50 dias

“Life moves pretty fast. If you don´t stop and look around once in a while you could miss it”. Essa é uma das citações mais conhecidas e paradigmáticas de Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller´s day off). Acho que de tantos filmes da minha geração, essa frase faz mais sentido a cada ano que passa, a cada aniversário que comemoro, a cada data em que observo essa passagem irreversível do tempo. Faz pouco mais de 50 dias que iniciei o período sabbathical bloody sabbathical aqui no Reino Unido e ainda não havia conseguido respirar e dar essa parada pra olhar ao redor.

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Morar em outro país, mesmo em um período de tempo não tão grande é sempre uma experiência formativa. No meu caso, sempre tive um enorme apreço pelas ilhas, sobretudo pela literatura e pela música alternativa que consumi em exaustão durante minha adolescência. Pois é, quem diria que todas aquelas horas na biblioteca lendo clássicos tipo Dickens, Austen, Byron, Wilde, irmãs Brontë, entre outros, enquanto meus colegas iam pras emocionantes e maravilhosas praias do Rio Grande do Sul em suas tchurminhas [insira aqui toda ironia possível]  me ajudariam a compreender ao menos em parte o ethos identitário brit e fizesse com que desde aquela época eu já tivesse uma certa afeição por tudo que diz respeito ao país. Depois disso, já estive aqui diversas vezes por conta de projetos de pesquisa, congressos e passeios, então sinto uma certa familiaridade mesmo que à distância.

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Foto do Tarsis Salvatore

Assim, sou uma estrangeira mas com vislumbres insiders. E a ideia de pesquisar aqui não é e nunca foi de subserviência, deslumbramento ou sobre “ser colonizada”, hashtag com a qual eu gosto de tirar sarro com quem não entende meu apreço por certos britanismos. Estou aqui aberta ao diálogo, lendo e observando coisas novas aqui produzidas, no entanto também trazendo articulações do que fazemos no Brasil, que em muitos casos não deixa nada a dever. Nos falta grana e possibilidades devido a diferenças econômicas, políticas etc, mas o diálogo é de igual para igual. Essa postura foi a mesma que adotei durante meu estágio de doutorado nos EUA e que adoto em qualquer congresso internacional.

O mais engraçado é que eu sofri mais bullying – não que hoje em dia ligue a mínima – em relação a temas ou objetos de pesquisa no Brasil – sobretudo durante meu doutorado por inumeros colegas – do que jamais sofri aqui. As humanas e sociais no Brasil em geral – e a comunicação também tem uma excessiva – ao meu ver que sou bem biased – subserviência a tudo que é teoria abstrata e parece distante da realidade. Parece que para passar no teste de “ser de humanas e fazer miçangas” é preciso ainda passar um “ar de olhem como estou distante do mundo e dos objetos e sou um autor complexo”,  independente do estado da arte da pesquisa, independente do que outras pessoas sejam latinos, sejam de quaisquer origem já escreveram. Ai você é considerado um super mega power über teórico, senão você é só um “pesquisador dos objetos”. Bem vindos ao meu clube, o clube dos mundanos, o clube dos que vivem os temas, o clube dos “não sou um intelectual, faço minhas pesquisas sobre os fenômenos que me mobilizam e me afetam”! Eu não sigo “linha teórica”, eu não sigo “autor”, eu me aproprio, eu remixo, eu dialogo, eu extraio tour de forces dos conceitos e os aplico a partir de dados e das minhas inferências e interpretações. Enfim, eu não divido as pesquisas por países ou por teoria X empiria, eu leio o que é pertinente aos meus temas e questões. Mas estou digredindo e esse é um outro assunto. É um problema da academia que muitas vezes se acha tão distante da moda, do mercado e do marketing, mas acaba sucumbindo aquilo mesmo que ela adora criticar,  e elegendo certos “best sellers”. Diga-se de passagem esse não é só um problema brasileiro, é um problema de todos os lugares, mas as vezes é mais opressivo no Brasil. Gente que lê apenas o autor da moda, gente que não cita trabalhos nacionais, gente que não dialoga com o que já foi escrito antes… enfim mas voltemos a vida aqui.

Por essas e outras eu tinha alguns planos em mente quando comecei a planejar esse sabático, ou eu retornaria aos EUA – mas iria para outra cidade –  ou viria para UK, mas como meus trabalhos nos últimos anos, sobretudo o que está relacionado à subculturas, fãs e metodologias tem um diálogo forte com as pesquisas daqui, optei por vir para a Inglaterra. O mais engraçado disso é que depois de tantas visitas ao norte, acabei morando no sul. Para quem não conhece, essas diferenças são muito mais do que meramente geográficas, são diferenças conceituais, de estilo de vida e que vem demarcadas naquilo que se faz mais vivo: o sotaque. Como dica, vale assistir a minissérie da BBC North & South que mostra essas diferenças na era vitoriana. São 4 episódios baseados no livro de mesmo nome da autora Elizabeth Gaskell.

