Sobre desistir, aleatoriedades e caos

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life… (Trainspotting)

Não se preocupem, esse post não é sobre desistir da vida. Também não vou jogar tudo para o alto e virar hippie (não nessa vida por favor, ninguém me obriga a usar sandalinha de couro e saião e cantar a detestável Janis Joplin. Mais facil eu enlouquecer em uma masmorra ou em uma fabrica abandonada ouvindo :wumpscut). Esse post é sobre algumas coisas que vieram a minha mente após ter lido o texto inquietante da Aline Andrade intitulado Quando chega a hora de desistir. Fiquei pensando o quão diametralmente oposta estou no espectro e, ao mesmo tempo tão próxima. A vida acadêmica e suas agruras é parecida e diferente para pessoas tão distintas e sim, renderia bons produtos ficcionais, sejam livros, seriados ou filmes. Eu sempre quis escrever um sitcom com as situações bizarras e surreais que já passei – e não foram, nem são, poucas. De qualquer forma essa é uma realidade ainda pouco explorada pela TV (atenção diretores e produtores da HBO, GNT etc temos material de sobra, #chamanóis).

No texto Aline descreve com bastante acuidade algumas situações que todo mundo que já fez concurso ou prestou seleções conhece ou já ouviu. A vida acadêmica é bastante randômica e aleatória, apesar de todo o discurso meritocrático e peer review que contamos para nós mesmos o tempo todo. O caos no fim das contas acaba determinando alguns acontecimentos muito mais do que as escolhas que acreditamos fazer.

Eu por exemplo, decidi que seria jornalista com sete anos de idade porque gostava de escrever e porque era fã dos repórteres heróis dos quadrinhos (Homem Aranha, Superman). Ao contrário de todos  meus colegas, durante o segundo grau (é ensino médio agora né? Acho que estou passando atestado de tiazona) eu não tinha nenhuma dúvida sobre qual graduação cursar. Mas meu último ano antes da faculdade foi caótico, aconteceram coisas que me tiraram do prumo e acabei fazendo um pouco de Letras, porque amava literatura de língua inglesa. Amava o curso (lingüística, teoria literária) mas não me via sendo professora. Olhem a ironia da vida. Hoje sou professora.

Um semestre depois entrei no jornalismo (levei ambos os cursos por um tempo mas não rolou) com a missão de trabalhar pra uma revista de música. Era esse meu ponto. Não tinha a menor vontade de escrever sobre buraco da rua, política (meu niilismo ja me fazia odiar ideologias de variados espectros) ou hard news. E la no andar do curso o que aconteceu? Primeiro que passei a gostar e andar com os amigos publicitários que ouviam música eletrônica – a maioria dos estudantes de jornalismo faziam a linha roqueirinho classico que naquele momento eu achava um saco –  e traziam novidades ao contrário dos colegas marxistas (rs)  que só reclamavam de tudo. Segundo, me tornei bolsista de IC e entrei num grupo de pesquisa em semiótica. Minha ideia era terminar o curso e ir para SP, achar meu lugar na “imprensa musical” (para a qual eu até frilei). No entanto, uma série de problemas familiares (doenças e um namorado que nunca se formava) me prenderam em POA.

Assim, um ano depois de formada eu efetivamente decidi entrar no Mestrado com a ideia de pesquisar cinema/audiovisual. Apresentei um artigo em um renomado congresso nacional específico da área sobre um filme que eu achava bacana, um filme cuja música era o epicentro. Ninguém comentou absolutamente nada sobre o meu texto, nem pra xingar, nem para fazer polêmica, nem para dizer que era um lixo. Foi uma deprê. Paralelo a isso eu trabalhava nessa área com alguns freelas e não me via passando a vida a debater sobre Glauber Rocha e outros cânones dessa área. Não era pra mim. Não foi consciente, mas retomei meu projeto de mestrado e acabei de uma forma um tanto tangencial falando sobre fãs. Um belo dia quando estava quase ao fim do mestrado (uma época muito difícil na minha vida pautada pela depressão e por uma sucessão de relacionamentos afetivos fracassados) decidi que tentaria o doutorado, afinal eu queria mesmo seguir na academia. Mesmo que nada estivesse dando muito certo naquele momento enquanto 60% dos meus colegas já dava aulas, tinha empregos no mercado e pareciam estar se encaminhando na vida.

Eis que num desses dias, Neuromancer do William Gibson cai na minha mão e assim surge meu projeto de doutorado. De forma completamente aleatória porque eu li algo sobre The Wanderer (uma canção do album obscuro Zooropa) e a relação dele com o livro e fui investigar. E assim entrei no doutorado, uma época igualmente complicada em que o país atravessava um período em que praticamente não haviam concursos em federais, tinham poucas bolsas, etc etc. Tudo muito diferente do cenário recente. Fiz doutorado com bolsa parcial , fazia freelas, traduções, me virava nos vinte e poucos enquanto meus colegas conseguiam empregos nas universidades particulares da região, compravam apartamentos, carros, viajavam nas férias de verão. Eu vivia uma vida com pouquíssima grana – não monástica porque não tenho menor vocação de não sair pra rua rs – e chegava a duvidar que conseguiria emplacar meu tema. Um dia, vou até a biblioteca e remexendo numa estante um livro da área de teoria literária literalmente cai no meu colo, um livro que continha um artigo que me ajudou a encontrar a hipótese da minha tese e que gerou um artigo com qual fui aceita pela primeira vez no congresso da Compós, que segundo diziam todos, era importante. Paralelo a isso, teve uma novela do doutorado-sanduiche em que eu quase não fui ( as bolsas eram muito escassas) e mais um monte de complicações que por si só dariam um livro, até coleguinha ironizando “pesquisar scifi” e burocracias que pareciam estar contra mim. No fim, acabei viajando e foi uma das melhores experiências que eu tive. Quando voltei ao Brasil começou a me bater o desespero, afinal o que eu faria da vida? Não haviam concursos, as contratações estavam escassas. O desespero batia a minha porta.

