Cultura dos fãs: A evolução da influência

Muito interessante o mini-documentário britânico Fan Culture: The evolution of influence sobre como a cultura dos fãs se transformou ao longo do tempo e como ela está relacionada com o branding na construção da afetividade pelas marcas, sobretudo através de ações online-offline. Pesquisadores como Matt Hills, fãs e profissionais do mercado de marketing falam sobre o engajamento e os relacionamento dos fãs com as marcas.

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Popular Media Cultures: Writing in the Margins and Reading Between the Lines

Que evento interessante esse!!! Sherlock, True Blood, Madonna online, trolls e ativismo de fãs. É muita coisa bacana num só dia! #ficadica para quem estiver em Londres na data.
Dear colleagues
You are invited to register for:
Popular Media Cultures: Writing in the Margins and Reading Between the Lines
 

A One Day Symposium to be held at the Odeon Cinema, Covent Garden, London
Saturday 19th May 2012.
Keynote Address by
Prof. Henry Jenkins, University of Southern California
Registration starts at 9am with the programme of presentations starting at 10am followed by the Keynote address. The day is scheduled to close at 6pm.
The Programme is as follows:
Prof. Mark Jancovich

“Relocating Lewton: Cultural Distinctions, Critical Reception and the Val Lewton Horror Films.”

Dr Stacey Abbott

“‘I Want to Do Bad Things to You’: The Cult of the TV Horror Credit Sequence.”

Dr Will Brooker

“Hunting The Dark Knight: Authorship and the Nolan Function.”

Dr Joanne Garde-Hansen and Dr Kristyn Gorton

“From Old Media Whore to New Media Troll: Theorising Madonna Online.”

Dr Matt Hills

“Towards a Psychosocial Theory of Spoilers: Doctor Who, Ontological Security, and Fans’ Self-Narratives.”

Prof. Roberta E. Pearson

“I Hear of Sherlock Everywhere: Fans and the Sherlockian ‘Franchise’.”

Dr Cornel Sandvoss

“The Politics of Proximity in Part-Scripted Reality Drama: On fans of The Only Way is Essex and Made in Chelsea.”

 

Keynote Address

 

Prof. Henry Jenkins

“Beyond Poaching: From Resistant Audiences to Fan Activism.”

Popular Media Cultures seeks to explore the relationship between audiences and media texts, their paratexts and interconnected ephemera, and the related cultural practices that add to and expand the narrative worlds with which fans engage. How audiences make meaning out of established media texts will be discussed in connection with the new texts produced by fans. The symposium will focus on the cultural work done by media audiences, how they engage with new technologies and how convergence culture impacts on the strategies and activities of popular media fans.

Fees (including lunch and refreshments)*:
£50 Full rate
£25 Student reduced rate
*Delegates on the day will receive a 10% discount on purchases made at the Forbidden Planet Megastore on presentation of their symposium name badge.
For further details of how to register and attend the event go to our website at: http://popularmediacultures.port.ac.uk/
The Symposium is supported by the Centre for Cultural and Creative Research at the University of Portsmouth. See: http://www.port.ac.uk/research/cccr/
Dr Lincoln Geraghty
Reader in Popular Media Cultures
Director of the Centre for Cultural and Creative Research
School of Creative Arts, Film and Media
University of Portsmouth
Coordinator, Popular Media Cultures Symposium:  www.popularmediacultures.port.ac.uk
Editor, Directory of World Cinema: American Hollywood, Intellect Books
http://www.worldcinemadirectory.org/
Profile:
Mail:
3.30 St George’s Building, 141 High Street, Old Portsmouth, PO1 2HY, UK
Tel: +44 (0) 239 284 5754
Fax: +44 (0) 239 284 5372
E-mail: Lincoln.Geraghty@port.ac.uk
Fonte: Fan cultures list

Mobilização, Rede de Pesquisas e Histórias de Fãs

Faz tempo que eu queria postar a segunda parte do diálogo – confira a parte 1 – que eu e a Raquel Recuero travamos no ano passado sobre as mobilizações de fãs via Twitter, mas a correria andava grande e estava sem tempo para traduzir as duas últimas questões. Aproveito para postá-las e juntamente comentar mais duas informações sobre fãs que recebi essa semana.

