Mulheres e a pesquisa em cultura digital

Nesse dia da mulher eu não gostaria de reprisar coisas que são óbvias mas que mesmo assim algumas pessoas custam a entender a respeito de clichês, estereótipos, etc. No entanto, me bateu vontade de escrever. Um dia talvez eu exorcize na escrita algumas das coisas que já aconteceram comigo, afinal, infelizmente, acontecem em maior ou menor medida com todas nós desde criança. Mas esse momento não chegou e por hora deixo isso para a psicanálise. Já basta a dureza da vida acadêmica, rs e eis que me deu vontade de falar um pouco sobre essas mulheres, que assim como eu enfrentam o cotidiano da pesquisa nessa área específica.

Bom, a história da ciência, da filosofia, etc como um todo sempre relegou o papel das mulheres ao segundo plano. É relativamente recente o resgate da importância delas. Lembro que fiquei chocada de ver que no famoso Pantheon francês apenas Marie Curie está lá, mesmo assim depois de muita briga e após muito muito tempo.Além disso, o que vejo é que apesar dos avanços muitas coisas ainda são mais complicadas para as mulheres do que para os homens.

Até pouco tempo atrás as bolsistas sequer tinham direito à licença-maternidade caso engravidassem ao longo do curso, apenas para citar um exemplo. Sem contar os muitos “machismos” por vezes sutis que vivenciamos como por exemplo colegas homens que não fazem nenhuma tarefa em casa e, evidentemente, ganham mais tempo para produzir.  É muito comum ver, ainda hoje, uma predominância de homens como keynote speakers de grandes eventos. Sem contar alguns alunos que muitas vezes têm dificuldades maiores em aceitar uma professora- se for nova então pior –  numa sala de pós-graduação e dizem amém para qualquer coisa dita por um professor, ainda mais se ele for mais velho. Têm ainda as infames piadinhas que eu já escutei, inclusive de mulheres; como uma ex-colega que certa feita me disse que estudar cyberpunk no doutorado NÃO era uma coisa muito feminina porque afinal, ficção-científica é coisa de guri nerd; ou quando era casada e falavam sobre passar tempo demais viajando para congressos e conferências “longe do marido”, ou “como ele deixava” e uma outra que escutei certa feita numa sala dos professores que falava que a maioria das mulheres que tinham grande êxito na pesquisa era porque não tinham filhos e eram mal amadas e dai tinham tempo para publicar papers. Pasmem, eu ouvi isso uns anos atrás e da boca de mulheres!

Mas estou saindo do meu tema que era  falar um pouco sobre o trabalho de algumas  mulheres que pesquisam cibercultura/ cultura digital/ mídias digitais/ TICS, etc (evidentemente existem N discussões sobre as diferentes terminologias, vou poupar a todas e todos disso porque aqui não é o lugar rs).  A área de comunicação em geral sempre teve uma maioria numérica de mulheres, o que NÃO quer dizer que elas sejam as autoras mais citadas e/ou reconhecidas  da área.Contudo, como eu disse, isso está em franca mudança.

De qualquer forma o trabalho seminal de algumas pesquisadoras dessa área me inspirou desde o princípio, sobretudo no que tange à pesquisa empírica ou aspectos metodológicos. Trabalhos pioneiros nos anos 90 como os de Janet Murray, Nancy Baym, Sherry Turkle, Susan Herring, Cristine Hine, Katherine N. Hayles, Donna Haraway, entre tantas outras, trouxeram aspectos interessantes para todo o campo. Enquanto fazia minha tese de doutorado inclusive me deparei com autoras que tratavam do ciberfeminismo e analisavam as questões de gênero relacionadas ao corpo na Ficção-Científica. Aquele foi um momento importante na minha vida teórica que me fez compreender uma série de articulações. O hoje clássico Manifesto Cyborg escrito por Donna Haraway foi um marco justamente por propôr esse embaralhamento dos gêneros através da figura dx cyborg. Não é à toa que no anime Ghost in the Shell II tem até uma personagem em homenagem a ela, a doutora que cuida dos ciborgues e se chama Haraway. Sem contar a influência que a poeta e ensaísta feminista  Kathy Acker, falecida em 1997, teve sobre as teorias produzidas na época. O trabalho dela centrava-se muito nas questões corpo, gênero e máquinas, como no aforismo a seguir: “Literature is that which denounces and slashes apart the repressing machine at the level of the signified”. É uma pena que a maioria desses trabalhos não tenha sido traduzido para o português. Aliás até hoje a maior parte das teorias e pesquisas sobre cultura digital NÃO está traduzida para o português e isso não é prerrogativa das mulheres (é que a maior parte das teorias do campo não está traduzida mesmo), mas é uma barreira para que várias alunas (os) continuem a  desconhecer a própria história do campo. Para não ficar apenas nos anos 90, dana boyd (ela pede que escrevam o nome todo em minúsculas), Gabriela Coleman, Elisenda Ardevol, entre muitas outras têm escrito sobre temas como sites de redes sociais, hackers/ativismo digital e metodologias.

