Infest UK Festival 2015

Desculpem o atraso no post, mas uma série de eventos e o aprofundamento nas leituras fizeram com que eu não conseguisse parar para escrever sobre o Infest UK antes. O Festival era parte do meu corpus exploratório da pesquisa e foi um momento interessante de observação sem uma preocupação mais detalhada de campo, como entrevistas, ou anotações. Meus registros são mais de memória e através das fotos e vídeos que produzi.

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Não pretendo fazer aqui uma resenha, no sentido jornalístico tradicional, tampouco elocubrações teóricas (que cabem em artigos e congressos mas nem tanto no formato blog). Vou tentar relatar e descrever algumas coisas que achei interessantes e que mais adiante, certamente serão problematizadas nos meus artigos. Também me dou ao luxo de redigir de uma forma mais livre com alguns apontamentos bem pessoais, a partir de uma perspectiva insider, conforme anteriormente debatida em textos como os de Hodkinson (2005) e meu (AMARAL, 2009)

O Infest UK é um festival dedicado a gêneros da música eletrônica alternativa a.k.a. obscura como powernoise/electroindustrial /synthpop/futurepop/EBM e outros e acontece desde 1998 na University of Bradford . Recentemente a universidade apareceu em várias matérias por conta das pesquisas e descobertas sobre um sítio arqueológico maior que Stonehenge. O campus fica na cidade de Bradford, localizada a uns 20 minutos de Leeds – terra do Sisters of Mercy – no norte do país – e da mítica “Manchester” [sobre essa cidade já me detive em alguns posts no site do projeto POA Music Scenes e pretendo comentar mais adiante, pois já a visitei 3 vezes por conta da parceria com a University of Salford]. A cidade faz parte do condado de Yorkshire, cujas cercanias incluem Howarth – terra das Brontë sisters na qual rola um Festival Steampunk em novembro –  entre outras cidadezinhas interessantes. Um dos destaques da cidade é o National Media Museum, que por uma dessas coincidências estava justamente naquele mês com uma exposição bacaníssima sobre Vida Online e a história da Internet.

Meet & Greet trevoso c om Thomas Rainer, que diz estar louco para tocar no Brasil

Meet & Greet trevoso c om Thomas Rainer, que diz estar louco para tocar no Brasil

Por ser um festival de médio porte e indoors (dentro do Students Unions Building da universidade), havia a possibilidade de se hospedar dentro do campus. Na correria da mudança não consegui fazer isso com tempo hábil – as acomodações são baratas e acabaram rapidamente – e terminei reservando um hotel bem baratinho e próximo do campus (a corrida de táxi dava para o evento em torno de 8 libras ida e volta). O hotel deu o tom “true goth pobre” da viagem, com uma certa decadência trash um tanto surreal dos donos e dos outros hóspedes.

Público jogando Cards against humanity entre um show e outro

Público jogando Cards against humanity entre um show e outro

O Festival acontece sempre durante o último final de semana de Agosto, quando rola por aqui o Summer Bank Holiday, o que faz com que o último dia, o domingo seja bastante agitado. Minha atitude inicial foi ir no primeiro dia numa linha um pouco mais observadora do público, do local etc, uma vez que os principais headliners e shows que me interessavam mais aconteceriam no sábado e no domingo. Me pareceu que boa parte do público também fez isso, indo na sexta mais numa vibe “esquenta”, embora o Empirion tenha feito um bom live de encerramento numa linha bem mais techno / TBM.

Minha impressão geral, e que foi confirmada nos dias subsequentes, é que boa parte dos frequentadores já se conhecia de outras edições. Era um ambiente extremamente “familiar”. A média da idade das pessoas também está muito relacionada com o que venho pesquisando bem acima dos 40 no geral. Claro que haviam mais jovens, mas não eram a maioria. Gostei muito de ver a intensa participação feminina – o que não é tão comum na “sena” brasileira – bem como de um envolvimento da comunidade LGBT, muitas pessoas trans, muitas drags, crossdressers, entre outros.

Uma das coisas mais interessantes foi perceber que no segundo dia a audiência caprichou ainda mais no visual (“montação”) em termos de maquiagens, roupas e acessórios, novamente independente de idade, gênero, etnia. Por falar nisso, apesar dos estudos e dos dados empíricos mostrarem que essa subcultura é “eminentemente branca e classe média”, haviam várias pessoas de outras etnias. Foi muito bacana ver alguns indianos góticos, por exemplo e incorporações visuais de indígenas norte-americanos, entre outros. É bem perceptível que nos últimos anos houve uma maior inclusão nas cenas musicais.

Sonja Krausoffer e Thomas Rainer do L´Âme Immortelle

Sonja Krausoffer e Thomas Rainer do L´Âme Immortelle

mind.in.a.box in purple lights

mind.in.a.box in purple lights

Show perfeito do mind.in.a.box

Show perfeito do mind.in.a.box

Os dois headliners da noite foram duas bandas austríacas: L´Âme Immortelle e mind.in.a.box. O L´Âme Immortelle fez um show enxuto com clássicos numa vibe duetos entre Sonja e Thomas, que é a tônica da banda: bateria eletrônica, sintetizadores e vocal. Já o mind.in.a.box mostrou sua vertente quase progressiva (rock) incorporando ao trance e ao synthpop, instrumentos analógicos como guitarra, baixo e bateria analógica às batidas eletrônicas, bases pré-programadas e efeitos no vocal, além de audiovisuais que complementavam o show de quase 1h30. Uma verdadeira aula em termos de técnica e performance.

Peter Spilles (Project Pitchfork)

Peter Spilles (Project Pitchfork)

No domingo, tudo começou bem mais cedo, mas acabei visitando novamente o Museu das irmãs Brontë e cheguei direto para o show dos alemães Project Pitchfork. Sem dúvida, o show mais “punk” do festival. Energético, elétrico, showman, Peter Spilles tem carisma e anos de estrada nas costas, mas os tecladistas synthpunks não deixam nada a desejar. Todo mundo cantou, dançou, pulou e Spilles se jogou no meio do público, trocou abraços com os fãs e caminhou no meio do povo, enquanto fazia piadas e até tirava onda com o VNV Nation. Showzaço phoda dos caras que criaram o “so called” dark electro com um set list de clássicos. Para meu deleite, que assisti ao show no gargarejo, conseguimos uma baqueta e o setlist original que levaremos para casa como um belo souvenir de uma noite memorável.

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Tecladeira dark electro e bateria analógica do Project Pitchfork

E para finalizar esse relato, pegando o gancho do humor nas subculturas – que analisei no meu mais recente artigo em co-autoria com as queridas Camila Cornutti e Beatriz Polivanov –  uma das coisas de maior destaque que senti nesse festival, além do profissionalismo (mesmo se tratando de um evento alternativo e underground com pouquissimo atraso, som bem equalizado, etc) foi um tom de auto-ironia e diversão o tempo inteiro, por conta da produção, as mídias sociais do festival refletiam isso; dos fãs e participantes e até mesmo das bandas.

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Tarsis Salvatore ostentando nosso troféu: baqueta e setlist da banda alemã Project Pitchfork

Talvez por conta da idade, ninguém mais ligue em se provar e realmente queira só se divertir – embora algumas atividades políticas relacionadas a bullying, crimes de ódio e minorias tenham se feito presente em espaços de discussão que rolavam à tarde –  o que apareceu no cartaz que os organizadores levantaram após o encerramento do show do Pitchfork meio que define a vibe desses três dias: “R.I.P. Common Sense”.

Fotos por Tarsis Salvatore & Adri Amaral

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