Dave Gahan & Soulsavers at O2 Shepherd´s Bush, Londres 26.10

frenteshow

Emoção começou com essa fachada maravilhosa

SPOILERS: Esse não é um post jornalístico, não é um post de análise acadêmica, é um post de fã [em geral eu não gosto de separar instâncias mas nesse caso acho importante delimitar o local de onde parte esse texto].

… Então que eu já vinha acompanhando as entrevistas prévias ao lançamento de Angels & Ghosts, álbum novo de Dave Gahan (caso alguém não conheça – HELLO -, o vocalista do Depeche Mode) e a banda de soul inglesa Soulsavers. Quando saiu a entrevista há mais de um mês, anunciando as pouquíssimas datas em que eles tocariam ao vivo e vi que havia uma data em Londres (no dia 26 de Outubro), fiquei animadíssima. Gosto de algumas coisas do trabalho solo de Gahan e mesmo não sendo DM eu queria muito ver ao vivo. No entanto, a vida não é fácil e eu estava com a grana apertada e já comprometida para as coisas do dia-a-dia. O IOF do cartão tá alto, a libra altíssima e fiquei me enrolando pra comprar o ingresso ao esperar a fatura do cartão virar #classemediasofre #firstworldproblems.

gahan

Cartazes anunciando o show na esquina de casa. Tormento para uma fã sem dinheiro. Bolsa fã pfvr!

Na rua em que eu moro e no caminho que faço até a biblioteca e o supermercado tinham pelo menos uns 5 cartazes anunciando o show. Todos os dias eu olhava e ficava me corroendo e odiando o fato de ser uma adulta responsável. Quando finalmente eu tive como comprar, entro no site e dou de cara com um SOLD OUT em cor laranja, jogando e piscando na minha cara o meu papel de trouxa.

De qualquer forma, meu raciocínio foi o seguinte, vou lá pra frente do lugar, nem que seja pra stalkear DG e pra tentar achar um ingresso de algum desistente, pois descobri que aqui em Londres as venues tem um sistema de que se vc chega um pouco antes, eles monitoram se tem algum ingresso sobrando e talvez com alguma sorte vc consiga. Quando o dia 26 chegou, eu fui bem de boas (mesmo estando nervosa, coisas de fã) até o teatro. A primeira coisa é que não tinha me dado conta de que era um teatro e pelo seu tamanho eu veria o Gahan de muito mais perto do que veria numa arena do DM, o que também significava um show mais intimista. Cheguei com 2h de antecedência e já tinha uma pequena fila na porta formada por muitas pessoas na faixa dos 30-40 vestidas de preto, entre elas muitos “clones” de DG em suas diferentes fases (DG classico do inicio do synth, DG atual, DG com coroa de rei de Enjoy the silence, DG grunge, etc). Essa fanbase hardcore se auto-intitula Devotee e/ou Black Swarm. Vamos combinar que são termos bem mais interessantes e líricos do que Belibers ou Selenatics rs mas de qualquer forma fã é fã e alguns comportamentos se assemelham. Vocês podem ler esse ótimo relato de um Black Swarm de 44 anos, comprovando que ser fã NÃO é algo relacionado APENAS com idade ou com gênero ou com quaisquer estereótipos com os quais a mídia e os jornalistas habitualmente tratam quem é fã.

Um parêntese: é exatamente por esse e alguns outros motivos que eu tenho várias críticas a essas divisões geracionais em relacionadas a usos e apropriações de tecnologias por exemplo, e também porque acho que os termos juventude e culturas juvenis precisam ser problematizados. Prefiro acreditar em comportamentos e em outras relações que não meramente uma faixa etária.

Mas voltando a ser fã do DM, acredito que essa quote resume um pouco disso:

“People who know of the band, but are not fans often say their music is gloomy or call them Depressed Mode; I have yet to find a fan who will agree with this. Martin says he finds the music optimistic and so do I. Depeche Mode is a band which made its name making songs about pain and suffering, love and redemption, and sin and salvation. They are of their time, but are also of Victorian England. They may hurt, but they never give up hope and the suffering of this pain leads to their salvation, and ours as listeners.”

Felicidade após conseguir meu ingresso.

Nisso, me dirigi até a bilheteria e perguntei se havia algum ingresso disponível. A atendente me pediu um minuto, olhou o sistema e confirmou que havia UM ÚNICO INGRESSO, que era primeiro anel, sentado, não era dos lugares mais próximos, mas enfim era o último até aquele momento (dai porque minhas fotos não estão lá grande coisa). Nem acreditei e comprei meu ingresso pulando de felicidade genuína de fã. Claro que haviam os cambistas, mas há sempre o risco dos ingressos serem falsos e eu não queria perder 35 libras.

stagedoor

Com meu ingresso bem guardado na carteira, fui comer algo pq depois ficaria muito tarde e voltei à fila. Fiquei um tempo perto da stage door e comecei a ver uma movimentação intensa. Nisso, vejo um cara que me parece conhecido tranquilamente fumando e um outro que reconheço ser o Rich Machin, guitarrista e produtor do Soulsavers. Eu olho pra ele, ele me olha de volta, eu sorrio mas não consigo ir lá incomodar o cara no seu momento pré-show.Fico com uma pulga atrás da orelha porque sei quem é o outro cara, mas minha mente está falhando por puro nervosismo. Ser fã é sofrer e ser feliz ao mesmo tempo. Na minha frente uma família de poloneses que viajaram apenas para ver o show: pai, mãe e duas crianças pequenas todas devidamente paramentadas com camisas do DM. Entro no teatro eduardiano lindíssimo e procuro um lugar. Não tem lugar marcado, então tentei me posicionar em um lugar mais ou menos central em que eu pudesse estar de frente pro muso Dave.

