“If I would, could you?” Pensamentos aleatórios sobre o revival dos anos 90

Finalmente terminei de assistir à 4a temporada de Californication. Foi uma temporada de altos e baixos, mas os baixos foram tão “fundo do poço” como a vida trash de Hank Moody. Não vou dar spoilers nem fazer resenha. Gostaria apenas de me deter em alguns comentários sobre a importância da trilha sonora e das referências musicais dessa série. São as trilhas que nos conduzem aos recônditos soturnos da mente do protagonista. Especialmente nessa temporada, os anos 90, o tempo diegético no qual Hank e Karen se conheceram – em um episódio da segunda temporada, se não me engano há toda uma lembrança do dia em que Kurt Cobain morreu e como isso foi importante na história do casal – voltou para assombrar o escritor.

Nessa viagem sonora, nós os espectadores fomos conduzidos por alguns clássicos com direito a participações de nada mais nada menos do que Tommy Lee e Zaak Wylde. O primeiro como ele mesmo tocando uma versão “somente piano” de Home sweet home no hotel barato no qual Moody está hospedado. O segundo como vendedor de uma loja de instrumentos musicais no qual Hank e Becca entram para comprar cordas para a guitarra dela, que agora toca na banda “Queens of dogtown”. A ironia não pára ai e não se restringe só às referências musicais.  Vai até o episódio em que Moody coloca um terno preto para ir ao julgamento e comenta: “Pareço um agente do FBI” em um claro intertexto irônico do ator (David Duchovny) com seu mais famoso personagem, agente Fox Mulder do Arquivo X.

Mas o fato é que as narrativas contadas pelas canções pontuam as etapas da narrativa com sensações e percepções extra-seriado e que fazem muito sentido para o público-alvo ideal da série: pessoas que viveram intensamente os últimos momentos do que se convencionou chamar “cena do rock alternativo dos anos 90” e que através dessa nostalgia acessam suas memórias. E aqui entra também uma percepção minha (posso estar errada é só um feeling):  há uma certa ressaca do revival dos 80 que foi usado e abusado por artistas mais pop. É hora de dar um tempo nas ombreiras e nas roupas coloridas. As camisas xadrez estão de volta às vitrines das lojas, os coturnos estão nas ruas e quem sabe os cabelos desgrenhados voltem a ser tendência em breve. Tudo faz parte dos ciclos de nostalgia como forma de consumo, acessando as memórias mais resguardadas de uma certa “Geração X” (aliás, a primeira vez que ouvi esse termo foi nos anos 90), que foi retratada com maestria por Cameron Crowe no clássico filme “Singles” (1992)

E, apesar de estar consciente de que todo esse imaginário faça parte das análises de tendências monitoradas pelas “indústrias da cultura” e caçada pelos coolhunters, de forma muito bem articulada pelas mídias e pela percepção do consumo compartilhado de determinados gêneros no âmago das subculturas, seria hipócrita ao dizer que não me deixei levar pela emoção ao escutar os primeiros acordes de Would do Alice in Chains no episódio da estréia da banda de Becca (senão me engano o 6 ou 7).

Liguei o câmbio automático da nostalgia e pensei: “vivi essas músicas semana a semana na minha adolescência; era exatamente o que eu escutava quando minha vida era menos complicada e a MTV recém havia chegado no Brasil. “. O chamado “meu tempo”, expressão que me fazia rir alto e desdenhava quando proferida por meu pai ou qualquer pessoa com mais de 30 naquela época. Memória e afetos através de artefatos midiáticos. Poderia render um paper, mas prefiro a canção, que certamente ainda ressoará por anos a fio.

Am I wrong?
Have I run too far to get home, yeah
Have I gone?
left you here alone

If I would, could you?

2 comentários

  1. Darth Ferrer · junho 19, 2011

    Sabe, Adri… não sou nostálgico desse tempo. Adolescência sucks. Mas é fato que o rock jorrava em erupções incríveis; dignas dos 70`s.

    Sobre Duchovny e seus personagens, não há comentário possível. Esse CANALHA vive a melhor das vidas na tela; seja como agente do FBI, seja como o dionisíaco Hanky. E fora delas, idem. Pra mim, é o cara mais cool do planeta há 20 anos. Mais do que Johnny Deep – que nasceu em 09/06 -. E mais até do que Bowie-pós-anos-70. Duch é The One.

    • Adriamaral · junho 19, 2011

      Darth – eu tb não sou nostálgica da adolescência mas mesmo assim me emocionei com a forma como as canções vão conduzindo a narrativa da série. Quanto à Duch, ele é O cara!

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