E para não dizer que falei apenas do contexto anglo-saxão – evidentemente que existem  autoras de outras nacionalidades mas selecionei aqui aquelas teorias com as quais tenho mais contato devido a minha formação – temos uma série de pesquisadoras brasileiras cujo trabalho obtêm reconhecimento nacional e internacional e que não deixam NADA a dever para as estrangeiras. Não me arrisco a fazer uma lista para não criar discórdia rs , mas não podia deixar de nominar os trabalhos das amigas e colegas Simone Pereira de Sá, Raquel Recuero, Suely Fragoso, Fatima Regis, Sandra Montardo, Gisele Beiguelman, Beth Saad e as meninas do jornalismo digital Claudia Quadros Luciana Mielniczuk, Suzana Barbosa entre tantas com as quais já tive a oportunidade de trabalhar e aprender (por favor, não me matem, é muita gente). Raquel e Sandra foram minhas grandes companheiras de mestrado e doutorado, quando tais temas ainda eram novos no Brasil e muita gente torcia o nariz para os nossos objetos de pesquisa aqui no sul do país.

É legal destacar que Suely, salvo se a memória me engana foi a primeira coordenadora do GT Cibercultura da Compós (quando ele ainda se chamava TICS – Tecnologias da Informação e Comunicação)  e que atualmente ele é coordenado pela Fernanda Bruno. Nas questões ligadas à gênero e tecnologias sempre tivemos uma série de autoras nas ciências sociais (mais recentemente, Larissa Pelucio é uma referêncial, mas há muitas outras), embora  especificamente na comunicação ainda sejam poucas. Mais recentemente o trabalho da Graciela Natahnson vem tratando do assunto. Tenho o prazer de ter orientado  duas dissertações de mestrado sobre gênero e tecnologias no ano passado e em 2014, estou orientando uma dissertação sobre mulheres gamers.

Meu objetivo nesse post era apenas citar o trabalho dessas pesquisadoras como uma espécie de tema motivador a outras mulheres. Não queria discorrer sobre a temática mulheres e tecnologias, embora essa discussão seja muito interessante,   é por demais ampla e transdisciplinar para um só post. A própria história da computação lentamente vai dando os devidos créditos a tantas pioneiras (Ada Lovelace, Hedy Lamarr, etc), mas tudo isso ainda precisa ser muito mais debatido e pesquisado. Quis aqui apenas falar do trabalho de autoras que me inspiraram e me inspiram e colegas com as quais eu tenho orgulho de ter trabalhado/trabalhar e que fazem avançar a pesquisa sobre os meios digitais.

SIMSOCIAL – Simpósio de Pesquisa em Tecnologias Digitais e Sociabilidade

Em outubro estarei em Salvador participando da 2a edição de um evento que foi comentadíssimo no ano passado, o SIMSOCIAL – Simpósio de Pesquisa em Tecnologias Digitais e Sociabilidade, organizado pelo GITS – Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade da UFBA. Abaixo, o release de divulgação do evento:

Ocorre nos dias 10 e 11 de outubro, na Universidade Federal da Bahia, o SIMSOCIAL – Simpósio de Pesquisa em Tecnologias Digitais e Sociabilidade. O evento, idealizado pelo GITS – Grupo de Pesquisa em Interações, Tecnologias Digitais e Sociedade, tem caráter acadêmico e se destina a promover debates e circulação de pesquisas sobre tecnologias digitais e sociabilidade.

