A ressurreição das práticas irritantes de pesquisa

Uns anos atrás publiquei um post sobre práticas acadêmicas irritantes. Esse post volta e meia traz pessoas ao blog, sobretudo depois que a Dora Garrido citou ele no seu blog há bem pouco tempo. O fato é que o assunto não se esgotou e aproveitando o espírito de ressurreição da Páscoa resolvi comentar mais algumas coisas que me incomodam quando leio trabalhos e que procuro, na medida do possível, evitar no meu trabalho.

  1. Linguagem – A velha questão forma e conteúdo. Ambos são importantes, mas o fato é que se um texto está muito truncado, ele atrapalha a leitura e o entendimento da complexidade da questão. Quanto mais o tempo passa, menos aprecio linguagem que tenta emular grandes autores. Filho, vc nunca será Foucault, Geertz, Kant, etc. Escreva com clareza, demonstre seus objetivos.Isso não quer dizer ser escolar ou excessivamente didático. Seja claro, seja leve. Erudição não significa colocar um monte de palavras obscuras, erudição é fazer boas conexões entre temáticas. Não exagere nos adjetivos publicitários e não escreva a profissão dos autores (isso é coisa de texto jornalístico), tipo Fulano de tal, sociólogo. Cuidado também para que o texto não seja informal demais. Na dúvida, vá no feijão com arroz (3a pessoa, frases curtas, etc), é melhor do que “fazer uma inovação” que vai soar como se você quisesse fazer o post de xoxo mídia engraçadalho. Isso quer dizer que você não pode experimentar? Claro que pode. Eu mesma adoro títulos bem humorados, mas é preciso achar um caminho do meio entre o seu estilo e as regras acadêmicas ou vai parecer forçado. Não force a mão para parecer um filósofo do século XIX e nem o hipster de rede social. Ache o seu caminho. Lembrem também que os avaliadores (pareceristas ou professores da banca) têm muita coisa para ler, quanto mais facilitado estiverem questões como objetivos, hipótese, problema de pesquisa, objeto, etc melhor é.
  2. Uso das fontes de pesquisa – Um cuidado que muitas vezes vejo subestimado é a questão das fontes. Não dá para misturar autores de diferentes correntes e fazer uma salada de fruta. Contextualizar é mais do que necessário. E, por vezes, sair do armário teórico também (no doutorado é um requisito). Existem tais e tais correntes, mas vamos seguir essa ou vamos fazer um combo de X + Y pelos motivos A, B e C. Uma explicação resolve. Outro fator que me incomoda diz respeito aos usos da Wikipedia e de dicionários. Ambos são fontes para olharmos como um pontapé inicial e não como algo a se ter efetivamente em um trabalho, a não ser que utilizemos isso para problematizar como o termo foi se complexificando ou como objeto (no caso da wikipedia) ou que não hajam outras fontes para o termo. Confesso que o dicionário me incomoda mais do que a Wikipedia, acima de tudo em trabalhos de nível de pós-graduação. Em caso de dúvida, use com parcimônia, confira em outras fontes e se jogue na problematização do conceito. Um outro problema é quando as pessoas não sabem distinguir um livro teórico de um livro de divulgação científica ou meramente um manual de marketing.
  3. Falta de acompanhamento histórico de uma questão – Se o trabalho tem como central o conceito Z e a pessoa cita o autor Beltrano que trabalhou essa questão em um livro de 15 anos atrás, é preciso conferir se esse Beltrano ou os outros comentadores já não avançaram o conceito ou a questão. Algumas áreas como a cultura digital avançam rapidamente e ver se o autor publicou coisas novas sobre o tema revisando conceitos ou pressupostos é dever de qualquer pesquisador. Não dá para ficar só citando o livro clássico que todo mundo cita e não ver coisas novas.
  4. Não acompanhar a bibliografia estrangeira e não citar os autores nacionais – Existe uma questão que tenho visto sobretudo em trabalhos da área de comunicação e cultura ou mídias digitais que é bastante problemática: o descompasso dos lançamentos de bibliografia. Não adianta, nessa área é preciso ler em língua estrangeira: inglês é básico. Eu nem deveria ter de escrever isso, mas quando vejo uma dissertação ou uma tese sem referências em língua inglesa nessa área, já sei que haverá problemas. Não é questão de se sentir subalterno ou ser colonizado, ou mesmo de achar que o que é feito fora é melhor, não é nada disso, simplesmente não há condições porque no Brasil os livros levam anos para serem traduzidos, isso quando chegam. O descompasso das traduções gera um abismo. Muita coisa é traduzida em espanhol também. Além disso, é preciso avançar e questionar se determinados conceitos/práticas metodológicas efetivamente funcionam em contextos diferentes. Não é porque funcionou nos EUA ou na França que vai funcionar no contexto daqui.  É preciso questionar. Por outro lado, há excelentes trabalhos produzidos no Brasil e observo que muitos ignoram. Talvez não tenham feito um bom estado da arte ou revisão de literatura, mas hoje com Google Acadêmico, bancos de dados online de teses e dissertações, anais de congressos, etc não há desculpas.
  5. Metodologia como mero rótulo demarcador (só para dizer que tem e que segue) –  Confesso que isso me incomoda muito. Prefiro a honestidade de saber como se deu o processo da pesquisa em si, de uma forma direta e até comentando possíveis falhas do que a pessoa que escreve como se tudo ocorresse da forma que os autores dizem porque né, sabemos que nenhuma tese ou dissertação funciona assim calibradinha. Informantes não dão retorno, transcrições são perdidas, sites saem fora do ar, estudos pilotos saem dos trilhos, bolas de neve derretem. Essa percepção da metodologia não pode se distanciar da construção teórica. Acho que essa é a parte mais difícil.

Bom, acredito que tirando minha resmunguice sejam apenas alguns pontos, passíveis de discussão, como tudo na pesquisa, mas que tento manter em mente .

