ler uma análise mais aprofundada sobre o tema bem numa semana que eu estava com baixa tolerância para bobagens, especialmente sobre o bbb, no twitter.Obrigada pelos apontamentos instigantes!Esperamos mais insights das madrugadas.

  12. Adriana Amaral · fevereiro 10, 2010

    Lia – Valeu, obrigada pelo comentário.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s