“Sometimes when I miss you I put those records on”

Música, nostalgia e memória. Quais são as implicações dessa tríade no universo da cultura pop contemporânea. Como já disse Nick Hornby há bom um tempo atrás, é possível que as canções tristes de amor tenham feito toda uma geração sofrer? Sofremos pq ouvimos as canções ou as canções fazem com que a gente sofra? É um paradoxo tostines típico. Mas Katy Perry com seu novo vídeo do álbum Teenage Dream apela à nossa nostalgia e ao mundo do “e se..” e das vidas que deixamos escapar. Será que a vida que vivemos é a aquela que deixamos de ter? Ou é aquela em que o acaso se ocupou de nos dar? Nossas escolhas nos determinam ou é tudo um grande deus ex machina? O que faríamos se tivéssemos uma máquina do tempo, consertaríamos tudo? “Em uma outra vida, eu seria sua garota” lamenta a velhinha do clipe.

No vídeo de The one that got away, o casal adolescente (protagonizados por uma Kate um tanto hipster e o galã latino barbudo, cabeludo, rebelde, artista e lindo – combo explosivo de acordo com a Camila Monteiro – Diego Luna)  e a idosa que rememora um grande amor perdido de juventude nos faz entrar em modo nostálgico e intertextual (Johny & June, Titanic, Diário de uma paixão, etc) gerando identificação de todos aqueles que já se jogaram nos abismos e vertigens da paixão na juventude e que perderam feio para a morte do relacionamento, seja ela apenas metafórica ou “real” como a do video. A história é a mais clichê possível, senso comum, etc e tal contudo, como afirma Maffesoli são esses clichês que permitem a identificação, o laço social e que causam a comoção do início ao final do vídeo. Desculpem ai os cults e cabeças, mas até eu que nem sou fã da cantora e muito menos desse estilo derramei minhas lágrimas de mulherzinha. Afinal, essa narrativa é uma velha conhecida, contada, recontada por anos de absorção de livros, filmes e discos e do imaginário da cultura pop como um todo, além de uma experiência da estética quase fisiológica, experimentação e empirismo no assunto.

Uma questão interessante que aparece na letra/video é a reflexão sobre o próprio papel da música como gatilho da memória. É através da materialidade dos discos que a Katy idosa relembra do amor: “Sometimes when I miss you I put those records on” canta a senhora nostalgicamente arrependida por “the one that got away”. O som e a música percorrem entranhas cognitivas mais encrustadas na alma do que somente a imagem e é por isso que esse apelo nostálgico gera tanto sentido e significado num produto como o videoclipe. É o Radiohead da primeira transa no carro, é  Johnny Cash do final trágico é o blues da tristeza da separação. A canção é um pop tristonho mas deliciosamente fácil cantado pela visão da garota, não é o lamento melancólico do rock/blues geralmente associado ao gênero masculino.

Nada disso pode mudar o mundo, afinal é só mais uma das tantas histórias de amor já contadas, é só mais um video de uma cantora pop, é só mais uma narrativa do que poderia ter sido e não foi. É só mais um artefato pop como dispositivo da memória.

Minha primeira tattoo está meio apagada… Por vida das dúvidas, nunca mais entrei em um carro em alta velocidade na estrada a caminho da praia; nunca mais invadi festas de pessoas mais velhas que eu sequer conhecia e dancei alucinadamente; e não voltei mais a Paris. Nunca mais escutei Misplaced Childhood do Marillion…

Summer after high school when
we first met
We’d make out in your Mustang
to Radiohead
And on my 18th birthday
We got matching tattoos
Used to steal your parents’ liquor and
climb to the roof
Talk about our future like we had
a clue
Never planned that one day
I’d be losing you

In another life, I would be your girl
We’d keep all our promises, be us
against the world
In another life, I would make you stay
So I don’t have to say you were
The one that got away
The one that got away

I was June and you were my
Johnny Cash
Never one without the other,
we made a pact
Sometimes when I miss you
I put those records on
Someone said you had your
tattoo removed
Saw you downtown, singing the blues
It’s time to face the music
I’m no longer your muse

In another life, I would be your girl
We’d keep all our promises, be us
against the world
In another life, I would make you stay
So I don’t have to say you were the
one that got away
The one that got away

The one
The one
The one
The one that got away

All this money can’t buy me
a time machine, no
Can’t replace you with a
million rings, no
I should have told you what you
meant to me, whoa
‘Cause now I pay the price

In another life, I would be your girl
We’d keep all our promises, be us
against the world
In another life, I would make you stay
So I don’t have to say you were the
one that got away
The one that got away

The one (the one)
The one (the one)
The one (the one)

In another life, I would make you stay
So I don’t have to say you were the
one that got away
The one that got away

3 comentários

  1. Eduardo Dias · novembro 14, 2011

    Entrei numa piração de nostalgia nos clipes de Katy Perry que sobrou até pra I Kissed A Girl.

  2. Adriamaral · novembro 14, 2011

    Eduardo – depois quero ler🙂

  3. Allan Mendes · dezembro 9, 2011

    Isso acontece com todos aqueles que dão seu tempo a gostar de música. Se o casal gostar de muitas coisas parecidas e terminar, o gatilho vai ser disparado sempre que ouvirem alguma música que dedicaram a letra um ao outro ou ao show que foram. Mas essa é a mágica, pois a maioria não tem o que ser disparado, é uma emoção muito bonita saudades e nostalgia =)

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s