I’m feeling capable of saying it’s over

Stay where you are
Ever, after
Chasing things that we should run from

Tinha programado tudo para escrever um texto bem bacana falando sobre a finalização do período sabático, contando algumas coisas da pesquisa e do quão enriquecedora foi essa experiência de pouco mais de um semestre morando no meu país favorito (sorry Brazyu, eu te amo, mas nossa relação é de outra ordem). Foi – e ainda está sendo – muito difícil me despedir dessas ilhas que eu amo. No meio disso, tive uma série de questões pessoais pra resolver, uma palestra para dar no Centro de Estudos Góticos da Manchester Metropolitan University e claro, organizar o retorno ao Brasil.

20150909_165954 (2).jpg

Enquanto eu ruminava o post na minha cabeça, na véspera da minha viagem para Porto Alegre, recebi um email que me comoveu muito. Não vou citar o nome da pessoa, nem trechos do email pois não seria ético – uma vez que não pedi permissão para isso e nem quero transformar tudo em algo que as pessoas possam chamar de marketing pessoal rs. Não é o objetivo do texto. Bom, nessa mensagem, uma moça com quem tenho muito pouco contato, não é minha amiga próxima e nem mora onde eu moro, me escreveu agradecendo pela ajuda indireta que eu dei a ela em 2015. Ela me contava muito por alto alguns problemas que ela tinha enfrentado e como as minhas palavras haviam sido importantes.

Will we ever get away from this place
It’s an image that’s burned on my chest
For a moment you need me to stay
Cold blooded and drifting away

Fiquei num misto de chocada e emocionada. Primeiro porque achei que o conteúdo seria algo a ver com a Academia. Normalmente as pessoas que não conheço tendem a me agradecer pelas minhas pesquisas, pelos meus artigos, etc. Mas não era nada disso. Ela me agradecia por postagens no blog, Twitter e FB, sobretudo algumas postagens bem pessoais, “gente como a gente”, que a tinham ajudado a superar uma série de problemas por compartilhar uma visão de mundo similar, de alguma forma. Fiquei emocionada porque não imaginei que poderia ajudar alguém dessa forma, sobretudo alguém com questões da ordem do feminino, que apesar de tantas discussões online, a meu ver, tem me parecido – serem abordadas por muitas e muitos de uma forma um tanto mascarada e moralista e que no discurso é inclusiva, mas na prática é perniciosa e tenta apagar as contradições e sofrimentos das condições de quem não se enquadra exatamente na olimpíada de sofrimentos, privilégios e traumas, que tem até uma ordem discursiva pré-pronta pra cada caixinha em vez de ser pensada mais subjetivamente. Mas esse é todo um outro tema que retomo outro dia.

20151203_153652

O fato é que ter ficado esses meses afastada me fez ter algumas outras perspectivas sobre mim. Sempre me achei alguém muito diferente da minha mãe, que era o tipo de pessoa que  ajudava todo mundo, muitas vezes se colocando em último lugar (e claro, como boa virginiana ela fazia aquele drama básico em cima disso rs). Sempre fui auto-centrada, focada no meu mundo, hedonista e algumas vezes erroneamente chamada de “egocêntrica”. No último episódio em que ouvi esse tipo de coisa cheguei a me afetar e isso quase estragou uma parte da minha viagem. Nunca curti/acreditei nessa vibe “altruísmo desprendido” que muita gente vende como branding de si mesmo. Também não curto quem se afunda numa só causa e fica obsessiva e compulsivamente falando nisso feito “seita” querendo converter a todos, mesmo que tenha uma boa finalidade. Conhecem o ditado né? De boas intenções o inferno está cheio.

I’m feeling capable of
Seeing the end

I’m feeling capable of
Saying it’s over

No fim das contas, acho que esse ano estou tendendo a acreditar no que algumas pessoas têm me falado, eu realmente consigo ajudar os outros, da minha maneira, numa espécie de transparência às avessas. Sou reservada, tendo  falar muito pouco de assuntos pessoais (ao menos não de uma forma muito direta) mas já percebi que quando falo, quando exponho, dificuldades e contradições isso, de alguma forma ajuda as pessoas. Eu sempre acho que isso é bem óbvio, que fazemos 50 coisas, 49 dão errado e apenas uma dá certo. No entanto, a maioria tende a enxergar e martelar apenas nesse 1. E ai surgem certas frases carregadas de ressentimentos como”Fulano consegue isso”, “Beltrana tem sorte”, “Tudo que Sicrana faz dá certo”. Não, não é assim. É sofrido para todo mundo. Tem sempre uma centena de obstáculos e depende apenas da gente decidir como vamos encarar isso: se vamos dançar com a parede e tirar sarro da gente mesmo, aprendendo a observar quando encerrar e quando continuar determinadas coisas; ou se vamos nos entregar ao meme da diferentona “só eu que não consigo”, “só eu que não supero”, “só comigo que as coisas não dão certo”. Não estou dizendo aqui que tudo se resolve com “força de vontade”, pelo contrário, existem doenças que nos impedem de produzir e de ser, como a depressão ou síndrome de pânico por exemplo. Eu mesma tenho meus transtornos e cuido deles com terapia, mas também com amigos e com minhas reflexões internas. Tem dias melhores, tem dias piores.

