Da escrita pessoal

Ontem estava organizando alguns materiais e encontrei minha cópia de Além do bem e do mal do Nietszsche – meio por acaso já que eu achava que ela tava sumida ou que eu havia deixado no trabalho. Dentro dela achei algumas anotações que  fiz enquanto estava fazendo meu estágio de doutorado nos EUA em 2004. Penso que é sempre curioso rever coisas que anotamos num determinado período, mesmo que eu não tenha utilizado isso na tese – e não utilizei – acho que tudo faz parte do processo. E, além disso, tentei lembrar no que eu estaria pensando quando sublinhei e circulei essa citação de lumi-color laranja.

Obviamente nunca vou recordar com exatidão mas consigo entender pelo conceito. Eu estava muito preocupada em documentar todo aquele turbilhão de afetos, sensações, experiências, ideias, hipóteses, conceitos. Tudo isso junto e misturado era um pouco do que eu vivia e que foi condensado naquela pequena  folha de papel. Lendo a frase de PKD, meu objeto de pesquisa e de afeição – ao mesmo tempo – rememorei que essa mistura entre obra e vida é impossível de ser separar e que quaisquer tentativas de apartar essas instâncias são artificiais e não funcionam, pelo menos não na minha vida.

“People have told me that everything about me, every facet of my life, psyche, experiences, dreams and fears, are laid out explicitly in my writing, that from the corpus of my work I can be absolutely and precisely inferred. This is true”. Philip K Dick, 1980, Introduction to The Golden Man

E tudo isso pelo simples fato de que toda hora ouço alguém falando de representação ou de modos de comportamentos e/ou identidades que supostamente devemos ter nessa mediação entre a escrita, a conversação e demais interações humanas e não-humanas nos artefatos digitais. PKD me soa tão dionisíaco e inspirador agora quanto há 8 anos enquanto eu tomava essas notas ou mesmo nos anos 60. Já o mundo, anda muito muito chato e sem graça. Um lugar onde as normatizações preconizadas pelas distopias sutilmente encontraram seu lugar. Enfim, foi apenas um devaneio da madrugada. Por vezes sinto falta dos tempos em que blogar era só um exercício despretensioso de creative writting que  apenas contava estórias sobre nós mesmos …

#nowplaying – Bastards Screaming – Rotersand

 

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