Crescendo e envelhecendo em uma subcultura: o caso dos góticos

Goths Louise Nickerson and Bob Rosenberg with their baby. Photograph: Frank Baron for the Guardian

No final do ano passado, o jornal Guardian publicou uma matéria chamada Growing-up for Goths comentando o atual projeto de pesquisa do sociólogo britânico Paul Hodkinson sobre o processo de envelhecimento dentro do contexto das subculturas. Hodkinson estudou o desenvolvimento das identidades dentro da cena gótica inglesa enquanto os participantes saíam da adolescência e se tornavam adultos. Alguns dos resultados da pesquisa indicam uma privatização da identidade, afinal as pessoas crescem, trabalham, tem filhos e passam a selecionar mais em quais shows/festivais/clubs irão. No entanto, dentro do caso dos góticos percebe-se que é uma subcultura na qual há uma trajetória de continuidade de pertencimento na cena. Leia-se uma vez trevoso, trevoso até o fim LOL. Em seu site, Hodkinson disse que NÃO manifestou que isso NÃO aconteceria em outras subculturas conforme está na matéria (jornalistões falhando com as subculturas desde os anos 60 rs).

O pesquisador Paul Hodkinson atua na University of Surrey, UK

Além dessa matéria, Henrique Kipper, participante ativo na cena de São Paulo, entrevistou Hodkinson para o webzine Gothic Station no qual ele trata desse tema e questiona o uso do termo subcultura juvenil como algo relacionado estritamente com a juventude.

“Resumindo, há uma pressuposição na qual a juventude constitui um período temporário de rebelião seguido por uma eventual acomodação em uma vida adulta normal. A pressuposição é que pessoas jovens são capazes de vivenciar a rebelião cultural de uma forma que os adultos, com suas responsabilidades maiores, não são. Isto dificulta como entender as coisas quando pessoas mais velhas continuam a manter uma forte conexão com as subculturas aparentemente “jovens” ou “joviais”. Essas pessoas deveriam ser vistas como se agarrando a sua juventude, como falhando em crescer ou como em negação de suas crescentes realidades adultas? Eu tendo a discordar desta interpretação como um todo. Há um elemento de juventude na participação dos mais velhos em cenas como a gótica (ainda envolve sair, beber, montar um visual e tudo mais), mas frequentemente a participação das pessoas se adapta e muda na medida em que elas envelhecem- elas encontram formas de permanecerem envolvidas que são compatíveis com suas vidas adultas. Assim, pensaria a continuidade da participação mais como um acompanhamento de formas especiais de vida adulta, e não como uma fixação na adolescência.”

Outro ponto que achei bem interessante é a questão de como à medida em que os participantes ficam mais velhos, eles moldam e adaptam os elementos visuais, acessórios e o modo de vestir – um dos marcadores semióticos mais fortes nas subculturas em geral, sobretudo no caso dos góticos – conforme as necessidades e o conforto. Ou seja, eles continuam utilizando elementos demarcadores de identidade, mas de uma forma mais “sutil” ou “amenizada”. A questão da classe social, que foi de algum modo renegada por parte dos pesquisadores inseridos no contexto pós-subcultural dos anos 90 é redimensionada, uma vez que a cultura gótica é via de regra “classe média” (acredito que o mesmo poderia ser pensado a respeito dos indies por exemplo). Acompanho há um bom tempo o trabalho do Hodkinson e achei que essa abordagem dele sobre a duração e o crescimento dos participantes de subculturas é bastante original e desmitifica preconceitos em relação à idade e ao comportamento subcultural. Acho muito preconceituoso e me irrita quando determinadas pessoas começam a tentar regular o que a pessoa pode ou não pode fazer dentro de determinada faixa etária. Ou então quando incorporam o discurso senso comum do “tenho que agir assim, afinal todos agem”.

Penso hipoteticamente que os tipos de capital subcultural, para utilizar a apropriação que Thornton (1996) fez da idéia de Bourdieu, atinge diferentes estágios conforme a idade do participante. Por um lado, à medida que envelhece ele (ou ela) adquire um status maior devido a sua experiência e conhecimento sobre a cena, mas por outro lado, o afastamento presencial de determinados eventos e uma possível falta de atualização decorrente dele  pode abrir uma lacuna e dminuir esse capital acumulado. Novos subgêneros musicais aparecem, outras práticas entram em moda. A internet, nesse caso talvez atue como um mediador dessas questões por vezes acentuando disputas, por vezes complementando a participação na cena. São questões a serem pensadas e debatidas.

Vale a pena ler o artigo completo, Ageing in a spectacular ‘youth culture’: continuity, change and community amongst older goths com os resultados da pesquisa que está publicado no British Journal of Sociology de Junho de 2011. Já informo que a revista é de acesso fechado😦 Caso alguém tenha interesse no assunto, basta me solicitar o paper via comentários do blog.

