“How’d I ever end up here? A latent strain of color blindness”

Dentro de alguns dias (11 de agosto para falar mais especificamente) completa um ano que voltei a morar em Porto Alegre. É estranho pensar em como tudo aconteceu. Minha vida teve mais uma daquelas guinadas radicais com direito a mudança de emprego, de cidade, de Estado. Engraçado, e até certo ponto ilusório, pensava eu que essa mudança seria muito mais fácil do que a de 2005 quando migrei para Curitiba praticamente sem lenço e sem documento sob o inverno de agosto. Achava que o retorno seria infinitamente mais fácil. Afinal, minhas raízes estavam aqui (família, amigos), minhas referências eram aqui. Tinha uma sensação de que tudo se ajeitaria muito mais tranquilamente justamente por conhecer as entranhas da cidade e boa parte da cultura local – pelo menos até certo ponto. O fato é que não foi bem assim. Não foi nem fácil, nem tranqüilo e toda a percepção que eu tinha de antes (dos anos que passei aqui) pouco me ajudaram. Uma das lições disso foi: cada mudança é sempre diferente, por mais clichê que isso soe. Até porque quando eu havia saído daqui, estava em uma determinada etapa da vida, e quando retornei tudo havia mudado e eu principalmente era outra pessoa, embora muito da essência houvesse permanecido.

Primeiro foram as dificuldades de ordem prática. Mudar a vida de duas pessoas (eu e o marido) foi como equilibrar uma pilha de copos de cristal em um restaurante lotado. Tem também o fator “destino”/”acaso” não sei como nomear, uma vez que minha família havia passado por 2 grandes perdas em 2 anos diferentes – meu irmão do meio em 2008 e meu pai no finalzinho de 2009 – e estava na iminência de uma terceira, pois cheguei aqui exatamente no dia em que minha mãe saía do hospital após uma cirurgia complicada e estava muito fraca. Daí para frente foram 3 meses de sofrimento e agonia com minha mãe cada vez mais enfraquecida e tendo de passar por hemodiálise; de viver em uma casa que não era mais minha (a casa de minha mãe) e organizar toda a vida doméstica de lá; de tentar compreender os meandros do novo trabalho, desde as rotinas mais básicas do tipo como postar uma nota no novo sistema até outras coisas mais complexas; da procura por outro lugar para morar por exemplo. Para culminar toda essa saga, no início de novembro, minha mãe falece e precisei lidar com a dolorosa perda, além de me encontrar morando sozinha na casa que era dela e de meu pai. Foi um golpe duro que devastou toda e qualquer ilusão de que temos algum tipo de controle sobre nossas vidas. Afinal, eu havia feito diversos esforços para retornar ao RS justamente para ficar mais perto da família e, sobretudo de minha mãe que ainda sofria a perda do filho e do marido e sempre me cobrava o retorno. A sensação de que “meus pés não tocavam o chão” nunca foi tão real.

Passados esses primeiros meses em que tudo parecia confuso, ainda assim as dificuldades continuaram. Embora dessa vez tenha sido bem mais fácil achar um apartamento, coisas de ordem muito mais subjetiva me atormentavam. Foi um momento de sair de cena como eu nunca havia feito, uma retirada estratégica que serviu para me mostrar visões extemporâneas e percepções dos outros sobre mim. O fato é que eu não havia percebido um pequeno e enganoso detalhe: durante o tempo em que eu não morava aqui e vinha frequentemente, eu era uma visita e não tinha a percepção de que, no fundo, estava tudo completamente diferente de antes, em especial as relações entre pessoas que eu até achava que conhecia. Ao findar de quase um ano ficou tudo claro e entendo que nada mais será como era quando eu morava aqui antes, pois a fase do game mudou, eu mudei, as pessoas mudaram. E o fato de eu estar na mesma cidade de antes não tem nenhum significado em relação a isso. Minha fala aqui não é ressentida nem nostálgica, é apenas uma constatação empírica a partir de dados e fatos.

E o que ficou desse um ano? Me sinto mais forte, perdi bastante (boa parte, não toda) a obsessão por controle em relação as acontecimentos da vida e compreendo melhor a relação passado-presente-futuro. Nessa função toda, boa parte da minha efusividade – que parecia me caracterizar – parece ter ficado dormente, mas por outro lado, uma certa dose de misantropia, que eu sempre tive, embora disfarçasse, foi resgatada. Ontem enquanto entrava na sala de exames de um hospital para fazer uma endoscopia, todos esses acontecimentos de um ano inteiro se delinearam na minha mente e, ao sair, bastante lenta e grogue por conta da medicação, uma canção se “materializou” no meu inconsciente: “At the time they cut me free/I was brimming with defiance/  Doctors looking down on me/ Breaking every law of science/ How’d I ever end up here? / A latent strain of color blindness/ Then it seemed to dawn on me/ Haemoglobin is the key”

Essa é uma das minhas músicas favoritas do Black Market Music (2000) do Placebo e a versão acústica consegue ser tão intensa quanto a original. As estrofes finais poderiam resumir bem a trajetória desse um ano por aqui. Vai ver por isso minha memória foi acionada ontem. Apesar disso tudo, estou feliz e onde eu queria estar. … E vamos para mais um ano perseverando, “cause haemoglobin is the key”.

As they drag me to my feet
I was filled with incoherence
Theories of conspiracy
The whole world wants my disappearance
I’ll go fighting nail and teeth
You’ve never seen such perseverance
Gonna make you scared of me
Cause haemoglobin is the key

Haemoglobin is the key
To a healthy heart beat

Now my feet don’t touch the ground

2 comentários

  1. Renata Spinola · julho 27, 2011

    Lindo texto, Adriana!
    Lendo o seu texto eu também lembrei de uma letra do Placebo que me parece bem apropriada: “A heart that hurts, is a heart that works”. As inevitáveis mudanças e as experiências (boas e ruins) fazem de nós quem somos e o nosso sofrimento parece ser a prova de que estamos vivos. Torço para a nova você e para a sua nova vida começando numa cidade tão nova e tão diferente da que você conhecia!

    Como não poderia deixar de ser, deixo um trechinho de Morrissey que lembrei tão logo comecei a ler o seu post:

    “I came back to my old city
    With fierce determination
    And I couldn’t find my way out of the station
    It’s all changed
    You were there
    Departing, starting
    A trek I had once took
    With that “no-one’s gonna stop me when I feel this way” look”
    Apparent, apparent
    Heir apparent
    You think it’s so easy, I tell you – it isn’t
    But you may change minds with your winning smile”

    (Heir apparent – Morrissey)

    • Adriamaral · julho 27, 2011

      Obrigada Renata, nao costumo mais falar da minha vida pessoal aqui no blog, mas as vezes um ou outro texto são inevitáveis rs. Na verdade é minha velha cidade, morei toda minha vida aqui, praticamente, mas ao mesmo tempo tudo está mudado, é a letra do Morrissey é isso ai mesmo. bjo e obrigada

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