Dialogando sobre mobilizações de fãs e anti-fãs – Parte I

Na metade de 2011, eu e a colega Raquel Recuero tivemos um diálogo profícuo a respeito de fãs e anti-fãs e suas mobilizações via internet, sobretudo a partir de nossa percepção das estratégias de dominação dos Trending Topics (atual Trends) brasileiros do Twitter pelos fandoms, especialmente os fandoms do Restart, Luan Santana e das cantoras de axé (em eterna disputa). Esse tema nos motivou tanto que juntamente com minha orientanda de Mestrado, Camila Monteiro – cujo estudo de caso centra-se nas práticas de sociabilidade e estratégia de engajamento e combate aos anti-fãs  pelas fãs do Restart –  produzimos recentemente um artigo sobre o tema combinando métodos quantitativos e qualitativos de análise. O paper foi enviado para um congresso e, quando pudermos, discutiremos um pouco mais os resultados de nossa observação.

O diálogo abaixo foi escrito originalmente em inglês, pois será publicado num blog de pesquisa estrangeiro do qual a Raquel participa. Traduzi ele  porque achei que as discussões iniciais podem interessar a quem está pesquisando o tema (e não quer esperar pelo post em inglês ou pelo paper). O diálogo estava meio grande para um post, então dividi em duas partes. Segue a primeira delas:

Raquel Recuero: O Twitter tem sido utilizado pelos fãs brasileiros de uma maneira diferente do que tem sido utilizado pela maioria dos usuários. Enquanto a maioria das pessoas parece usar o Twitter como uma ferramenta informacional, os fãs parecem usá-la como uma ferramenta de mobilização, especialmente nos Trending Topics.Como você vê a apropriação do Twitter pelos fandoms? Como os fandoms se organizam para criar mobilizações impressionantes no Twittter (e não serem banidos)?

Adriana Amaral:  Acredito que os fãs brasileiros são muito criativos na apropriação dessas plataformas. Muito antes da internet, eles costumavam aprender formas de entrar em um hotel ou de estar em contato com os seus ídolos. Isso tem muito mais relação com as “personas” públicas do que com a música em si. O Brasil tem um “gosto”cultural por celebridades e fandoms de uma forma característica. É um comportamento cultural. Atualmente os fandoms estão aprendendo/”estudando” maneiras de criar mobilizações pelos seus ídolos adolescentes e utilizando as hashtags como uma espécie de construção de marca/ de gosto demarcando sua identidade como um adesivo em um caderno e também utilizando-a para atingir a visibilidade dos Trending Topics. Esses fandoms estão cientes a respeito das regras anti-spam e de bloqueio do Twitter, bem como das formas de escape. O processo de colocar a hashtag em todos os comentários/ tweets, mesmo que o conteúdo escrito no tweet não tenha nada a ver com a hashtag demonstra isso claramente (exemplo: “estou com fome, já volto #RestartnaEliana). Além disso, os fãs avisam uns aos outros a respeito da política de spam do Twitter. Para que isso seja evitando há um equilíbrio de twittagem entre os perfis individuais dos fãs e os perfis coletivos dos fandoms. Em relação às guerras com os anti-fãs, elas sempre existiram, acontecendo dentro de shows, lojas de música e de forma mais enfática nos fanzines e na mídia especializada como revistas de música (sobretudo nas seções de cartas dos leitores). Mas as diferenças estão nas dinâmicas e suas velocidades. Há uma compreensão crescente sobre esse tipo de dinâmica de mobilização através do Twitter ou do Facebook.

Outro ponto interessante foi a escolha pelo fandom da palavra “Família” (no caso do Restart essa auto-denominação do fandom se popularizou através da viralização de um vídeo que mostrava a insatisfação dos fãs por um show no qual fãs acabaram ficando de fora). Família é um termo carregado de significação que demonstra que a pessoa pertence ou está relacionada às outras por sangue ou por uma profunda relação, ou que vive na mesma casa ou que possui um ancestral em comum, como num clã. Para a química, família é constituída por um grupo de elementos que possuem as mesmas características. Então, a opção por utilizar esse termo é mais do que uma declaração, é a demonstração de um laço identitário que poderá ser motivo de constrangimento ou risada no futuro, mas é um laço identitário forte. Nesse caso específico é o poder dos “laços fortes da família do Fandom”contra os laços fortes de Granovetter.

