Palestra Ficção Científica e Literatura hoje na FEEVALE

Hoje faço palestra no Mestrado em Processos e Manifestações Culturais da Feevale em Novo Hamburgo. As inscrições estão abertas.

Apresentação

A palestra abordará temas interdisciplinarmente, a fim de atender ao interesse investigativo dos alunos, mediante a participação de professores convidados. Esta atividade faz parte dos Seminários Avançados Do Mestrado Em Processos E Manifestações Culturais.

Público-alvo

Interessados em geral, desde que tenham, no mínimo, graduação, pois participarão das atividades juntamente com alunos de Mestrado.

Pré-requisito

Ser graduado.

Identificação

  • Período: 15 de abril de 2011
  • Horário: Sexta-feira, das 19h30min às 22h15min
  • Carga horária: 3h
  • Inscrição: Inscrições até o dia 13/04
  • Local: Auditório de Pesquisa e Pós-graduação, sala 200B do prédio Lilás – Campus II
  • Certificado: Para a certificação, mínimo de 75% de frequência.

Realização

  • Coordenação: Prof.ª Dr.ª Cintia Carvalho e Dr. Cleber Cristiano Prodanov
  • Promoção: Instituto de Ciências Sociais Aplicadas – ICSA – Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação – PROPI
  • Organização: Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários – Proacom

Asimov e o impacto da internet

Esse vídeo circula já há um tempo pela rede mas eu ainda não havia postado por aqui. É parte de uma entrevista que Isaac Asimov concedeu a Bill Moyers em 1988 falando sobre o impacto da tecnologia da internet para a educação e a sociedade, com uma clarividência e extrapolação que só mesmo um escritor de ficção-científica poderia ter.

Seminário Science ‘n’ Fiction

Reproduzo abaixo o convite do colega Walter Lima (da Casper Libero – SP) para o Seminário Science n´Fiction – A ciência na Ficção Científica, do qual participo no final do mês na Mesa III junto com @fabiofernandes e @rlondero

Seminario Science n fiction
Caros Pesquisadores

O grupo de pesquisa Tecnologia, Comunicação e Cultura de Rede (Teccred), do Programa de Pós-graduação da Cásper Libero, promove o Seminário “Science´n´Fiction”, no dia 30 de outubro, das 8h30 às 18 horas, no auditório Aloysio Biondi, Avenida Paulista, 900, 5.o andar.

O evento aborda as relações entre o gênero e a ciência/tecnologia e contará com a participação de cientistas produtores de ficção científica, pesquisadores e setores sociais envolvidos com a temática. A mesa de abertura contará com a presença de João Zuffo, idealizador do Laboratório de Sistemas Integráveis da USP (LSI/USP) e autor do livro de sci-fi “Flagrantes da Vida no Futuro”.

Resumo da programação:

Mesa I – Ficção Científica e Tecnologia
Como cientistas e pesquisadores tomam ou podem tomar a literatura de ficção científica como inspiração para suas investigações e criações.

Mesa II – Pós-humanos, cibercultura e robótica
Os arquétipos da ficção científica que se baseiam e se desenrolam no mundo real. O que já existe e o que está em desenvolvimento.

Mesa III – O Cyberpunk é agora?
Um debate sobre a vertente da ficção científica e suas correlações com a atualidade.

Mesa IV – Movimentos culturais sci-fi
Como a ficção científica une pessoas e promove movimentos culturais pela cidade de São Paulo. Apresentação de fãs de Steampunk e Star Wars vestidos a caráter.

A programação completa e posts sobre o evento podem ser acessados no http://sciencenfiction.wordpress.com/

Quem desejar acompanhar o evento via twitter basta seguir:
@sciencenfiction

Já os interessados em participar do Seminário, e que não pertencem ao corpo docente e discente da Cásper Líbero, devem enviar nome, rg, telefone e instituição para  eventos@casperlibero.edu.br e aguardem o e-mail confirmando sua participação.

