Ativismo de fãs: um tema em discussão

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Já faz um tempo que tenho me incomodado com a ideia de uma separação entre um suposto “mundo fútil do entretenimento” e um  “mundo da cidadania e da política ativista”, como se fosse ainda possível separar tais instâncias, como se tanto a política como tanto o entretenimento não estivessem articulados e como se não possuíssem ingerências e afetações um sobre o outro. A partir dessa premissa e das discussões que temos travado no CULTPOP, eu, Rosana Souza e Camila Monteiro escrevemos o artigo “De Westeros no #vemprarua à shippagem do beijo gay na TV brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos, resistências e práticas na cultura digital brasileira apresentado na semana passada no GP Cibercultura da Intercom 2014 em Foz do Iguaçu.

Abaixo o resumo e as palavras-chave:

A partir do entendimento de que o ativismo de fãs é uma forma de resistência no âmbito  criativo e cultural, buscamos aqui discutir a mobilização desses grupos de fãs em prol de seus ídolos, bem como discutir sobre como a busca por intimidade e a relação de proximidade celebridade/fã são propulsoras de uma série de atividades que delineiam, (re)definem e ultrapassam as fronteiras do fandom. Observamos, a partir de reflexão teórica sobre tais fenômenos e discussão de exemplos do cotidiano, como o rico universo das práticas e produções digitais deste universo – fanfics, fanvids, fanzines, etc. – produzem reflexos socioculturais – rolezinho, crowdfunding, fanmades em protestos – ressignificando o que entendemos como resistência e problematizando a dualidade existente entre o “mundo do consumo e da cultura pop” e o “mundo da cidadania”.

Palavras-chave: ativismo de fãs; cultura digital; resistência; cultura pop

Comentários, discussões, debates são todos bem vindos 😉

Cultura dos fãs: A evolução da influência

Muito interessante o mini-documentário britânico Fan Culture: The evolution of influence sobre como a cultura dos fãs se transformou ao longo do tempo e como ela está relacionada com o branding na construção da afetividade pelas marcas, sobretudo através de ações online-offline. Pesquisadores como Matt Hills, fãs e profissionais do mercado de marketing falam sobre o engajamento e os relacionamento dos fãs com as marcas.

Popular Media Cultures: Writing in the Margins and Reading Between the Lines

Que evento interessante esse!!! Sherlock, True Blood, Madonna online, trolls e ativismo de fãs. É muita coisa bacana num só dia! #ficadica para quem estiver em Londres na data.
Dear colleagues
You are invited to register for:
Popular Media Cultures: Writing in the Margins and Reading Between the Lines
 

A One Day Symposium to be held at the Odeon Cinema, Covent Garden, London
Saturday 19th May 2012.
Keynote Address by
Prof. Henry Jenkins, University of Southern California
Registration starts at 9am with the programme of presentations starting at 10am followed by the Keynote address. The day is scheduled to close at 6pm.
The Programme is as follows:
Prof. Mark Jancovich

“Relocating Lewton: Cultural Distinctions, Critical Reception and the Val Lewton Horror Films.”

Dr Stacey Abbott

“‘I Want to Do Bad Things to You’: The Cult of the TV Horror Credit Sequence.”

Dr Will Brooker

“Hunting The Dark Knight: Authorship and the Nolan Function.”

Dr Joanne Garde-Hansen and Dr Kristyn Gorton

“From Old Media Whore to New Media Troll: Theorising Madonna Online.”

Dr Matt Hills

“Towards a Psychosocial Theory of Spoilers: Doctor Who, Ontological Security, and Fans’ Self-Narratives.”

Prof. Roberta E. Pearson

“I Hear of Sherlock Everywhere: Fans and the Sherlockian ‘Franchise’.”

Dr Cornel Sandvoss

“The Politics of Proximity in Part-Scripted Reality Drama: On fans of The Only Way is Essex and Made in Chelsea.”

 

Keynote Address

 

Prof. Henry Jenkins

“Beyond Poaching: From Resistant Audiences to Fan Activism.”

Popular Media Cultures seeks to explore the relationship between audiences and media texts, their paratexts and interconnected ephemera, and the related cultural practices that add to and expand the narrative worlds with which fans engage. How audiences make meaning out of established media texts will be discussed in connection with the new texts produced by fans. The symposium will focus on the cultural work done by media audiences, how they engage with new technologies and how convergence culture impacts on the strategies and activities of popular media fans.

