Mulheres e a pesquisa em cultura digital

Nesse dia da mulher eu não gostaria de reprisar coisas que são óbvias mas que mesmo assim algumas pessoas custam a entender a respeito de clichês, estereótipos, etc. No entanto, me bateu vontade de escrever. Um dia talvez eu exorcize na escrita algumas das coisas que já aconteceram comigo, afinal, infelizmente, acontecem em maior ou menor medida com todas nós desde criança. Mas esse momento não chegou e por hora deixo isso para a psicanálise. Já basta a dureza da vida acadêmica, rs e eis que me deu vontade de falar um pouco sobre essas mulheres, que assim como eu enfrentam o cotidiano da pesquisa nessa área específica.

Bom, a história da ciência, da filosofia, etc como um todo sempre relegou o papel das mulheres ao segundo plano. É relativamente recente o resgate da importância delas. Lembro que fiquei chocada de ver que no famoso Pantheon francês apenas Marie Curie está lá, mesmo assim depois de muita briga e após muito muito tempo.Além disso, o que vejo é que apesar dos avanços muitas coisas ainda são mais complicadas para as mulheres do que para os homens.

Até pouco tempo atrás as bolsistas sequer tinham direito à licença-maternidade caso engravidassem ao longo do curso, apenas para citar um exemplo. Sem contar os muitos “machismos” por vezes sutis que vivenciamos como por exemplo colegas homens que não fazem nenhuma tarefa em casa e, evidentemente, ganham mais tempo para produzir.  É muito comum ver, ainda hoje, uma predominância de homens como keynote speakers de grandes eventos. Sem contar alguns alunos que muitas vezes têm dificuldades maiores em aceitar uma professora- se for nova então pior –  numa sala de pós-graduação e dizem amém para qualquer coisa dita por um professor, ainda mais se ele for mais velho. Têm ainda as infames piadinhas que eu já escutei, inclusive de mulheres; como uma ex-colega que certa feita me disse que estudar cyberpunk no doutorado NÃO era uma coisa muito feminina porque afinal, ficção-científica é coisa de guri nerd; ou quando era casada e falavam sobre passar tempo demais viajando para congressos e conferências “longe do marido”, ou “como ele deixava” e uma outra que escutei certa feita numa sala dos professores que falava que a maioria das mulheres que tinham grande êxito na pesquisa era porque não tinham filhos e eram mal amadas e dai tinham tempo para publicar papers. Pasmem, eu ouvi isso uns anos atrás e da boca de mulheres!

Mas estou saindo do meu tema que era  falar um pouco sobre o trabalho de algumas  mulheres que pesquisam cibercultura/ cultura digital/ mídias digitais/ TICS, etc (evidentemente existem N discussões sobre as diferentes terminologias, vou poupar a todas e todos disso porque aqui não é o lugar rs).  A área de comunicação em geral sempre teve uma maioria numérica de mulheres, o que NÃO quer dizer que elas sejam as autoras mais citadas e/ou reconhecidas  da área.Contudo, como eu disse, isso está em franca mudança.

De qualquer forma o trabalho seminal de algumas pesquisadoras dessa área me inspirou desde o princípio, sobretudo no que tange à pesquisa empírica ou aspectos metodológicos. Trabalhos pioneiros nos anos 90 como os de Janet Murray, Nancy Baym, Sherry Turkle, Susan Herring, Cristine Hine, Katherine N. Hayles, Donna Haraway, entre tantas outras, trouxeram aspectos interessantes para todo o campo. Enquanto fazia minha tese de doutorado inclusive me deparei com autoras que tratavam do ciberfeminismo e analisavam as questões de gênero relacionadas ao corpo na Ficção-Científica. Aquele foi um momento importante na minha vida teórica que me fez compreender uma série de articulações. O hoje clássico Manifesto Cyborg escrito por Donna Haraway foi um marco justamente por propôr esse embaralhamento dos gêneros através da figura dx cyborg. Não é à toa que no anime Ghost in the Shell II tem até uma personagem em homenagem a ela, a doutora que cuida dos ciborgues e se chama Haraway. Sem contar a influência que a poeta e ensaísta feminista  Kathy Acker, falecida em 1997, teve sobre as teorias produzidas na época. O trabalho dela centrava-se muito nas questões corpo, gênero e máquinas, como no aforismo a seguir: “Literature is that which denounces and slashes apart the repressing machine at the level of the signified”. É uma pena que a maioria desses trabalhos não tenha sido traduzido para o português. Aliás até hoje a maior parte das teorias e pesquisas sobre cultura digital NÃO está traduzida para o português e isso não é prerrogativa das mulheres (é que a maior parte das teorias do campo não está traduzida mesmo), mas é uma barreira para que várias alunas (os) continuem a  desconhecer a própria história do campo. Para não ficar apenas nos anos 90, dana boyd (ela pede que escrevam o nome todo em minúsculas), Gabriela Coleman, Elisenda Ardevol, entre muitas outras têm escrito sobre temas como sites de redes sociais, hackers/ativismo digital e metodologias.

E para não dizer que falei apenas do contexto anglo-saxão – evidentemente que existem  autoras de outras nacionalidades mas selecionei aqui aquelas teorias com as quais tenho mais contato devido a minha formação – temos uma série de pesquisadoras brasileiras cujo trabalho obtêm reconhecimento nacional e internacional e que não deixam NADA a dever para as estrangeiras. Não me arrisco a fazer uma lista para não criar discórdia rs , mas não podia deixar de nominar os trabalhos das amigas e colegas Simone Pereira de Sá, Raquel Recuero, Suely Fragoso, Fatima Regis, Sandra Montardo, Gisele Beiguelman, Beth Saad e as meninas do jornalismo digital Claudia Quadros Luciana Mielniczuk, Suzana Barbosa entre tantas com as quais já tive a oportunidade de trabalhar e aprender (por favor, não me matem, é muita gente). Raquel e Sandra foram minhas grandes companheiras de mestrado e doutorado, quando tais temas ainda eram novos no Brasil e muita gente torcia o nariz para os nossos objetos de pesquisa aqui no sul do país.

É legal destacar que Suely, salvo se a memória me engana foi a primeira coordenadora do GT Cibercultura da Compós (quando ele ainda se chamava TICS – Tecnologias da Informação e Comunicação)  e que atualmente ele é coordenado pela Fernanda Bruno. Nas questões ligadas à gênero e tecnologias sempre tivemos uma série de autoras nas ciências sociais (mais recentemente, Larissa Pelucio é uma referêncial, mas há muitas outras), embora  especificamente na comunicação ainda sejam poucas. Mais recentemente o trabalho da Graciela Natahnson vem tratando do assunto. Tenho o prazer de ter orientado  duas dissertações de mestrado sobre gênero e tecnologias no ano passado e em 2014, estou orientando uma dissertação sobre mulheres gamers.

Meu objetivo nesse post era apenas citar o trabalho dessas pesquisadoras como uma espécie de tema motivador a outras mulheres. Não queria discorrer sobre a temática mulheres e tecnologias, embora essa discussão seja muito interessante,   é por demais ampla e transdisciplinar para um só post. A própria história da computação lentamente vai dando os devidos créditos a tantas pioneiras (Ada Lovelace, Hedy Lamarr, etc), mas tudo isso ainda precisa ser muito mais debatido e pesquisado. Quis aqui apenas falar do trabalho de autoras que me inspiraram e me inspiram e colegas com as quais eu tenho orgulho de ter trabalhado/trabalhar e que fazem avançar a pesquisa sobre os meios digitais.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s