Agradeço à Ana Lucia Araujo e ao Guilherme Corrêa pelo acesso ao artigo, uma vez que tentei a partir da base de dados a qual acesso mas ela só disponibilizava um artigo por edição desse periódico.

25 comentários

  1. Beatriz Polivanov · fevereiro 14, 2012

    Adri, adorei seu post e fiz um no blog do LabCult, tentando continuar a discussão, dá uma olhadinha: http://labcult.blogspot.com/2012/02/dialogo-entre-blogs-crescendo-e.html.

    Você poderia me enviar o artigo do Hodkinson, please?

    Bjos

    • Adriamaral · fevereiro 14, 2012

      Ai Bia que legal, vou la olhar. Claro que eu te mando sim

  2. aline · fevereiro 14, 2012

    Olá eu gostaria de receber o artigo. Obrigada

    • Adriamaral · fevereiro 15, 2012

      Aline, estou fechando um artigo e envio sim

  3. Alisson Avila · fevereiro 14, 2012

    Olá, bacana o artigo – atinge a qualquer um com mais de 30. A propósito, fomos colegas de PUCRS nos anos 90🙂 Agradeço se puder me enviar o paper na íntegra. Obrigado!

    • Adriamaral · fevereiro 15, 2012

      Oi Alisson, tudo bom? Bah, tempao hein? Eu envio sim, so to atucanada terminando um paper (deadlien hj) e depois disso envio claro. abs e obrigada pelo comentário

  4. Diego · fevereiro 15, 2012

    Olá gostaria de ter em mão o artigo, obrigado lady A ^_^

    • Adriamaral · fevereiro 15, 2012

      Oi envio sim

  5. Sana · fevereiro 15, 2012

    Lembro de ter lido essa matéria no Guardian ano passado e adorei a entrevista que o Kipper fez.
    Já comentei entre amigos que é realmente complicado ficar adulto mantendo estilo alternativo (seja de qual subcultura você for) e a família e conhecidos te encararem como a pessoa que não quer crescer.
    Para os goths gringos é fácil, à medida que ficam mais velhos, moldarem e adaptarem ses elementos visuais e acessórios, afinal a moda alternativa estrangeira oferece opções de roupas mais adultas e simplificadas, mas veja a moda alternativa no Brasil: completamente voltada à adolescentes e com tecidos baratos de aparência pobre! Procure roupas de estilo para a faixa dos 30 anos nas lojas brasileiras e não encontrará, terás de recorrer à estilos de moda mainstream mesmo.

    • Adriamaral · fevereiro 16, 2012

      Oi Sana, concordo plenamente contigo. As opções são importar roupas via internet ou comprar em viagens ou mandar fazer (eu já mandei fazer algumas coisas e o resultado foi legal). Não temos lojas alternativas com roupas subculturais mais “corporate” voltada a um público mais velho. Tá ai um nicho de mercado. Obrigada pelo comentário.

  6. Luis Baptista · fevereiro 18, 2012

    Olá Adriana, gostava de receber o artigo na integra o qual considero um excelente assunto para discussão .
    O obrigado desde já .
    Luis.
    P.S. A seu tempo darei também uma opinião mais detalhada.

    • Adriamaral · fevereiro 22, 2012

      Luis, vou te enviar sim

  7. starblood335 · fevereiro 22, 2012

    Só faria uma correção, aqui no Brasil, mesmo a maioria sendo classe média há na cena pessoas de classe baixa e de classe alta.

    Ou seja não há uma classe social única dentro do gótico nacional.

    • Adriamaral · fevereiro 22, 2012

      Olá starblood335, bem é claro que não há uma única classe social dentro da subcultura gótica seja no BR ou na Inglaterra. Quando falei em “classe média” me referi a uma maioria, mas sim há varios estratos sociais

  8. Alvaro Neto · fevereiro 24, 2012

    Muito bom o texto, o próprio Robert Smith fala em entrevista do DVD Trilogy sobre o sentimento de juventude ter que acabar para muita gente, de como isso é só mais uma convenção que pode ir sendo vencida com o tempo.

    • Adriamaral · abril 19, 2012

      É Alvaro, é bem por ai mesmo

  9. Henrique Kipper · abril 18, 2012

    Ola Adriana! super obrigado por citar a entrevista, tentei nela cutucar umas questões que nos interessam🙂 Creio que com o tempo a tendência seja as subculturas deixem de ser estudadas apenas dentro do âmbito dos “estudos de culturas juvenis”. Como em qualquer cultura, os papéis e interesses mudam com a mudança de idade. Ao mesmo tempo esses papéis se misturam no ocidente, hoje. Mas isso é uma discussão interessantíssima para os próximos anos.
    Tentei comprar o artigo integral e como sou “pessoa física ” e não instituição educacional, quiseram me cobrar centenas de libras!!! Se puder me enviar, agradeço imensamente. Abração!!!