20151003_172226

Creio que finalmente posso encerrar mais uma etapa. Não acredito em mais ninguém que queira me ofender e minar minha auto-estima utilizando a palavra “egoísmo” ou “egocentrismo” em função do jeito como levo minha vida e de algumas escolhas que fiz. Sim, eu tenho algo da minha mãe e sou capaz de ajudar aos outros, do meu jeito meio estranho. E agradeço imensamente às pessoas que me ajudaram a perceber que esse estereótipo não me cabia, algumas amigas (vocês sabem quem são) e a essa moça que me escreveu de forma tão delicada. Você também me ajudou. Obrigada por me fazer ver o fim de uma auto-imagem que não correspondia à realidade. Já sou capaz de ver novos começos nessa correnteza.

np: Chvrches – Tether

2015: equilíbrio e dionísio

2015 foi um ano bizarro e incrível ao mesmo tempo. Muitos acontecimentos ruins para o mundo  em geral e para pessoas que conheço. Em termos pessoais não tenho do que reclamar, apenas agradecer. Foi um ano em que colhi resultados e materializei projetos que vinham de um certo tempo. Projetos que me fazem feliz e que ocupam minha mente. Ao mesmo tempo também foi um ano em que improvisei e apareceram coisas inesperadamente boas. Particularmente até algumas situações desagradáveis serviram para me ajudar, seja me fazendo ser mais paciente e compreendendo melhor alguns mecanismos burocráticos e subjetivos – não, não podemos controlar tudo – , seja com pessoas que revelaram sintonias muito distintas das minhas e que saem dessa temporada. Ficou a lição de perceber alguns sinais para que menos desse tipo de gente se aproxime nos próximos episódios. Dada a profundidade de alguns desses acontecimentos (alguns com desdobramentos que foram quase fatais , mas que foram revertidos a muito custo e sacrifício), manterei meu radar cada vez mais atento.

Creio que o principal desafio de 2015 foi encontrar equilíbrio. A falta de bom senso e equilíbrio em geral – eu inclusa em algumas situações específicas em que me deixei levar por esse potencial – transformou muitas ações bacanas e importantes em festivais de acusações e ressentimentos travestidos de pseudo-política. Acho que anda faltando divã e um certo recolhimento/reflexão para se pensar  antes de sair atirando pedras sob “um manto da defesa de uma causa ou luta justa”. É muito “fiel recém convertido” querendo apontar o dedo de forma moralista – no sentido mais estrito da palavra – até mesmo para quem está do mesmo lado, desde que certas críticas às mobilizações sejam varridas para baixo do tapete. Resta aquela pergunta clássica “Quem vigia os vigilantes?”.

Novamente retomo a questão do equilíbrio (ou caminho do meio para os que são afeitos às religiosidades orientais) para pensar que o que mais desejo para 2016 é que o embate subjetividades X coletividades diminua e se consiga dialogar sem demonizações. É utópico, eu sei, mas tais discursividades ou narrativas me fazem sentir cada vez menos vontade de pertencer a grupos, a coletividades, etc por mais empatia que eu tenha para com as pessoas e os problemas envolvidos. Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, sou por demais “gauche” na vida para não perceber certas contradições – que me irritam – e portanto, ficar à margem e afastada de certos conflitos é o que farei mais nesse ano de 2016, processo que só consegui dar andamento ao final desse ano e que melhorou consideravelmente minha vida. Lidar com o volume de dados e informações dessa era não é nada fácil e desconectar do que nos faz mal é também um dever.

Nessa temporada, os roteiristas em geral nos deram muito o que pensar em reviravoltas imprevisíveis. Teve gente nova que chegou chegando, teve o retorno de antigos personagens. Tiveram conhecidos que ficaram mais próximos e subiram nos degraus de amizade. Teve amigos das antigas que sofreram e a quem emprestei de bom grado meu ombro, mesmo que virtual. Teve muito vinho, cerveja, whisky e coca-cola. E, claro, muitos shows, livros, passeios. Teve casamento sem pompa e circunstância mas com muito amor, nerdice e trevas. Teve mudança pra UK por conta do Estágio Sênior.

Foi difícil dar conta de todas essas coisas. Em alguns momentos queria jogar tudo para o alto e sumir. São muitas cargas para equacionar, de vários lados. As pessoas não vêm vazias, trazem consigo suas bagagens e experiências que nos aquecem o coração mas também nos fazem sofrer conjuntamente. Eu sabia que não seria fácil, sabia que teriam muitas questões envolvidas, mas me dou o direito à felicidade. Não aquela felicidade fake dos sorrisos de campanhas publicitárias, mas uma felicidade que pode estar em segurar um dos seus ídolos durante um mosh num show (Chris Corner, vivi para esse momento) ou em ver a realização de uma sobrinha em virar dona do seu negócio. Uma felicidade que só  é porque está envolta em momentos triviais e outros de tristeza. Certos rituais nos ajudam a pausar e a celebrar e esse ano foi pródigo em termos de demarcações de espaço, tempo, sociabilidade.

Ainda estou em dúvida se 2015 foi um ano de encerramento de um ciclo ou se uma nova estrada começou a ser trilhada nos meus 40 anos, creio que um pouco de cada. De qualquer forma quando o ano findar vou lembrar dele com carinho e para sempre como um ano em verdadeiro devir. Um ano dionisíaco pra caramba! Parece contraditório, mas eu valorizo as contradições, sobretudo quando são assumidas.

Dave Gahan & Soulsavers at O2 Shepherd´s Bush, Londres 26.10

frenteshow

Emoção começou com essa fachada maravilhosa

SPOILERS: Esse não é um post jornalístico, não é um post de análise acadêmica, é um post de fã [em geral eu não gosto de separar instâncias mas nesse caso acho importante delimitar o local de onde parte esse texto].

… Então que eu já vinha acompanhando as entrevistas prévias ao lançamento de Angels & Ghosts, álbum novo de Dave Gahan (caso alguém não conheça – HELLO -, o vocalista do Depeche Mode) e a banda de soul inglesa Soulsavers. Quando saiu a entrevista há mais de um mês, anunciando as pouquíssimas datas em que eles tocariam ao vivo e vi que havia uma data em Londres (no dia 26 de Outubro), fiquei animadíssima. Gosto de algumas coisas do trabalho solo de Gahan e mesmo não sendo DM eu queria muito ver ao vivo. No entanto, a vida não é fácil e eu estava com a grana apertada e já comprometida para as coisas do dia-a-dia. O IOF do cartão tá alto, a libra altíssima e fiquei me enrolando pra comprar o ingresso ao esperar a fatura do cartão virar #classemediasofre #firstworldproblems.

gahan

Cartazes anunciando o show na esquina de casa. Tormento para uma fã sem dinheiro. Bolsa fã pfvr!

