Tudo sobre minha mãe

“sometimes I wish that I could freeze the picture /
and save it from the funny tricks of time”


Depois de cinco meses,  finalmente tomei coragem e fui organizar a caixa de fotografias que peguei da casa da minha mãe logo após o falecimento dela. Todo dia que eu entrava no meu escritório olhava para a caixa na estante, lembrava do conteúdo, lembrava de todo o sofrimento e deixava para o próximo final de semana. Não que eu estivesse me negando a qualquer coisa – muito menos os estágios do luto –  eu simplesmente não conseguia erguer meu braço e pegar a tal caixa, pois fazer isso requereria muito mais do que eu conseguiria fazer. Significaria também enfrentar o fato de que nada vai preencher o vazio deixado por aqueles que se foram e que nenhum daqueles momentos pode retornar. Mas também seria enfrentar que muito do que sou se deve ao conjunto de afetos e pessoas que passaram pela minha vida e pelos  lugares por onde andei. Essas fotos que meus pais foram acumulando e guardando por anos a fio, mesmo depois que todos nós já havíamos partido de casa ganharam agora outras interpretações, à medida em que tomei coragem e comprei uma nova impressora/scanner (a minha havia estragado há tempos e não havia mais conserto,  e eu me apegava nesse fato também para não encarar o que eu precisava fazer).

Impressionante como uma “nova tecnologia” pode nos conectar a uma técnica anterior. As cores esmaecidas, as roupas e cabelos datados, os sorrisos, os abraços e os olhares iam compondo os signos que eu experimentara material e sensivelmente a vida inteira; por vezes rejeitando-os nos anos de rebeldia adolescente, por vezes os compreendendo, quando a mudança de cidade e a virada dos 30 reconfigurou minha vida. Instantaneamente fui compondo legendas que só eu compreenderia e que ancoravam um repertório de vivências impossível de ser explicado se não fossem por aquelas imagens que continham universos complexos e mundos que agora soavam como alternativos. A digitalização permite uma espécie de “curadoria” post-mortem que não é triste ou deprimente. Pelo contrário, apesar das lágrimas e da saudade, ela permite que eu selecione e compartilhe momentos importantes, alegres, tristes, belos, triviais com pessoas que ora estavam lá sendo participantes ora outras tantas que só conhecem as narrativas através das palavras. E, como sabemos, nem sempre as palavras e as coisas andam juntas.

the feeling that I’m losing her forever/
and without really entering her world

Mas comecei a escrever esse post porque eu queria falar sobre minha mãe, ou como no meu título intertextual eu gostaria de poder juntar todas as palavras e imagens sobre ela em um único texto/plataforma. Tarefa impossível, mas que me levou a algumas percepções. Através do meu olhar distanciado e do olhar dos outros, pude me reconhecer nela cada vez mais. E fui também observando de que forma a presença dela aparece em indeléveis características de cada um de nós. Durante anos sempre me identifiquei muito mais com meu pai – a sociabilidade fácil, o jeito polêmico de ser  do contra e de debater as ideias e o gosto pelo suspense/scifi. Mas, nos últimos tempos comecei a perceber o quanto a presença da minha mãe e as características dela também estão em mim: a pressa em fazer tudo para “ontem”, a tentativa de  sempre ajudar as pessoas  (o que muitas vezes gerou e gera decepções profundas), o “multitarefismo”constante (a proeza de fazer tudo ao mesmo tempo agora) e a animação, gosto por novidades e positividade, que constratava com o jeito um tanto soturno e melancólico de meu pai (acho que fico num ponto entre ambos).

A tentativa de abraçar o mundo, seja pelas tarefas ou por tentar ajudar aos outros somada à obstinação em conseguir algo para já e ao gosto pelas comemorações e festas acabou se introjetando em mim, tanto quanto posso percebê-los nas minhas sobrinhas.