True life begins behind the border
That exists inside your head
You will never reach deep waters
And get away from there
Take a look around
And look at what you have
But you will never reach deep waters
If you do not change yourself

True Life – Lights of Euphoria

O fato é que defendi a tese e por mais uma dessas aleatoriedades da vida um mês depois disso estava em outra cidade, em outro estado, empregada em um PPG e morando junto com o namorado que na real eu conhecia muito pouco. Dali para adiante tudo estava resolvido? No way baby. Daquele dia em diante comecei a planejar a estar em um lugar melhor ou mesmo mais perto da familia e dos amigos. Apesar das dificuldades, fui sobrevivendo, criei redes com outros pesquisadores que admiro fora da cidade (aka centro do país) – , fiz amizades fora do circuito acadêmico, organizei festas, discotequei – e pasmem até ganhei alguns trocados com isso – enfim fiz um monte de coisas que alguns diziam não ser compatíveis com a “nova vida séria” que eu tinha. Fui julgada até porque usava uma pasta da Hello Kitty, o que convenhamos, nunca afetou minha produtividade #shoremhaters.

Enquanto isso, fui tocando as pesquisas e mirando num futuro, mirando em empregos melhores, trabalhando finais de semana, feriados, não tirava quase férias, tive 2 empregos por dois anos. Aos 34 anos e ao final do meu último ano naquela cidade obtive a Bolsa de Produtividade do CNPq. Mission almost accomplished.  Obviamente tudo tem um custo e minha vida emocional – sanidade mental + casamento + amizades + familia – flopou das mais variadas formas imagináveis com direito a mortes, doenças e separação. Eu tinha 30 e poucos anos e postergava quase tudo. Tem tempo, deixa pra depois, não é o momento, vou enfiar a cara nesses pareceres, vou dar um curso no interior de sei la onde, vou dar uma palestra nos confins do brazyu. E assim seguia.

Após inúmeras tentativas, finalmente consegui mudar de cidade/emprego (e não era só mudar de emprego né, era pra alguma cidade com a qual eu tivesse mais afinidade e rumar para um PPG mais renomado com mais nota e que me permitisse captar mais recursos em editais, e uma série de outros itens. A régua havia subido). Fiquei feliz, afinal, meu plano havia dado certo – do alto da minha arrogância dos 30 e poucos achava que sim tudo tinha seguido meu plano. Em compensação havia uma cratera no meu RV – como dizia Sherry Turkle nos anos 90 para falar sobre o plano da vida offline, o Resto de Vida. E ai começou toda uma nova saga. De la para cá se passaram seis anos. Perdi minha mãe, fui pra terapia, me separei, comprei um apartamento (o lado “sonho classe média” rs que 90% dos meus colegas realizaram quando ninguém me deu emprego na minha terra natal foi finalmente resolvido) casei novamente – dessa vez de um jeito totalmente diferente – e fiz um pósdoc onde eu queria, provavelmente em uma das ultimas levas de bolsas para o exterior desse período “rhykho” das agências.

Confesso que à exceção do pósdoc que ja estava em um planejamento, todo o resto foi absolutamente singular. E mesmo as circunstâncias que me levaram a ele, a escolha do lugar, de tudo, acabou se dando de forma caótica e randômica. Talvez porque ao contrário do que eu pensava, fui sim fazendo pequenas desistências, como no momento em que larguei de mão minhas intenções de pesquisar cinema e me joguei de cabeça nas questões da cibercultura e dei sorte de estar ali quando uma subárea de estudos se formava. Eu desisti de algo para fazer outro. Foi doloroso, mas sei la. É preciso perceber nossos limites.É o que tenho pensado em relação ao meu modo de encarar a vida cheio de metas e objetivos tracejados. Talvez eles me dêem uma falsa sensação de segurança e no momento, me sinto um poço de dúvidas e hesitações Sempre tive muitas certezas e agora não, desconfio de tudo no qual um dia acreditei.

Tudo isso apenas porque outras questões me atormentam e me fazem pensar em desistir a respeito de decisões anteriormente fechadas.Como falei no início do post,  minha “assim chamada” carreira já está mais ou menos delineada. – ok é dificil manter e à medida que o tempo passa outros objetivos vão surgindo mas as coisas estão constituídas. Também acredito que se um belo dia eu resolver sair disso, vou sair pela porta da frente e me jogar em algum outro abismo tendo certeza que dei minhas contribuições e elas foram suficientes para os meus propósitos.

O que trato aqui é sobre estar sempre pensando no desenho que “as vidas” da gente formam. Quando falo as vidas é porque não é uma só, são várias em um curto período de tempo. No meu caso, acho que foi o Pollock quem jogou umas tintas na tela, pois quando penso que está tudo estabilizado, algum lado  resolve berrar ardentemente. E assim, talvez eu  precise retroceder, relevar, deixar estar, rever o que deixei de lado e o que priorizei e ver que there´s no going back. Não é possível pegar uma TARDIS ou um De Lorean e voltar no tempo. O caos fez com que eu chegasse  até aqui e talvez ele não permita que eu altere algumas estruturas já definidas em um determinado ponto sem que se quebre alguns cristais. Como em Suedehead do Morrissey: “I´m so sorry”. Eu realmente sinto muito. Eu queria ter desistido antes, ter desistido a tempo de não perder o baile. Mas, talvez não haja tempo suficiente em uma única vida humana para que a gente consiga preencher a maior parte das lacunas  e dos desejos. Para um ego leonino e para alguém que odeia desistir – sou dessas que costuma ir até o fim –  talvez isso seja um aprendizado extremamente doloroso. Talvez desistir seja também resistir e encontrar algum tipo de paz. Ou talvez todo mundo seja só trollado o tempo todo por essa bitch chamada vida que vem cobrar os débitos que julgávamos já ter pago. Tem dias que eu acho que deixei a comanda do bar do vida pendurada 20 anos atrás e agora ela veio cobrar tudo de uma só vez . De qualquer forma desistir também é parte do amontoado de aleatoriedades sem sentido que construímos para nós mesmos e talvez até nos salve de sentir menos dor.