A primeira vez em que estive no norte, mais especificamente em Manchester, em 2012, passei 15 minutos ouvindo um escocês e um mancunian falando em um pub quase bêbados sem entender praticamente nada. Era como se tivesse caído em outro planeta. Eu que me considerava boa em listening flopei miseravelmente rs. Com o tempo e as vindas fui me acostumando ao sotaque duro, aos tons mais altos ao R (érre) carregado que contém a história dessa gente de fibra, gente que trabalhou e lutou durante a revolução industrial, gente que criou o pós-punk e tudo mais. O sotaque do norte me lembra dois sotaques brasileiros: o do interior do RS, bem da fronteira; e do interior de SP com aquela abertura nos sons. Outra feita, em 2013, quando já estava acostumada ao “mancunian accent” passei um tempo debatendo com um vendedor de Liverpool, tentando entender e fruir aquela sonoridade que me soava cantada com os Beatles, cantada como Echo & The Bunnymen. Ou seria fruto do imaginário coletivo e de tanta música que ouvi na vida? Não sei dizer, mas foi divertido ouvir opiniões sobre Neymar e sobre o Brasil, uma percepção em que ele dizia ser “funky”, sim, somos funky porque precisamos sobreviver em uma instabilidade e isso nos dá um tipo de criatividade por um lado e por outro nos atrapalha.

Na minha recente viagem a Leeds e Bradford em agosto continuei observando os sotaques do norte, esse também diferentes do sotaque de Liverpool e de Manchester. Em Leeds , minha breve percepção me pareceu que o sotaque é um nortenho mais arrastado, mais lento e metálico como de Andrew Eldritch? Não sei, é dificil nao ser biased. E Bradford estava cheia de sotaques nativos e não nativos porque o povo que convivi no festival era cada um de canto, seja de UK ou de fora. No geral, fomos muito bem tratados no festival e eu realmente me senti parte de uma “comunidade de sentimentos” e afetos como fala o Benedict Anderson.

E ai me encontro aqui no sul, e os sotaques em geral são mais amenos, por vezes mais rápidos. Em Guildford e região tende a um inglês mais “padronizado”, ao menos no que tange os colegas de universidade – se bem que muitos deles não são dali. Londres não conta pq são tantos e inúmeros (ainda mais considerando os non native speakers como eu mesma por exemplo) que acho que nem uma vida toda daria conta desse mapeamento. Isso que nem estou fazendo aqui as demarcações sobre classe, que é todo um outro ponto, mas enfim, a língua e os sotaques são nossas mediações primeiras e principais com a cultura, isso não é novidade. Mas é bom poder perceber isso em outro país, observando e vivendo o cotidiano das inflexões, das dificuldades de comunicação quando por exemplo ontem no supermercado eu levei uns 5 segundos pra compreender uma piada/elogio do caixa indiano sobre a minha idade para estar comprando vinho.

Além desse fator, gostaria de destacar meu bom apreço à cultura dos parques, aos shows alternativos por um preço pagável (ainda tenho que fazer um post sobre o Electro London Festival) e das bibliotecas, extremamente fáceis de serem utilizadas e voltadas à comunidade. No meu bairro por exemplo, há todo um foco em autores e autoras negras e árabes. Na próximo mês vai ter toda uma programação sobre a questão dos escravos e pretendo assistir a um painel sobre negros na era vitoriana. Sim, quem me conhece sabe do meu apreço por essa era. Sem contar os cheiros de restaurantes mexicanos, árabes, portugueses, chineses, tailandeses, indianos, etc etc. Afinal, somos todos migrantes, somos todos de fora e estamos todos aqui. É tão fácil de compreender.

Sobre a pesquisa em si, estou me dando ao luxo de ler muita coisa mesmo e me deixar por ora um pouco sem um corpus definido e recortado. Exatamente o oposto do que venho fazendo nos últimos anos. Uma espécie de retorno  a um flanar pelos textos e livros. Obviamente que ja estou recolhendo alguns materiais empíricos, mas não quero me adentrar nessas questões agora.

Em Outubro tenho uma nova inserção de campo no Halloween do Whitby Gothic Weekend, antes disso tem um evento sobre Lovecraft em Manchester e em Novembro tenho duas palestras para dar uma na University of Surrey no seminário dos mestrandos e dos pesquisadores e uma na University of Salford em Manchester. Dezembro tem o grande evento sobre Ada Lovelace totalmente interdisciplinar em Oxford, que vou apenas assistir porque o prazo para envio ja havia encerrado, mas ha toda uma track sobre steampunk que creio será bem interessante.

E last but not least, hoje o Depto de Sociologia de Surrey ao qual estou vinculada como pesquisadora visitante recebeu a notícia de que a universidade como um todo está em primeiro no ranking do Guardian das 10 melhores universidades e o depto de sociologia aparece em terceiro lugar, ficando atrás de Cambridge e Bath. Como escrevi hoje no Facebook, sabemos que esses rankings são sempre complicados e discutíveis, mas são indicadores de percepção, no mínimo. Very proud! I couldn´t have made a better choice. E a vida segue em seu ritmo acelerado, e por hoje consegui pausar um pouquinho pra olhar o entorno.

2 comentários

  1. gabi · setembro 25, 2015

    🙂 Às vezes o que nos falta é olhar o entorno mesmo. You should be really proud about your choice🙂 Adorei o post!
    Beijo
    Gabi

  2. Sick Mind · setembro 25, 2015

    Sobre essa visão acadêmica, apesar da área de exatas não sofrer desse preconceito que a área de humanas passa, ainda assim, há muitos obstáculos no Brasil para quem pretende ser pesquisador. Principalmente para a área industrial, que simplesmente “morreu” nos últimos anos. Mas continue pesquisando, e também postando aqui!

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