Mobilização de Fãs através dos SRS – parte 2

Raquel Recuero: Não é comum encontrar tantas “mobilizações de fãs”em  TTs de outros países como é no Brasil. Os fandoms brasileiros são diferentes dos fandoms de outros países?

Adriana Amaral: Tenho tentado compreender as diferenças e acredito que existem diferentes tipos de performatizações de gostos em diferentes fandoms, embora o sentimento de “ser fã” seja o mesmo globalmente. Também acredito que os elementos extra-musicais são importantes. Por exemplo, no dia 16/7 (data da entrevista), a hashtag #parabenstiojunior estava nos TTs e se referia ao aniversário de Arnaldo Junior, um dos empresários do cantor pop/sertanejo Luan Santana. Os fãs de Luan Santana o conhecem pelo apelido “tio Júnior”. Essa é uma informação até então privada que é compartilhada pelo Twitter e tem importância para os laços afetivos entre essa base de fãs. Certamente esse tipo de coisa não aconteceria ou aconteceria de outra forma em um subgênero diferente com diferentes práticas e idades por exemplo.

RR:  De que forma os fandoms estão se apropriando das tecnologias de mídias sociais no Brasil? Nos conte alguns exemplos.

AA: Há várias formas de apropriação e as diferenças acontecem de acordo com diferentes níveis de engajamento, gêneros musicais ou produtos narrativos como filmes, livros e seriados, classes sociais, idades, etc. São muitos aspecto. O Tumblr por exemplo, tem sido utilizado como uma forma de ironizar determinados produtos e ao mesmo tempo promover determinados tipos de interpretação sobre aqueles objetos culturais. Os tumblrs “porramauricio”, “porradj”e “fuckyeahfarofa”são bons exemplos disso. Dois outros exemplos que chamam atenção: o primeiro coletei em 2o07 quando entrevistava usuários do Last.fm e é o fato de que muitas pessoas desligam o scrobbler quando escutam músicas que eles julgam não se enquadrar nos seus perfis. Isso demonstra que estão atentos a sua própria audiência e constróem uma identidade para ela. No segundo exemplo, os dados coletados sobre os fãs de happy rock em 2011 demonstram modulações nos usos da linguagem escrita, expressando performances de identidade através de gírias e emoticons como forma de expressar sua ligação afetiva com algumas bandas (o famoso s2 ou ❤ indicando coração e outros)

Rede de Estudos de Fãs

Também nessa semana recebi pela lista da Aoir e  pela Giovana Carlos, a dica sobre o Fan Studies Network. Excelente ideia, estava na hora. Segue o texto abaizo:

We are pleased to announce the formation of the Fan Studies Network. Open to scholars at all levels, the FSN is concerned with bringing together those interested in all aspects of fandom in order to engage in discussions and make connections. We welcome scholars to join the network by signing up to our Jiscmail mailing list: FanStudies@jiscmail.ac.uk. You can also visit our website, which features CFPs and events of interest at http://fanstudies.wordpress.com, and our Twitter account @FanStudies.

We look forward to making connections with new members: please circulate this message to anyone you think might be interested. All the best,Lucy Bennett and Tom Phillips–
The Fan Studies Network
http://fanstudies.wordpress.com
@FanStudies

FSN Team:
Lucy Bennett
Tom Phillips
Bethan Jones
Richard McCulloch
Rebecca Williams

Morrissey, suor e fronhas

Fãs de Moz comemorando os 50 anos do artista em frente ao legendário club da capa do álbum dos Smiths

Aproveitando que o show do Moz (que foi cancelado em POA infelizmente) aconteceu hoje em SP e foi transmitido pelo Terra, indico a leitura do texto Morrissey, suor e fronhas da Lorena Calabria que conta histórias de fãs de Moz. Apesar de ter sido pouco maniqueísta com os fãs, ainda há a divisão entre o fã-louco e o fã-normal, mas o texto é bem bacana, fora isso.

Boa semana a todos!