Na programação, estão previstas atividades como conferências e apresentação de comunicações em núcleos temáticos, baseados em questões como consumo e estratégias de mercado, política e ativismo, dinâmicas interacionais, educação e aspectos cognitivos e práticas colaborativas. Como palestrantes e conferencistas, já estão confirmados importantes nomes como Adriana Amaral, André Lemos, Edvaldo Couto,Marcos Palácios, Raquel Recuero e Tânia Hetkowski.

Em sua segunda edição, o SIMSOCIAL tem como tema Práticas Interacionais em Rede e pretende agregar pesquisadores, professores e estudantes universitários, além de profissionais de instituições relacionadas ao campo da Cibercultura. Chamada de trabalhos e demais informações em http://www.gitsufba.net/simsocial.

Programação do GT “Comunicação e Cibercultura” na Compós 2012

E saiu a programação do GT “Comunicação e Cibercultura” da Compós 2012, que acontecerá na UFJF, em Juiz de Fora, de 12 a 15 de junho de 2012 enviada pelo coordenador Erick Felinto.

 Programação do GT “Comunicação e Cibercultura”

Dia 1

9:00h -10:00h – WIKIPÉDIA COMO SISTEMA ADAPTATIVO COMPLEXO: auto-organização e emergência na produção por pares

Carlos Frederico de Brito d’Andréa

Resumo: No artigo discutimos e analisamos a edição colaborativa da Wikipédia à luz de duas características fundamentais dos sistemas adaptativos complexos: auto-organização e emergência. Iniciamos com uma aproximação conceitual entre a “produsage” por pares em rede na internet e a teoria da complexidade, que ressalta a interdependência entre as partes que atuam ou influenciam um sistema em busca de um equilíbrio dinâmico. Em seguida, discutimos a edição de cinco “Biografias de Pessoas Vivas” de personalidades brasileiras na Wikipédia em português, visando entender como os processos editoriais potencialmente auto-organizados e emergentes se desenrolaram a partir das interações entre os agentes. Após a apresentação e discussão dos dados, discutimos os desafios de se conciliar a ordem e a abertura no desenvolvimento da “enciclopédia que todos podem editar”.

Relator: Marco Toledo Bastos (ou Rodrigo Travitzki ou Rafael Galdini Raimundo)

10:00h – 11:00h – GATEKEEPING EM TEMPOS DE TWITTER
A Emergência de Trending Topics Políticos no Twitter

Marco Toledo Bastos
Rodrigo Travitzki
Rafael Galdini Raimundo

Resumo: O artigo descreve a estrutura do gatekeeping em hashtags políticas do Twitter e discute a atualidade do conceito, que não obstante as múltiplas acepções, permaneceu topologicamente definido como um filtro ou gargalo de decisões. O impacto das redes sociais na mecânica do gatekeeping é ilustrado por meio de uma análise de correlação estatística de hashtags políticas que alcançaram a primeira posição na seção Trending Topics do Twitter. Os resultados indicam que a intensa atividade de indivíduos com conectividade relativamente baixa é capaz de criar Trending Topics, descrevendo com isso um cenário alternativo à visão hegemônica sobre a emergência de Trending Topics baseada na influência de usuários-hub (gatekeepers). Os resultados também confirmam as investigações sobre o consenso social resultante da influência de minorias engajadas, corroborando a tese de que uma opinião majoritária na população pode ser revertida por um pequeno grupo de indivíduos imunes à influência social.

Relator: Carlos D’Andréa

TARDE:

14:00h – 15:00h – RASTROS DIGITAIS: o que eles se tornam quando vistos sob a perspectiva da teoria ator-rede?