O Seminário também será transmitido ao vivo pela internet. Se você tiver interesse em assisti-lo via web, envie para o mesmo e-mail acima nome, rg, telefone e instituição que representa, comunique seu interesse e aguarde nosso e-mail indicando o link (capacidade limitada de conexões).

abs,
Walter Lima

Invisibilidades III – Alguns comentários

Conforme prometido meu resumo e breves comentários sobre o Invisibilidades III evento que ocorreu dias 21 e 22 de agosto no Itaú Cultural em São Paulo e reuniu pesquisadores, escritores, artistas, músicos, críticos, jornalistas em torno da temática da ficção-científica sob curadoria do Dom Corleone da sci-fi brazuca, Fábio Fernandes.

Sábado 21/8 – Mesa Fora do Eixo – a Produção de Ficção e Crítica Literária no Brasil que Você não Conhece com Alice Feldens, Arnaldo Mont’Alvão e Quelciane Marucci
mediação Edgar Nolasco

A mesa apresentou os resultados das pesquisas do núcleo de estudos em ficção contemporânea da UFMS e as dissertações em andamento ou defendidas sobre a crítica da FC brasileira. Destaque para a empolgante apresentação de Edgar Nolasco que falou sobre como abrir caminhos desviantes na pesquisa normalmente canônica da teoria literária e apontou a rede por ele iniciada com as orientações de FC e Fantasia.

Mesa 2 Quadrinhos Brasileiros: a Experiência no Exterior
com Daniel Pellizzari e Rafael Grampá
mediação Octavio Aragão

A segunda mesa do dia apresentou a dupla Pelizzari e Grampá que está produzindo a graphic novel Furry Water. Foi um bate-papo muito bem conduzido pela mediação de Octavio Aragão. Pelizzari enfatizou as diferenças entre roteiros de quadrinhos e escrita literária e alguns outros pontos com muito bom humor.

Palestra e apresentação com o artista Walmor Corrêa

Excelente apresentação de Walmor que apresentou seu trabalho irretocável de estranhamento borrando as fronteiras discursivas entre ciência e arte na criação de seres fantásticos, em especial a série sobre lendas e mitologias da tradição brasileira.

Domingo Mesa Ficção Científica e Estudos Culturais: Uma História Sem Fim
com Adriana Amaral e Cristiane Busato Smith
mediação Fábio Fernandes

Cris apresentou sua análise sobre elementos de Ficção Científica em Império do Sol de JG Ballard, apontando as questões de gênero entre novel e romance e as indefinições entre FC e autobiografia nessa obra a partir do conceito de Inner Space. Eu apresentei algumas hipóteses acerca da adoção do subgênero steampunk por uma geração mais nova e de como essa subcultura está calcada na questão da performance – a partir dos conceitos de engajamento do corpo de Paul Zumthor – em sua recepção. Pena que falamos tanto que acabamos sem tempo para as perguntas.

Abaixo, os dois materiais que apresentei. Primeiro o vídeo sobre a exposição steampunk no Museu de Oxford e depois meu ppt com os apontamentos.

Mesa 2 New Weird Fiction – Um Novo Estranhamento Literário
com Alexandre Mandarino, Nelson de Oliveira e Richard Diegues
mediação Jacques Barcia

A mesa começou com o esforço hercúleo de Jacques para resumir a questão do surgimento do subgênero New Weird dentro da fantasia, apontando a ruptura nas temáticas escapistas para uma ficção mais política e urbana. Na sequência, Nelson de Oliveira falou do seu trabalho como escritor e Richard Diegues da Tarja editorial falou um pouco sobre o mercado brasileiro. Por fim, Alexandre Mandarino também tratou de seus projetos, entre eles a revista Hypervoid e a tradução para o português de Perdido Street Station de China Mielville.

Para fechar, eu – saindo da zona de conforto de pesquisadora – e o Wandeclayt apresentamos uma pocket performance intitulada “You must unconditionally surrender” com material audiovisual e sonoro inspirado pela FC ou suas temáticas.