 

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A ressurreição das práticas irritantes de pesquisa

Uns anos atrás publiquei um post sobre práticas acadêmicas irritantes. Esse post volta e meia traz pessoas ao blog, sobretudo depois que a Dora Garrido citou ele no seu blog há bem pouco tempo. O fato é que o assunto não se esgotou e aproveitando o espírito de ressurreição da Páscoa resolvi comentar mais algumas coisas que me incomodam quando leio trabalhos e que procuro, na medida do possível, evitar no meu trabalho.

  1. Linguagem – A velha questão forma e conteúdo. Ambos são importantes, mas o fato é que se um texto está muito truncado, ele atrapalha a leitura e o entendimento da complexidade da questão. Quanto mais o tempo passa, menos aprecio linguagem que tenta emular grandes autores. Filho, vc nunca será Foucault, Geertz, Kant, etc. Escreva com clareza, demonstre seus objetivos.Isso não quer dizer ser escolar ou excessivamente didático. Seja claro, seja leve. Erudição não significa colocar um monte de palavras obscuras, erudição é fazer boas conexões entre temáticas. Não exagere nos adjetivos publicitários e não escreva a profissão dos autores (isso é coisa de texto jornalístico), tipo Fulano de tal, sociólogo. Cuidado também para que o texto não seja informal demais. Na dúvida, vá no feijão com arroz (3a pessoa, frases curtas, etc), é melhor do que “fazer uma inovação” que vai soar como se você quisesse fazer o post de xoxo mídia engraçadalho. Isso quer dizer que você não pode experimentar? Claro que pode. Eu mesma adoro títulos bem humorados, mas é preciso achar um caminho do meio entre o seu estilo e as regras acadêmicas ou vai parecer forçado. Não force a mão para parecer um filósofo do século XIX e nem o hipster de rede social. Ache o seu caminho. Lembrem também que os avaliadores (pareceristas ou professores da banca) têm muita coisa para ler, quanto mais facilitado estiverem questões como objetivos, hipótese, problema de pesquisa, objeto, etc melhor é.
  2. Uso das fontes de pesquisa – Um cuidado que muitas vezes vejo subestimado é a questão das fontes. Não dá para misturar autores de diferentes correntes e fazer uma salada de fruta. Contextualizar é mais do que necessário. E, por vezes, sair do armário teórico também (no doutorado é um requisito). Existem tais e tais correntes, mas vamos seguir essa ou vamos fazer um combo de X + Y pelos motivos A, B e C. Uma explicação resolve. Outro fator que me incomoda diz respeito aos usos da Wikipedia e de dicionários. Ambos são fontes para olharmos como um pontapé inicial e não como algo a se ter efetivamente em um trabalho, a não ser que utilizemos isso para problematizar como o termo foi se complexificando ou como objeto (no caso da wikipedia) ou que não hajam outras fontes para o termo. Confesso que o dicionário me incomoda mais do que a Wikipedia, acima de tudo em trabalhos de nível de pós-graduação. Em caso de dúvida, use com parcimônia, confira em outras fontes e se jogue na problematização do conceito. Um outro problema é quando as pessoas não sabem distinguir um livro teórico de um livro de divulgação científica ou meramente um manual de marketing.
  3. Falta de acompanhamento histórico de uma questão – Se o trabalho tem como central o conceito Z e a pessoa cita o autor Beltrano que trabalhou essa questão em um livro de 15 anos atrás, é preciso conferir se esse Beltrano ou os outros comentadores já não avançaram o conceito ou a questão. Algumas áreas como a cultura digital avançam rapidamente e ver se o autor publicou coisas novas sobre o tema revisando conceitos ou pressupostos é dever de qualquer pesquisador. Não dá para ficar só citando o livro clássico que todo mundo cita e não ver coisas novas.
  4. Não acompanhar a bibliografia estrangeira e não citar os autores nacionais – Existe uma questão que tenho visto sobretudo em trabalhos da área de comunicação e cultura ou mídias digitais que é bastante problemática: o descompasso dos lançamentos de bibliografia. Não adianta, nessa área é preciso ler em língua estrangeira: inglês é básico. Eu nem deveria ter de escrever isso, mas quando vejo uma dissertação ou uma tese sem referências em língua inglesa nessa área, já sei que haverá problemas. Não é questão de se sentir subalterno ou ser colonizado, ou mesmo de achar que o que é feito fora é melhor, não é nada disso, simplesmente não há condições porque no Brasil os livros levam anos para serem traduzidos, isso quando chegam. O descompasso das traduções gera um abismo. Muita coisa é traduzida em espanhol também. Além disso, é preciso avançar e questionar se determinados conceitos/práticas metodológicas efetivamente funcionam em contextos diferentes. Não é porque funcionou nos EUA ou na França que vai funcionar no contexto daqui.  É preciso questionar. Por outro lado, há excelentes trabalhos produzidos no Brasil e observo que muitos ignoram. Talvez não tenham feito um bom estado da arte ou revisão de literatura, mas hoje com Google Acadêmico, bancos de dados online de teses e dissertações, anais de congressos, etc não há desculpas.
  5. Metodologia como mero rótulo demarcador (só para dizer que tem e que segue) –  Confesso que isso me incomoda muito. Prefiro a honestidade de saber como se deu o processo da pesquisa em si, de uma forma direta e até comentando possíveis falhas do que a pessoa que escreve como se tudo ocorresse da forma que os autores dizem porque né, sabemos que nenhuma tese ou dissertação funciona assim calibradinha. Informantes não dão retorno, transcrições são perdidas, sites saem fora do ar, estudos pilotos saem dos trilhos, bolas de neve derretem. Essa percepção da metodologia não pode se distanciar da construção teórica. Acho que essa é a parte mais difícil.

Bom, acredito que tirando minha resmunguice sejam apenas alguns pontos, passíveis de discussão, como tudo na pesquisa, mas que tento manter em mente .