Fernanda Bruno

Resumo: Um volume expressivo de rastros de nossas ações são gerados, monitorados e tratados cotidianamente na Internet, constituindo imensos arquivos sobre nossos modos de vida. Estes rastros digitais vêm sendo apropriados por diversos campos: vigilância, publicidade, entretenimento, serviços etc. Mas eles também vêm sendo valiosa fonte de pesquisa em ciências humanas e sociais. O valor desses rastros está atrelado ao conhecimento que possibilitam e há, neste domínio, uma série de embates. Este artigo confronta dois modelos de conhecimento neste domínio, os quais têm implicações diferenciadas para uma política dos rastros digitais. O primeiro, vigente nos aparatos comerciais e policiais, concebe o rastro como evidência atrelada ao indivíduo e/ou a padrões comportamentais. O segundo, objeto maior de nosso interesse e inspirado na teoria ator-rede, entende os rastros como inscrições de ações que permitem descrever a formação de coletivos sociotécnicos.

Relator: Cíntia dal Bello

15:00-16:00h – MATERIALIDADES DA COMUNICAÇÃO E PRESENTIFICAÇÃO DO SUJEITO EM SITES DE REDES SOCIAIS

Simone Pereira de Sá
Beatriz Brandão Polivanov

Resumo: O trabalho tem por objetivo discutir aspectos materiais da comunicação nas plataformas de redes sociais, abordando os modos através dos quais os sujeitos se apresentam nesses espaços a partir de um estudo de caso: a escolha de personagens do universo midiático como imagens dos perfis em datas comemorativas. Problematizando-se o argumento que se baseia na crítica da hipervisibilidade do sujeito contemporâneo e partindo das premissas de que a) a comunicação supõe sempre um dado de “materialidade”, b) o consumo de bens culturais é produtor de identidades e c) os sujeitos se apropriam com frequência desses bens, escolhendo cada elemento a ser publicado “por seu potencial semiótico”, analisamos a troca de fotos de perfis por personagens infantis durante o último Dia das Crianças no site Facebook, a partir das categorias de auto-reflexividade e coerência expressiva dos sujeitos com os personagens.

Relator: Adriana Amaral

16:00h – 17:00h – “ESSES ROQUERO NÃO CURTE”: performance de gosto e fãs de música no Unidos Contra o Rock do Facebook

Adriana Amaral
Camila Monteiro

Resumo: O presente artigo explora o debate sobre o gosto e suas manifestações nos sites de redes sociais.  Discutimos a noção de performance de gosto (Hennion, 2007, 2010) como uma relação experiencial entre sujeitos, música e as materialidades da tecnologias. A partir da contextualização das discussões sobre o gosto e os fãs de musica, descrevemos e caracterizamos algumas formas empíricas dessas manifestações, tomando como amostra a fanpage Unidos Contra o Rock do Facebook. Dentre as observações iniciais destacamos o amálgama entre as disputas simbólicas e distinções sociais  (Bourdieu, 2008) no embate entre os gêneros rock e funk carioca; os elementos de capital subcultural (Thornton, 1996) e a sociabilidade ora lúdica ora combativa de fãs, anti-fãs, haters e trolls. Tais aspectos constituem modos de performatização do gosto musical atuando nas mediações entre a escuta e os gêneros musicais no contexto da cultura contemporânea.

Relator: Simone de Sá e Beatriz Polivanov

DIA 2

9:00h – 10:00h – JOGANDO POR UM IDEAL: breves notas sobre a influência dos games na história da interação humano-computador

Letícia Perani

Resumo: Desde o início da história da interação humano-computador (HCI, em inglês), uma possível influência dos jogos eletrônicos é apontada por diversos autores que pesquisam estas tecnologias de comunicação e informação (TICs). No presente artigo, a partir de uma breve revisão bibliográfica, com base em uma observação empírica da recorrência e na técnica do cruzamento de referências, pretendemos apontar alguns dos temas e eventos citados por pesquisadores deste campo, o que pode nos ajudar a compreender como nos relacionamos tanto com os games quanto com os dispositivos computacionais.