No geral o evento foi muito bem pensado, planejado e executado. As mesas e discussões foram de alto nível e o público estava qualificadíssimo e compareceu aos debates. Deu para trocar ideias, conversar, sem coisas fora do tom ou briguinhas de fandom. Acho que isso demonstra a maturidade e o crescimento dessa área no Brasil, além da super-curadoria do Fábio que reuniu diversidade, multiculturalismo e perspectivas distintas dando um sabor todo especial ao evento, que foi bem vanguardista em sua proposta. Por fim, foi ótimo reencontrar os amigos de sempre e conhecer outras pessoas que têm poucas oportunidades de se ver por estarem espalhadas por regiões diferentes do país. Agradeço também a Aline Naomi, o Caue e a Lidia Zuin que apareceram por lá. E que venha o Invisibilidades IV em 2012 antes do fim do mundo!

PS: foi excelente participar de uma mesa com a Cris Smith. Finalmente depois de termos sido colegas por tanto tempo agora que não somos mais conseguimos, yeah!

PS2: Aguardo as fotos do evento para postá-las

PS3: Bazinga!

Metagêneros: a literatura pop de Irvine Welsh descrevendo a Ficção Científica

Li  na semana passada “Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar” mais recente lançamento em português – a obra foi originalmente lançada em 2007 – do escritor escocês Irvine Welsh (que publicou Trainspotting em 1993). O livro é composto por quatro contos, que eu chamaria de short stories, mas enfim, e de uma novela. Respectivamente são eles: “Cascavéis“, “Se você gostou da escola, vai adorar trabalhar“, “Cães de Lincoln Park“, “Miss Arizona” e “Reino de Fife“. Assim como Hornby, Welsh também poderia ser “enquadrado” como autor de literatura pop ou “literatura de entretenimento”. Esses rótulos são bastante questionáveis e em alguns momentos pejorativos, talvez os colocando em um ponto distinto do que é considerado “literatura mainstream ou canônica”, embora pop e entretenimento sejam apenas a superfície. Se a obsessão de Hornby são os kidults obcecados pela cultura pop, Welsh retira seu material dos junkies, bêbados e nada-especiais. Em comum, ambos autores se interessam por aquilo que a sociedade define como “loosers”. Gostei bastante da diversidade dos temas e contos, desde o grupo junkie em Cascavéis às patricinhas anoréxicas e vazias de Lincoln Park, passando pelo horror psicológico de Miss Arizona aos beberrões escoceses de Fife. O tom sarcástico das descrições e o vazio do diálogonos dá noção exata dos sofrimentos em silêncio de cada personagem. Bem, mas meu objetivo não é exatamente resenhar o livro, apenas destacar um trecho em que o personagem principal do conto que dá título ao livro fala sobre ficção científica ao ver sua filha adolescente lendo PKD. Achei esse trecho -uma boa referência tanto para a compreensão da obra de Welsh que, de certa forma, também poderia ser comparada à FC no sentido de que não é canônica. Além disso, há também uma possível explicação (ou referência) sobre o fascínio e espécie de desencanto com a literatura de FC por parte de alguns – que traz á tona uma velha questão de gênero (homens x mulheres – imaginação X hormônios). É ainda mais irônico que seja Emily – a filha do protagonista – que esteja lendo FC.

Ela fala isso olhando para Em, que agora está lendo seu livro, um livro de Philip K. Dick. Engraçado, eu sempre gostei de ficção científica quando tinha a idade dela. Arthir C. Clarke, Brian Aldiss: “The failed man”. Esses eram uns caras magricelas que passavam anos enterrados  nos campos. Tipos inteligentes, semelhantes a lagartos com cabeças grandes, mas que simplesmente haviam desistido. Não queriam mais ser sacaneados. Então se enterravam na terra aos milhões e hibernavam, até que aparecia um puto e passava o arado ali. Mas eles continuavam enterrados no solo, sem dar a mínima. Aquilo me assustou pra caralho quando criança. Porque é preciso ter disposição. Sim, havia um bando deles, feito Harry Harrisson, que escrevia sobre Marte, e Isaac Asimov, o sujeito dos robôs. E aquele cara que escreveu sobre as plantas que dominavam o mundo. É, ficção científica: eu era louco pelo troço. Depois parei. Nem sei porquê. Bom, acho que foram as mulheres; numa competição entre a imaginação e os hormônios, só podia haver um vencedor.” (Welsh, 2010. p.80)

