Sobre desapontamentos & fracassos

Minhas últimas semanas foram algumas das mais difíceis dos últimos seis anos, perdendo apenas para quando meu pai e minha mãe faleceram. Quem convive com os ciclos de um transtorno de humor sabe muito bem que pode passar anos, mas um belo dia a crise volta a dar as caras. Ao longo do tempo a gente aprende – ou pelo menos tenta – evitar, já conhece alguns dos gatilhos, vai percebendo os caminhos que funcionam ou não. No entanto, nunca temos uma certeza se vamos conseguir nos manter no trilho da estabilidade/sanidade.

Did I disappoint you?
Did I let you down?
Did I stand on the shore
And watch you as you drowned?
Can you forgive me?
I never knew
The pain you carried
Deep inside of you.

E eis que nesses últimos dias estou tentando digerir um fracasso daqueles retumbantes, uma frustração gigantesca, uma derrota sem precedentes na minha vida ordinária. Não que eu tenha tido vitórias épicas, grandes prêmios ou algo digno de sei lá, uma olimpíada. Porém, na medida do possível, tento me organizar, tento planejar e sei la, boa parte das coisas andam a partir do momento em que eu mobilizo uma energia para aquela tarefa ou ao menos assim eu acreditava. De maneira geral tinha dado certo, até o presente momento. Em geral, nunca vemos as pessoas falando dos momentos em que falharam. A narrativa do sucesso é muito mais sedutora.

You only see what your eyes want to see
How can life be what you want it to be
You’re frozen
When your heart’s not open

O primeiro passo da dificuldade é admitir e aceitar que aquilo que você investiu todo um aparato emocional simplesmente não vai acontecer. Na teoria até parece fácil, você respira, inspira, deixa o tempo passar e mais umas outras técnicas ai. Na prática, a vontade é se enfiar embaixo das cobertas e não sair de la até a dor desaparecer. Só que o trabalho, as contas pra pagar, e tudo mais na vida não te permitem fazer isso. O máximo que você consegue é ficar ainda pior.

You’re so consumed with how much you get
You waste your time with hate and regret
You’re broken
When your heart’s not open

Ai você nem conseguiu superar ainda a primeira etapa e já começam as auto-cobranças do tipo: Por que eu fiz assim e não assado? Como foi que eu cheguei a isso?  Se eu tivesse escolhido A em vez de B, teria dado certo? Fulano consegue, por que não eu? São tantas as variáveis que você vai se sentindo soterrada e tudo em volta fica ainda pior. Raiva, arrependimento e um monte de incertezas começam a te tirar do chão e a te fazer acreditar que você não tem capacidade ou, nesse caso específico que nenhuma das suas capacidades é boa o suficiente pra te tirar dessa enrascada na qual você mesma se colocou. Me sinto afundando e preciso continuar a sorrir e a agir naturalmente.

I can’t forget
Having to see
The words that knocked the wind
Right out of me
It’s not enough
I’ve come undone
Trying to find sense
Where there is none

E ai depois de muitos dias ruminando e sofrendo muito – incluindo um dia que eu sempre gosto muito de celebrar e que mal tinha forças pra sair da cama, o meu aniversário – decidi voltar algumas casas no jogo. [Além da melancolia natural e de enfrentar o fato de estar fazendo 41 anos assim, num piscar de olhos, juro, eu nunca me senti com essa idade. Sempre me senti ageless.] Falar da perda é vivê-la novamente, mas também  o único jeito de expurgar o que já estava escrito e eu não quis ver.

I have a tale to tell
Sometimes it gets so hard to hide it well
I was not ready for the fall
Too blind to see the writing on the wall

Decidi pela primeira vez de forma consciente desistir de algo que eu queria muito e assumir que sim, eu fracassei e não vou mais insistir em tentar ir adiante com algo que só está me causando dor. Algo que não está nas minhas mãos nesse momento. Estou triste e desapontada comigo mesmo e com um conjunto de circunstâncias que de uma forma ou de outra me constituíram. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”, aquela frase bem clichezona do Ortega Y Gasset. Mas é isso, acho que assumir que falhei já é um bom começo. É como eu posso tentar lidar com esse desgaste por hora. Infelizmente precisei sair de um impasse com uma escolha que é a menos pior. Não é o que eu desejava, não é o que eu queria ou como eu queria mas é como a vida me impôs e não há nada que eu possa fazer a não ser aceitar. Uma sensação de impotência indescritível, o que pra alguém acostumada a correr atrás de tudo até as ultimas conseqüências é aterrorizante.

Now there’s no point in placing the blame
And you should know I suffer the same
If I lose you
My heart will be broken
Love is a bird, she needs to fly
Let all the hurt inside of you die
You’re frozen
When your heart’s not open

Mas ai vão aparecendo alguns pequenos confortos: coisas legais de trabalho (fui convidada pra escrever uma espécie de prefácio pra um dos livros que eu mais gosto); amigos que desviam sua rota apenas porque você precisa conversar e vem na sua casa quando você mais precisa; a sobrinha que vem perguntar querendo saber de verdade como você está na inbox; o aniversário da Madonna que te faz escutar Frozen por horas no repeat e entender porque seu melhor amigo dizia pra prestar atenção nas letras; os bolsistas que estão trabalhando pelo evento de forma tão profissional; a saudade boa das festas e shows do ManRay Club em Harvard Square (Disappoint do Assemblage 23 era um hit); toda uma rede de afetividades que te lembram que nada é tão ruim que vá durar para sempre. Talvez desses grandes desapontamentos a gente tire alguma força inexplicável para seguir adiante. Ou como diria a musa Scarlet O´Hara: “Tomorrow is another day”

5 comentários

  1. Rogerio Christofoletti · agosto 17

    Ei, sacuda a poeira e olhe pra frente. Um passo de cada vez. Daqui a pouco, você estará correndo novamente… Força.

  2. Adrianne Linhares · setembro 4

    Dear Adri. All my LOVE goes to you now. Eu passei por algo assim, e levei anos (mesmo) pra me levantar, enquanto a vida pública e as redes prosseguiam. A própria continuidade da vida me ajudou, as redes e seus memes, a Cultura e as distrações. O trabalho e as cobranças nos parecem nossos inimigos nesse momento, mas acabam sendo um amigo-algoz, algo que te faz ir pra fora da caverna emocional sem te dar escolha. Eu adoro você e o que você escreveu certamente ajuda a todos os que estiverem passando por algo assim. Vou usar seu texto como referência. Xoxo e conte comigo.

    • Adriamaral · setembro 5

      Obrigada Adri, é bom ouvir que não estamos sozinhos

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