Relator: Fátima Régis

10:00h-11:00h – O ARTISTA E O APARATO TÉCNICO: entre os processos artísticos e os métodos da tecnologia

César Baio

Resumo:Este texto é uma reflexão teórica sobre as relações entre o artista e a tecnologia no campo da artemídia. Nota-se uma série de tensões que se estabelecem nos processos de integração e ruptura entre os procedimentos artísticos e os métodos das áreas de tecnologia. Embora eventualmente presentes na história da arte, essas questões ganharam novos contornos e proporções com o crescimento da facilidade de operação de ferramentas de desenvolvimento de software e hardware ocorrido na última década. Partindo da filosofia de Vilém Flusser, esse contexto é analisado com o objetivo de esboçar uma base teórica que ajude a compreender a postura ética assumida pelo artista em relação à tecnologia e a sua reverberação na produção contemporânea. Esta análise aponta para uma arte do aparato, em que a o artista passa a operar nas camadas abstratas das máquinas fazendo da materialidade da obra uma intervenção de dimensões políticas, éticas, epistemológias e cognitivas no seu contexto cultural.

Relator: Elizabeth Saad Corrêa

11:00h-12:00h – O ALGORITMO CURADOR:
O papel do comunicador num cenário de curadoria algorítmica de informação

Elizabeth Saad Corrêa
Daniela Bertocchi

Resumo: A recente cena das redes digitais tem indicado com ênfase a atividade de curadoria e a própria figura do curador como saída ao problema da abundância informativa em rede. Argumentamos, contudo, que na atualidade a curadoria da informação em ambientes digitais tem se manifestado mais como um procedimento automático algorítmico que propriamente humano. Com base em na revisão da literatura, reiteramos entretanto que o processo curatorial configura-se como uma atividade inerente ao campo da Comunicação. O comunicador tem competências para assumir papéis de seleção, filtragem, agregação e, mais importante, re-mediação de conteúdos para partilha em rede, inclusive com auxílio de algoritmos.

Relator: César Baio

TARDE

14:00h-15:00h – Espaço, Mídia Locativa e Teoria Ator-Rede

André Lemos

Resumo:O social é o que emerge das associações, diz a Teoria Ator-Rede (TAR). As associações entre actantes (aquilo que produz uma ação) humanos e não-humanos são sempre localizadas. A TAR busca analisar como se dão as associações e suas localizações para conhecer o social. Esse tipo de enfoque sobre o social pode ser particularmente interessante para se pensar a espacialização nos processos comunicacionais e, mais ainda, naqueles emergentes com as atuais mídias de geolocalização. Esse artigo se insere em uma pesquisa maior sobre as “mídias locativas” a partir da TAR. Aqui discutimos, particularmente, a noção de espaço.

Relator: Vinicius Andrade Pereira

15:00h – 16:00h – VISIBILIDADE MEDIÁTICA, VIGILÂNCIA E NATURALIZAÇÃO DO DESEJO DE AUTOEXPOSIÇÃO

Cíntia Dal Bello
Debora Cristine Rocha

Resumo: Este estudo tem por objetivo refletir sobre como a relação entre visibilidade e vigilância nos meios de comunicação contribui para a naturalização do desejo de autoexposição. Para tanto, parte das considerações de Foucault (1979) sobre a dinâmica do panopticon de Bentham e a instituição moderna do exercício do poder disciplinador pelo olhar; considera, com Santaella (2010), a sobreposição dos regimes de vigilância panóptico, escópico e por rastreamento; e propõe que a naturalização do desejo de autoexposição, tanto em plataformas ciberculturais de relacionamento quanto em reality shows, a despeito das possibilidades de indexação pelos regimes de vigilância, advém do modelo sinóptico, tributário da sociedade do espetáculo e da indústria cultural, conforme Bauman (1999).
Relator:
Fernanda Bruno

2a Edição de Métodos de Pesquisa para Internet

Esse micropost é só para informar que acaba de sair “do forno” a 2a edição do livro Métodos de Pesquisa para Internet, obra produzida a três mãos por Suely Fragoso, Raquel Recuero e eu, com prefácio de Alexander Halavais e texto complementar da Simone de Sá. O livro, que estava com a 1a. edição esgotada, já pode ser adquirido através da Livraria Cultura e do site da própria Editora Sulina. Presencialmente, quem mora em Porto Alegre também pode ir direto na editora, que fica na Av. Osvaldo Aranha, 440/101.