O jornalismo cultural e a subcultura sci-fi

Ontem eu teci alguns comentários no Twitter acerca de uma matéria da Globonews sobre Literatura e Ficção Científica que foi apresentada em novembro de 2009. Naquele momento não pude assistí-la pois se não me engano estava em viagem ou em alguma atribulação do final do ano letivo. Mas agora tive tempo de ver com calma.

Em primeiro lugar, a tentativa da GloboNews de fazer um programa especial sobre o tema é válida e mostra que aos poucos o interesse da mídia massiva se volta para outras coisas. Também foi legal o fato de entrevistarem algumas pessoas já conhecidas do fandom como escritores e editores. O programa até começa bem, mesmo que utilizando clichês ultra-batidos sobre viagens no espaço e tal. É o momento fático de chamar atenção do espectador apresentando imagens e frases conhecidos para habituá-los ao contexto.

A coisa vai degringolando à medida em que o repórter começa a fazer determinados juízos de valor seja sobre o “suposto” comportamento do fandom (“convenções nas quais pessoas não-normais se fantasiam de personagens”), seja um desconhecimento acerca do que é FC que fica nítido pela falta de pesquisa e/ou leitura e cultura geral do repórter sobre temas recorrentes como alteridade e extrapolação – só faltou afirmar que autores de FC fazem previsões. Por fim, o que achei ainda pior foi a vinculação do trabalho dos cientistas (chato) com o dos autores de FC (entretenimento), como se o gênero somente precisasse da legitimação de cientistas e dispensasse qualquer tipo de pesquisa.

Não sou especialista em análise do discurso das mídias, mas é perceptível que esse tipo de associação e normatização de regras sociais do que vem a ser uma cultura se dê pelo desconhecimento geral e despreparo completo dos jornalistas ao lidarem com esse tipo de temática (nichos, subculturas, gêneros literários não-mainstream) que reflete o próprio preconceito e desconhecimento da sociedade brasileira sobre os mesmos. A pergunta de porquê a literatura de FC não é popular, uma vez que o cinema é,  a que o repórter insiste em questionar não é algo possível de redução a 30 ou 60 segundos de uma matéria.

É um circuito complexo de problematizações que geram esse discurso “normativista” em que quaisquer gêneros/subculturas são sempre tratados como “desviantes” ou meramente como “curiosidades bizarras”. Essa rede tem início na escola, afinal quem é que leu literatura de nicho no colégio? – com professores pouco preparados e que na maioria dos casos não conhecem ou dispõem do material (é evidente que há exceções, mas estou generalizando). Passa pela meio acadêmico que, também tirando exceções ignora gêneros de gueto ou apenas os desqualifica sem analisá-los com propriedade. E, por ai vai se disseminando uma série de “misunterstandings” sobre os fatos que incluem o cinema, os MCM, etc. Há também a questão da falta de leitura geral do brasileiro, a relação com a tecnologia e o pensamento filosófico da sci-fi e sua desvinculação com o entendimento do que seria o “arquétipo” da cultura brasileira e as próprias referências mais fortes em relação à Inglaterra ou aos Estados Unidos e outros países europeus.

