"You and I… that’s alright … We’re the same soul"

Bono escreveu “Sometimes you can’t make it on your own” em uma tentativa de exorcizar a conturbada relação que ele tivera com seu pai (principalmente por ele ter escolhido a música como carreira). O “acerto de contas” e o apaziguamento só vieram com a doença que levou Bob Hewson. Para mim essa é a melhor canção do How to dismantle an atomic bomb e tenho cá os meus motivos pessoais para postá-la nesse dia.

Há exatamente 6 meses, meu pai faleceu de uma doença igualmente devastadora (não era câncer como o pai de Bono, mas eram complicações de outras doenças) . Ainda não consegui processar tudo, 6 meses é muito em termos de saudade e ainda  pouco para o distanciamento. Assim como Bono, também tive uma relação conturbada com meu pai. Igualmente leoninos, teimosos, debochados e polêmicos, raramente baixávamos nossas bandeiras para trégua. A discussão ia até o “fim do mundo”. Só terminava quando alguém decidia rever algum filme do Indiana Jones ou de Ficção-Científica. E ai éramos os melhores amigos do mundo, rindo e comentando todas as “pilhadas” e exageros dos efeitos especiais.

Meu pai foi um proto-nerd em sua juventude nos anos 40/50, estilo pai do Marty McFly do De volta para o Futuro. Os relatos hilários de minha mãe contando que ele lia quadrinhos do Superman caminhando na rua – e por muito pouco não era atropelado – sempre me voltam à mente quando me pego teorizando internamente ao caminhar pelas ruas e não enxergo colegas pelos corredores porque estou imersa em “meu mundo”. Além de fã de HQs (com meu pai aprendi que a Marvel e a DC poderiam ser tão pedagógicas quanto qualquer obra de “alta literatura”), do cinema de aventura e FC e da literatura policial foi durante um tempo um adepto da boemia – que na minha visão hoje é o mais próximo que a juventude brasileira teve de uma espécie de “subcultura” nos anos 50 (antes da entrada do rock n´roll). Passada essa fase, nunca em minha vida vi meu pai deitar antes da 01h da madrugada. Ele sempre foi um noctívago, como eu, que adorava a noite para ler, ver filmes, etc. Hoje entendo que o fato de sermos tão parecidos era boa parte da causa de nossas brigas, que foram finalmente esquecidas nos últimos dois anos. Só me dei conta que meu pai não estava bem quando ele começou a dormir cedo e não lia mais sua coleção de Perry Rhodan e Sherlock Holmes ou sequer via filmes.

Mas falemos de coisas boas e do legado. Bob Hewson era um fã de opera, e teve um filho cantor que entretém as massas e que não conseguiu se desvencilhar da música, conforme Bono nos explica nos versos: “You’re the reason I sing/ You´re the reason why the opera is in me“. Da minha parte, vejo a herança de meu pai em um de seus ensinamentos cotidianos mais profundos, em “não ser cordeiro, não ser ovelha, ser você mesmo e pensar por si próprio, mesmo que isso desagrade todo o resto das pessoas”. Meu pai adorava uma polêmica, gostava de discutir sobre assuntos prosaicos e “ser do contra”, ou melhor, manter a “independência do pensamento”, como ele dizia. Lembro do choque que ele causou em uma vizinha que achava um absurdo ele permitir que eu, bem pequena assistisse filmes de terror na TV (leia-se Freddy Krueger e Jason). Ele sempre disse: “não há problema, ela sabe a diferença entre “realidade e ficção”. E olha, ele nem sabia nada sobre o “rebanho nietzscheano”, sobre a interpretação do receptor, nada disso, mas sempre frisou que eu deveria ser eu mesma e não seguir os outros já que eu possuía condições de julgamento.. Acho que isso deve ter sido das únicas coisas que consegui gerenciar relativamente bem.

Mas enfim, o texto já extrapolou o limite que eu gostaria (tanto de caracteres quanto de exposição), pois as palavras de Bono junto à melodia de Edge ainda são superiores a qualquer coisa que eu possa vir a escrever sobre o assunto. E transcodificam meus sentimentos nesse dia, pois se algumas vezes você não supera “the best you can do is to fake it“.

Tough, you think you’ve got the stuff
You’re telling me and anyone
You’re hard enough

You don’t have to put up a fight
You don’t have to always be right
Let me take some of the punches
For you tonight

Listen to me now
I need to let you know
You don’t have to go it alone

And it’s you when I look in the mirror
And it’s you when I don’t pick up the phone
Sometimes you can’t make it on your own

We fight all the time
You and I… that’s alright
We’re the same soul
I don’t need… I don’t need to hear you say
That if we weren’t so alike
You’d like me a whole lot more

Listen to me now
I need to let you know
You don’t have to go it alone

And it’s you when I look in the mirror
And it’s you when I don’t pick up the phone
Sometimes you can’t make it on your own

I know that we don’t talk
I’m sick of it all
Can you hear me when I Sing,
you’re the reason I sing
You’re the reason why the opera is in me

Where are we now?
I’ve got to let you know
A house still doesn’t make a home
Don’t leave me here alone

And it’s you when I look in the mirror
And it’s you that makes it hard to let go
Sometimes you can’t make it on your own
Sometimes you can’t make it
The best you can do is to fake it
Sometimes you can’t make it on your own

2 comentários

  1. aline naomi · junho 19, 2010

    :)[*no words*]

  2. Cris S. · junho 28, 2010

    Adri, achei lindo o que você escreveu e me identifiquei muito. Concordo c/ você (via Bono) que tem momentos que não adianta, o melhor a fazer é simplesmente "fake it".bjs

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