I’m feeling capable of saying it’s over

Stay where you are
Ever, after
Chasing things that we should run from

Tinha programado tudo para escrever um texto bem bacana falando sobre a finalização do período sabático, contando algumas coisas da pesquisa e do quão enriquecedora foi essa experiência de pouco mais de um semestre morando no meu país favorito (sorry Brazyu, eu te amo, mas nossa relação é de outra ordem). Foi – e ainda está sendo – muito difícil me despedir dessas ilhas que eu amo. No meio disso, tive uma série de questões pessoais pra resolver, uma palestra para dar no Centro de Estudos Góticos da Manchester Metropolitan University e claro, organizar o retorno ao Brasil.

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Enquanto eu ruminava o post na minha cabeça, na véspera da minha viagem para Porto Alegre, recebi um email que me comoveu muito. Não vou citar o nome da pessoa, nem trechos do email pois não seria ético – uma vez que não pedi permissão para isso e nem quero transformar tudo em algo que as pessoas possam chamar de marketing pessoal rs. Não é o objetivo do texto. Bom, nessa mensagem, uma moça com quem tenho muito pouco contato, não é minha amiga próxima e nem mora onde eu moro, me escreveu agradecendo pela ajuda indireta que eu dei a ela em 2015. Ela me contava muito por alto alguns problemas que ela tinha enfrentado e como as minhas palavras haviam sido importantes.

Will we ever get away from this place
It’s an image that’s burned on my chest
For a moment you need me to stay
Cold blooded and drifting away

Fiquei num misto de chocada e emocionada. Primeiro porque achei que o conteúdo seria algo a ver com a Academia. Normalmente as pessoas que não conheço tendem a me agradecer pelas minhas pesquisas, pelos meus artigos, etc. Mas não era nada disso. Ela me agradecia por postagens no blog, Twitter e FB, sobretudo algumas postagens bem pessoais, “gente como a gente”, que a tinham ajudado a superar uma série de problemas por compartilhar uma visão de mundo similar, de alguma forma. Fiquei emocionada porque não imaginei que poderia ajudar alguém dessa forma, sobretudo alguém com questões da ordem do feminino, que apesar de tantas discussões online, a meu ver, tem me parecido – serem abordadas por muitas e muitos de uma forma um tanto mascarada e moralista e que no discurso é inclusiva, mas na prática é perniciosa e tenta apagar as contradições e sofrimentos das condições de quem não se enquadra exatamente na olimpíada de sofrimentos, privilégios e traumas, que tem até uma ordem discursiva pré-pronta pra cada caixinha em vez de ser pensada mais subjetivamente. Mas esse é todo um outro tema que retomo outro dia.

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O fato é que ter ficado esses meses afastada me fez ter algumas outras perspectivas sobre mim. Sempre me achei alguém muito diferente da minha mãe, que era o tipo de pessoa que  ajudava todo mundo, muitas vezes se colocando em último lugar (e claro, como boa virginiana ela fazia aquele drama básico em cima disso rs). Sempre fui auto-centrada, focada no meu mundo, hedonista e algumas vezes erroneamente chamada de “egocêntrica”. No último episódio em que ouvi esse tipo de coisa cheguei a me afetar e isso quase estragou uma parte da minha viagem. Nunca curti/acreditei nessa vibe “altruísmo desprendido” que muita gente vende como branding de si mesmo. Também não curto quem se afunda numa só causa e fica obsessiva e compulsivamente falando nisso feito “seita” querendo converter a todos, mesmo que tenha uma boa finalidade. Conhecem o ditado né? De boas intenções o inferno está cheio.

I’m feeling capable of
Seeing the end

I’m feeling capable of
Saying it’s over

No fim das contas, acho que esse ano estou tendendo a acreditar no que algumas pessoas têm me falado, eu realmente consigo ajudar os outros, da minha maneira, numa espécie de transparência às avessas. Sou reservada, tendo  falar muito pouco de assuntos pessoais (ao menos não de uma forma muito direta) mas já percebi que quando falo, quando exponho, dificuldades e contradições isso, de alguma forma ajuda as pessoas. Eu sempre acho que isso é bem óbvio, que fazemos 50 coisas, 49 dão errado e apenas uma dá certo. No entanto, a maioria tende a enxergar e martelar apenas nesse 1. E ai surgem certas frases carregadas de ressentimentos como”Fulano consegue isso”, “Beltrana tem sorte”, “Tudo que Sicrana faz dá certo”. Não, não é assim. É sofrido para todo mundo. Tem sempre uma centena de obstáculos e depende apenas da gente decidir como vamos encarar isso: se vamos dançar com a parede e tirar sarro da gente mesmo, aprendendo a observar quando encerrar e quando continuar determinadas coisas; ou se vamos nos entregar ao meme da diferentona “só eu que não consigo”, “só eu que não supero”, “só comigo que as coisas não dão certo”. Não estou dizendo aqui que tudo se resolve com “força de vontade”, pelo contrário, existem doenças que nos impedem de produzir e de ser, como a depressão ou síndrome de pânico por exemplo. Eu mesma tenho meus transtornos e cuido deles com terapia, mas também com amigos e com minhas reflexões internas. Tem dias melhores, tem dias piores.

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Creio que finalmente posso encerrar mais uma etapa. Não acredito em mais ninguém que queira me ofender e minar minha auto-estima utilizando a palavra “egoísmo” ou “egocentrismo” em função do jeito como levo minha vida e de algumas escolhas que fiz. Sim, eu tenho algo da minha mãe e sou capaz de ajudar aos outros, do meu jeito meio estranho. E agradeço imensamente às pessoas que me ajudaram a perceber que esse estereótipo não me cabia, algumas amigas (vocês sabem quem são) e a essa moça que me escreveu de forma tão delicada. Você também me ajudou. Obrigada por me fazer ver o fim de uma auto-imagem que não correspondia à realidade. Já sou capaz de ver novos começos nessa correnteza.

np: Chvrches – Tether

2015: equilíbrio e dionísio

2015 foi um ano bizarro e incrível ao mesmo tempo. Muitos acontecimentos ruins para o mundo  em geral e para pessoas que conheço. Em termos pessoais não tenho do que reclamar, apenas agradecer. Foi um ano em que colhi resultados e materializei projetos que vinham de um certo tempo. Projetos que me fazem feliz e que ocupam minha mente. Ao mesmo tempo também foi um ano em que improvisei e apareceram coisas inesperadamente boas. Particularmente até algumas situações desagradáveis serviram para me ajudar, seja me fazendo ser mais paciente e compreendendo melhor alguns mecanismos burocráticos e subjetivos – não, não podemos controlar tudo – , seja com pessoas que revelaram sintonias muito distintas das minhas e que saem dessa temporada. Ficou a lição de perceber alguns sinais para que menos desse tipo de gente se aproxime nos próximos episódios. Dada a profundidade de alguns desses acontecimentos (alguns com desdobramentos que foram quase fatais , mas que foram revertidos a muito custo e sacrifício), manterei meu radar cada vez mais atento.