Por outro lado, precisamos ser cautelosos e não ingênuos ao analisar esse poder emergente. Numa pesquisa realizada recentemente sobre fãs de bandas de happy rock gaúcho (Amaral & Amaral, 2011), eu e João Pedro descobrimos que os fãs estavam sendo engajados através de estratégias e hashtags criadas por uma agência de gerenciamento de imagem que os contactava através do Facebook. Assim, de um lado temos um processo de aprendizagem interessante a respeito do poder de mobilização das plataformas pelos fãs e por outro a percepção do valor disso por quem gerencia as estratégias digitais das bandas.

Os Trends do Brasil hoje (21/01/02) dominado por fãs e torcedores (fãs)

RR: Um efeito colateral do “poder do fandom” parece ser a emergência dos grupos de antifãs. Você concorda? Como você percebe a relação entre fãs e anti-fãs? As tecnologias (como o Twitter) aumentam as “Guerras dos Fãs”?

AA: Fãs e anti-fãs são dois lados da mesma moeda. A fama de um determinado artista sempre causa o efeito de criação de odiadores (haters). Uma das hashtags que os fãs estavam utilizando tem a ver diretamente com isso: #maisrespeitomenosinveja e está relacionada com duas categorias maniqueístas do comportamento humano. Onde quer que haja um fã, haverá um anti-fã ou hater, é parte da dinâmica. No Brasil, os torcedores/fãs de futebol são um exemplo sintomático. A diferença é que com o crescimento da popularização da internet no país, ambos os grupos (fãs e anti-fãs) tornam-se mais visíveis, bem como as possibilidades de arquivamento dessas discussões para pesquisas ou para objetivos mercadológicos. As apropriações e usos dessas redes como o Twitter amplificam esse tipo de engajamento.

Banner produzido por anti-fãs da saga Crepúsculo demarcando sua identidade

Mas há diferenças entre o fã e o anti-fã. Há uma questão de identidade que se revela através dessas guerras simbólicas no campo discursivo que estão relacionadas com o engajamento deles com a informação e com a interpretação e ressignificação de produtos comunicacionais como filmes, seriados, etc. O não-fã simplesmente não liga para um determinado artista ou franquia e, por conta disso, sua identidade se dá através da exclusão. Já o anti-fã constrói sua identidade (ou parte dela) pelo seu gosto “diferenciado”ou através da estratégia de mostrar as incoerências e mal-gosto do discurso dos fãs daquele produto (por exemplo, a saga Crepúsculo ou o cantor Michel Teló). De uma forma distorcida, o anti-fã é um tipo de fã, pois ele age de forma parecidamas com diferente nível de engajamento, muito menos organizado. O anti-fã também assiste, analisa, anota, avalia, classifica e gera significado sobre o conteúdo e produz conteúdo tanto quanto o fã, porém seu objetivo é diverso. Ele/ela quer “provar” o quanto o produto ou artista é ruim. Os anti-fãs demostram sua declaração de gosto para construir o seu não-pertencimento aquele grupo/tribo/subcultura, etc. É um empoderamento simbólico produzido atra’ves de práticas e discursos nos quais a identidade é demostrada a partir da oposição ao outro. Mas também não podemos assumir que todos os “haters”são anti-fãs. E há sempre aqueles que apenas querem “trollar”. No Brasil, a “trollagem” pode ser uma prática mais lúdica. E é nesse interstício que o fandom ganha novamente o seu poder (e atinge os Trending Topics por exemplo), porque os trolls, haters e anti-fãs não possuem a organização suficiente, são mais descentralizados e investem menos tempo.

3 comentários

  1. Thais A. · janeiro 21, 2012

    Era legal fazer uma diferenciação conceitual do troll, hater e anti-fã, porque na maioria das vezes esses termos se confundem e até se mesclam, já que uma pessoa pode fazer as três práticas E ainda por cima também ser fã de alguma coisa. Excelente! No aguardo da segunda parte e do paper!

  2. Adriamaral · janeiro 22, 2012

    Thais: é uma boa mesmo, eu até falo sobre isso de leve nesse paper (mas é que ele tinha um formato de apenas 8 págs e tinhamos muitos dados) mas vou pensar melhor sobre isso para um próximo.

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