I’m feeling capable of saying it’s over

Stay where you are
Ever, after
Chasing things that we should run from

Tinha programado tudo para escrever um texto bem bacana falando sobre a finalização do período sabático, contando algumas coisas da pesquisa e do quão enriquecedora foi essa experiência de pouco mais de um semestre morando no meu país favorito (sorry Brazyu, eu te amo, mas nossa relação é de outra ordem). Foi – e ainda está sendo – muito difícil me despedir dessas ilhas que eu amo. No meio disso, tive uma série de questões pessoais pra resolver, uma palestra para dar no Centro de Estudos Góticos da Manchester Metropolitan University e claro, organizar o retorno ao Brasil.

20150909_165954 (2).jpg

Enquanto eu ruminava o post na minha cabeça, na véspera da minha viagem para Porto Alegre, recebi um email que me comoveu muito. Não vou citar o nome da pessoa, nem trechos do email pois não seria ético – uma vez que não pedi permissão para isso e nem quero transformar tudo em algo que as pessoas possam chamar de marketing pessoal rs. Não é o objetivo do texto. Bom, nessa mensagem, uma moça com quem tenho muito pouco contato, não é minha amiga próxima e nem mora onde eu moro, me escreveu agradecendo pela ajuda indireta que eu dei a ela em 2015. Ela me contava muito por alto alguns problemas que ela tinha enfrentado e como as minhas palavras haviam sido importantes.

Will we ever get away from this place
It’s an image that’s burned on my chest
For a moment you need me to stay
Cold blooded and drifting away

Fiquei num misto de chocada e emocionada. Primeiro porque achei que o conteúdo seria algo a ver com a Academia. Normalmente as pessoas que não conheço tendem a me agradecer pelas minhas pesquisas, pelos meus artigos, etc. Mas não era nada disso. Ela me agradecia por postagens no blog, Twitter e FB, sobretudo algumas postagens bem pessoais, “gente como a gente”, que a tinham ajudado a superar uma série de problemas por compartilhar uma visão de mundo similar, de alguma forma. Fiquei emocionada porque não imaginei que poderia ajudar alguém dessa forma, sobretudo alguém com questões da ordem do feminino, que apesar de tantas discussões online, a meu ver, tem me parecido – serem abordadas por muitas e muitos de uma forma um tanto mascarada e moralista e que no discurso é inclusiva, mas na prática é perniciosa e tenta apagar as contradições e sofrimentos das condições de quem não se enquadra exatamente na olimpíada de sofrimentos, privilégios e traumas, que tem até uma ordem discursiva pré-pronta pra cada caixinha em vez de ser pensada mais subjetivamente. Mas esse é todo um outro tema que retomo outro dia.

20151203_153652

O fato é que ter ficado esses meses afastada me fez ter algumas outras perspectivas sobre mim. Sempre me achei alguém muito diferente da minha mãe, que era o tipo de pessoa que  ajudava todo mundo, muitas vezes se colocando em último lugar (e claro, como boa virginiana ela fazia aquele drama básico em cima disso rs). Sempre fui auto-centrada, focada no meu mundo, hedonista e algumas vezes erroneamente chamada de “egocêntrica”. No último episódio em que ouvi esse tipo de coisa cheguei a me afetar e isso quase estragou uma parte da minha viagem. Nunca curti/acreditei nessa vibe “altruísmo desprendido” que muita gente vende como branding de si mesmo. Também não curto quem se afunda numa só causa e fica obsessiva e compulsivamente falando nisso feito “seita” querendo converter a todos, mesmo que tenha uma boa finalidade. Conhecem o ditado né? De boas intenções o inferno está cheio.

I’m feeling capable of
Seeing the end

I’m feeling capable of
Saying it’s over

No fim das contas, acho que esse ano estou tendendo a acreditar no que algumas pessoas têm me falado, eu realmente consigo ajudar os outros, da minha maneira, numa espécie de transparência às avessas. Sou reservada, tendo  falar muito pouco de assuntos pessoais (ao menos não de uma forma muito direta) mas já percebi que quando falo, quando exponho, dificuldades e contradições isso, de alguma forma ajuda as pessoas. Eu sempre acho que isso é bem óbvio, que fazemos 50 coisas, 49 dão errado e apenas uma dá certo. No entanto, a maioria tende a enxergar e martelar apenas nesse 1. E ai surgem certas frases carregadas de ressentimentos como”Fulano consegue isso”, “Beltrana tem sorte”, “Tudo que Sicrana faz dá certo”. Não, não é assim. É sofrido para todo mundo. Tem sempre uma centena de obstáculos e depende apenas da gente decidir como vamos encarar isso: se vamos dançar com a parede e tirar sarro da gente mesmo, aprendendo a observar quando encerrar e quando continuar determinadas coisas; ou se vamos nos entregar ao meme da diferentona “só eu que não consigo”, “só eu que não supero”, “só comigo que as coisas não dão certo”. Não estou dizendo aqui que tudo se resolve com “força de vontade”, pelo contrário, existem doenças que nos impedem de produzir e de ser, como a depressão ou síndrome de pânico por exemplo. Eu mesma tenho meus transtornos e cuido deles com terapia, mas também com amigos e com minhas reflexões internas. Tem dias melhores, tem dias piores.

20151003_172226

Creio que finalmente posso encerrar mais uma etapa. Não acredito em mais ninguém que queira me ofender e minar minha auto-estima utilizando a palavra “egoísmo” ou “egocentrismo” em função do jeito como levo minha vida e de algumas escolhas que fiz. Sim, eu tenho algo da minha mãe e sou capaz de ajudar aos outros, do meu jeito meio estranho. E agradeço imensamente às pessoas que me ajudaram a perceber que esse estereótipo não me cabia, algumas amigas (vocês sabem quem são) e a essa moça que me escreveu de forma tão delicada. Você também me ajudou. Obrigada por me fazer ver o fim de uma auto-imagem que não correspondia à realidade. Já sou capaz de ver novos começos nessa correnteza.

np: Chvrches – Tether

2 comentários

  1. Aline Andrade Pereira · fevereiro 19

    Bem legal!. Achei que fosse eu, no início. Rsrsrs…

    • Adriamaral · março 19

      hahahahahha

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s