Antifãs e as disputas simbólicas nas redes

Essa semana a Revista Época publicou uma matéria sobre antifãs e suas mobilizações online e offline. Intitulada “Quando o barato é odiar“, a matéria trouxe como foco a organizações dos antifãs de bandas ou artistas (a maioria dos artistas citados tem público-alvo adolescente como Justin Bieber e Restart por exemplo) nos sites de redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter. O enfoque da matéria foi mostrar o velho senso comum do “falem mal, mas falem de mim” como uma espécie de aliado na divulgação dos artistas. Entretanto, faltou mostrar o lado negativo que esse tipo de buzz gera, como por exemplo a estigmatização dos artistas dentro de um determinado gênero e a forma de lidar com essa mobilização específica.

Os estudos sobre fãs vem acontecendo no âmbito acadêmico com mais ênfase desde os anos 70, principalmente a partir da abordagem dos estudos culturais e da mídia comparada. Esse tipo de grupo organizado em torno de um determinado produto cultural midiático está engajado em práticas de formação de identidade e discussão e crítica em torno dos textos (entendidos aqui como músicas, filmes, séries, etc). Assim, a partir do momento que existe um grupo que se organiza em torno da afeição em relação a um determinado objeto de “culto”, existirão disputas e antagonistas. A questão dos antifãs é muito mais comportamental, estética e cultural do que tecnológica, embora é claro, os sites de redes sociais possibilitem uma maior pulverização e visibilidade desses fluxos interacionais.

Jon Bon Jovi X Kurt Cobain (hair metal X grunge)

Em tempos pré-internet, essas rixas se davam muito mais nas ruas, nos shows e também nos fanzines ou cartas de leitores das revistas de música. Na genealogia dos estilos subculturais as guerras simbólicas (e outras físicas de fato) estão incorporadas como características desde os seus primórdios. E toda a  literatura sobre o tema resgata por exemplo os classicos confrontos Mods X Rockers em Londres. No âmbito regional, a rixa fãs de Engenheiros do Hawaii X fãs de Nenhum de Nós nos anos 80 mobilizou jovens porto-alegrenses. Outro clássico, mas nos anos 90 foram as brigas entre integrantes de duas cenas musicais: Poseurs X Grunges. Essa briga até hj mobiliza discussões acerca da morte do “hair metal”, por exemplo e volta e meia dá as caras na imprensa especializada e nos foruns da rede. Atualmente muitas disputas se dão em torno das divas pop como Britney X Gaga por exemplo, além da adjetivação pejorativa do termo “coxinha” ao indie rock bom moço de bandas como Coldplay por exemplo. Esse tipo de disputa dá sentido à construção da “ontologia do fã” e de sua identidade.

A imprensa musical britânica sempre foi “mestre” em manipular essas manifestações e em contrapor fandoms de diferentes bandas desde o tempo de Beatles contra Stones até a briga entre os college boys do Blur e os desbocados fanfarrões do Oasis nos tempos em que o britpop viveu seu auge. A polarização entre duas bandas inglesas nas paradas e na crítica musical a cada semana gerava buzz e mantinha fãs e antifãs consumindo, debatendo e interpretando as capas de revista enquanto bebiam muitas pints of beer nos pubs ingleses.

Maggie’s Dream, banda de Robbie Rosa e o estigma ex-boyband

No quesito estigma, podemos apontar muitos exemplos, dentre eles o ex-Menudo Robby Rosa que ao deixar o grupo tentou uma carreira na cena hard rock e foi rechaçado com veemência. Jamais esquecerei da tentativa da banda dele Maggie’s Dream ao abrir para o Faith No More em Porto Alegre em 1991. Ele cantava de costas para o palco enquanto o público tocava latinhas e copos plásticos. Outros, como Marl Wahlberg (ex-teen idol Marky Mark) conseguem superar e reconstruir uma outra identidade  e assim afastar a movimentação dos antifãs. No caso de Wahlberg, que ficou sendo respeitado como ator de filmes sérios como Boogie Nights, ele precisou mudar de área, da música para o cinema. Mesmo assim, nos créditos do filme Rockstar, a produção “tira o maior sarro” de seu passado como teen idol.

Fãs e antifãs são faces da mesma moeda, o que significa que embora os antifãs pareçam também ajudar a gerar buzz e a citar o nome do artista, seu poder simbólico pode ser tão forte quanto o dos fãs e trazer sérios danos à marca do artista, então não podemos subestimá-los de forma tão leviana.

Em relação à maneira de lidar com os antifãs, não há uma receita pronta a ser seguida. É muito mais difícil conter a expressão de sentimentos transmutados em garrafadas dos headbangers em Carlinhos Brown em um festival uns anos atrás do que colocar Galvão Bueno para rir do Cala Boca Galvão nos Trending Topics em rede nacional. Tenho uma hipótese de que a questão dos antifãs está muito relacionada a algo palpável materialmente que se apresenta de forma corpórea, a uma estética fisiológica nietzscheana que pode incomodar tanto os sentidos a ponto de fazer alguém expressar esse repudio de forma verbal, escrita, etc.  Como já descreveu Wisnik (1999) em O som e o sentido:

A música não nomeia coisas visíveis como a linguagem verbal faz, mas aponta para uma força toda sua para o não verbalizável; atravessa certas redes defensivas que a consciência e a linguagem cristalizada opõem a sua ação e toca em pontos de ligação efetivos do mental e do corporal, do intelectual e do afetivo. Por isso mesmo é capaz de provocar as mais apaixonadas adesões e as mais violentas recusas”

Como fui fonte dessa matéria, decidi postar aqui no blog as respostas completas às perguntas que o jornalista Danilo Venticinque me fez (já que o online possui a vantagem do espaço sobre o impresso) para aprofundar um pouco o debate.

