Música e mulheres: uma questão de gênero (s)?

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Reproduzo abaixo o ensaio que publiquei hoje (14/9/13) na pág. 05 do Caderno Cultura do jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Você já se perguntou por que o número de bandas de rock com mulheres é inferior ou menos visíveis do que o número de integrantes do sexo masculino? Ou por que o público de determinado gênero musical é majoritariamente masculino? Já observou quantas mulheres estão no mesmo patamar de credibilidade de headliner em um festival de música eletrônica ou que ganham o mesmo cachê na cena eletrônica que um produtor como Richie Hawtin? Já pensou sobre a discutida relação entre pós-feminismo, sexualidade e as funkeiras cariocas como Valeska Popuzada e outras? Já ouviu falar sobre a polêmica a respeito de um suposto “embranquecimento” de Anitta que chegou aos jornais estrangeiros? Reparou como muitas das críticas à tour de Madonna em 2012 centravam-se no fato de seu envelhecimento, relacionando com o comportamento não-adequado em relação a sua idade? E naquele momento em que você cantarola no chuveiro alguma canção de MPB já pensou nos modelos e na representação das mulheres de Chico Buarque, de Vinicius de Morais? Já se indignou com a Amélia, “a mulher de verdade”?

Se você não tem respostas prontas para as perguntas acima tenho uma boa notícia: eu também não, mas questionar é preciso. Primeiramente é preciso esclarecer que na língua portuguesa há uma “pegadinha” semântica no que tange a palavra gênero. Em inglês temos o termo genre para designar gênero literário, cinematográfico, musical, etc; e gender para tratar do gênero relativo à sexualidade. Em português, utilizamos a mesma palavra para tratar de ambas as questões. Não é mera coincidência que nossa língua expresse em apenas um termo dois conceitos tão complexos. As questões políticas e estéticas sobre gêneros e a cultura musical pareciam passar despercebidas no contexto musical brasileiro até bem pouco tempo atrás, seja nas discussões cotidianas, seja nas teorias. Dessa complexidade toda, e também de várias pesquisas e polêmicas surgiu minha vontade de abordar relação entre mulheres e música.

Nos últimos tempos, as questões relativas a gênero, têm sido cada vez sendo mais discutidas pela sociedade e evidentemente não abrangem apenas as mulheres, mas também transexuais, homossexuais, entre mil outras designações. A discussão de fundo nas ciências humanas e sociais é a de que sexo é biológico, mas gênero é uma noção sociocultural construída em diferentes contextos, tempos e espaços, além de ser parte integrante de nossa marca de identidade. Não cabe aqui discorrer sobre as diferentes teorias que tratam da construção social dos gêneros como o feminismo, a teoria queer ou mais recentemente os chamados estudos pós-feministas.

O que interessa é pensar que as noções de gênero perpassam todos os campos da sociedade e, em tempos de cultura midiática e de tecnologias, tornam-se cada vez mais visíveis os embates a partir dessa relação. Os gêneros e as cenas musicais estão inseridos nesse contexto e assim participam dessa constituição, para o bem ou para mal, e representam e veiculam as imagens que vemos sobre as mulheres, os travestis, os homens, etc. Escolhi tratar aqui das relações entre música e mulheres por estar inserida nesse contexto e por ser parte de um imaginário muitas vezes envolto no preconceito.

Assim é importante pensar que no âmbito da cultura pop, há disputas simbólicas e relações de poder ou de “empoderamento” a partir de um determinado gênero musical. O Heavy Metal e derivados, por exemplo, durante muito tempo foi tratado pela mídia como algo violento e cujo público era predominantemente masculino. Com tempo as mulheres passaram a adentrar as diferentes cenas e a participar como consumidoras e também produtoras e assim impor diferentes representações em termos visuais e até mesmo sonoros à estética e às regras do gênero.

