Expandindo a sala de aula

Faz alguns dias que tenho refletido sobre a relação entre as dinâmicas de aula/pesquisa e as tecnologias de comunicação uma vez que diretamente tenho percebido alguns movimentos, ações e reações em relação a isso sobretudo na minha Time Line do Twitter, nas discussões do Facebook e até aqui no blog, sem contar na própria sala de aula. Ou seja a contiguidade online/offline se apresenta sob fluxos e contribui (para o bem ou para o mal) para uma expansão da “sala de aula”como local de aprendizado. Ou melhor de uma outra utilização para a experiência de sala de aula. Não, não pretendo escrever um artigo sobre isso, são apenas reflexões com base em observações empíricas e em experiências do cotidiano com alunos universitários. Assim, cito abaixo alguns casos nos quais participei recentemente direta ou indiretamente.

1) Há umas três semanas por exemplo na minha aula do PPGCC (com mestrandos e doutorandos) estávamos discutindo um artigo de duas autoras a quem sigo. Comecei então a tuitar a apresentação do seminário da minha aluna e, uma das autoras do referido artigo, que estava online naquela hora começou a trocar informações ora respondendo perguntas, ora enviando links e referências bibliográficas ora tecendo comentários de ordem afetiva. Tanto através do meu perfil como de alunos que me seguem a conversação virou um diálogo produtivo que atraiu a participação de outros alunos (até mesmo da graduação) que liam a timeline e comentaram enquanto a aula acontecia e até mesmo depois, nos corredores;

2) Uma semana depois, mudei meu papel, e, sem saber comecei a interagir com um colega do PPG em Linguística  da Universidade Federal do Ceará que estava tuitando as discussões da aula dele no doutorado a respeito de um dos capítulos do livro “Métodos de Pesquisa para Internet” escrito por mim, Raquel Recuero e Suely Fragoso. Ou seja, exatamente a mesma dinâmica da semana anterior, mas dessa vez era eu quem estava inferindo e sendo carinhosamente arguida a respeita do meu trabalho de pesquisa. Uma inversão que me permitiu dialogar com colegas de outra área e ao qual foram sendo incorporados outros colegas que iam retuitando e comentando observações. Transdisciplinariedade na prática.

3) Esse não é um exemplo pontual, mas sim algo que tenho percebido ao longo dos semestres. O que é comentado em sala e o que é comentado nos SRS a respeito dos temas estudados (jornalismo digital, cibercultura, etc) também reflete as posições e  em relação a outros temas – como política, programas de TV, música, etc. Todo o entorno e o conteúdo dos perfis (de alunos e professores) acaba fazendo parte da aula ora em momentos mais descontraídos ora nos debates e seminários das aulas. Ou seja, tudo é meio que levado em consideração. Tenho achado esse fato cada vez mais interessante, uma vez que por exemplo um acontecimento midiático como o “casamento real ” gerou discussões sobre imaginário, contos de fadas e tecnologia numa aula da graduação. Cibercultura em toda sua potencialidade conversacional.

4) E, no último exemplo pontual da semana, na quinta-feira fiz aquele post aqui no blog sobre “estudos de Morrissey” um pouco em tom bem humorado, mas falando que eu realmente penso que seria uma ideia interessante (poderiam ser outros embora esse tenha sido um exemplo relevante). Recebi um comentário da Renata Spinola (a quem eu não conhecia nem pessoalmente nem online), doutoranda em Literatura da UFBA que me levou ao seu blog recém-criado, Morrissey is on my side , que compartilha os bastidores da sua tese de doutorado sobre a obra de Morrissey. Twittei sobre isso hoje comentando esse exemplo como uma forma de compartilhamento de resultados de pesquisa e, mais do que isso, de superação das dificuldades de se pesquisar um objeto/tema pouco estudado no Brasil e também como forma de sociabilidade e formação de parcerias entre pesquisadores de temáticas afins.

E o que esses casos podem nos indicar?

Não tenho nenhuma pretensão de respostas, mas vou seguir tentando. Estamos vivenciando um momento singular em relação aos processos de aprendizagem a partir da apropriação dos artefatos tecnológicos e midiáticos. Não são necessariamente melhores ou piores, mas é fato que a sala de aula não é o suficiente, ou melhor, precisamos pensar que ela também se expande em plataformas, não deixando de lado aspectos subjetivos de identificação. Pensar nessas dinâmicas de aula e experimentá-las (que nem sempre darão certo) dá trabalho – por vezes parecendo interminável – cansa, gera ansiedade e problemas, mas também traz resultados únicos e inesperados para a troca de informações e a construção do conhecimento, muito além da ementa, dos conteúdos programáticos e de todos aqueles termos pedagógicos aos quais nos acostumamos em nossas zonas de conforto e anos de estrada. Cada vez mais entendo meu trabalho como de mapeadora e curadora de temáticas e discussões nas aulas.

Para finalizar, duas dicas para esse domingo cinzento.

# O excelente post What Are Digital Literacies? Let’s Ask the Students sobre “letramento digital”do blog dos pesquisadores  do DML Central  – Digital Media and Learning.

# O segundo, um video sobre hipertexto em stop motion, produzido por três alunos meus na disciplina de Jornalismo Online I na graduação. O exercício consistia em explicar o conceito de hipertexto utilizando as linguagens com as quais eles se identificassem mais:

2 comentários

  1. Renata Spinola · maio 1, 2011

    Adriana, você não imagina como os seus trabalhos me ajudaram quando comecei a construir este projeto! Quando postei um comentário em seu blog, nem imaginava que você era A Adriana Amaral dos artigos sobre o U2 que tanto me inspiraram! Quero muito conversar e trocar experiências! Será de grande valor para mim essa interlocução! Um beijo e obrigada!

    • Adriamaral · maio 1, 2011

      Renata – Só posso agradecer a leitura e me colocar à disposição para a troca de ideias. Nem sempre o tempo que temos é proporcional ao que podemos efetivamente fazer hehe mas é isso ai vou acompanhar teu trabalho e na medida do possível vamos trocando ideias. beijo

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