Na rua em que eu moro e no caminho que faço até a biblioteca e o supermercado tinham pelo menos uns 5 cartazes anunciando o show. Todos os dias eu olhava e ficava me corroendo e odiando o fato de ser uma adulta responsável. Quando finalmente eu tive como comprar, entro no site e dou de cara com um SOLD OUT em cor laranja, jogando e piscando na minha cara o meu papel de trouxa.

De qualquer forma, meu raciocínio foi o seguinte, vou lá pra frente do lugar, nem que seja pra stalkear DG e pra tentar achar um ingresso de algum desistente, pois descobri que aqui em Londres as venues tem um sistema de que se vc chega um pouco antes, eles monitoram se tem algum ingresso sobrando e talvez com alguma sorte vc consiga. Quando o dia 26 chegou, eu fui bem de boas (mesmo estando nervosa, coisas de fã) até o teatro. A primeira coisa é que não tinha me dado conta de que era um teatro e pelo seu tamanho eu veria o Gahan de muito mais perto do que veria numa arena do DM, o que também significava um show mais intimista. Cheguei com 2h de antecedência e já tinha uma pequena fila na porta formada por muitas pessoas na faixa dos 30-40 vestidas de preto, entre elas muitos “clones” de DG em suas diferentes fases (DG classico do inicio do synth, DG atual, DG com coroa de rei de Enjoy the silence, DG grunge, etc). Essa fanbase hardcore se auto-intitula Devotee e/ou Black Swarm. Vamos combinar que são termos bem mais interessantes e líricos do que Belibers ou Selenatics rs mas de qualquer forma fã é fã e alguns comportamentos se assemelham. Vocês podem ler esse ótimo relato de um Black Swarm de 44 anos, comprovando que ser fã NÃO é algo relacionado APENAS com idade ou com gênero ou com quaisquer estereótipos com os quais a mídia e os jornalistas habitualmente tratam quem é fã.

Um parêntese: é exatamente por esse e alguns outros motivos que eu tenho várias críticas a essas divisões geracionais em relacionadas a usos e apropriações de tecnologias por exemplo, e também porque acho que os termos juventude e culturas juvenis precisam ser problematizados. Prefiro acreditar em comportamentos e em outras relações que não meramente uma faixa etária.

Mas voltando a ser fã do DM, acredito que essa quote resume um pouco disso:

“People who know of the band, but are not fans often say their music is gloomy or call them Depressed Mode; I have yet to find a fan who will agree with this. Martin says he finds the music optimistic and so do I. Depeche Mode is a band which made its name making songs about pain and suffering, love and redemption, and sin and salvation. They are of their time, but are also of Victorian England. They may hurt, but they never give up hope and the suffering of this pain leads to their salvation, and ours as listeners.”

Felicidade após conseguir meu ingresso.

Nisso, me dirigi até a bilheteria e perguntei se havia algum ingresso disponível. A atendente me pediu um minuto, olhou o sistema e confirmou que havia UM ÚNICO INGRESSO, que era primeiro anel, sentado, não era dos lugares mais próximos, mas enfim era o último até aquele momento (dai porque minhas fotos não estão lá grande coisa). Nem acreditei e comprei meu ingresso pulando de felicidade genuína de fã. Claro que haviam os cambistas, mas há sempre o risco dos ingressos serem falsos e eu não queria perder 35 libras.

stagedoor

Com meu ingresso bem guardado na carteira, fui comer algo pq depois ficaria muito tarde e voltei à fila. Fiquei um tempo perto da stage door e comecei a ver uma movimentação intensa. Nisso, vejo um cara que me parece conhecido tranquilamente fumando e um outro que reconheço ser o Rich Machin, guitarrista e produtor do Soulsavers. Eu olho pra ele, ele me olha de volta, eu sorrio mas não consigo ir lá incomodar o cara no seu momento pré-show.Fico com uma pulga atrás da orelha porque sei quem é o outro cara, mas minha mente está falhando por puro nervosismo. Ser fã é sofrer e ser feliz ao mesmo tempo. Na minha frente uma família de poloneses que viajaram apenas para ver o show: pai, mãe e duas crianças pequenas todas devidamente paramentadas com camisas do DM. Entro no teatro eduardiano lindíssimo e procuro um lugar. Não tem lugar marcado, então tentei me posicionar em um lugar mais ou menos central em que eu pudesse estar de frente pro muso Dave.

Após essa maratona consigo relaxar e deixo meu casaco marcando o lugar no teatro e vou até o bar para pegar uma cerveja, afinal, as portas abriram às 19h, mas o show começará as 20h. Chego no bar e entro na fila para um pint. Viro para o lado e vejo algumas pessoas com credenciais, mas numa mirada mais atenta vejo Andrew Fletcher. Puta que pariu é o Fletcher, do Depeche. Que merda que não é o Martin Gore! Se fosse o Martin acho que eu iria até ali falar. O dificil de ver pessoas que só vimos midiaticamente ao longo dos anos, em fotos, vídeos, etc é que quando as vemos ficamos em dúvida. Nisso, chega um outro clone de Gahan. Fico na dúvida se não seria o próprio, mas não, ele deve estar se preparando para o show. Mas revejo o cara que estava na rua e ai sim reconheço Flood, o produtor. Todo mundo ali de boas tomando sua ceva e eu tão nervosa de ver essas lendas que em vez de pedir uma ceva peço um Jack Daniels rs. Sinto muito que minha amiga Rosana Souza não estivesse lá pra traçarmos um plano de stalkerismo, mas estou informando a tudo por mensagens. Obrigada tecnologias por existirem e conectarem os fãs.Sim, a pessoa voltou a ter 14 anos de idade. Olho a hora no celular e vejo que já vai começar o show e decido retornar ao meu lugar. Na saída, dou de cara com um tiozinho careca, gordinho de óculos. Meu cérebro de fã leva 02 segundos pra processar e me informa que é o produtor Daniel Miller, co-fundador do selo Mute e produtor entre outros de Cabaret Voltaire e do próprio DM em algumas faixas clássicas. Uma lenda para quem é fã de música eletrônica alternativa. Ele me pede licença e nisso um rapaz com uma camiseta preta do DM solicita uma foto com ele que prontamente atende.