Creio que o principal desafio de 2015 foi encontrar equilíbrio. A falta de bom senso e equilíbrio em geral – eu inclusa em algumas situações específicas em que me deixei levar por esse potencial – transformou muitas ações bacanas e importantes em festivais de acusações e ressentimentos travestidos de pseudo-política. Acho que anda faltando divã e um certo recolhimento/reflexão para se pensar  antes de sair atirando pedras sob “um manto da defesa de uma causa ou luta justa”. É muito “fiel recém convertido” querendo apontar o dedo de forma moralista – no sentido mais estrito da palavra – até mesmo para quem está do mesmo lado, desde que certas críticas às mobilizações sejam varridas para baixo do tapete. Resta aquela pergunta clássica “Quem vigia os vigilantes?”.

Novamente retomo a questão do equilíbrio (ou caminho do meio para os que são afeitos às religiosidades orientais) para pensar que o que mais desejo para 2016 é que o embate subjetividades X coletividades diminua e se consiga dialogar sem demonizações. É utópico, eu sei, mas tais discursividades ou narrativas me fazem sentir cada vez menos vontade de pertencer a grupos, a coletividades, etc por mais empatia que eu tenha para com as pessoas e os problemas envolvidos. Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, sou por demais “gauche” na vida para não perceber certas contradições – que me irritam – e portanto, ficar à margem e afastada de certos conflitos é o que farei mais nesse ano de 2016, processo que só consegui dar andamento ao final desse ano e que melhorou consideravelmente minha vida. Lidar com o volume de dados e informações dessa era não é nada fácil e desconectar do que nos faz mal é também um dever.

Nessa temporada, os roteiristas em geral nos deram muito o que pensar em reviravoltas imprevisíveis. Teve gente nova que chegou chegando, teve o retorno de antigos personagens. Tiveram conhecidos que ficaram mais próximos e subiram nos degraus de amizade. Teve amigos das antigas que sofreram e a quem emprestei de bom grado meu ombro, mesmo que virtual. Teve muito vinho, cerveja, whisky e coca-cola. E, claro, muitos shows, livros, passeios. Teve casamento sem pompa e circunstância mas com muito amor, nerdice e trevas. Teve mudança pra UK por conta do Estágio Sênior.

Foi difícil dar conta de todas essas coisas. Em alguns momentos queria jogar tudo para o alto e sumir. São muitas cargas para equacionar, de vários lados. As pessoas não vêm vazias, trazem consigo suas bagagens e experiências que nos aquecem o coração mas também nos fazem sofrer conjuntamente. Eu sabia que não seria fácil, sabia que teriam muitas questões envolvidas, mas me dou o direito à felicidade. Não aquela felicidade fake dos sorrisos de campanhas publicitárias, mas uma felicidade que pode estar em segurar um dos seus ídolos durante um mosh num show (Chris Corner, vivi para esse momento) ou em ver a realização de uma sobrinha em virar dona do seu negócio. Uma felicidade que só  é porque está envolta em momentos triviais e outros de tristeza. Certos rituais nos ajudam a pausar e a celebrar e esse ano foi pródigo em termos de demarcações de espaço, tempo, sociabilidade.

Ainda estou em dúvida se 2015 foi um ano de encerramento de um ciclo ou se uma nova estrada começou a ser trilhada nos meus 40 anos, creio que um pouco de cada. De qualquer forma quando o ano findar vou lembrar dele com carinho e para sempre como um ano em verdadeiro devir. Um ano dionisíaco pra caramba! Parece contraditório, mas eu valorizo as contradições, sobretudo quando são assumidas.

Dave Gahan & Soulsavers at O2 Shepherd´s Bush, Londres 26.10

frenteshow

Emoção começou com essa fachada maravilhosa

SPOILERS: Esse não é um post jornalístico, não é um post de análise acadêmica, é um post de fã [em geral eu não gosto de separar instâncias mas nesse caso acho importante delimitar o local de onde parte esse texto].

… Então que eu já vinha acompanhando as entrevistas prévias ao lançamento de Angels & Ghosts, álbum novo de Dave Gahan (caso alguém não conheça – HELLO -, o vocalista do Depeche Mode) e a banda de soul inglesa Soulsavers. Quando saiu a entrevista há mais de um mês, anunciando as pouquíssimas datas em que eles tocariam ao vivo e vi que havia uma data em Londres (no dia 26 de Outubro), fiquei animadíssima. Gosto de algumas coisas do trabalho solo de Gahan e mesmo não sendo DM eu queria muito ver ao vivo. No entanto, a vida não é fácil e eu estava com a grana apertada e já comprometida para as coisas do dia-a-dia. O IOF do cartão tá alto, a libra altíssima e fiquei me enrolando pra comprar o ingresso ao esperar a fatura do cartão virar #classemediasofre #firstworldproblems.

gahan

Cartazes anunciando o show na esquina de casa. Tormento para uma fã sem dinheiro. Bolsa fã pfvr!

Na rua em que eu moro e no caminho que faço até a biblioteca e o supermercado tinham pelo menos uns 5 cartazes anunciando o show. Todos os dias eu olhava e ficava me corroendo e odiando o fato de ser uma adulta responsável. Quando finalmente eu tive como comprar, entro no site e dou de cara com um SOLD OUT em cor laranja, jogando e piscando na minha cara o meu papel de trouxa.