ISBN: 978-85-205-0594-6
Categoria: Comunicação, Internet, Metodologia
Edição: 1ª – reimpressão – 2012
Formato: 14 x 21 cm
Nº de Pag.: 239
Peso: 0,288 gramas
Preço: R$ 33,00

O interesse pelas abordagens empíricas a respeito das tecnologias digitais de comunicação tem avançado de forma perceptível no Brasil. “Como fazer”, “como aplicar” e “como pensar” metodologias que sejam eficientes e que permitam coletar e analisar dados compatíveis com os seus problemas de pesquisa e com suas perspectivas teóricas constitui um dos maiores desafios que se colocam para os pesquisadores. O livro Métodos de pesquisa para internet, escrito por Suely Fragoso, Raquel Recuero e Adriana Amaral, nasceu da percepção desse contexto e tematiza e exemplifica perspectivas metodológicas específicas a respeito da internet. Além disso, fornece subsídios para estudos sobre outros temas em que a internet desempenhe o papel de lugar ou de instrumento de pesquisa. É um livro construído a partir das próprias experiências de pesquisa empírica das autoras ao longo de anos de estudo e experimentação com diferentes métodos.

Algumas notas sobre o Digitalia

Na semana passada estive em Salvador participando do Digitalia – Festival Internacional de Cultura e Música Digital. Em primeiro lugar gostaria de destacar o formato do evento que incluia mesas e apresentações de trabalhos acadêmicos, performances, workshops, desconferências e shows. Foi muito rico em termos de conteúdo e de dar uma leveza e empiria ao encontro e às trocas entre atores que trabalham nos diversos aspectos do campo da música e da cultura digital. Parabéns a toda a organização, em especial ao Messias Bandeiras e à Tatiana Lima.

O evento começou no dia 01 com uma abertura no Teatro Vila Velha – que eu não conhecia e que achei com um astral ótimo – com a presença de Gilberto Gil, Derrick Deckerckove, Ronaldo Lemos e a conferência do DJ Spooky a.k.a. Paul Miller que falou sobre os processos de remixagem e produção musical do fonógrafo aos aplicativos de iPad. Ainda teve show da Orquestra Rumpilezz e um coquetel com comida típica. Infelizmente não pude ficar para o show de encerramento com Criolo e Stomp na Concha Acústica, mas pelas fotos que vi, com certeza foi um sucesso, pois o evento estava sempre com muita audiência.

Participei da Mesa sobre “O estatuto da performance musical nos dispositivos e plataformas tecnológicas” juntamente com os colefas Thiago Soares (UFPB) e Vinicius Andrade Pereira (UERJ/ESPM). Thiago falou sobre as epifânicas aparições performáticas de celebridades da música no Twitter, eu comentei sobre o conceito de co-performance no electro-industrial e no witch-house e Vinicius falou sobre a performance sensorial e corporal do noise.

Dentre as coisas interessantes que consegui assistir, a desconferência com Gilberto Gil, Juca Ferreira, Deckerchove e Spooky foi bacana e a mesa sobre cenas e gêneros com Simone de Sá e Jeder Janotti Jr. Simone falou sobre apropriações ddas tecnologias na cultura do funk carioca, tendo como objeto de análise a “batalha dos passinhos”. A fala de Simone foi bastante centrada na questão cultural dos usos do celular e de plataformas como o youtube para mostrar sua relação com o local e com a forma como nos relacionamos com as mesmas, dando visibilidade a gêneros e cenas.

Jeder tratou da discussão sobre cenas como uma categoria fluida tendo como objeto uma análise de como o gênero Heavy Metal se configura como global e local entre o macro e o micro e como essa relação com o local impacta na linguagem e estética do produto e até mesmo na musicalidade do mesmo. Sua fala centrou-se sobretudo na cena mineira de Metal dos anos 80/90 e suas características e no caso específico do Sepultura, que em Territory endereça questões que articulam vários âmbitos e instâncias como a luta política pelo território seja ele físico (de Israel x Palestina no caso da música) ou simbólico (a cena mineira, a cena nacional e a cena internacional de Metal). Uma fala bastante inspirada, diga-se de passagem.