O autor britânico Dick Hebdige em seu clássico livro Subculture. The meaning of style, de 1979 já indicava que o caminho de visibilidade das subculturas – e aqui estou incluindo o universo da sci-fi – se apresentava na mídia sempre do marginal, ou desvio (as páginas policiais) às páginas de variedades ou à moda (quando de sua “cooptação”) em uma trama de significação alegórica que retira a substância e enfoca na aparência e na estética enquanto “diferenciais” ou no nível jornalístico de fatos estranhos. Por outro lado, os fanzines (webzines atualmente) e revistas de nicho que contam com colaboradores que são escritores e/ou parte do fandom – leia-se insiders –  sofrem com o fato de que não conseguem ultrapassar a linguagem e os jargões daquela subcultura deixando o material muitas vezes sem uma “tradução” ou “transcodificação” que possa atingir o público leigo. Assim, esse tipo de matéria, em geral fica em um limbo entre esses dois lados da moeda. Na imprensa escrita a situação é menos pior, uma vez que o espaço permite um pouco mais de elocubrações, mas no telejornalismo, a redução chega a níveis tenebrosos, como foi o caso do programa abaixo.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Ataque de Pánico!

Reproduzo abaixo o post do Wandeclayt no Overclockzine, comentando o curta-metragem uruguaio de FC Ataque de Pánico que achei muito bom:.

Alta tecnologia e baixo orçamento. É a receita do uruguaio Federico Alvarez no curta Ataque de Panico. Assim como Neil Bloomkamp em seu Alive em Joburg (curta que deu origem ao blockbuster District 9), Alvarez tira Nova York e os Estados Unidos do circuito e mostra uma Montevidéu invadida por robôs gigantes no curta escrito e dirigido por ele. Alvarez faz parte do time da Murdoc Films, coletivo uruguaio que produz curtas, videoclipes e comerciais de TV. Com menos de uma semana no ar, Ataque de Pánico já contabiliza mais de  140 mil exibições no youtube. Confira o curta:

Prefácio de Os dias da Peste

Conforme eu já falei em um post anterior, o romance de ficção-científica de Fábio Fernandes, Os Dias da Peste já se encontra em pré-venda através do site. Como amostra grátis, a Tarja editorial liberou o meu prefácio e um trecho do primeiro capítulo, que reproduzo abaixo para quem não quiser acessar o pdf.

No future for you!
“A ficção científica não prevê: descreve” nos diz Ursula K. Le Guin. Essa frase nunca foi tão facilmente visível e aplicável quanto em Os dias da Peste de Fábio Fernandes que você leitor fetichista do papel segura em suas mãos nesse momento – quem sabe também em breve em formato digital em um Kindle ou qualquer outro dispositivo do gênero. Conheço Fábio desde o início dos anos 00 ou melhor, segundo os “critérios presenciais” de muitas pessoas, somente o conheci em 2006 quando ele veio à Curitiba e conseguimos depois de anos de trocas de mensagens, efetivamente sair dos perfis online e tomar um café. E o que isso tem a ver com esse prefácio, perguntaria um leitor mais desavisado. Ora, tudo! Porque o trabalho autoral literário de Fábio está imerso (eu sei, é um trocadilho infame!) com a persona online de Fábio na blogosfera – e em outros sites de redes sociais – com seu trabalho de pesquisador, tradutor, professor universitário, jornalista, blogueiro, twitteiro, agitador do fandom, curador de eventos de ficção científica, etc.

Fábio em sua multimidialidade pessoal/profissional observa como insider as potencialidades e apropriações empíricas “das máquinas” e ferramentas digitais como poucos e também daí talvez advenha sua imensa capacidade de descrição que torna a sua Ficção Científica tão “real” – o termo é tão abominável e árido quanto um deserto, perdoem-me por mais um trocadilho infame, Baudrillard deve estar se revirando no túmulo! – e tão próxima de um cotidiano tecnologicamente mediado, pervasivo e vigilante. Mas é na descrição acurada e não na extrapolação, como diz Le Guin que a FC, ou sci-fi (eu prefiro o termo sci-fi por conta de seus aspectos subculturais como bem nos apontou Norman Spinrad lá nos anos 90) mata a cobra e mostra pau! Deixando de lado os aspectos fálicos da frase anterior, se a scifi enquanto gênero continua viva e respirando – por meios artificiais e maquínicos diriam alguns – é devido em grande parte ao seu caráter “presencialista” e descritivo que se adapta às condições normais de temperatura e pressão do mercado literário tanto quanto às tecnologias e aos novos públicos, e não a um futuro seja ele distópico ou utópico.