Dialogando sobre mobilizações de fãs e anti-fãs – Parte I

Na metade de 2011, eu e a colega Raquel Recuero tivemos um diálogo profícuo a respeito de fãs e anti-fãs e suas mobilizações via internet, sobretudo a partir de nossa percepção das estratégias de dominação dos Trending Topics (atual Trends) brasileiros do Twitter pelos fandoms, especialmente os fandoms do Restart, Luan Santana e das cantoras de axé (em eterna disputa). Esse tema nos motivou tanto que juntamente com minha orientanda de Mestrado, Camila Monteiro – cujo estudo de caso centra-se nas práticas de sociabilidade e estratégia de engajamento e combate aos anti-fãs  pelas fãs do Restart –  produzimos recentemente um artigo sobre o tema combinando métodos quantitativos e qualitativos de análise. O paper foi enviado para um congresso e, quando pudermos, discutiremos um pouco mais os resultados de nossa observação.

O diálogo abaixo foi escrito originalmente em inglês, pois será publicado num blog de pesquisa estrangeiro do qual a Raquel participa. Traduzi ele  porque achei que as discussões iniciais podem interessar a quem está pesquisando o tema (e não quer esperar pelo post em inglês ou pelo paper). O diálogo estava meio grande para um post, então dividi em duas partes. Segue a primeira delas:

Raquel Recuero: O Twitter tem sido utilizado pelos fãs brasileiros de uma maneira diferente do que tem sido utilizado pela maioria dos usuários. Enquanto a maioria das pessoas parece usar o Twitter como uma ferramenta informacional, os fãs parecem usá-la como uma ferramenta de mobilização, especialmente nos Trending Topics.Como você vê a apropriação do Twitter pelos fandoms? Como os fandoms se organizam para criar mobilizações impressionantes no Twittter (e não serem banidos)?

Adriana Amaral:  Acredito que os fãs brasileiros são muito criativos na apropriação dessas plataformas. Muito antes da internet, eles costumavam aprender formas de entrar em um hotel ou de estar em contato com os seus ídolos. Isso tem muito mais relação com as “personas” públicas do que com a música em si. O Brasil tem um “gosto”cultural por celebridades e fandoms de uma forma característica. É um comportamento cultural. Atualmente os fandoms estão aprendendo/”estudando” maneiras de criar mobilizações pelos seus ídolos adolescentes e utilizando as hashtags como uma espécie de construção de marca/ de gosto demarcando sua identidade como um adesivo em um caderno e também utilizando-a para atingir a visibilidade dos Trending Topics. Esses fandoms estão cientes a respeito das regras anti-spam e de bloqueio do Twitter, bem como das formas de escape. O processo de colocar a hashtag em todos os comentários/ tweets, mesmo que o conteúdo escrito no tweet não tenha nada a ver com a hashtag demonstra isso claramente (exemplo: “estou com fome, já volto #RestartnaEliana). Além disso, os fãs avisam uns aos outros a respeito da política de spam do Twitter. Para que isso seja evitando há um equilíbrio de twittagem entre os perfis individuais dos fãs e os perfis coletivos dos fandoms. Em relação às guerras com os anti-fãs, elas sempre existiram, acontecendo dentro de shows, lojas de música e de forma mais enfática nos fanzines e na mídia especializada como revistas de música (sobretudo nas seções de cartas dos leitores). Mas as diferenças estão nas dinâmicas e suas velocidades. Há uma compreensão crescente sobre esse tipo de dinâmica de mobilização através do Twitter ou do Facebook.

Outro ponto interessante foi a escolha pelo fandom da palavra “Família” (no caso do Restart essa auto-denominação do fandom se popularizou através da viralização de um vídeo que mostrava a insatisfação dos fãs por um show no qual fãs acabaram ficando de fora). Família é um termo carregado de significação que demonstra que a pessoa pertence ou está relacionada às outras por sangue ou por uma profunda relação, ou que vive na mesma casa ou que possui um ancestral em comum, como num clã. Para a química, família é constituída por um grupo de elementos que possuem as mesmas características. Então, a opção por utilizar esse termo é mais do que uma declaração, é a demonstração de um laço identitário que poderá ser motivo de constrangimento ou risada no futuro, mas é um laço identitário forte. Nesse caso específico é o poder dos “laços fortes da família do Fandom”contra os laços fortes de Granovetter.