O Digitália mostrou que dá sim para misturar produtores, pesquisadores, performers, etc e manter o nível das discussões e as identidades de cada espectro do circuito relacionado à cadeia da música. Espero que o Festival tenha uma segunda edição no ano que vem, até porque encontrar colegas como Simone, Vinicius, Thiago, Jeder, entre outros em Salvador mais do que trabalho é um prazer. O ponto negativo fica por conta do caos detonado na cidade pela greve da polícia e suas questões políticas entre o governador e o clima de tensão devido ao relato das mortes e saques à lojas. Por isso, muitas programações como shows, teatros e museus foram canceladas, mas também saliento que há um certo alarmismo da mídia. Torço para que essa gravíssima situação seja revertida.

CfP You, Me, User – Conference on User-Generated Culture

Mais uma chamada que parece interessante. Recomendado para quem pesquisa sobre Conteúdo Gerado pelos Usuários. A dica veio através da lista da Aoir.

CALL FOR PAPERS

You, Me, User – Conference on User-Generated Culture
Friday 25, May – Saturday 26, May 2012 in Helsinki.

From social media to video games and from online fan production to machinima the phenomenon of user-generated culture has secured its position in the mainstream during the last few years. This shift has resulted from the blurring boundaries between media production and consumption as well as between professional and amateur authorship. The phenomenon is claimed to be characterized by collaboration, accessibility and democratic potential. During the You, Me, User Conference we approach the user-generated culture, or in other words, multiple situations where culture becomes modified, produced and distributed through everyday practices, social and new media.

The Finnish Society for Cinema Studies (SETS) invites presentations which explore the questions surrounding user-generated culture. The conference will bring together Finnish and international scholars of a wide range of relevant fields of studies. The conference will offer a chance to focus on a new and active field of study and is open to presentations from a wide spectrum.

Keynote speeches are delivered by David Buckingham and Frans Mäyrä.

Professor David Buckingham (Loughborough University) is a media education researcher.  He is especially interested in children’s and young people’s interactions with electronic media, consumer culture and civic participation. His most recent book is The Material Child: Growing Up in Consumer Culture (2011).

Professor Frans Mäyrä (University of Tampere) has focused on media culture, digital media and games. He leads an interdisciplinary research group on games study where game culture, players, their activities and gameplay experiences are approached. Mäyrä has published Introduction to Game Studies: Games in Culture (2008), for example.

We seek paper proposals from various fields, such as film, television, games, internet, music, art, literature etc. It is our intention to organize the symposium around questions, such as:
•    What is user-generated culture and how to conceptualize it?
•    Changes in the distribution channels of audiovisual media due to user-generated culture
•    Changes in the consumption of audiovisual media due to user-generated culture
•    Fan as an author?
•    How does user-generated culture blur the boundaries of production and consumption?
•    Politically, socially or culturally significant forms of user-generated culture.
•    Global and local implications of user-generated culture.
•    Does user-generated culture produce new forms of community?
•    Problems of control and copyright in user-generated culture.
•    Does user-generated culture produce new forms of community?

What are the problematic dimensions of user-generated culture (censorship, legal issues etc.)

Proposals including an abstract (max 300 words) and a short CV should be submitted to Conference Secretary Maija Uusitalo by email: amkuus@utu.fi by 19.2.2012 at latest. Notification of acceptance will be sent by 1.3.2012.

Organizers:  Finnish Society of Film Research in concert with National Audivisual Archive, Media Studies (University of Turku), Cinema and Television Studies (University of Helsinki), Aalto University, School of Communication, Media and Theatre (University of Tampere) and Koulukino.

More information:

http://sets.wordpress.com/user-generated-conference/

Twitter da Narcisa vira objeto de pesquisa de TCC

mulheres ricas

No dia 02 de janeiro estreiou na TV Bandeirantes o reality show Mulheres Ricas, acompanhando “o cotidiano sem noção” de cinco peruas (desde lá estou assistindo o programa). O programa todo é muito caricato, das personagens à narrativa, passando pelas “beeshas chaveirinho” que são os assistentes de algumas delas, o figurino, os diálogos, etc. Tudo mais fake do que flor de plástico na sala daquela sua tia. E quem assiste algum programa desses esperando “realidade” ou “cultura” simplesmente não compreendeu as regras do jogo. O programa, assim como acontece todo o ano com o BBB, tem sido um dos mais comentados nos sites de redes sociais e se mantido nos Trending Topics constantemente, sobretudo, uma personagem já bastante conhecida do público: Narcisa Tamborindeguy, o que motivou a deixa para esse post.