De qualquer forma, meu raciocínio foi o seguinte, vou lá pra frente do lugar, nem que seja pra stalkear DG e pra tentar achar um ingresso de algum desistente, pois descobri que aqui em Londres as venues tem um sistema de que se vc chega um pouco antes, eles monitoram se tem algum ingresso sobrando e talvez com alguma sorte vc consiga. Quando o dia 26 chegou, eu fui bem de boas (mesmo estando nervosa, coisas de fã) até o teatro. A primeira coisa é que não tinha me dado conta de que era um teatro e pelo seu tamanho eu veria o Gahan de muito mais perto do que veria numa arena do DM, o que também significava um show mais intimista. Cheguei com 2h de antecedência e já tinha uma pequena fila na porta formada por muitas pessoas na faixa dos 30-40 vestidas de preto, entre elas muitos “clones” de DG em suas diferentes fases (DG classico do inicio do synth, DG atual, DG com coroa de rei de Enjoy the silence, DG grunge, etc). Essa fanbase hardcore se auto-intitula Devotee e/ou Black Swarm. Vamos combinar que são termos bem mais interessantes e líricos do que Belibers ou Selenatics rs mas de qualquer forma fã é fã e alguns comportamentos se assemelham. Vocês podem ler esse ótimo relato de um Black Swarm de 44 anos, comprovando que ser fã NÃO é algo relacionado APENAS com idade ou com gênero ou com quaisquer estereótipos com os quais a mídia e os jornalistas habitualmente tratam quem é fã.

Um parêntese: é exatamente por esse e alguns outros motivos que eu tenho várias críticas a essas divisões geracionais em relacionadas a usos e apropriações de tecnologias por exemplo, e também porque acho que os termos juventude e culturas juvenis precisam ser problematizados. Prefiro acreditar em comportamentos e em outras relações que não meramente uma faixa etária.

Mas voltando a ser fã do DM, acredito que essa quote resume um pouco disso:

“People who know of the band, but are not fans often say their music is gloomy or call them Depressed Mode; I have yet to find a fan who will agree with this. Martin says he finds the music optimistic and so do I. Depeche Mode is a band which made its name making songs about pain and suffering, love and redemption, and sin and salvation. They are of their time, but are also of Victorian England. They may hurt, but they never give up hope and the suffering of this pain leads to their salvation, and ours as listeners.”

Felicidade após conseguir meu ingresso.

Nisso, me dirigi até a bilheteria e perguntei se havia algum ingresso disponível. A atendente me pediu um minuto, olhou o sistema e confirmou que havia UM ÚNICO INGRESSO, que era primeiro anel, sentado, não era dos lugares mais próximos, mas enfim era o último até aquele momento (dai porque minhas fotos não estão lá grande coisa). Nem acreditei e comprei meu ingresso pulando de felicidade genuína de fã. Claro que haviam os cambistas, mas há sempre o risco dos ingressos serem falsos e eu não queria perder 35 libras.

stagedoor

Com meu ingresso bem guardado na carteira, fui comer algo pq depois ficaria muito tarde e voltei à fila. Fiquei um tempo perto da stage door e comecei a ver uma movimentação intensa. Nisso, vejo um cara que me parece conhecido tranquilamente fumando e um outro que reconheço ser o Rich Machin, guitarrista e produtor do Soulsavers. Eu olho pra ele, ele me olha de volta, eu sorrio mas não consigo ir lá incomodar o cara no seu momento pré-show.Fico com uma pulga atrás da orelha porque sei quem é o outro cara, mas minha mente está falhando por puro nervosismo. Ser fã é sofrer e ser feliz ao mesmo tempo. Na minha frente uma família de poloneses que viajaram apenas para ver o show: pai, mãe e duas crianças pequenas todas devidamente paramentadas com camisas do DM. Entro no teatro eduardiano lindíssimo e procuro um lugar. Não tem lugar marcado, então tentei me posicionar em um lugar mais ou menos central em que eu pudesse estar de frente pro muso Dave.

Após essa maratona consigo relaxar e deixo meu casaco marcando o lugar no teatro e vou até o bar para pegar uma cerveja, afinal, as portas abriram às 19h, mas o show começará as 20h. Chego no bar e entro na fila para um pint. Viro para o lado e vejo algumas pessoas com credenciais, mas numa mirada mais atenta vejo Andrew Fletcher. Puta que pariu é o Fletcher, do Depeche. Que merda que não é o Martin Gore! Se fosse o Martin acho que eu iria até ali falar. O dificil de ver pessoas que só vimos midiaticamente ao longo dos anos, em fotos, vídeos, etc é que quando as vemos ficamos em dúvida. Nisso, chega um outro clone de Gahan. Fico na dúvida se não seria o próprio, mas não, ele deve estar se preparando para o show. Mas revejo o cara que estava na rua e ai sim reconheço Flood, o produtor. Todo mundo ali de boas tomando sua ceva e eu tão nervosa de ver essas lendas que em vez de pedir uma ceva peço um Jack Daniels rs. Sinto muito que minha amiga Rosana Souza não estivesse lá pra traçarmos um plano de stalkerismo, mas estou informando a tudo por mensagens. Obrigada tecnologias por existirem e conectarem os fãs.Sim, a pessoa voltou a ter 14 anos de idade. Olho a hora no celular e vejo que já vai começar o show e decido retornar ao meu lugar. Na saída, dou de cara com um tiozinho careca, gordinho de óculos. Meu cérebro de fã leva 02 segundos pra processar e me informa que é o produtor Daniel Miller, co-fundador do selo Mute e produtor entre outros de Cabaret Voltaire e do próprio DM em algumas faixas clássicas. Uma lenda para quem é fã de música eletrônica alternativa. Ele me pede licença e nisso um rapaz com uma camiseta preta do DM solicita uma foto com ele que prontamente atende.