Fees (including lunch and refreshments)*:
£50 Full rate
£25 Student reduced rate
*Delegates on the day will receive a 10% discount on purchases made at the Forbidden Planet Megastore on presentation of their symposium name badge.
For further details of how to register and attend the event go to our website at: http://popularmediacultures.port.ac.uk/
The Symposium is supported by the Centre for Cultural and Creative Research at the University of Portsmouth. See: http://www.port.ac.uk/research/cccr/
Dr Lincoln Geraghty
Reader in Popular Media Cultures
Director of the Centre for Cultural and Creative Research
School of Creative Arts, Film and Media
University of Portsmouth
Coordinator, Popular Media Cultures Symposium:  www.popularmediacultures.port.ac.uk
Editor, Directory of World Cinema: American Hollywood, Intellect Books
http://www.worldcinemadirectory.org/
Profile:
Mail:
3.30 St George’s Building, 141 High Street, Old Portsmouth, PO1 2HY, UK
Tel: +44 (0) 239 284 5754
Fax: +44 (0) 239 284 5372
E-mail: Lincoln.Geraghty@port.ac.uk
Fonte: Fan cultures list

Mobilização, Rede de Pesquisas e Histórias de Fãs

Faz tempo que eu queria postar a segunda parte do diálogo – confira a parte 1 – que eu e a Raquel Recuero travamos no ano passado sobre as mobilizações de fãs via Twitter, mas a correria andava grande e estava sem tempo para traduzir as duas últimas questões. Aproveito para postá-las e juntamente comentar mais duas informações sobre fãs que recebi essa semana.

Mobilização de Fãs através dos SRS – parte 2

Raquel Recuero: Não é comum encontrar tantas “mobilizações de fãs”em  TTs de outros países como é no Brasil. Os fandoms brasileiros são diferentes dos fandoms de outros países?

Adriana Amaral: Tenho tentado compreender as diferenças e acredito que existem diferentes tipos de performatizações de gostos em diferentes fandoms, embora o sentimento de “ser fã” seja o mesmo globalmente. Também acredito que os elementos extra-musicais são importantes. Por exemplo, no dia 16/7 (data da entrevista), a hashtag #parabenstiojunior estava nos TTs e se referia ao aniversário de Arnaldo Junior, um dos empresários do cantor pop/sertanejo Luan Santana. Os fãs de Luan Santana o conhecem pelo apelido “tio Júnior”. Essa é uma informação até então privada que é compartilhada pelo Twitter e tem importância para os laços afetivos entre essa base de fãs. Certamente esse tipo de coisa não aconteceria ou aconteceria de outra forma em um subgênero diferente com diferentes práticas e idades por exemplo.

RR:  De que forma os fandoms estão se apropriando das tecnologias de mídias sociais no Brasil? Nos conte alguns exemplos.

AA: Há várias formas de apropriação e as diferenças acontecem de acordo com diferentes níveis de engajamento, gêneros musicais ou produtos narrativos como filmes, livros e seriados, classes sociais, idades, etc. São muitos aspecto. O Tumblr por exemplo, tem sido utilizado como uma forma de ironizar determinados produtos e ao mesmo tempo promover determinados tipos de interpretação sobre aqueles objetos culturais. Os tumblrs “porramauricio”, “porradj”e “fuckyeahfarofa”são bons exemplos disso. Dois outros exemplos que chamam atenção: o primeiro coletei em 2o07 quando entrevistava usuários do Last.fm e é o fato de que muitas pessoas desligam o scrobbler quando escutam músicas que eles julgam não se enquadrar nos seus perfis. Isso demonstra que estão atentos a sua própria audiência e constróem uma identidade para ela. No segundo exemplo, os dados coletados sobre os fãs de happy rock em 2011 demonstram modulações nos usos da linguagem escrita, expressando performances de identidade através de gírias e emoticons como forma de expressar sua ligação afetiva com algumas bandas (o famoso s2 ou ❤ indicando coração e outros)

Rede de Estudos de Fãs

Também nessa semana recebi pela lista da Aoir e  pela Giovana Carlos, a dica sobre o Fan Studies Network. Excelente ideia, estava na hora. Segue o texto abaizo:

We are pleased to announce the formation of the Fan Studies Network. Open to scholars at all levels, the FSN is concerned with bringing together those interested in all aspects of fandom in order to engage in discussions and make connections. We welcome scholars to join the network by signing up to our Jiscmail mailing list: FanStudies@jiscmail.ac.uk. You can also visit our website, which features CFPs and events of interest at http://fanstudies.wordpress.com, and our Twitter account @FanStudies.

