Amanhã seremos pó de estrelas

I’ve got this funny feeling that I just can’t shake
The devil in the wires, the data eating up my brain
There’s a flood that’s coming up to my bed
Chaos wins and I can’t get over it
How do I even learn to play the human way?
Smiles without a heart, weird mechanical mistakes
There’s a flood that’s coming up to my bed
Love’s out there but I’m indifferent

A última semana foi difícil. A morte súbita de uma colega de outra universidade, apenas seis anos mais velha do que eu, ligou aquele pisca-alerta que vem me acometendo há algum tempo. Ai entro naquele ciclo pensando na vida, na morte, no que fica, em legados, significados, no que se vive, no que se deixa pra trás e no quanto me importo cada vez menos com tudo isso. Tudo o que fiquei anos a fio construindo e que meio que me possuiu durante uma parcela enorme da minha assim chamada vida adulta.

Stand up can you keep your head?
Love me like tomorrow we’re dead

Ai hoje me deparo com o desabafo da Maira Nunes, num post bastante pessoal intitulado Não me chame de guerreira, expondo algumas das agruras e sofrimentos existenciais ao terminar sua tese de doutorado. Minha experiência foi muito diferente da dela. Eu amei escrever minha tese. Meu contexto era bastante distinto, tinha 20 e poucos anos, era solteira, morava na casa dos meus pais sendo sempre atendida, era bolsista e ainda tive a oportunidade de ir para o doutorado-sanduiche no exterior. Passei trabalho? Tive meus momentos difíceis? Com certeza, mas nem se compara ao relato dela.

Tive o privilégio de me acertar com a Academia de uma forma relativamente rápida, o que não me preparou para o que viria na seqüência e nem para o quanto de energia seria necessária e o quanto de desgaste seriam advindos de algumas práticas que hoje encaro como bastante nocivas. Não gostaria que esse texto fosse compreendido como uma mera reclamação, não é. Minha carreira e a vida acadêmica me trouxeram algumas das coisas mais legais: conhecer outras culturas; aprender, mediar e compartilhar conhecimentos, orientandos que me enchem de orgulho e vários colegas que se tornaram amigos em diálogos que extrapolam os ambientes institucionais e que me ensinaram muito sobre a vida e tudo mais. Eu realmente gosto muito do que eu faço, mas o fato é que há assim algo de podre no reino da Academia. Pessoas estão adoecendo, estão exagerando na dose e se afundando na carreira como um substituto para sabe-se lá o que estejam procurando. Eu sei por experiência própria, pois já fiz muito isso. Hoje procuro me policiar em algumas questões. O texto da Maira, vai além da questão acadêmica e sim da condição da mulher e das pressões que sofremos a cada dia. Não vou falar disso hoje, fica para uma próxima, pois há muito a discutir.

Beauty, violence
War is within us
We’ll be silenced
Tomorrow we’re gonna be stardust

No more ego
Nothing to control us
Painless freedom
Tomorrow we’re gonna be stardust

No entanto, provocada pelo texto que fala em perdas, gostaria apenas de contar a respeito mais um fracasso e como esse causo me fez recolocar a vida em perspectiva. Muitas pessoas desconhecem nossas batalhas internas e desconhecem as dificuldades na jornada. No início do ano tive um dos piores momentos da minha trajetória profissional, um dissabor grande que gerou um momento de confronto intenso. Foram alguns dias de revolta e aquela sensação acachapante de fracasso e o pior, de um belicismo personalizado travestido de resposta teórica que veio descrita em uma insistência por uma objetividade positivista misturada com um pensar pequeno e imediatista que me trouxe calafrios de horror, tudo aquilo ao qual eu me oponho. Por uns dias oscilei entre a fúria, a raiva, o desgosto e a vontade de abandonar tudo.

It’s pulling me apart a little piece by piece
Paradox and loss are knocking me off my feet
And there’s a flood that’s coming up to my bed
It’s a lose-lose world and I can’t stomach it
I wanna turn it all around in a volte-face
Eternally recurring, oh yeah put me in a trance
And there’s a flood that’s coming up to my bed
Love’s out there and I can’t stomach it

Depois disso veio a tristeza e uma sensação de melancolia e incompreensão por parte de outrem. Passados mais alguns dias e 2 sessões de terapia depois, comecei a me recompor ao ver que uns dias antes de tudo isso eu estava muito animada e feliz em 2 festas de casamentos: uma na qual fui madrinha de meu amigo mais antigo e a outra em família na festa da minha sobrinha que ecoou muito a felicidade do meu próprio casamento.  Também me dei conta que não fiz o que a maioria faz, me culpar por ter me divertido em pleno verão, enquanto deveria ter me ocupado em uma argumentação retórica que agradasse a determinados interlocutores. Relembrei que amargura não combinava comigo e que aquele tipo de agressão definitivamente tinha outra origem, anterior a mim, embora tenha sido dirigida a minha “persona profissional”.

Beauty, violence
War is within us
We’ll be silenced
Tomorrow we’re gonna be stardust
No more ego
Nothing to control us
Painless freedom
Tomorrow we’re gonna be stardust

Stand up can you keep your head?
Love me like tomorrow we’re dead

Desse processo ficaram algumas lições. A primeira delas é que a universidade tem amplificado por demais o número de pessoas infelizes e mal resolvidas  que agridem a quem não conseguem compreender, a quem não conseguem capturar em suas “bolhas” e caixinhas teóricas e de brodagem, por mais que seus discursos sejam aparentemente “progressistas”, iluminados e chamem os políticos de “golpistas” para capitalizar socialmente nas redes sociais da vida.

A outra lição é que a maioria das pessoas continuará cegamente agindo nesse moedor de carne estilo The Wall do Pink Floyd, mesmo quando a vida dá claros sinais de que as coisas não estão bem, que há algo de errado nas estruturas e está afetando a vida em sociedade. Elas continuarão lá endossando o discurso workaholic, falando que está tudo bem, jogando as próprias falhas  e o que não funciona para debaixo do tapete. Há um silenciamento profundo sobre os transtornos mentais, sobre a “vida lá fora”, sobre os pequenos fracassos e insucessos cotidianos.

Em meio a tudo isso, tive um insight em que pude compreender que meu caminho é distinto. Minhas escolhas devem sim ser outras. Consegui visualizar algo que sempre me acompanhou, mas dessa vez a uma distância quase na beira do penhasco, de que alguns modelos não são nem devem ser tomados como universais, os ambientes não devem te definir. Nunca me encaixei em nada, porque aos 42 anos iria me adequar?

E desculpa ai, mas o que significa um cargo administrativo cheio de regras e imposições frente a ter tocado na mão do melhor performer de sua geração no meio do moshpit de sua London town. Deixo aos burocratas e defensores do moral highground epistemológico, vigilantes do que é ou não é tal conceito, do que é ou não profundo/superficial, minhas condolências e meu solene dedo do meio em riste. Afinal “amanhã seremos pó de estrelas”.

Anúncios

2 comentários

  1. Claudio Lima · março 14, 2018

    Como sempre, excelente feflexão, Adriana.
    Escrevi sobre teu texto no meu blog
    https://claudiodelima.wordpress.com/2018/03/14/carreira-academica-po-de-estrelas-e-a-vida/

    Abração.

    • Adriamaral · março 14, 2018

      Obrigada Claudio. Grata pela gentileza de seu comentário e do texto que vc escreveu. Tenho escrito muito pouco no blog, mas quando der, retorno

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s