All of this and nothing

All of this and nothing

Retorno ao meu lugar e quando Fletcher, Miller e Flood chegam aos seus assentos reservados, os fãs começam a aplaudir com entusiasmo. Fã que é fã reconhece produtor até rs. Mesmo que saibamos que Fletcher não faz nada de muito importante no DM ele está lá rs. Sim, nós fãs também criticamos. Não somos acerebrados como muitos nos rotulam.  Sobre o show em si, o que posso dizer é que Dave Gahan & Soulsavers é um show de rock classico, soul e blues com algumas tonalidades darks. Por mais demarcada que seja a voz de Dave ele consegui nessa parceria fazer algo distinto do DM. Não há ênfase nos synths, embora o teclado esteja presente. O álbum Angels & Ghosts é tocado quase na íntegra com destaque para “All of this and nothing” e a banda é muito competente com 2 baixistas, 2 guitarristas, 1 baterista e 3 backing vocals (2 moças e um rapaz). É um show bem mais intimista do que um show do DM, embora Gahan conduza tudo como uma espécie de crooner sessentista rockabilly lusho glam. Acredito até que o show funcione melhor do que o álbum para os fãs de DM e do trabalho solo de Gahan, que compareceu com as faixas Kingdom, Deeper and Deeper e Dirty Sticky Floor (numa versão disco rock).

O carisma de Gahan contudo se sobressai ao resto da banda, até pelo domínio de palco de tantos anos de estrada. As/Os/Xs Gahanzetes tudo pira nas dancinhas (“Dave I love you, ecoam gritos em certos momentos) e infelizmente ele não tirou a camisa para exibir suas tatoos celtas, coisa que faz nos shows do DM. Para encerrar, a seqüência de “Condemnation” e “Walking in my shoes” (músicas que devem ser tocadas no meu velório) levanta o público que canta as letras com toda a intensidade que elas pedem num coro quase gospel dark.

showgahan2

Thank you for the black celebration Dave!

Ao término do show, estou feliz e de alma lavada. Ainda tento, com alguns outros fãs dar mais uma espiada na stage door. Contudo estou em desvantagem, uma vez que o povo aqui é muito alto. Eis que nisso passa uma van e la se vai DG abanando para todos nós da janela. Fico ali parada alguns minutos, mas logo lembro que preciso pegar o overground pra retornar pra casa. As imagens e o sons não saem da minha cabeça. Ser fã é rever tudo de novo durante algumas horas. Não foi o melhor show da minha vida, mas foi emocionante demais ver Gahan mesmo que solo num lugar tão pequeno, uma “tensão frágil”. Coisas da zooropa. Coisas de fã, puro amor livre: “No hidden catch, no strings attached, just free love”

Coisas das quais não falamos

lauriepenny1996: Uma garota de quase 21 anos tem uma longa DR com um namorado afetadíssimo que questionava sua sanidade mental a cada pergunta complexa elaborada por ela ou a cada elogio que ela ganhava por conta dos textos que escrevia. Ela entra em um estado de raiva tão grande que quebra uma porta inteira de madeira com os mãos e arranca o carpete do seu próprio quarto. Como punição, o pai da garota a coloca embaixo do chuveiro, água gelada escorrendo sob o jeans e a camisa de flanela no frio outono sulista.

2002: A garota agora tem 27 anos e após a perda de mais um emprego e da dissolução de um noivado no qual era acusada pelo noivo (um rapaz de esquerda dedicado às causas sociais) de “só se preocupar com a carreira” e “só ter amigos homens”, ela retorna novamente à casa dos pais. Sem dinheiro, sem trabalho e com uma dissertação de mestrado por terminar, a garota fica em estado depressivo e catatônico sem falar ou comer por dias. Os pais a colocam dentro do carro e a levam para uma clínica psiquiátrica. É atendida por um ex-colega do primeiro grau. Mal consegue olhar pro carimbo da receita do remédio.

2013: A mulher de 38 anos está em seu escritório num apartamento de classe média quando escuta o barulho da chave e uma porta abrindo. O ex-marido que não aceita a separação pedida alguns meses antes, a questiona por satisfações sobre tudo. Após uma troca de ofensas, ela enxerga o notebook voar ao chão e sente um aperto de uma mão no pescoço. Por alguns segundos o ar some e ela acredita que vai morrer.

Ao ler o livro da jornalista e ativista Laurie Penny, Unspeakable Things: Sex, Lies and Revolution (ed. Bloomsbury, 2014) me vieram à mente algumas, entre as tantas situações abusivas como essas acima. Elas poderiam ter acontecido com você leitora, com suas amigas, filhas, irmãs, primas, vizinhas, mas aconteceram comigo. São coisas sobre as quais em geral não falamos/escrevemos, em geral contamos a alguém mais chegado ou, no meu caso, vomitamos tudo para fora em horas e horas de terapia. Apaguei e reescrevi pelo menos seis vezes tais parágrafos, pensando se devia ou não escrever, se valia me expôr (sou uma pessoa reservada, embora muitas pessoas não pareçam acreditar nisso) , mas diante de todo retrocesso político que estamos vivenciando no Brasil em relação aos direitos das mulheres, achei que escrever essas linhas poderia ao menos servir de exemplo empírico e vivenciado na carne por alguém que aparentemente tem uma vida tranquila e “privilegiada”, como já escutei certas vezes por ai. Pausa para um sorriso estilo Joker.

E é sobre essas coisas que não se falam, que Laurie escreve. Em uma mistura de relatos, experiências e dados, a autora aponta porque questões de gênero estão no cerne da maioria dos problemas identitários e afetam a todas e todos em um amplo espectro de desesperos e subjetividades. Sua internação em uma clínica por conta de “transtornos alimentares” aos 17 anos é um ponto de virada emblemático. Gostei muito do relato dela como “freak” se colocando ao lado das “mulheres perfeitas e inatingíveis” que ela também julgava e que lá estavam com seus problemas. Suas andanças como jornalista e ativista pelo mundo trazem relatos sensíveis em que, apesar das subjetividades expostas à mesa, Laurie trata sobre micro-políticas e inclusividades e em nenhum momento se vitimiza. E é exatamente esse o ponto que mais me chamou atenção no seu discurso, mesmo que em alguns momentos o livro resvale para um estilo “manifesto”, sua escrita incisiva e bem argumentada é de inclusão e aponta diversas contradições que os movimentos feministas encaram no século XXI.Não é um livro teórico, embora ela comente diversas correntes do feminismo e suas autoras. Também não é um livro leve, embora eu tenha devorado praticamente todo em um dia, uma vez que o texto dela é bastante sedutor, mas ao mesmo tempo soco no estômago.