All of this and nothing

All of this and nothing

Retorno ao meu lugar e quando Fletcher, Miller e Flood chegam aos seus assentos reservados, os fãs começam a aplaudir com entusiasmo. Fã que é fã reconhece produtor até rs. Mesmo que saibamos que Fletcher não faz nada de muito importante no DM ele está lá rs. Sim, nós fãs também criticamos. Não somos acerebrados como muitos nos rotulam.  Sobre o show em si, o que posso dizer é que Dave Gahan & Soulsavers é um show de rock classico, soul e blues com algumas tonalidades darks. Por mais demarcada que seja a voz de Dave ele consegui nessa parceria fazer algo distinto do DM. Não há ênfase nos synths, embora o teclado esteja presente. O álbum Angels & Ghosts é tocado quase na íntegra com destaque para “All of this and nothing” e a banda é muito competente com 2 baixistas, 2 guitarristas, 1 baterista e 3 backing vocals (2 moças e um rapaz). É um show bem mais intimista do que um show do DM, embora Gahan conduza tudo como uma espécie de crooner sessentista rockabilly lusho glam. Acredito até que o show funcione melhor do que o álbum para os fãs de DM e do trabalho solo de Gahan, que compareceu com as faixas Kingdom, Deeper and Deeper e Dirty Sticky Floor (numa versão disco rock).

O carisma de Gahan contudo se sobressai ao resto da banda, até pelo domínio de palco de tantos anos de estrada. As/Os/Xs Gahanzetes tudo pira nas dancinhas (“Dave I love you, ecoam gritos em certos momentos) e infelizmente ele não tirou a camisa para exibir suas tatoos celtas, coisa que faz nos shows do DM. Para encerrar, a seqüência de “Condemnation” e “Walking in my shoes” (músicas que devem ser tocadas no meu velório) levanta o público que canta as letras com toda a intensidade que elas pedem num coro quase gospel dark.

showgahan2

Thank you for the black celebration Dave!

Ao término do show, estou feliz e de alma lavada. Ainda tento, com alguns outros fãs dar mais uma espiada na stage door. Contudo estou em desvantagem, uma vez que o povo aqui é muito alto. Eis que nisso passa uma van e la se vai DG abanando para todos nós da janela. Fico ali parada alguns minutos, mas logo lembro que preciso pegar o overground pra retornar pra casa. As imagens e o sons não saem da minha cabeça. Ser fã é rever tudo de novo durante algumas horas. Não foi o melhor show da minha vida, mas foi emocionante demais ver Gahan mesmo que solo num lugar tão pequeno, uma “tensão frágil”. Coisas da zooropa. Coisas de fã, puro amor livre: “No hidden catch, no strings attached, just free love”

Coisas das quais não falamos

lauriepenny1996: Uma garota de quase 21 anos tem uma longa DR com um namorado afetadíssimo que questionava sua sanidade mental a cada pergunta complexa elaborada por ela ou a cada elogio que ela ganhava por conta dos textos que escrevia. Ela entra em um estado de raiva tão grande que quebra uma porta inteira de madeira com os mãos e arranca o carpete do seu próprio quarto. Como punição, o pai da garota a coloca embaixo do chuveiro, água gelada escorrendo sob o jeans e a camisa de flanela no frio outono sulista.

2002: A garota agora tem 27 anos e após a perda de mais um emprego e da dissolução de um noivado no qual era acusada pelo noivo (um rapaz de esquerda dedicado às causas sociais) de “só se preocupar com a carreira” e “só ter amigos homens”, ela retorna novamente à casa dos pais. Sem dinheiro, sem trabalho e com uma dissertação de mestrado por terminar, a garota fica em estado depressivo e catatônico sem falar ou comer por dias. Os pais a colocam dentro do carro e a levam para uma clínica psiquiátrica. É atendida por um ex-colega do primeiro grau. Mal consegue olhar pro carimbo da receita do remédio.

2013: A mulher de 38 anos está em seu escritório num apartamento de classe média quando escuta o barulho da chave e uma porta abrindo. O ex-marido que não aceita a separação pedida alguns meses antes, a questiona por satisfações sobre tudo. Após uma troca de ofensas, ela enxerga o notebook voar ao chão e sente um aperto de uma mão no pescoço. Por alguns segundos o ar some e ela acredita que vai morrer.

Ao ler o livro da jornalista e ativista Laurie Penny, Unspeakable Things: Sex, Lies and Revolution (ed. Bloomsbury, 2014) me vieram à mente algumas, entre as tantas situações abusivas como essas acima. Elas poderiam ter acontecido com você leitora, com suas amigas, filhas, irmãs, primas, vizinhas, mas aconteceram comigo. São coisas sobre as quais em geral não falamos/escrevemos, em geral contamos a alguém mais chegado ou, no meu caso, vomitamos tudo para fora em horas e horas de terapia. Apaguei e reescrevi pelo menos seis vezes tais parágrafos, pensando se devia ou não escrever, se valia me expôr (sou uma pessoa reservada, embora muitas pessoas não pareçam acreditar nisso) , mas diante de todo retrocesso político que estamos vivenciando no Brasil em relação aos direitos das mulheres, achei que escrever essas linhas poderia ao menos servir de exemplo empírico e vivenciado na carne por alguém que aparentemente tem uma vida tranquila e “privilegiada”, como já escutei certas vezes por ai. Pausa para um sorriso estilo Joker.