Época: O que uma pessoa precisa fazer para deixar de ser simplesmente alguém que não gosta de determinado artista e passar a ser considerada um antifã?

Adriana: Há uma diferença entre não-fã e antifã. É uma questão de construção de identidade que se dá através de lutas/disputas no domínio discursivo ao nível do engajamento com as informações e as possíveis interpretações através dos quais se articulam os produtos midiáticos, os produtores e os fãs. O não-fã simplesmente não gosta ou não liga o suficente para um determinado artista, filme, etc. Assim sua identidade se dá pela exclusão. Já o anti-fã se determina pela relação de “gosto” ou de localização de incoerências no discurso dos fãs. O anti-fã de certa forma também é um fã, afinal o antifã se engaja com o produto de forma bastante parecida com o fã, mas não pelo afeto e sim pela crítica (ou xingamento). O engajamento é de olhar, anotar, observar, avaliar, classificar, interpretar com o mesmo afinco do fã, apenas para demonstrar o quanto determinado produto/artista é ruim ou não presta. O anti-fã demonstra o seu “não-gostar” para caracterizar o não-pertencimento a um determinado grupo, tribo, etc. É uma forma simbólica de “empoderamento” através do discurso,  ao dizer “eu detesto X”, eu me demarco, demonstro minha identidade em oposição ao outro. Por exemplo, se alguém afirma odiar Lady Gaga e ocupa parte do seu tempo xingando ou criticando a cantora ou seus fãs pela internet, esse engajamento representa  uma vontade de se desvincular daquele grupo e se mostrar pertencente a um outro grupo, que pode se considerar mais “refinado”em seu gosto, por exemplo. Ou pode até ser uma questão de demarcação geracional.

Época: Quando os antifãs começaram a adquirir o peso que têm hoje? Na sua opinião, por que eles ganharam tanto espaço?

Adriana: Fãs e antifãs sempre existiram, onde existe um, existe o outro. Basta ver o exemplo dos esportes, no Brasil, o caso do futebol é sintomático. Discussões através de cartas em fanzines, em lojas de discos, shows, partidas nos estádios, entre outros locais sempre aconteceram. A diferença é que a partir da popularização da internet, ambos os grupos ganharam maior visibilidade e a possibilidade do arquivamento e rastreamento dessas discussões. As dinâmicas das redes digitais amplificam e potencializam esse tipo de engajamento e mobilização.

Época: Artistas que têm um grande número de antifãs (Rebecca Black, Justin Bieber, Restart, A banda mais bonita da cidade) podem se beneficiar do buzz gerado por eles? Ou o antifã atrapalha mais do que ajuda?

Acredito, a partir das pesquisas que vêm sendo realizadas, que existam relações de poder em constante fluxo. A proporção de fãs e antifãs se auto-organiza à medida que essas discussões e o buzz vão se perpetuando nas redes, no boca a boca e até mesmo na imprensa e na mídia massiva. Acredito que os antifãs são uma parte importante nas relações de sociabilidade e que podem inclusive mobilizar ainda mais a união dos fãs. Ou seja, se por um lado os antifãs fazem um “barulho” negativo e podem afetar a reputação dos artistas, por outro lado, eles estimulam a capacidade de organização dos fãs. É uma disputa simbólica de cabo de guera, em que o que está em questão são os “saberes” e os afetos.  Há um outro fator importante para saber se os antifãs atrapalham ou ajudam ‘e o quem está se posicionando em qual lado. O capital social e a reputação de um crítico musical ou de uma determinada celebridade, por exemplo, como fã ou antifã podem dar maior peso a esses discursos, do que o  de uma “pessoa comum”. Por ex, o Zeca Camargo se declarou “fã” da Rebecca Black (afirmou gostar). Por um lado essa afirmação dele convoca um grupo de pessoas mais velhas do que o público-alvo da cantora a talvez se posicionarem como fãs, uma vez que ele representa esse grupo, e ao mesmo, tempo pelo caráter massivo e popular da emissora pode criar ainda mais antifãs para ela, uma vez que quem não se identifica com o apresentador do Fantástico pode estabelecer uma relação de identificação ou rejeição com o artista.

Em resumo, para uma leitura de cenários e comportamentos dos fãs e antifãs é preciso olhar além dos sites de redes sociais e das tecnologias. É preciso compreender as apropriações de suas materialidadese, também é necessário resgatar o contexto histórico das cenas musicais, as questões relativas aos gêneros musicais e características da construção do ethos subcultural, entre vários outros aspectos sociais, antropológicos e estéticos.

4 comentários

  1. Thais · junho 7, 2011

    Legal demais, Adri! Deixa eu te perguntar… existe alguma tese, artigo, livro, enfim, algum material sobre a construção da identidade a partir desses produtos musicais da mídia? Estou pesquisando temas pra minha monografia e gostaria muito de explorar esse aspecto da construção da identidade. Beijos!

    • Adriamaral · junho 8, 2011

      Thais, existe bastante material. Em breve vou divulgar uma lista por aqui. Aguarde.

  2. Renata Spinola · junho 8, 2011

    Muito legal, Adriana! Estou construindo o meu trabalho com o Morrissey na perspectiva do fandom. Adorei o post e já virou referência! bj🙂

    • Adriamaral · junho 8, 2011

      Renata, que ótimo, vamos trocando figurinhas à medida em que tua tese for se delineando, estou curisíssima sobre o teu trabalho. Em tempo, eu amo Moz🙂

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