Acredito que a maior contribuição do livro seja justamente articular as instâncias das subjetividades de acontecimentos cotidianos da vida da autora (e que se relacionam com a vida de muitas mulheres) com questões estruturais (não gosto dessa palavra por parecer estar relacionada ao estruturalismo, mas ok por hora) de como nossas identidades de gênero podem ser problematizadas, performatizadas, construídas e desconstruídas de forma brutal na atualidade em um sistema que afeta indistintamente. embora claro, as mulheres sejam o ponto de partida dela por motivos óbvios. Enfim, leitura altamente recomendável, por não trazer respostas prontas e levantar várias perguntas, não impor regras sobre “como o feminismo é ou deveria ser”, e por não fazer olimpíada de vitimização, afinal estamos todos nesse grande naufrágio chamado sociedade – perdoem-me por meu niilismo. Nem por isso, ela deixa de mencionar que evidentemente ha mais e menos privilegiados e que há formas de repararmos isso.

Sim, como praticamente todas as mulheres, eu já vivi abusos e, não, não preciso fazer disso uma raiva que me queima e me destrói até me afastar de todos, mas consigo em um exercício de projeção compreender porque isso pode acontecer. Também não me vejo gritando, empunhando bandeiras. Aprendi com a literatura cyberpunk a corromper o “sistema por dentro dele próprio”. Nisso tenho minhas divergências com a autora que enxerga o revolucionário ainda de uma forma um tanto romantizada – talvez seja algo de uma juventude que eu já não tenho, fica a hipótese. Celebro minhas pequenas vitórias nos espaços que conquistei a duras penas e faço minha parte da mesma forma que exerço minha empatia e caridade – em um aprendizado constante – sem grandes alardes, sou lowprofile demais. Ao mesmo tempo, ainda acredito que é preciso utilizar os instrumentos jurídicos/legais (por mais lentos e aparentemente inacessíveis que eles sejam) e foi o que eu fiz em alguns casos. Em outros, me divirto em saber que minha vida é/está muito mais interessante do que desses babacas que me atormentaram e que dessas atitudes converti ainda mais meus interesses e focos tentando não me envenenar.

Quanto aos porquês nos submetermos em alguns momentos da vida e calarmos frente aos abusos, é toda uma teorização psicanalítica sobre a qual não vou e nem me sinto à vontade para falar, não é meu campo, mas me solidarizo pelo entendimento da dificuldade de nos enxergamos como somos, o que queremos, o que desejamos e do quão complexa e variável é nossa auto-estima. Como disse Chris Corner na letra de Oh Cruel Darkness :“Everybody loves to judge, everybody thinks they´re clean”. Se é que podemos tirar uma lição do livro é essa, ainda precisamos refletir e avançar muito para nos libertarmos e que até mesmo nos estereótipos – tão duramente criticados – encontramos pontos de fuga e conexões para além da nossa própria pele.

Noticias das terras da Rainha

Mais de um mês sem dar noticias por aqui. A correria da vida londrina me pegou de jeito, além do fato de que perdi quase 4 dias de cama na semana passada. Primeiro com uma infecção por conta de algo que comi, embalada com uma cistite. Ficar doente no exterior é todo um transtorno, mas deu tudo certo e não precisei acionar o seguro-saúde. Fica a dica pra evitar cistitite: suco e capsulas de cranberry, uma frutinha vermelha. Agora engatei um ritmo de leituras, trabalhos, caminhadas e de visitas a alguns lugares importantes. Muita coisa boa aconteceu nesse mês:

  • Um pouco antes tinha ido ao London Electro Festival em Hoxton, um micro festival de bandas e projetos de synthpop e electro. Algumas coisas interessantes, outras nem tanto, mas valeu pelo show do Mechanical Cabaret, que eu não tinha conseguido assistir no Infest;
  • Assisti uma palestra intitulada “How to be Beyoncé: an interpretation of an icon” no King´s College. Era abertura do Festival de Humanidades, Artes e Mídia. A palestra foi a partir do doutorado do autor que fez um bom apanhado sobre a carreira da cantora a partir de tematicas como celebridades, social media, fãs, política e identidade. Ao final ele ainda se montou no palco e fez uma micro perfromance dublando… Fica minha pergunta/provocação: por que no Brasil, um país que fala tanto sobre celebridades na mídia se discute tão pouco o tema a partir de teorias? Eu tenho hipóteses sobre isso mas não vou falar agora. Mas ok, temos que admitir que a literatura em português e produzida no país sobre a temática tem avançado nos últimos anos, com trabalhos sólidos;
  • Fui a Cardiff no Dr. Who Experience e visitei o mural de Torchwood todo ornamentado com fan-arts em homenagem ao personagem do seriado que morreu.
  • Consegui de última hora entrar no show soldout do Dave Gahan & Soulsavers. Ver um artista que vc admira numa venue intimista é daquelas coisas inesquecíveis e que mudam sua perspectiva de vida. Vou contar toda a saga num post, aguardem;
  • Graças às bibliotecas daqui estou lendo muitas graphic novels. Estou muito fã dos trabalhos da Lise Myhre, artista norueguesa criadora da Nemi. E acabo de comprar uma excelente sobre Ada Lovelace, também produzida por uma artista, só que canadense residente em Londres;
  • Por falar em Noruega, ontem assisti o show da Susanne Sundfor e a performance dela me levantou várias questões sobre a relação entre mulheres e música eletrônica. Coisas a serem desenvolvidas na seqüência;
  • Visitei o cemiterio de Highgate num dia lindo e aprendi muito sobre simbologia vitoriana.
  • A Rainha, ela mesma, visitou a University of Surrey para a inauguração do curso de veterinária. Foi exatamente no dia em que ganhei ingressos gratis para ver o Hurts em Birmingham.