Metagêneros: a literatura pop de Irvine Welsh descrevendo a Ficção Científica

Li  na semana passada “Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar” mais recente lançamento em português – a obra foi originalmente lançada em 2007 – do escritor escocês Irvine Welsh (que publicou Trainspotting em 1993). O livro é composto por quatro contos, que eu chamaria de short stories, mas enfim, e de uma novela. Respectivamente são eles: “Cascavéis“, “Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar“, “Cães de Lincoln Park“, “Miss Arizona” e “Reino de Fife“. Assim como Hornby, Welsh também poderia ser “enquadrado” como autor de literatura pop ou “literatura de entretenimento”. Esses rótulos são bastante questionáveis e em alguns momentos pejorativos, talvez os colocando em um ponto distinto do que é considerado “literatura mainstream ou canônica”, embora pop e entretenimento sejam apenas a superfície. Se a obsessão de Hornby são os kidults obcecados pela cultura pop, Welsh retira seu material dos junkies, bêbados e nada-especiais. Em comum, ambos autores se interessam por aquilo que a sociedade define como “loosers”. Gostei bastante da diversidade dos temas e contos, desde o grupo junkie em Cascavéis às patricinhas anoréxicas e vazias de Lincoln Park, passando pelo horror psicológico de Miss Arizona aos beberrões escoceses de Fife. O tom sarcástico das descrições e o vazio do diálogonos dá noção exata dos sofrimentos em silêncio de cada personagem. Bem, mas meu objetivo não é exatamente resenhar o livro, apenas destacar um trecho em que o personagem principal do conto que dá título ao livro fala sobre ficção científica ao ver sua filha adolescente lendo PKD. Achei esse trecho -uma boa referência tanto para a compreensão da obra de Welsh que, de certa forma, também poderia ser comparada à FC no sentido de que não é canônica. Além disso, há também uma possível explicação (ou referência) sobre o fascínio e espécie de desencanto com a literatura de FC por parte de alguns – que traz á tona uma velha questão de gênero (homens x mulheres – imaginação X hormônios). É ainda mais irônico que seja Emily – a filha do protagonista – que esteja lendo FC.

Ela fala isso olhando para Em, que agora está lendo seu livro, um livro de Philip K. Dick. Engraçado, eu sempre gostei de ficção científica quando tinha a idade dela. Arthir C. Clarke, Brian Aldiss: “The failed man”. Esses eram uns caras magricelas que passavam anos enterrados  nos campos. Tipos inteligentes, semelhantes a lagartos com cabeças grandes, mas que simplesmente haviam desistido. Não queriam mais ser sacaneados. Então se enterravam na terra aos milhões e hibernavam, até que aparecia um puto e passava o arado ali. Mas eles continuavam enterrados no solo, sem dar a mínima. Aquilo me assustou pra caralho quando criança. Porque é preciso ter disposição. Sim, havia um bando deles, feito Harry Harrisson, que escrevia sobre Marte, e Isaac Asimov, o sujeito dos robôs. E aquele cara que escreveu sobre as plantas que dominavam o mundo. É, ficção científica: eu era louco pelo troço. Depois parei. Nem sei porquê. Bom, acho que foram as mulheres; numa competição entre a imaginação e os hormônios, só podia haver um vencedor.” (Welsh, 2010. p.80)

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