Por outro lado, precisamos ser cautelosos e não ingênuos ao analisar esse poder emergente. Numa pesquisa realizada recentemente sobre fãs de bandas de happy rock gaúcho (Amaral & Amaral, 2011), eu e João Pedro descobrimos que os fãs estavam sendo engajados através de estratégias e hashtags criadas por uma agência de gerenciamento de imagem que os contactava através do Facebook. Assim, de um lado temos um processo de aprendizagem interessante a respeito do poder de mobilização das plataformas pelos fãs e por outro a percepção do valor disso por quem gerencia as estratégias digitais das bandas.

Os Trends do Brasil hoje (21/01/02) dominado por fãs e torcedores (fãs)

RR: Um efeito colateral do “poder do fandom” parece ser a emergência dos grupos de antifãs. Você concorda? Como você percebe a relação entre fãs e anti-fãs? As tecnologias (como o Twitter) aumentam as “Guerras dos Fãs”?

AA: Fãs e anti-fãs são dois lados da mesma moeda. A fama de um determinado artista sempre causa o efeito de criação de odiadores (haters). Uma das hashtags que os fãs estavam utilizando tem a ver diretamente com isso: #maisrespeitomenosinveja e está relacionada com duas categorias maniqueístas do comportamento humano. Onde quer que haja um fã, haverá um anti-fã ou hater, é parte da dinâmica. No Brasil, os torcedores/fãs de futebol são um exemplo sintomático. A diferença é que com o crescimento da popularização da internet no país, ambos os grupos (fãs e anti-fãs) tornam-se mais visíveis, bem como as possibilidades de arquivamento dessas discussões para pesquisas ou para objetivos mercadológicos. As apropriações e usos dessas redes como o Twitter amplificam esse tipo de engajamento.

Banner produzido por anti-fãs da saga Crepúsculo demarcando sua identidade

Mas há diferenças entre o fã e o anti-fã. Há uma questão de identidade que se revela através dessas guerras simbólicas no campo discursivo que estão relacionadas com o engajamento deles com a informação e com a interpretação e ressignificação de produtos comunicacionais como filmes, seriados, etc. O não-fã simplesmente não liga para um determinado artista ou franquia e, por conta disso, sua identidade se dá através da exclusão. Já o anti-fã constrói sua identidade (ou parte dela) pelo seu gosto “diferenciado”ou através da estratégia de mostrar as incoerências e mal-gosto do discurso dos fãs daquele produto (por exemplo, a saga Crepúsculo ou o cantor Michel Teló). De uma forma distorcida, o anti-fã é um tipo de fã, pois ele age de forma parecidamas com diferente nível de engajamento, muito menos organizado. O anti-fã também assiste, analisa, anota, avalia, classifica e gera significado sobre o conteúdo e produz conteúdo tanto quanto o fã, porém seu objetivo é diverso. Ele/ela quer “provar” o quanto o produto ou artista é ruim. Os anti-fãs demostram sua declaração de gosto para construir o seu não-pertencimento aquele grupo/tribo/subcultura, etc. É um empoderamento simbólico produzido atra’ves de práticas e discursos nos quais a identidade é demostrada a partir da oposição ao outro. Mas também não podemos assumir que todos os “haters”são anti-fãs. E há sempre aqueles que apenas querem “trollar”. No Brasil, a “trollagem” pode ser uma prática mais lúdica. E é nesse interstício que o fandom ganha novamente o seu poder (e atinge os Trending Topics por exemplo), porque os trolls, haters e anti-fãs não possuem a organização suficiente, são mais descentralizados e investem menos tempo.

