Algumas notas sobre o Digitalia

Na semana passada estive em Salvador participando do Digitalia – Festival Internacional de Cultura e Música Digital. Em primeiro lugar gostaria de destacar o formato do evento que incluia mesas e apresentações de trabalhos acadêmicos, performances, workshops, desconferências e shows. Foi muito rico em termos de conteúdo e de dar uma leveza e empiria ao encontro e às trocas entre atores que trabalham nos diversos aspectos do campo da música e da cultura digital. Parabéns a toda a organização, em especial ao Messias Bandeiras e à Tatiana Lima.

O evento começou no dia 01 com uma abertura no Teatro Vila Velha – que eu não conhecia e que achei com um astral ótimo – com a presença de Gilberto Gil, Derrick Deckerckove, Ronaldo Lemos e a conferência do DJ Spooky a.k.a. Paul Miller que falou sobre os processos de remixagem e produção musical do fonógrafo aos aplicativos de iPad. Ainda teve show da Orquestra Rumpilezz e um coquetel com comida típica. Infelizmente não pude ficar para o show de encerramento com Criolo e Stomp na Concha Acústica, mas pelas fotos que vi, com certeza foi um sucesso, pois o evento estava sempre com muita audiência.

Participei da Mesa sobre “O estatuto da performance musical nos dispositivos e plataformas tecnológicas” juntamente com os colefas Thiago Soares (UFPB) e Vinicius Andrade Pereira (UERJ/ESPM). Thiago falou sobre as epifânicas aparições performáticas de celebridades da música no Twitter, eu comentei sobre o conceito de co-performance no electro-industrial e no witch-house e Vinicius falou sobre a performance sensorial e corporal do noise.

Dentre as coisas interessantes que consegui assistir, a desconferência com Gilberto Gil, Juca Ferreira, Deckerchove e Spooky foi bacana e a mesa sobre cenas e gêneros com Simone de Sá e Jeder Janotti Jr. Simone falou sobre apropriações ddas tecnologias na cultura do funk carioca, tendo como objeto de análise a “batalha dos passinhos”. A fala de Simone foi bastante centrada na questão cultural dos usos do celular e de plataformas como o youtube para mostrar sua relação com o local e com a forma como nos relacionamos com as mesmas, dando visibilidade a gêneros e cenas.

Jeder tratou da discussão sobre cenas como uma categoria fluida tendo como objeto uma análise de como o gênero Heavy Metal se configura como global e local entre o macro e o micro e como essa relação com o local impacta na linguagem e estética do produto e até mesmo na musicalidade do mesmo. Sua fala centrou-se sobretudo na cena mineira de Metal dos anos 80/90 e suas características e no caso específico do Sepultura, que em Territory endereça questões que articulam vários âmbitos e instâncias como a luta política pelo território seja ele físico (de Israel x Palestina no caso da música) ou simbólico (a cena mineira, a cena nacional e a cena internacional de Metal). Uma fala bastante inspirada, diga-se de passagem.

O Digitália mostrou que dá sim para misturar produtores, pesquisadores, performers, etc e manter o nível das discussões e as identidades de cada espectro do circuito relacionado à cadeia da música. Espero que o Festival tenha uma segunda edição no ano que vem, até porque encontrar colegas como Simone, Vinicius, Thiago, Jeder, entre outros em Salvador mais do que trabalho é um prazer. O ponto negativo fica por conta do caos detonado na cidade pela greve da polícia e suas questões políticas entre o governador e o clima de tensão devido ao relato das mortes e saques à lojas. Por isso, muitas programações como shows, teatros e museus foram canceladas, mas também saliento que há um certo alarmismo da mídia. Torço para que essa gravíssima situação seja revertida.

4 comentários

  1. deniac · fevereiro 8, 2012

    Infelizmente, perdi o evento, devido a questões de tempo/trabalho. Acompanhei virtualmente e foi vi que foi um grande encontro de pensamento/pensadores. Apesar da mídia local ter dado uma atenção ao Digitalia, achei que foi uma cobertura mínima, dando mais atenção ao lado musical…

    E por falar em música, não conhecia o tal “witch-house”. Achei interessante, mas ficou-me a dúvida: não é mais do mesmo? Qual o grande diferencial? Pareceu-me tal qual o caso do termo noise, que as novas gerações chamam shoegaze… Novos nomes para as mesmas coisas?

  2. Adriamaral · fevereiro 9, 2012

    Deniac, não acompanhei na imprensa local então não soube muito o que falaram, mas o evento estava ótimo.

    Sobre witch-house ele tem muito mais parentesco com o trip-hop e dubstep do que com death rock por ex, embora claro, tenha influências e eu falei um pouco disso – e tb sobre a necessidade de categorização. No caso do noise, ele nao tem nada a ver com shoegaze, o pos-rock sim tem a ver, mas noise é meramente eletronico.

  3. deniac · fevereiro 9, 2012

    Massa!

    Desculpe pela limitação, não me fiz entender. O noise que me referia era o da família do Jesus/Sonic Youth/My Blood!

    Obrigado pelos esclarecimentos!

    • Adriamaral · fevereiro 14, 2012

      Sim, claro, mas estávamos debatendo o noise eletrônico🙂 De nada

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