É, todas as mulheres do #amaralteam , de alguma forma devem isso a ela. Gostamos de roupas, gostamos de makeup, de mudar/pintar o cabelo, gostamos de dançar e de celebrar a vida, mas também trabalhamos duro, somos teimosas e não abaixamos a cabeça tão fácil. O que não nos tira uma certa generosidade por vezes até ingênua que gera comoção e identificação ao ver “o outro” em uma situação de necessidade. Nem sempre isso funciona como deveria, mas ao menos tentamos.

O fato é que minha mãe sempre esteve “lá”por todos nós, naqueles pequenos que são os que realmente importam, quando alguém precisava de um curativo ou um abraço; quando alguém queria levar um amigo ou colega para o almoço; quando precisávamos escrever as monografias de conclusão de curso; quando voltávamos de alguma viagem e ela fazia questão de arrastar meu pai até o aeroporto para nos recepcionar; quando se queria tomar café com leite e bolacha pouco tempo após o almoço; quando precisávamos que alguém apartasse alguma discussão acirrada; quando queríamos um chimarrão de manhã ou bolinho de chuva num dia nublado em que não houvesse aulas no colégio ou mesmo quando ela mandava eu abaixar o som para não incomodar os vizinhos. Não dá para esquecer que ela quase quebrou a perna para não deixar a Bruna sozinha em um dia em que a babá faltou e minha cunhada precisava trabalhar; ou quando ela conversava madrugadas com o Xandre e a Fernanda enquanto a outra vó deles estava no hospital muito doente e eu estava mais preocupada em viajar para SP porque o U2 estava no Brasil (minha mãe sabia reconhecer o vocal do Bono em qualquer circustância de tantos vídeos e discos que ouviu para me acompanhar). Ou quando ela levava o Diego para tomar umas injeções por conta de um tratamento e voltava para casa quase chorando porque não gostava de ver um bebezinho tão pequeno e sensível sentindo dor.

… E em questão de algumas horas, o que eu tanto evitei, rever o conteúdo da a caixa se mostrou uma pequena jornada de lembranças e memórias que me fez sorrir e chorar as vezes ambos ao mesmo tempo. Para além da metáfora da abertura da caixa como encerramento do meu período de luto, sinto que precisava fazer essa singela homenagem a ela, já que de certa forma invertemos nossos papéis no final do ano passado, quando eu retornei para casa (Porto Alegre) para estar mais perto de todos e cuidar dela em seus últimos dias. Agora eu me transformei naquela tia que vai almoçar com os sobrinhos, que escuta pacientemente as reclamações sobre o trabalho, a vida e tudo mais; não consigo ser tão presente nem tãoo perfeccionista (não sou virginiana com ela) mas tento, e a cada tentativa sei que o legado dela continua e assim não sinto que tudo escorreu pelos meus dedos.

Sleep in our eyes, her and me at the breakfast table
barely awake I let precious time go by
then when she’s gone, there’s that odd melancholyc feeling
and a sense of guilt I can’t deny
what happened to the wonderful adventures
the places I had planned for us to go
well, some of that we did, but most we didn’t
and why, I just don’t know

7 comentários

  1. marcia · abril 10, 2011

    sem palavras.
    só aquele nozinho (que também é conexão).

    • Adriamaral · abril 11, 2011

      😉 obrigada

  2. aline naomi · abril 11, 2011

    Que post lindo!🙂

  3. Lutti · abril 11, 2011

    Adri, tua mãe foi uma das pessoas mais generosas que eu já tive o prazer de conhecer. Generosa com as pessoas, com as idéias, com a modernidade. E como não ver um tanto disso em ti?
    Um beijo enorme.

    • Adriamaral · abril 11, 2011

      Realmente Lutti, acho que a generosidade da minha mãe não tinha parâmetros, assim como o gosto dela pelo novo. Nesse ponto temos uma conexão inquebrável. bjo e sds

  4. Cris S. · maio 8, 2011

    Que homenagem linda para a tua mama, Adri! Fiquei emocionada, mas ao mesmo tempo feliz por ver que você tá conseguindo articular o luto e recuperar/reconhecer a tua mãe dentro de você.

    beijo

    • Adriamaral · maio 9, 2011

      Pois é Cris, acho que isso faz parte do processo não é mesmo? bjo e sds

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s