Construída inicialmente a partir da intensa relação entre homens e máquinas – praticamente nunca falamos mulheres e máquinas – a música eletrônica também não fica imune a essas conturbadas discussões. Lembro de que há uns anos atrás havia uma polêmica na mídia especializada a respeito de DJéias que utilizavam mais o corpo para agitar as pistas do que as mixagens ou a pesquisa sonora. O tempo passou e debates similares estão acontecendo a respeito das letras sexualizadas do funk carioca, onde de um lado temos os que defendem o uso de letras agressivas feitas por mulheres enfatizando o caráter de empoderamento e de visibilidade do próprio corpo; e do outro lado os que atacam essa atitude dizendo que ela, de certa forma “anula e inviabiliza” o empoderamento das mulheres por ainda continuarem dentro de padrões pré-estabelecidos de beleza, sim aqueles contra as quais muitas feministas se rebelaram na efervescente década de 60.

Eu poderia continuar dando exemplos e contra-exemplos nos mais variados gêneros musicais como o rap, nos videoclipes de estilo gangsta, no qual temos desde as representações masculinas de Cafetão (Pimp) e de Vadia (Bitch) ou o rap de protesto que procura mostrar a realidade das ruas; ou punk rock que já no final dos 70, início dos 80 que em alguns segmentos incorporava algumas minorias como as mulheres ou os transsexuais tanto nas letras, vestimentas ou discursos. O pós-punk inglês e o chamado “rock gótico” sempre incorporou elementos tradicionalmente vinculados a feminilidade como vestimentas afetadas e letras aparentemente sentimentais. A androginia de Bowie a Placebo, por exemplo, sempre foi um elemento importante para se pensar o glam rock e vários outros gêneros e constituiu uma frente questionadora em relação à boa parte da imprensa predominantemente masculina que sempre escreveu sobre música.

Nos anos 90, o rock alternativo/indie, herdeiro direto da atitude DIY (Do It Yourself ou Faça Você Mesmo em bom português) viu surgir uma série de bandas de sucesso nas quais haviam integrantes mulheres e que ganhavam tanta credibilidade na imprensa e na crítica musical quanto os homens, independentemente do rótulo de “bonita”, como acontece muito no pop. Pixies e Sonic Youth são bons exemplos. Por falar em Sonic Youth, Kim Gordon, que se divorciou há pouco do parceiro de banda Thurston Moore e de casamento, deu uma entrevista recente, de certa forma, reclamando da falta de empoderamento feminino no seriado Girls (da HBO) e tecendo digressões sobre o papel da mulher na música.

Em minhas pesquisas, recentemente encontrei um blog produzido por uma mulher e que retrata fotos das reações corporais de mulheres durante as performances de noise – um gênero musical extremo. A maioria das fotos mostra homens se divertindo e participando da performance e mulheres sentadas, com as mãos nos ouvidos, ou viradas de costas para os equipamentos. São imagens bastante significativas e simbólicas de como determinado gênero musical se constitui e de que forma suas regras são internalizadas pelos atores sociais.

Para finalizar, confesso que meu objetivo aqui era apenas sensibilizar os leitores e leitoras a prestar mais atenção a essas questões e que elas não estão restritas apenas ao domínio dos ativistas e manifestantes políticos ou dos movimentos sociais. Em tempos de controvérsias e discussão em rede, a música também é uma importante forma de comunicação e de representação de gênero que pode enfatizar estereótipos ou desconstrui-los. Nos últimos anos, vários autores do campo dos estudos culturais e da comunicação têm refletido sobre como analisar tais articulações entre mídia, música e gênero tanto abordando práticas misóginas dentro das diversas cenas musicais, como observando e analisando diferentes tipos de representações e estereotipias como reivindicando um papel mais ativo para a presença feminina no âmbito da produção, sobretudo no que tange a gêneros musicais mais extremos e relacionados aquilo que denominamos arbitrariamente de “masculino”.

UPDATE: Segue o link para a publicação no jornal

http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2013/09/questao-politica-e-estetica-de-genero-na-musica-ganham-espaco-para-discussao-4269193.html

1 comentário

  1. João Nei de Almeida Barbosa · novembro 14, 2013

    Olá, gostei do texto. Sou jornalista e tenho um sebo em Curitiba. Realmente, a quantidade de LPs que tenho de “cantores nacionais”, por exemplo, é cinco vezes maior que o de cantoras.

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