Mesmo Narcisa sendo a personagem que menos aparece (Val, que já foi “escolhida”como “a vilã” por exemplo aparece o triplo de vezes), ela mantém uma torcida fiel e seu nome e outras hashtags relacionadas a ela – incentivadas por ela própria no seu perfil do Twitter – dominam os Trends durante o horário, além dos inúmeros RTs e comentários no Facebook e em outros sites. Narcisa é um personagem que rende e que, mesmo antes do programa já possuía uma construção identitária que estava entre o escancaradamente “fake” e o real com seus exageros e bordões por vezes beirando o estilo “Maria Antonieta”- na clássica frase a ela atribuída: “se não tem pão, que comam brioches” referindo-se ao povo francês que passava fome.

Bom, mas estou me desviando um pouco do meu ponto que era falar sobre o papel da construção dos personagens, que é e sempre foi central para o desenvolvimento de qualquer narrativa (literária, cinematográfica, etc). Em tempos de convergência, os personagens de um determinado produto de mídia/franquia são também aqueles que possibilitam níveis maiores ou menores de engajamento por parte dos fãs/atores sociais que investem seu tempo em consumir/comentar aquele programa. Dai a importância de se pesquisar e estudar as questões identitárias – que são o que, de certa forma, fundamentam na base a saga dos personagens – delineados nesse tipo de experiência comunicacional, sobretudo aquelas relacionadas ao entretenimento.

perfil narcisa

Assim, trabalhos que lidem com essas questões podem nos ajudar a compreender diferentes formas de consumo e maneiras de percebermos a maneira como se dá sua circulação e viralização nas redes. No semestre passado, tive o prazer de orientar um Trabalho de Conclusão de Curso que, de certa forma, observa competentemente com algumas dessas questões, e, inclusive têm o perfil “fake-real” de Narcisa como um dos seus objetos de análise: “A apropriação de identidade no ambiente virtual: uma abordagem sobre os perfis fakes do Twitter” de Dierli Mirelle dos Santos. O fenômeno dos fakes relacionados ao humor e a determinados memes tem sido uma das tônicas de maior atividade e popularidade do Twitter, mas ainda pouco estudado. Na monografia defendida com distinção, Dierli utilizou como recorte para escolha dos perfis os fakes de quatro celebridades (ou subcelebridades diriam alguns), em sua maioria conhecidas do meio televisivo: o jornalista esportivo Paulo Vinicius Coelho (PVC); o comentarista esportivo Cleber Machado; o roqueiro Serguei e a socialite Narcisa de Tamborindeguy.

O Twitter de Narcisa é um caso bastante peculiar, uma vez que ele iniciou como fake, mas a própria Narcisa gostou tanto das intervenções do perfil (aliado ao fato da alta popularidade do mesmo), que decidiu transformá-lo em oficial sendo que ele é utilizado por ela e pela pessoa que inicialmente gerenciava o perfil indistintamente. Ao longo da pesquisa, Dierli observa que a apropriação de rastros identitários se dá tanto nos perfis em si como por parte dos seguidores, sobretudo no que diz respeito à linguagem; o conteúdo que utiliza fatos atuais relacionados  ao “estilo de vida da personagem” e as interações intensas com os seguidores são as principais motivações para ser seguidor desse tipo de perfil.

Para mim, fica muito claro  que as peculiaridades e subjetividades da identidade mediada da “personagem” Narcisa são alguns dos itens que fazem com que ela alcance tanta popularidade em sua migração de “celebridade” da mídia tradicional para a internet e no fluxo entre ambas (agora com o retorno a um programa de televisão). Por outro lado, a TV re-atualiza e ressignifica a personagem dentro de seu contexto narrativo. Tudo isso combinado às possibilidades conversacionais dos SRS amplifica um determinado segmento de audiência do programa, que assim como os seguidores de Narcisa têm consciência da intencionalidade fake e procuram a diferença identitária como modo de entretenimento.