Após essa maratona consigo relaxar e deixo meu casaco marcando o lugar no teatro e vou até o bar para pegar uma cerveja, afinal, as portas abriram às 19h, mas o show começará as 20h. Chego no bar e entro na fila para um pint. Viro para o lado e vejo algumas pessoas com credenciais, mas numa mirada mais atenta vejo Andrew Fletcher. Puta que pariu é o Fletcher, do Depeche. Que merda que não é o Martin Gore! Se fosse o Martin acho que eu iria até ali falar. O dificil de ver pessoas que só vimos midiaticamente ao longo dos anos, em fotos, vídeos, etc é que quando as vemos ficamos em dúvida. Nisso, chega um outro clone de Gahan. Fico na dúvida se não seria o próprio, mas não, ele deve estar se preparando para o show. Mas revejo o cara que estava na rua e ai sim reconheço Flood, o produtor. Todo mundo ali de boas tomando sua ceva e eu tão nervosa de ver essas lendas que em vez de pedir uma ceva peço um Jack Daniels rs. Sinto muito que minha amiga Rosana Souza não estivesse lá pra traçarmos um plano de stalkerismo, mas estou informando a tudo por mensagens. Obrigada tecnologias por existirem e conectarem os fãs.Sim, a pessoa voltou a ter 14 anos de idade. Olho a hora no celular e vejo que já vai começar o show e decido retornar ao meu lugar. Na saída, dou de cara com um tiozinho careca, gordinho de óculos. Meu cérebro de fã leva 02 segundos pra processar e me informa que é o produtor Daniel Miller, co-fundador do selo Mute e produtor entre outros de Cabaret Voltaire e do próprio DM em algumas faixas clássicas. Uma lenda para quem é fã de música eletrônica alternativa. Ele me pede licença e nisso um rapaz com uma camiseta preta do DM solicita uma foto com ele que prontamente atende.

All of this and nothing

All of this and nothing

Retorno ao meu lugar e quando Fletcher, Miller e Flood chegam aos seus assentos reservados, os fãs começam a aplaudir com entusiasmo. Fã que é fã reconhece produtor até rs. Mesmo que saibamos que Fletcher não faz nada de muito importante no DM ele está lá rs. Sim, nós fãs também criticamos. Não somos acerebrados como muitos nos rotulam.  Sobre o show em si, o que posso dizer é que Dave Gahan & Soulsavers é um show de rock classico, soul e blues com algumas tonalidades darks. Por mais demarcada que seja a voz de Dave ele consegui nessa parceria fazer algo distinto do DM. Não há ênfase nos synths, embora o teclado esteja presente. O álbum Angels & Ghosts é tocado quase na íntegra com destaque para “All of this and nothing” e a banda é muito competente com 2 baixistas, 2 guitarristas, 1 baterista e 3 backing vocals (2 moças e um rapaz). É um show bem mais intimista do que um show do DM, embora Gahan conduza tudo como uma espécie de crooner sessentista rockabilly lusho glam. Acredito até que o show funcione melhor do que o álbum para os fãs de DM e do trabalho solo de Gahan, que compareceu com as faixas Kingdom, Deeper and Deeper e Dirty Sticky Floor (numa versão disco rock).

O carisma de Gahan contudo se sobressai ao resto da banda, até pelo domínio de palco de tantos anos de estrada. As/Os/Xs Gahanzetes tudo pira nas dancinhas (“Dave I love you, ecoam gritos em certos momentos) e infelizmente ele não tirou a camisa para exibir suas tatoos celtas, coisa que faz nos shows do DM. Para encerrar, a seqüência de “Condemnation” e “Walking in my shoes” (músicas que devem ser tocadas no meu velório) levanta o público que canta as letras com toda a intensidade que elas pedem num coro quase gospel dark.

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Thank you for the black celebration Dave!

Ao término do show, estou feliz e de alma lavada. Ainda tento, com alguns outros fãs dar mais uma espiada na stage door. Contudo estou em desvantagem, uma vez que o povo aqui é muito alto. Eis que nisso passa uma van e la se vai DG abanando para todos nós da janela. Fico ali parada alguns minutos, mas logo lembro que preciso pegar o overground pra retornar pra casa. As imagens e o sons não saem da minha cabeça. Ser fã é rever tudo de novo durante algumas horas. Não foi o melhor show da minha vida, mas foi emocionante demais ver Gahan mesmo que solo num lugar tão pequeno, uma “tensão frágil”. Coisas da zooropa. Coisas de fã, puro amor livre: “No hidden catch, no strings attached, just free love”

1 comentário

  1. Sick Mind · novembro 5, 2015

    Caramba, que baita oportunidade poder presenciar um show desses, aqui no Brasil nem tão cedo…

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