Antifãs e as disputas simbólicas nas redes

Essa semana a Revista Época publicou uma matéria sobre antifãs e suas mobilizações online e offline. Intitulada “Quando o barato é odiar“, a matéria trouxe como foco a organizações dos antifãs de bandas ou artistas (a maioria dos artistas citados tem público-alvo adolescente como Justin Bieber e Restart por exemplo) nos sites de redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter. O enfoque da matéria foi mostrar o velho senso comum do “falem mal, mas falem de mim” como uma espécie de aliado na divulgação dos artistas. Entretanto, faltou mostrar o lado negativo que esse tipo de buzz gera, como por exemplo a estigmatização dos artistas dentro de um determinado gênero e a forma de lidar com essa mobilização específica.

Os estudos sobre fãs vem acontecendo no âmbito acadêmico com mais ênfase desde os anos 70, principalmente a partir da abordagem dos estudos culturais e da mídia comparada. Esse tipo de grupo organizado em torno de um determinado produto cultural midiático está engajado em práticas de formação de identidade e discussão e crítica em torno dos textos (entendidos aqui como músicas, filmes, séries, etc). Assim, a partir do momento que existe um grupo que se organiza em torno da afeição em relação a um determinado objeto de “culto”, existirão disputas e antagonistas. A questão dos antifãs é muito mais comportamental, estética e cultural do que tecnológica, embora é claro, os sites de redes sociais possibilitem uma maior pulverização e visibilidade desses fluxos interacionais.

Jon Bon Jovi X Kurt Cobain (hair metal X grunge)

Em tempos pré-internet, essas rixas se davam muito mais nas ruas, nos shows e também nos fanzines ou cartas de leitores das revistas de música. Na genealogia dos estilos subculturais as guerras simbólicas (e outras físicas de fato) estão incorporadas como características desde os seus primórdios. E toda a  literatura sobre o tema resgata por exemplo os classicos confrontos Mods X Rockers em Londres. No âmbito regional, a rixa fãs de Engenheiros do Hawaii X fãs de Nenhum de Nós nos anos 80 mobilizou jovens porto-alegrenses. Outro clássico, mas nos anos 90 foram as brigas entre integrantes de duas cenas musicais: Poseurs X Grunges. Essa briga até hj mobiliza discussões acerca da morte do “hair metal”, por exemplo e volta e meia dá as caras na imprensa especializada e nos foruns da rede. Atualmente muitas disputas se dão em torno das divas pop como Britney X Gaga por exemplo, além da adjetivação pejorativa do termo “coxinha” ao indie rock bom moço de bandas como Coldplay por exemplo. Esse tipo de disputa dá sentido à construção da “ontologia do fã” e de sua identidade.

A imprensa musical britânica sempre foi “mestre” em manipular essas manifestações e em contrapor fandoms de diferentes bandas desde o tempo de Beatles contra Stones até a briga entre os college boys do Blur e os desbocados fanfarrões do Oasis nos tempos em que o britpop viveu seu auge. A polarização entre duas bandas inglesas nas paradas e na crítica musical a cada semana gerava buzz e mantinha fãs e antifãs consumindo, debatendo e interpretando as capas de revista enquanto bebiam muitas pints of beer nos pubs ingleses.

Maggie’s Dream, banda de Robbie Rosa e o estigma ex-boyband

No quesito estigma, podemos apontar muitos exemplos, dentre eles o ex-Menudo Robby Rosa que ao deixar o grupo tentou uma carreira na cena hard rock e foi rechaçado com veemência. Jamais esquecerei da tentativa da banda dele Maggie’s Dream ao abrir para o Faith No More em Porto Alegre em 1991. Ele cantava de costas para o palco enquanto o público tocava latinhas e copos plásticos. Outros, como Marl Wahlberg (ex-teen idol Marky Mark) conseguem superar e reconstruir uma outra identidade  e assim afastar a movimentação dos antifãs. No caso de Wahlberg, que ficou sendo respeitado como ator de filmes sérios como Boogie Nights, ele precisou mudar de área, da música para o cinema. Mesmo assim, nos créditos do filme Rockstar, a produção “tira o maior sarro” de seu passado como teen idol.