E é sobre essas coisas que não se falam, que Laurie escreve. Em uma mistura de relatos, experiências e dados, a autora aponta porque questões de gênero estão no cerne da maioria dos problemas identitários e afetam a todas e todos em um amplo espectro de desesperos e subjetividades. Sua internação em uma clínica por conta de “transtornos alimentares” aos 17 anos é um ponto de virada emblemático. Gostei muito do relato dela como “freak” se colocando ao lado das “mulheres perfeitas e inatingíveis” que ela também julgava e que lá estavam com seus problemas. Suas andanças como jornalista e ativista pelo mundo trazem relatos sensíveis em que, apesar das subjetividades expostas à mesa, Laurie trata sobre micro-políticas e inclusividades e em nenhum momento se vitimiza. E é exatamente esse o ponto que mais me chamou atenção no seu discurso, mesmo que em alguns momentos o livro resvale para um estilo “manifesto”, sua escrita incisiva e bem argumentada é de inclusão e aponta diversas contradições que os movimentos feministas encaram no século XXI.Não é um livro teórico, embora ela comente diversas correntes do feminismo e suas autoras. Também não é um livro leve, embora eu tenha devorado praticamente todo em um dia, uma vez que o texto dela é bastante sedutor, mas ao mesmo tempo soco no estômago.

Acredito que a maior contribuição do livro seja justamente articular as instâncias das subjetividades de acontecimentos cotidianos da vida da autora (e que se relacionam com a vida de muitas mulheres) com questões estruturais (não gosto dessa palavra por parecer estar relacionada ao estruturalismo, mas ok por hora) de como nossas identidades de gênero podem ser problematizadas, performatizadas, construídas e desconstruídas de forma brutal na atualidade em um sistema que afeta indistintamente. embora claro, as mulheres sejam o ponto de partida dela por motivos óbvios. Enfim, leitura altamente recomendável, por não trazer respostas prontas e levantar várias perguntas, não impor regras sobre “como o feminismo é ou deveria ser”, e por não fazer olimpíada de vitimização, afinal estamos todos nesse grande naufrágio chamado sociedade – perdoem-me por meu niilismo. Nem por isso, ela deixa de mencionar que evidentemente ha mais e menos privilegiados e que há formas de repararmos isso.

Sim, como praticamente todas as mulheres, eu já vivi abusos e, não, não preciso fazer disso uma raiva que me queima e me destrói até me afastar de todos, mas consigo em um exercício de projeção compreender porque isso pode acontecer. Também não me vejo gritando, empunhando bandeiras. Aprendi com a literatura cyberpunk a corromper o “sistema por dentro dele próprio”. Nisso tenho minhas divergências com a autora que enxerga o revolucionário ainda de uma forma um tanto romantizada – talvez seja algo de uma juventude que eu já não tenho, fica a hipótese. Celebro minhas pequenas vitórias nos espaços que conquistei a duras penas e faço minha parte da mesma forma que exerço minha empatia e caridade – em um aprendizado constante – sem grandes alardes, sou lowprofile demais. Ao mesmo tempo, ainda acredito que é preciso utilizar os instrumentos jurídicos/legais (por mais lentos e aparentemente inacessíveis que eles sejam) e foi o que eu fiz em alguns casos. Em outros, me divirto em saber que minha vida é/está muito mais interessante do que desses babacas que me atormentaram e que dessas atitudes converti ainda mais meus interesses e focos tentando não me envenenar.

Quanto aos porquês nos submetermos em alguns momentos da vida e calarmos frente aos abusos, é toda uma teorização psicanalítica sobre a qual não vou e nem me sinto à vontade para falar, não é meu campo, mas me solidarizo pelo entendimento da dificuldade de nos enxergamos como somos, o que queremos, o que desejamos e do quão complexa e variável é nossa auto-estima. Como disse Chris Corner na letra de Oh Cruel Darkness :“Everybody loves to judge, everybody thinks they´re clean”. Se é que podemos tirar uma lição do livro é essa, ainda precisamos refletir e avançar muito para nos libertarmos e que até mesmo nos estereótipos – tão duramente criticados – encontramos pontos de fuga e conexões para além da nossa própria pele.

Noticias das terras da Rainha

Mais de um mês sem dar noticias por aqui. A correria da vida londrina me pegou de jeito, além do fato de que perdi quase 4 dias de cama na semana passada. Primeiro com uma infecção por conta de algo que comi, embalada com uma cistite. Ficar doente no exterior é todo um transtorno, mas deu tudo certo e não precisei acionar o seguro-saúde. Fica a dica pra evitar cistitite: suco e capsulas de cranberry, uma frutinha vermelha. Agora engatei um ritmo de leituras, trabalhos, caminhadas e de visitas a alguns lugares importantes. Muita coisa boa aconteceu nesse mês:

