Coisas das quais não falamos

lauriepenny1996: Uma garota de quase 21 anos tem uma longa DR com um namorado afetadíssimo que questionava sua sanidade mental a cada pergunta complexa elaborada por ela ou a cada elogio que ela ganhava por conta dos textos que escrevia. Ela entra em um estado de raiva tão grande que quebra uma porta inteira de madeira com os mãos e arranca o carpete do seu próprio quarto. Como punição, o pai da garota a coloca embaixo do chuveiro, água gelada escorrendo sob o jeans e a camisa de flanela no frio outono sulista.

2002: A garota agora tem 27 anos e após a perda de mais um emprego e da dissolução de um noivado no qual era acusada pelo noivo (um rapaz de esquerda dedicado às causas sociais) de “só se preocupar com a carreira” e “só ter amigos homens”, ela retorna novamente à casa dos pais. Sem dinheiro, sem trabalho e com uma dissertação de mestrado por terminar, a garota fica em estado depressivo e catatônico sem falar ou comer por dias. Os pais a colocam dentro do carro e a levam para uma clínica psiquiátrica. É atendida por um ex-colega do primeiro grau. Mal consegue olhar pro carimbo da receita do remédio.

2013: A mulher de 38 anos está em seu escritório num apartamento de classe média quando escuta o barulho da chave e uma porta abrindo. O ex-marido que não aceita a separação pedida alguns meses antes, a questiona por satisfações sobre tudo. Após uma troca de ofensas, ela enxerga o notebook voar ao chão e sente um aperto de uma mão no pescoço. Por alguns segundos o ar some e ela acredita que vai morrer.

Ao ler o livro da jornalista e ativista Laurie Penny, Unspeakable Things: Sex, Lies and Revolution (ed. Bloomsbury, 2014) me vieram à mente algumas, entre as tantas situações abusivas como essas acima. Elas poderiam ter acontecido com você leitora, com suas amigas, filhas, irmãs, primas, vizinhas, mas aconteceram comigo. São coisas sobre as quais em geral não falamos/escrevemos, em geral contamos a alguém mais chegado ou, no meu caso, vomitamos tudo para fora em horas e horas de terapia. Apaguei e reescrevi pelo menos seis vezes tais parágrafos, pensando se devia ou não escrever, se valia me expôr (sou uma pessoa reservada, embora muitas pessoas não pareçam acreditar nisso) , mas diante de todo retrocesso político que estamos vivenciando no Brasil em relação aos direitos das mulheres, achei que escrever essas linhas poderia ao menos servir de exemplo empírico e vivenciado na carne por alguém que aparentemente tem uma vida tranquila e “privilegiada”, como já escutei certas vezes por ai. Pausa para um sorriso estilo Joker.

E é sobre essas coisas que não se falam, que Laurie escreve. Em uma mistura de relatos, experiências e dados, a autora aponta porque questões de gênero estão no cerne da maioria dos problemas identitários e afetam a todas e todos em um amplo espectro de desesperos e subjetividades. Sua internação em uma clínica por conta de “transtornos alimentares” aos 17 anos é um ponto de virada emblemático. Gostei muito do relato dela como “freak” se colocando ao lado das “mulheres perfeitas e inatingíveis” que ela também julgava e que lá estavam com seus problemas. Suas andanças como jornalista e ativista pelo mundo trazem relatos sensíveis em que, apesar das subjetividades expostas à mesa, Laurie trata sobre micro-políticas e inclusividades e em nenhum momento se vitimiza. E é exatamente esse o ponto que mais me chamou atenção no seu discurso, mesmo que em alguns momentos o livro resvale para um estilo “manifesto”, sua escrita incisiva e bem argumentada é de inclusão e aponta diversas contradições que os movimentos feministas encaram no século XXI.Não é um livro teórico, embora ela comente diversas correntes do feminismo e suas autoras. Também não é um livro leve, embora eu tenha devorado praticamente todo em um dia, uma vez que o texto dela é bastante sedutor, mas ao mesmo tempo soco no estômago.

Acredito que a maior contribuição do livro seja justamente articular as instâncias das subjetividades de acontecimentos cotidianos da vida da autora (e que se relacionam com a vida de muitas mulheres) com questões estruturais (não gosto dessa palavra por parecer estar relacionada ao estruturalismo, mas ok por hora) de como nossas identidades de gênero podem ser problematizadas, performatizadas, construídas e desconstruídas de forma brutal na atualidade em um sistema que afeta indistintamente. embora claro, as mulheres sejam o ponto de partida dela por motivos óbvios. Enfim, leitura altamente recomendável, por não trazer respostas prontas e levantar várias perguntas, não impor regras sobre “como o feminismo é ou deveria ser”, e por não fazer olimpíada de vitimização, afinal estamos todos nesse grande naufrágio chamado sociedade – perdoem-me por meu niilismo. Nem por isso, ela deixa de mencionar que evidentemente ha mais e menos privilegiados e que há formas de repararmos isso.

Sim, como praticamente todas as mulheres, eu já vivi abusos e, não, não preciso fazer disso uma raiva que me queima e me destrói até me afastar de todos, mas consigo em um exercício de projeção compreender porque isso pode acontecer. Também não me vejo gritando, empunhando bandeiras. Aprendi com a literatura cyberpunk a corromper o “sistema por dentro dele próprio”. Nisso tenho minhas divergências com a autora que enxerga o revolucionário ainda de uma forma um tanto romantizada – talvez seja algo de uma juventude que eu já não tenho, fica a hipótese. Celebro minhas pequenas vitórias nos espaços que conquistei a duras penas e faço minha parte da mesma forma que exerço minha empatia e caridade – em um aprendizado constante – sem grandes alardes, sou lowprofile demais. Ao mesmo tempo, ainda acredito que é preciso utilizar os instrumentos jurídicos/legais (por mais lentos e aparentemente inacessíveis que eles sejam) e foi o que eu fiz em alguns casos. Em outros, me divirto em saber que minha vida é/está muito mais interessante do que desses babacas que me atormentaram e que dessas atitudes converti ainda mais meus interesses e focos tentando não me envenenar.

Quanto aos porquês nos submetermos em alguns momentos da vida e calarmos frente aos abusos, é toda uma teorização psicanalítica sobre a qual não vou e nem me sinto à vontade para falar, não é meu campo, mas me solidarizo pelo entendimento da dificuldade de nos enxergamos como somos, o que queremos, o que desejamos e do quão complexa e variável é nossa auto-estima. Como disse Chris Corner na letra de Oh Cruel Darkness :“Everybody loves to judge, everybody thinks they´re clean”. Se é que podemos tirar uma lição do livro é essa, ainda precisamos refletir e avançar muito para nos libertarmos e que até mesmo nos estereótipos – tão duramente criticados – encontramos pontos de fuga e conexões para além da nossa própria pele.

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