Em Os dias da Peste, o autor faz sua “saída do armário” como autor de FC em grande estilo – não que o fandom inteiro já não soubesse disso há um bom tempo – no entanto, renova o gênero mostrando que não é preciso incluir índios ou elementos folclóricos para fazer uma literatura que é também mainstream – no bom sentido – e também nacional, mas é muito mais “pós-geográfica”, como diria William Gibson e se encontra em um “entre-lugar” como nos diz Homi Bhabba.
Ambientado em um Rio de Janeiro nada estereotipado e multicultural, o livro dialoga com vários nichos de espectadores e em distintas camadas de leitura, em suas temáticas tão variadas que vão do pós-humanismo às teorias da inteligência artificial com propriedade. Em suas layers photoshopadas de um momento cultural e social efervescente, a obra dialoga com seus leitores-modelos em vários níveis, com a cultura do entretenimento e com a tradição clássica da Ficção Científica – e porque não dizer também da “tradição narrativa cyberpunk”, entenda-se nessa equação: mistura de linguagem das ruas com a linguagem literária hard + conglomerados midiáticos e corporativos dominantes + anti-herói solitário em busca de uma musa geek + fusão homem-máquina + citações e referências de cultura pop + “jacking in” + sexo + underground.

Numa outra camada, estão as discussões epistemológicas e lingüísticas que dão mais consistência ao livro: a preocupação com uma sociedade vigilante e claustrofóbica, a ubiqüidade das máquinas em um cotidiano cada vez mais violento que nos persegue em cada cidade de um país de terceiro-mundo aparentemente em ascensão no panorama diplomático mundial, e as noções ainda cartesianas, tão “Die Mensch Maschine” cantadas e decantadas pelo Kraftwerk, pelo Daft Punk entre outros, tanto quanto por toda a trajetória filosófica ocidental.

Em uma outra camada, temos ainda o próprio fazer literário e o sentido de fazer “Ficção-Científica” entremeadas por uma reflexão sobre a própria validade e longevidade do gênero. Há também outras nuances de destaque, como a própria linguagem “escrita nas redes” em seus recursos quase transmidiáticos: tags, diálogos de listas de discussões, emails, podcasts; uma personagem feminina que não espera pelo “mocinho” e acaba por se tornar quase protagonista aos 45 do segundo tempo e o humor sarcástico nerd acadêmico-pop, que tem consciência de sua própria condição mas não se leva a sério demais, brincando com conceitos e com as notas de rodapé.

Se você esperava por um prefácio cheio de #spoilers, eu provavelmente te frustei. Seria relativamente fácil contar que o livro se passa num futuro bem próximo no qual a relação homem-máquina torna-se indissociável, mas aí você não poderia ter certeza se fui mesmo eu que prefaciei o livro ou se foi alguma programação em nuvem que juntou palavras-chaves clichezonas dos meus papers ou de arquivos dentro da minha máquina. Seguindo a tradição da “escola da dúvida nietzscheana” deixo os leitores com essa “pulga atrás da orelha” sobre o prefácio, mas nunca em dúvida sobre esse ser um belo romance slipstream de estréia.
Adriana Amaral a.k.a. Lady A
Em trânsito entre Curitiba-Guarulhos-Atlanta-Boston
Outubro de 2009

Capa do romance Os dias da Peste

Acima, um teaser, a capa de Os dias da Peste romance de Ficção Científica de Fábio Fernandes que será lançado em novembro pela Tarja Editorial, de São Paulo. Com muita alegria fiz o prefácio, que chamei de “No future for you”, dessa nova obra da Ficção Científica nacional no qual Fábio confirma aquilo que a gente já sabia: “Cyberpunk is not dead!“.