  • Um pouco antes tinha ido ao London Electro Festival em Hoxton, um micro festival de bandas e projetos de synthpop e electro. Algumas coisas interessantes, outras nem tanto, mas valeu pelo show do Mechanical Cabaret, que eu não tinha conseguido assistir no Infest;
  • Assisti uma palestra intitulada “How to be Beyoncé: an interpretation of an icon” no King´s College. Era abertura do Festival de Humanidades, Artes e Mídia. A palestra foi a partir do doutorado do autor que fez um bom apanhado sobre a carreira da cantora a partir de tematicas como celebridades, social media, fãs, política e identidade. Ao final ele ainda se montou no palco e fez uma micro perfromance dublando… Fica minha pergunta/provocação: por que no Brasil, um país que fala tanto sobre celebridades na mídia se discute tão pouco o tema a partir de teorias? Eu tenho hipóteses sobre isso mas não vou falar agora. Mas ok, temos que admitir que a literatura em português e produzida no país sobre a temática tem avançado nos últimos anos, com trabalhos sólidos;
  • Fui a Cardiff no Dr. Who Experience e visitei o mural de Torchwood todo ornamentado com fan-arts em homenagem ao personagem do seriado que morreu.
  • Consegui de última hora entrar no show soldout do Dave Gahan & Soulsavers. Ver um artista que vc admira numa venue intimista é daquelas coisas inesquecíveis e que mudam sua perspectiva de vida. Vou contar toda a saga num post, aguardem;
  • Graças às bibliotecas daqui estou lendo muitas graphic novels. Estou muito fã dos trabalhos da Lise Myhre, artista norueguesa criadora da Nemi. E acabo de comprar uma excelente sobre Ada Lovelace, também produzida por uma artista, só que canadense residente em Londres;
  • Por falar em Noruega, ontem assisti o show da Susanne Sundfor e a performance dela me levantou várias questões sobre a relação entre mulheres e música eletrônica. Coisas a serem desenvolvidas na seqüência;
  • Visitei o cemiterio de Highgate num dia lindo e aprendi muito sobre simbologia vitoriana.
  • A Rainha, ela mesma, visitou a University of Surrey para a inauguração do curso de veterinária. Foi exatamente no dia em que ganhei ingressos gratis para ver o Hurts em Birmingham.

50 dias

“Life moves pretty fast. If you don´t stop and look around once in a while you could miss it”. Essa é uma das citações mais conhecidas e paradigmáticas de Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller´s day off). Acho que de tantos filmes da minha geração, essa frase faz mais sentido a cada ano que passa, a cada aniversário que comemoro, a cada data em que observo essa passagem irreversível do tempo. Faz pouco mais de 50 dias que iniciei o período sabbathical bloody sabbathical aqui no Reino Unido e ainda não havia conseguido respirar e dar essa parada pra olhar ao redor.

IMG_20150903_164540

Morar em outro país, mesmo em um período de tempo não tão grande é sempre uma experiência formativa. No meu caso, sempre tive um enorme apreço pelas ilhas, sobretudo pela literatura e pela música alternativa que consumi em exaustão durante minha adolescência. Pois é, quem diria que todas aquelas horas na biblioteca lendo clássicos tipo Dickens, Austen, Byron, Wilde, irmãs Brontë, entre outros, enquanto meus colegas iam pras emocionantes e maravilhosas praias do Rio Grande do Sul em suas tchurminhas [insira aqui toda ironia possível]  me ajudariam a compreender ao menos em parte o ethos identitário brit e fizesse com que desde aquela época eu já tivesse uma certa afeição por tudo que diz respeito ao país. Depois disso, já estive aqui diversas vezes por conta de projetos de pesquisa, congressos e passeios, então sinto uma certa familiaridade mesmo que à distância.

20150902_185143

Foto do Tarsis Salvatore

Assim, sou uma estrangeira mas com vislumbres insiders. E a ideia de pesquisar aqui não é e nunca foi de subserviência, deslumbramento ou sobre “ser colonizada”, hashtag com a qual eu gosto de tirar sarro com quem não entende meu apreço por certos britanismos. Estou aqui aberta ao diálogo, lendo e observando coisas novas aqui produzidas, no entanto também trazendo articulações do que fazemos no Brasil, que em muitos casos não deixa nada a dever. Nos falta grana e possibilidades devido a diferenças econômicas, políticas etc, mas o diálogo é de igual para igual. Essa postura foi a mesma que adotei durante meu estágio de doutorado nos EUA e que adoto em qualquer congresso internacional.

O mais engraçado é que eu sofri mais bullying – não que hoje em dia ligue a mínima – em relação a temas ou objetos de pesquisa no Brasil – sobretudo durante meu doutorado por inumeros colegas – do que jamais sofri aqui. As humanas e sociais no Brasil em geral – e a comunicação também tem uma excessiva – ao meu ver que sou bem biased – subserviência a tudo que é teoria abstrata e parece distante da realidade. Parece que para passar no teste de “ser de humanas e fazer miçangas” é preciso ainda passar um “ar de olhem como estou distante do mundo e dos objetos e sou um autor complexo”,  independente do estado da arte da pesquisa, independente do que outras pessoas sejam latinos, sejam de quaisquer origem já escreveram. Ai você é considerado um super mega power über teórico, senão você é só um “pesquisador dos objetos”. Bem vindos ao meu clube, o clube dos mundanos, o clube dos que vivem os temas, o clube dos “não sou um intelectual, faço minhas pesquisas sobre os fenômenos que me mobilizam e me afetam”! Eu não sigo “linha teórica”, eu não sigo “autor”, eu me aproprio, eu remixo, eu dialogo, eu extraio tour de forces dos conceitos e os aplico a partir de dados e das minhas inferências e interpretações. Enfim, eu não divido as pesquisas por países ou por teoria X empiria, eu leio o que é pertinente aos meus temas e questões. Mas estou digredindo e esse é um outro assunto. É um problema da academia que muitas vezes se acha tão distante da moda, do mercado e do marketing, mas acaba sucumbindo aquilo mesmo que ela adora criticar,  e elegendo certos “best sellers”. Diga-se de passagem esse não é só um problema brasileiro, é um problema de todos os lugares, mas as vezes é mais opressivo no Brasil. Gente que lê apenas o autor da moda, gente que não cita trabalhos nacionais, gente que não dialoga com o que já foi escrito antes… enfim mas voltemos a vida aqui.

