Uma carta nunca enviada

Oi mãe,

Feriado e para variar acordei tarde. Lembra quando eu resmungava que tu me ligava muito cedo nos domingos e feriados? Dai tu começaste a ligar à tarde e eu nunca mais resmunguei. Sinceramente preferia continuar sendo acordada com o teu telefonema do que nunca mais ouvir tua voz no telefone como acontece agora. Dai eu contaria minha semana e os preparativos para as próximas viagens e coisas que estou fazendo. Tu te alegraria com as minhas conquistas e se entristeceria com o que me faz mal, mas diria que tudo vai passar, com aquela certeza que me fazia também acreditar sempre que o pior já havia passado. Depois de contarmos os acontecimentos óbvios da semana, tu passaria o fone para o meu pai que me perguntaria se eu já vi o novo seriado/ filme de ação/ suspense/ scifi em cartaz. Lamento não ter podido comentar sobre Thor, sobre Game of Thrones e as últimas coisas que vi nesses dois anos em que ele não estava mais ai para comentar. Daí o fone voltaria para ti e comentaríamos sobre outras coisas como meu jeito “sem jeito” para arrumar a casa ou ideias de receitas e soluções para coisas como “tirar manchas” de alguma roupa. Pois é, nunca tive grande talento para isso, mas ocasionalmente eu tento. Sei que jamais conseguiria fazer isso tão bem quanto tu, mas aprendi contigo mesma que meus talentos sempre foram outros.

Durante a última semana eu usei uma echarpe tua, aquela preta de petit poas brancas. Fiquei com todas elas, que darão todos os passeios possíveis que tu sempre gostou. Incrível, como a cada ano que passo me acho mais parecida contigo. Toda vez que eu sento na frente do espelho para me maquiar eu revejo a cena em que te via se arrumando, prendendo o cabelo, passando rímel, lápis e o batom vermelho. Eu assisti a essa cena boa parte da minha vida e agora a repito sem pestanejar, virando o olho para cima para passar o lápis na parte interna. Acho essa uma metáfora interessante sobre a condição feminina nesse mundo e aprendi contigo. Às vezes escorre uma lágrima, às vezes borramos e precisamos repetir, mas na medida certa dá aquele toque estético que faz a diferença. Pequenos gestos que nos lembram do que é realmente importante na vida.

Ontem estava contando uma história a uma amiga e precisei descrever detalhes sobre um vestido de festa vermelho que usei em umas formaturas nos anos 90. Lembra quando tu fizeste ele, do quanto brigamos? Pois é, foi eu sempre brigava porque detesto experimentar roupas na costureira. Mas recordei do quanto ele foi importante e marcou um período em que eu fui absurdamente feliz, uma felicidade vermelho carmim que incomodava a tantas pessoas. Cada objeto sempre guarda lembranças, artefatos contam narrativas de vida. Naquela época eu não tinha essa percepção e me desfiz quando achei que ele havia saído de moda.

Sim, eu tenho ido ao médico, estou tomando os remédios certinhos para o meu problema no estômago. Estou me cuidando, claro e como saladas mesmo as detestando em geral. Tenho sentido o peso dos 30 e poucos, certas coisas não tem jeito mesmo. Mas ok, continuo ouvindo música alta e dançando no meio da sala enquanto ninguém olha, como eu fazia desde que me conheço por gente. Também tive uma atitude genuinamente caridosa num dia da semana e recebi algo inesperado no dia posterior. Como tu sempre falava, “quem é generoso sem pensar, recebe em dobro sem saber nem de onde”. Não tenho visto meus irmãos tanto quanto deveria, o tempo e o volume de trabalho é sempre complicador. Mas no domingo vi a Julia e a Manu que está absurdamente parecida contigo: o cabelo, o sorriso e até o jeito de falar.

Escrevo essa carta que nunca poderei enviar 24h antes de completar um ano daquele dia fatídico, 3 de novembro de 2010. A dor ficou guardada em uma certa medida e as poucos vai se apaziguando. A saudade e as boas memórias permanecem. Agora vou sair e aproveitar o resto desta tarde ensolarada porque sei que tu acharia que essa é a atitude adequada, em vez de ficar chorando no cemitério. Estou apenas repetindo as palavras que tu sempre me ensinaste. Sim, viver a vida e fazer o bem pelas pessoas que amamos enquanto elas estão aqui e não depois quando já não há mais tempo. E é com essa consciência que coloco o ponto final.

Com amor e muita saudades,

Adri.

2 comentários

  1. Baby · novembro 2, 2011

    Adri.. Não seria mais perfeito se eu tivesse escrito algo parecido para a minha mãe. Dia 18 deste mês também faz um ano que ela se foi, depois de uma rápida mas árdua luta contra um câncer, que a levou no auge dos seus 52 anos.

    Então posso dizer com TODA A CERTEZA, que sei o que você está sentindo e muito. Força e a vida continua, como elas querem que seja.

    Beijo grande!
    Bárbara (@_babyNat)

  2. Adriamaral · novembro 2, 2011

    Bárbara. Muito obrigada pelo comentário. É sempre muito difícil tocar nesses assuntos, mas claro, a vida continua e precisamos parar e refletir ocasionalmente. Um grande beijo e muita força pra ti.

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