Gênero, presença e imaginário

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Anúncio de Angelina Jolie de que extirparia os seis preventivamente levanta questões sobre as relações entre o corpo e a tecnologia

A pedido dos editores, publiquei hoje (18/05/2013)  no Caderno Cultura de Zero Hora um breve ensaio sobre o “caso Angelina Jolie.

Se nos anos 1990 muitos autores, sejam eles do campo da literatura de ficção-científica ou da filosofia e da sociologia, apostavam em uma desmaterialização dos corpos devido aos ambientes digitais, na atualidade cada vez mais percebemos que a dicotomia cartesiana “mente versus corpo” parece fazer menos sentido. Conforme autores como o alemão Hans Ulrich Gumbecht, por exemplo, a “cultura da presença” e o papel dos corpos tornam-se cada vez mais fortes, seja nas representações da mídia ou na forma como nos moldamos ao uso dos artefatos tecnológicos.

Nesse sentido, o exemplo atual e a discussão sobre o caso da atriz Angelina Jolie e seu processo cirúrgico de mastectomia em função da possibilidade do câncer de mama – notícia amplamente divulgada pela mídia internacional e nacional nos últimos dias – se apresenta como um pano de fundo interessante para pensarmos questões a respeito das reconfigurações e do lugar do corpo na cultura contemporânea em suas interfaces com as tecnologias. As contribuições das materialidades da comunicação, as relações entre agentes humanos e não-humanos e as questões de identidade de gênero despontam como algumas das possibilidades de análise sobre a repercussão do caso.

As questões relativas ao corpo estão presentes nos âmbitos teóricos desde o princípio da filosofia e da ciência. No entanto, com o avanço das tecnologias, ao final dos anos 1980 e início dos anos 1990, a ficção-científica e as ciências humanas que se dedicaram a pensar a cultura digital passaram a tratar com mais afinco da relação corpo e tecnologia. Para alguns teóricos, havia uma constante tensão entre a alta tecnologia e a vida ordinária e a busca pela “transcendência tecnológica”, com a temática da descorporificação ou desmaterialização, tratando a mente como uma entidade separada do corpo, sendo a “carne”, uma estrutura sem uso no ambiente do ciberespaço por exemplo.

Uma sociedade que estimula as extensões corporais (como os óculos, as lentes de contato, etc.) e as modificações corporais, seja pelas drogas sintéticas, pelas cirurgias plásticas, por piercings e tatuagens, pela engenharia genética ou pelos implantes de membros, parece, dado o contexto do cenário urbano e teórico do período, cada vez mais receptiva à figura social e ficcional do ciborgue, proposta pela pesquisadora da ciência e feminista Donna Haraway na publicação hoje clássica Manifesto Ciborgue, de 1985.

Nesse livro, a autora norte-americana define o ciborgue como um organismo cibernético híbrido, ligado tanto à realidade social quanto à ficção. Ele se apresenta como uma mistura entre homem-máquina tanto quanto entre os gêneros masculino e feminino, mudando o eixo nas relações de poder de gênero. Ele/ela aparece como uma fabulação que mostra a emanação do poder do corpo, descentralizado de uma raça, um gênero, uma classe social, servindo tanto como uma figura da ficção que explica a realidade social quanto como uma paródia política através da arte, como propõe o ciberfeminismo.

Essa figura do ciborgue está presente nos mais variados campos do conhecimento como a medicina, a biologia, a engenharia genética, a comunicação, entre outros, além de ter sido apropriado pelas narrativas de ficção científica. Donna Haraway comenta que “Os cyborgs são um mapeamento ficcional da nossa realidade social e corporal, além de uma fonte imaginativa que sugere algumas associações muito frutíferas”

Nos interessa aqui a alegoria mítica do ciborgue para representar as profundas relações homem-máquina e para nos fazer pensar, que no caso da atriz hollywoodiana, o acontecimento midiático possui uma carga simbólica que vai além das relações corpo e mídia, mas se localiza nas instâncias do imaginário tecnológico e ficcional. Como se estivéssemos lidando com a trama de um filme sobre o futuro, Angelina pôde, devido à ciência genética e aos artefatos tecnológicos, ter acesso antecipadamente aos dados que indicavam sua predisposição ao câncer de mama. Tomou, então, uma decisão considerada polêmica ou racional por muitos: extirpar o par de seios para tentar burlar a doença e colocar um implante de silicone, procedimento efetuado por várias mulheres no mundo, mas que, por não terem a notoriedade de Angelina não ganham o estatuto de acontecimento. Do meu ponto de vista e das teorias de gênero, não cabe discutir as escolhas da atriz, o corpo é dela e pode ser por ela manipulado da forma como decidir.

A partir dessas premissas, contudo, podemos pensar nesse acontecimento jornalístico a partir de três eixos. O primeiro deles trata da constituição de uma narrativa da ordem material que posiciona a noção do corpo novamente no centro dos debates contemporâneos, contrariando as teses de desmaterialização defendidas por muitos teóricos da cultura digital no final do século passado. Na sociedade contemporânea, o os conceitos de presença e de corpo são uma parte tão importante da cultura e de sua materialização quanto a mente. O segundo eixo do episódio centra-se em uma narrativa que está relacionada ao imaginário científico-ficcional, no qual a ciência e a tecnologia parecem corroborar a tese de Marshall McLuhan sobre as tecnologias como extensões do homem. Nesse sentido, é ainda mais interessante o fato de que Angelina Jolie deu vida nas telas de cinema à personagem Lara Croft, uma personagem de um videogame, criatura não humana materializada em um corpo humano digital e mais tarde traduzido para as telas no corpo – também modificado – da atriz. Um terceiro eixo diz respeito às discussões sobre corpo e gênero que se fizeram presentes nas conversas em redes sociais. O fato de ser um corpo feminino cuja performatização do gênero se dá em muito no elemento dos seios trouxe à tona uma série de manifestações sobre as relações entre “natureza” e “artificialidade” e sobre a própria performatização do gênero feminino, como aponta a teoria queer por exemplo. São questões efervescentes da cultura atual e que mostram que a volatilidade dos corpos e sua presença tecnologicamente mediada e reconfigurada nos traz apontamentos impwortantes para a compreensão da sociedade em devir.

Adriana Amaral

UPDATE: Segue aqui o link para o artigo original

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2013/05/cirurgia-de-angelina-jolie-levanta-questoes-sobre-as-relacoes-entre-o-corpo-e-a-tecnologia-4141393.html

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