Por essas e outras eu tinha alguns planos em mente quando comecei a planejar esse sabático, ou eu retornaria aos EUA – mas iria para outra cidade –  ou viria para UK, mas como meus trabalhos nos últimos anos, sobretudo o que está relacionado à subculturas, fãs e metodologias tem um diálogo forte com as pesquisas daqui, optei por vir para a Inglaterra. O mais engraçado disso é que depois de tantas visitas ao norte, acabei morando no sul. Para quem não conhece, essas diferenças são muito mais do que meramente geográficas, são diferenças conceituais, de estilo de vida e que vem demarcadas naquilo que se faz mais vivo: o sotaque. Como dica, vale assistir a minissérie da BBC North & South que mostra essas diferenças na era vitoriana. São 4 episódios baseados no livro de mesmo nome da autora Elizabeth Gaskell.

A primeira vez em que estive no norte, mais especificamente em Manchester, em 2012, passei 15 minutos ouvindo um escocês e um mancunian falando em um pub quase bêbados sem entender praticamente nada. Era como se tivesse caído em outro planeta. Eu que me considerava boa em listening flopei miseravelmente rs. Com o tempo e as vindas fui me acostumando ao sotaque duro, aos tons mais altos ao R (érre) carregado que contém a história dessa gente de fibra, gente que trabalhou e lutou durante a revolução industrial, gente que criou o pós-punk e tudo mais. O sotaque do norte me lembra dois sotaques brasileiros: o do interior do RS, bem da fronteira; e do interior de SP com aquela abertura nos sons. Outra feita, em 2013, quando já estava acostumada ao “mancunian accent” passei um tempo debatendo com um vendedor de Liverpool, tentando entender e fruir aquela sonoridade que me soava cantada com os Beatles, cantada como Echo & The Bunnymen. Ou seria fruto do imaginário coletivo e de tanta música que ouvi na vida? Não sei dizer, mas foi divertido ouvir opiniões sobre Neymar e sobre o Brasil, uma percepção em que ele dizia ser “funky”, sim, somos funky porque precisamos sobreviver em uma instabilidade e isso nos dá um tipo de criatividade por um lado e por outro nos atrapalha.

Na minha recente viagem a Leeds e Bradford em agosto continuei observando os sotaques do norte, esse também diferentes do sotaque de Liverpool e de Manchester. Em Leeds , minha breve percepção me pareceu que o sotaque é um nortenho mais arrastado, mais lento e metálico como de Andrew Eldritch? Não sei, é dificil nao ser biased. E Bradford estava cheia de sotaques nativos e não nativos porque o povo que convivi no festival era cada um de canto, seja de UK ou de fora. No geral, fomos muito bem tratados no festival e eu realmente me senti parte de uma “comunidade de sentimentos” e afetos como fala o Benedict Anderson.

E ai me encontro aqui no sul, e os sotaques em geral são mais amenos, por vezes mais rápidos. Em Guildford e região tende a um inglês mais “padronizado”, ao menos no que tange os colegas de universidade – se bem que muitos deles não são dali. Londres não conta pq são tantos e inúmeros (ainda mais considerando os non native speakers como eu mesma por exemplo) que acho que nem uma vida toda daria conta desse mapeamento. Isso que nem estou fazendo aqui as demarcações sobre classe, que é todo um outro ponto, mas enfim, a língua e os sotaques são nossas mediações primeiras e principais com a cultura, isso não é novidade. Mas é bom poder perceber isso em outro país, observando e vivendo o cotidiano das inflexões, das dificuldades de comunicação quando por exemplo ontem no supermercado eu levei uns 5 segundos pra compreender uma piada/elogio do caixa indiano sobre a minha idade para estar comprando vinho.

Além desse fator, gostaria de destacar meu bom apreço à cultura dos parques, aos shows alternativos por um preço pagável (ainda tenho que fazer um post sobre o Electro London Festival) e das bibliotecas, extremamente fáceis de serem utilizadas e voltadas à comunidade. No meu bairro por exemplo, há todo um foco em autores e autoras negras e árabes. Na próximo mês vai ter toda uma programação sobre a questão dos escravos e pretendo assistir a um painel sobre negros na era vitoriana. Sim, quem me conhece sabe do meu apreço por essa era. Sem contar os cheiros de restaurantes mexicanos, árabes, portugueses, chineses, tailandeses, indianos, etc etc. Afinal, somos todos migrantes, somos todos de fora e estamos todos aqui. É tão fácil de compreender.

Sobre a pesquisa em si, estou me dando ao luxo de ler muita coisa mesmo e me deixar por ora um pouco sem um corpus definido e recortado. Exatamente o oposto do que venho fazendo nos últimos anos. Uma espécie de retorno  a um flanar pelos textos e livros. Obviamente que ja estou recolhendo alguns materiais empíricos, mas não quero me adentrar nessas questões agora.

Em Outubro tenho uma nova inserção de campo no Halloween do Whitby Gothic Weekend, antes disso tem um evento sobre Lovecraft em Manchester e em Novembro tenho duas palestras para dar uma na University of Surrey no seminário dos mestrandos e dos pesquisadores e uma na University of Salford em Manchester. Dezembro tem o grande evento sobre Ada Lovelace totalmente interdisciplinar em Oxford, que vou apenas assistir porque o prazo para envio ja havia encerrado, mas ha toda uma track sobre steampunk que creio será bem interessante.

E last but not least, hoje o Depto de Sociologia de Surrey ao qual estou vinculada como pesquisadora visitante recebeu a notícia de que a universidade como um todo está em primeiro no ranking do Guardian das 10 melhores universidades e o depto de sociologia aparece em terceiro lugar, ficando atrás de Cambridge e Bath. Como escrevi hoje no Facebook, sabemos que esses rankings são sempre complicados e discutíveis, mas são indicadores de percepção, no mínimo. Very proud! I couldn´t have made a better choice. E a vida segue em seu ritmo acelerado, e por hoje consegui pausar um pouquinho pra olhar o entorno.