Sobre os meus brasis

Depois de ler tantos discursos de ódio e manifestações vexaminosas por parte de uma parcela preconceituosa da população nos sites de redes sociais, decidi dar meus breves pitacos sobre o caso.

Nos últimos 9 anos viajei pelas 5 regiões do país por conta de eventos, palestras, bancas, etc e posso dizer que cada lugar tem peculiaridades com as quais me identifico e outras que estão bem longe de mim. Morei  5 anos em Curitiba, lugar ao qual sou grata por ter me dado ótimas oportunidades de trabalho e conhecido algumas pessoas legais, mas que NÃO É a Europa brazuca como tanto paranaense acha que é. Foi nessa cidade tb que, certa feita,  vi uma face negra do regionalismo separatista com pessoas usando camisetas de Curitiba é meu país num show de rock de uma banda local cujo vocalista dizia que a cidade estava cheia de “estrangeiros” que não contribuíam. Me retirei e continuo acreditando que é  apenas um grupo que pessoas que não representam as pessoas que me acolheram por lá. Foi lá em CWB tb que tive a oportunidade de ir em várias edições do Psycho Carnival, um dos festivais mais legais de rock do país todo e cuja proposta deixa a maioria dos eventos ditos “roqueiros” no chinelo em relação ao resto do país. Para mim, esse lado de Curitiba é mais relevante que o marketing em torno do ônibus bi-articulado.

Faz 4 anos que retornei a morar em Porto Alegre, que tem coisas boas – a Feira do Livro por ex –  mas também não é o centro do universo, por mais que a galera de CTG e a imprensa vendam a imagem de #rsmelhoremtudo . Esse bairrismo ridículo muitas vezes impede a própria cidade e o estado de saírem desse discurso umbiguista e crescerem, sem ampliar o espectro de possibilidades. O conservadorismo gaúcho me incomoda e me choca, mas por outro lado, nem tudo mundo aqui acredita nisso e conheço uma penca de pessoas que se desprenderam até bem cedo e estão pelo mundo sem grandes apegos aos pampas ou à cidade do pôr-do-sol mais lindo (hahahahhahahaha que trollagem isso minha gente!)

Em Hellcife (como meus amigos nativos me ensinaram a dizer) aprendi que Pernambuco tb tem essa megalomania da maior avenida em linha reta e da briga pela literatura pernambucana em uma estante da Livraria Cultura. Aprendi sobre a disputa carnavalesca com Salvador – embora eu mesma não ligue a mínima pra carnaval, mas gosto de saber sobre culturas –  onde sou maravilhosamente bem tratada cada vez que apareço e que encontro ótimas interlocuções. Fui algumas vezes ao centro-oeste e ao norte e de lá só trouxe ótimas lembranças de gente acolhedora e sedenta por conhecimento. Muitas vezes por conta do estereótipo reverso,  quando ainda não me conheciam,  esperavam alguém mais “branca”, mais “loira” ou mais apegada a algum tipo de tradição dos pampas e se surpreendiam quando eu falava que não sei fazer chimarrão, que não escuto música regional e que chamo pessoal pilchado de cosplay gaudério, o que não me impede de achar O tempo e o vento uma baita obra épica que me emociona.

Meus amigos cariocas me ensinaram a adorar o Rio quando eu o detestava por birra e tb tinha uma visão estereotipada, sobretudo os queridos Vinicius Andrade Pereira e Simone Pereira de Sá, que dizem que sou a gaúcha menos gaúcha que já conheceram, no sentido do desapego  ao que retruco citando meu pai “sou porto alegrense”, o que não implica em demérito do interior do Estado, apenas em que não fui criada em uma família que ligasse pra isso. Meus amigos da academia e meus amigos das trevas cariocas me ensinaram a gostar de um riiiiooodejaneirooo mais caótico e mais debochado, para além das novelas do Manoel Carlos.

E SP, esse lugar ao qual sou sempre fascinada/agradecida/feliz que me trouxe os melhores shows, as melhores festas, uma aprendizagem ampliada sobre a sociedade brasileira desde quando eu era bem jovem e pegava ônibus e fazia 18h pra chegar de POA ate SP – ou tinha que economizar horrores pra comprar uma passagem de avião –  pra ir até lá curtir a noite, fazer cursos e todas as outras coisas legais de consumo, sem falar nos amigos queridos que tenho por lá e que sempre dão um jeitinho de me encontrarem abrindo brechas em suas agendas tipicamente corridas. SP foi uma escola de entendimento de subculturas que nenhum livro poderia ter me dado e que me ensinou a enfrentar reuniões burocráticas e políticas (e a me portar nelas), vejam só, parece contraditório, mas não é. Essa SP tb me fez conhecer meu amor, um gaúcho/paulista (que assim como eu não exerce a cidadania) e  que nunca havia morado na província, mas que depois que me conheceu resolveu morar  aqui, mesmo com todo os prós e contras, que eu mesma apontei. Mas o amor está ai pra superar as crises econômicas e de identidade.

Tudo isso apenas para dizer q não existe um Brasil, existem brasis e que cada um de nós é também responsável pelas apropriações que são feitas a partir das diferentes culturas nele presentes. É justamente isso que chama atenção quando eu e outros colegas vamos em algum congresso no exterior discutir de igual para igual. Por essas e outras, coisas como separatismo, xenofobia e racismo, além de serem preconceitos e discursos de ódio, NÃO fazem o menor sentido nesse país surreal e multifacetado. Sair do senso comum e da zona de conforto é um antídoto para tentarmos nos descontaminar de vários estereótipos que estão por ai e para nos abrirmos a novas experiências e afetos.

4 comentários

  1. claudiodelima · outubro 29, 2014

    Fascinante, Adriana. É fácil falar sem conhecimento de causa, e o seu relato revela que você andou por aí, se misturou, se imiscuiu (palavrinha dana, né?) pra depois emitir opinião. Excelente “thoughts” (conforme tua categorização), compartilhe-os sempre conosco.

  2. claudiodelima · outubro 29, 2014

    A propósito, Adriana, trabalhastes com a “Raquel Recuero no livro “Redes Sociais na Web?

    • Adriamaral · novembro 12, 2014

      Sim, sou eu mesma

      • claudiodelima · novembro 12, 2014

        Muito bacana encontrar teu blog, já virei visitante assíduo e seguidor. Abraço grande e parabéns pelo teu trabalho.

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