Fãs e antifãs são faces da mesma moeda, o que significa que embora os antifãs pareçam também ajudar a gerar buzz e a citar o nome do artista, seu poder simbólico pode ser tão forte quanto o dos fãs e trazer sérios danos à marca do artista, então não podemos subestimá-los de forma tão leviana.

Em relação à maneira de lidar com os antifãs, não há uma receita pronta a ser seguida. É muito mais difícil conter a expressão de sentimentos transmutados em garrafadas dos headbangers em Carlinhos Brown em um festival uns anos atrás do que colocar Galvão Bueno para rir do Cala Boca Galvão nos Trending Topics em rede nacional. Tenho uma hipótese de que a questão dos antifãs está muito relacionada a algo palpável materialmente que se apresenta de forma corpórea, a uma estética fisiológica nietzscheana que pode incomodar tanto os sentidos a ponto de fazer alguém expressar esse repudio de forma verbal, escrita, etc.  Como já descreveu Wisnik (1999) em O som e o sentido:

A música não nomeia coisas visíveis como a linguagem verbal faz, mas aponta para uma força toda sua para o não verbalizável; atravessa certas redes defensivas que a consciência e a linguagem cristalizada opõem a sua ação e toca em pontos de ligação efetivos do mental e do corporal, do intelectual e do afetivo. Por isso mesmo é capaz de provocar as mais apaixonadas adesões e as mais violentas recusas”

Como fui fonte dessa matéria, decidi postar aqui no blog as respostas completas às perguntas que o jornalista Danilo Venticinque me fez (já que o online possui a vantagem do espaço sobre o impresso) para aprofundar um pouco o debate.

Época: O que uma pessoa precisa fazer para deixar de ser simplesmente alguém que não gosta de determinado artista e passar a ser considerada um antifã?

Adriana: Há uma diferença entre não-fã e antifã. É uma questão de construção de identidade que se dá através de lutas/disputas no domínio discursivo ao nível do engajamento com as informações e as possíveis interpretações através dos quais se articulam os produtos midiáticos, os produtores e os fãs. O não-fã simplesmente não gosta ou não liga o suficente para um determinado artista, filme, etc. Assim sua identidade se dá pela exclusão. Já o anti-fã se determina pela relação de “gosto” ou de localização de incoerências no discurso dos fãs. O anti-fã de certa forma também é um fã, afinal o antifã se engaja com o produto de forma bastante parecida com o fã, mas não pelo afeto e sim pela crítica (ou xingamento). O engajamento é de olhar, anotar, observar, avaliar, classificar, interpretar com o mesmo afinco do fã, apenas para demonstrar o quanto determinado produto/artista é ruim ou não presta. O anti-fã demonstra o seu “não-gostar” para caracterizar o não-pertencimento a um determinado grupo, tribo, etc. É uma forma simbólica de “empoderamento” através do discurso,  ao dizer “eu detesto X”, eu me demarco, demonstro minha identidade em oposição ao outro. Por exemplo, se alguém afirma odiar Lady Gaga e ocupa parte do seu tempo xingando ou criticando a cantora ou seus fãs pela internet, esse engajamento representa  uma vontade de se desvincular daquele grupo e se mostrar pertencente a um outro grupo, que pode se considerar mais “refinado”em seu gosto, por exemplo. Ou pode até ser uma questão de demarcação geracional.

Época: Quando os antifãs começaram a adquirir o peso que têm hoje? Na sua opinião, por que eles ganharam tanto espaço?

Adriana: Fãs e antifãs sempre existiram, onde existe um, existe o outro. Basta ver o exemplo dos esportes, no Brasil, o caso do futebol é sintomático. Discussões através de cartas em fanzines, em lojas de discos, shows, partidas nos estádios, entre outros locais sempre aconteceram. A diferença é que a partir da popularização da internet, ambos os grupos ganharam maior visibilidade e a possibilidade do arquivamento e rastreamento dessas discussões. As dinâmicas das redes digitais amplificam e potencializam esse tipo de engajamento e mobilização.

Época: Artistas que têm um grande número de antifãs (Rebecca Black, Justin Bieber, Restart, A banda mais bonita da cidade) podem se beneficiar do buzz gerado por eles? Ou o antifã atrapalha mais do que ajuda?