    • Adriamaral · abril 19, 2012

      Henrique, claro eu te envio ele sim. Essa discussão é longa né? Mas concordo plenamente com essa tua observação. Ah, sempre recomendo teu livro pro pessoal😉

  10. Antonia · abril 19, 2012

    Eu gostaria muito de ler o artigo completo Ageing in a spectacular ‘youth culture’: continuity, change and community amongst older goths. Poderia me enviar, por favor?
    E concordo com esse texto, afinal, eu tenho 42 anos e há mais de 20 anos que tenho curtido o gótico e, sim, lógico, ouço muito rock. Independente de idade, quando gostamos de um movimento, porque deveríamos “obrigatóriamente” abandoná-lo quando ficamos mais maduros?
    Abraços.

    • Adriamaral · abril 19, 2012

      Eu envio pra vc, pode deixar

  11. Márvio · setembro 15, 2012

    Oi, Adriana! Gostei muito do seu artigo. Estou ainda descobrindo o seu site.🙂

    Você poderia me enviar o artigo do Hodkinson?

  12. Renata Rodrigues · novembro 21, 2012

    Olá!

    Achei o artigo bastante interessante, parabenizo a todos os envolvidos pela iniciativa.
    Sou psicóloga, também me interesso muito pela temática discutida e desenvolvo um trabalho super diferenciado com um tribo urbana específica, aqui em Belo Horizonte, além de já ter feito várias pesquisas focadas em outras tribos, dentre elas, a gótica nos anos 2000. Não me considero participante de nenhuma tribo urbana, mas, a que mais admirei sempre foi a gótica. E levo um estilo de vida alternativo desde sempre, pois, venho de uma família alternativa.

    Do ponto de vista psicológico, há várias outras questões envolvidas, tanto na adolescência quanto na fase adulta, para que uma pessoa possa escolher e manter um estilo de vida alternativo. Uma que ressalto, neste momento, que tende a ser um regulador social, e está envolvida nas “necessidades da fase adulta”, que faz com que muitas pessoas “abandonem” seu estilo de vida, é a necessidade de inserção no mercado de trabalho. Nesse sentido, me considero sortuda e corajosa, por ter escolhido me tornar uma profissional autônoma e, nesse contexto, posso flexibilizar vários detalhes que me permitem manter meu estilo alternativo de vida.

    Estou tocando neste assunto porque um dos meus trabalhos é a loja Belladonna, com roupas e acessórios de minha autoria, para públicos alternativos de várias subculturas e idades. Inclusive, recentemente, fizemos um ensaio fotográfico para lançar uma nova coleção e a modelo escolhida para essa ocasião tem 53 anos.
    Antes que pensem que estou aqui fazendo apenas uma propaganda da minha loja, em verdade, o que estou querendo dizer é que sim, ao contrário do dito pela Sana, há moda alternativa voltada para o público adulto no Brasil, e não acredito que seja apenas na minha loja. Acredito que há uma supervalorização das cenas estrangeiras, principalmente em subculturas que se baseiam em comportamentos, modas, histórias, etc, estrangeiras, porque nós praticamente importamos estas subculturas e, consequentemente, o “amadurecimento” das mesmas, em outros países que não os de origem é realmente mais demorado.

    Eu criei a Belladonna, em primeiro lugar, para mim, pois, sempre tive dificuldade em encontrar roupas e acessórios que expressassem e combinassem com meu estilo de vida, especialmente na fase adulta. E conheço outras pessoas que, assim como eu, tomam iniciativas variadas para viabilizar a vivência nas subculturas em várias fases da vida.

    É claro que ainda engatinhamos, nesse e em tantos outros sentidos. É claro que há uma variedade muito maior no exterior, o que acaba sendo um dificultador para que um adulto possa manter seu estilo de vida, nesse caso, em relação à moda, pois, importar peças tende a ser ainda mais caro que adquirir as nacionais e, na vida adulta, a prioridade de gastos passa a ser outra, na maioria dos casos. Mas, sempre há aqueles que, com criatividade e vontade, vão driblando essas dificuldades e mantendo, ou até ampliando, estas vivências, na fase adulta.

    Tenho interesse em receber o artigo, se possível, agradeço.

    Abraços!
    Renata Rodrigues – estilista da Belladonna

    e-mail: vitrinebelladonna@gmail.com

  13. Amanda · maio 25, 2013

    Olá Adri, a partir de uma postagem do blog Moda de subculturas, sobre os adultos se mantendo ou não na cena, acabei parando aqui no seu blog. Vc ainda possui o artigo??? Se puder me enviar eu agradeceria muito.

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