Acredito, a partir das pesquisas que vêm sendo realizadas, que existam relações de poder em constante fluxo. A proporção de fãs e antifãs se auto-organiza à medida que essas discussões e o buzz vão se perpetuando nas redes, no boca a boca e até mesmo na imprensa e na mídia massiva. Acredito que os antifãs são uma parte importante nas relações de sociabilidade e que podem inclusive mobilizar ainda mais a união dos fãs. Ou seja, se por um lado os antifãs fazem um “barulho” negativo e podem afetar a reputação dos artistas, por outro lado, eles estimulam a capacidade de organização dos fãs. É uma disputa simbólica de cabo de guera, em que o que está em questão são os “saberes” e os afetos.  Há um outro fator importante para saber se os antifãs atrapalham ou ajudam ‘e o quem está se posicionando em qual lado. O capital social e a reputação de um crítico musical ou de uma determinada celebridade, por exemplo, como fã ou antifã podem dar maior peso a esses discursos, do que o  de uma “pessoa comum”. Por ex, o Zeca Camargo se declarou “fã” da Rebecca Black (afirmou gostar). Por um lado essa afirmação dele convoca um grupo de pessoas mais velhas do que o público-alvo da cantora a talvez se posicionarem como fãs, uma vez que ele representa esse grupo, e ao mesmo, tempo pelo caráter massivo e popular da emissora pode criar ainda mais antifãs para ela, uma vez que quem não se identifica com o apresentador do Fantástico pode estabelecer uma relação de identificação ou rejeição com o artista.

Em resumo, para uma leitura de cenários e comportamentos dos fãs e antifãs é preciso olhar além dos sites de redes sociais e das tecnologias. É preciso compreender as apropriações de suas materialidadese, também é necessário resgatar o contexto histórico das cenas musicais, as questões relativas aos gêneros musicais e características da construção do ethos subcultural, entre vários outros aspectos sociais, antropológicos e estéticos.

Oi Cabeça discute o fenômeno do fandom : com Nancy Baym, Mauricio Mota e Pedro Carvalho

Recomendo o evento abaixo. Recomendo sempre o trabalho da Nancy Baym, com quem tive o prazer de compartilhar uma mesa na Aoir de 2009, tratando justamente sobre fandoms e o Last.fm. Aguardem para breve a resenha sobre o novo livro dela que vou dispobilizar por aqui.
No próximo dia 18, quarta, tem início no Oi Futuro do Flamengo (RJ), o Oi Cabeça. Com curadoria de Heloisa Buarque de Holanda e de Cristiane Costa, o evento promove uma série de encontros mensais para se discutir diferentes temas que envolve a literatura e a palavra.

Na noite de abertura, com o tema: O Fim da crítica e o auge dos fãs, está confirmada a presença da pesquisadora americana Nancy Baym, uma das principais especialistas no fênomeno do fandom, que vai do cosplay às fanfictions (pessoas que reconstroem histórias, recortam passagens de livros consagrados e fazem livre adaptação em outros suportes e mídias).
Ex-presidente da Aoir e professora da Universidade do Kansas, Nancy assina o site www.onlinefandom e é autora de “Personal Connections in the Digital Age” e “Tune in, Log on: Soap, Fandom e On-line Community”. Veja todas as suas publicações aqui: http://www.people.ku.edu/~nbaym/research2.html
Os brasileiros presentes são Mauricio Mota, da empresa Os Alquimistas, que descobre e gerencia histórias para marcas e instituições em qualquer plataforma para assim construir relacionamentos com público de interesses e gerar fãs; e o jovem Pedro Carvalho, 23 anos, que há 10 anos vem se especializando em cultura pop japonesa além de ser o criador do evento Rio Anime Club, feira de comportamento jovem e globalizado com público recorde de 40mil expectadores. Ele vai falar sobre a prática do Cosplay na América do Sul e a influência desse público na literatura.

Data: 18/05
Local: Oi Futuro do Flamengo
Horários: 19h30
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo / Rio de Janeiro
Informações: 21. 3131-3060
Entrada: Grátis