We look forward to making connections with new members: please circulate this message to anyone you think might be interested. All the best,Lucy Bennett and Tom Phillips–
The Fan Studies Network
http://fanstudies.wordpress.com
@FanStudies

FSN Team:
Lucy Bennett
Tom Phillips
Bethan Jones
Richard McCulloch
Rebecca Williams

Morrissey, suor e fronhas

Fãs de Moz comemorando os 50 anos do artista em frente ao legendário club da capa do álbum dos Smiths

Aproveitando que o show do Moz (que foi cancelado em POA infelizmente) aconteceu hoje em SP e foi transmitido pelo Terra, indico a leitura do texto Morrissey, suor e fronhas da Lorena Calabria que conta histórias de fãs de Moz. Apesar de ter sido pouco maniqueísta com os fãs, ainda há a divisão entre o fã-louco e o fã-normal, mas o texto é bem bacana, fora isso.

Boa semana a todos!

Dialogando sobre mobilizações de fãs e anti-fãs – Parte I

Na metade de 2011, eu e a colega Raquel Recuero tivemos um diálogo profícuo a respeito de fãs e anti-fãs e suas mobilizações via internet, sobretudo a partir de nossa percepção das estratégias de dominação dos Trending Topics (atual Trends) brasileiros do Twitter pelos fandoms, especialmente os fandoms do Restart, Luan Santana e das cantoras de axé (em eterna disputa). Esse tema nos motivou tanto que juntamente com minha orientanda de Mestrado, Camila Monteiro – cujo estudo de caso centra-se nas práticas de sociabilidade e estratégia de engajamento e combate aos anti-fãs  pelas fãs do Restart –  produzimos recentemente um artigo sobre o tema combinando métodos quantitativos e qualitativos de análise. O paper foi enviado para um congresso e, quando pudermos, discutiremos um pouco mais os resultados de nossa observação.

O diálogo abaixo foi escrito originalmente em inglês, pois será publicado num blog de pesquisa estrangeiro do qual a Raquel participa. Traduzi ele  porque achei que as discussões iniciais podem interessar a quem está pesquisando o tema (e não quer esperar pelo post em inglês ou pelo paper). O diálogo estava meio grande para um post, então dividi em duas partes. Segue a primeira delas:

Raquel Recuero: O Twitter tem sido utilizado pelos fãs brasileiros de uma maneira diferente do que tem sido utilizado pela maioria dos usuários. Enquanto a maioria das pessoas parece usar o Twitter como uma ferramenta informacional, os fãs parecem usá-la como uma ferramenta de mobilização, especialmente nos Trending Topics.Como você vê a apropriação do Twitter pelos fandoms? Como os fandoms se organizam para criar mobilizações impressionantes no Twittter (e não serem banidos)?

Adriana Amaral:  Acredito que os fãs brasileiros são muito criativos na apropriação dessas plataformas. Muito antes da internet, eles costumavam aprender formas de entrar em um hotel ou de estar em contato com os seus ídolos. Isso tem muito mais relação com as “personas” públicas do que com a música em si. O Brasil tem um “gosto”cultural por celebridades e fandoms de uma forma característica. É um comportamento cultural. Atualmente os fandoms estão aprendendo/”estudando” maneiras de criar mobilizações pelos seus ídolos adolescentes e utilizando as hashtags como uma espécie de construção de marca/ de gosto demarcando sua identidade como um adesivo em um caderno e também utilizando-a para atingir a visibilidade dos Trending Topics. Esses fandoms estão cientes a respeito das regras anti-spam e de bloqueio do Twitter, bem como das formas de escape. O processo de colocar a hashtag em todos os comentários/ tweets, mesmo que o conteúdo escrito no tweet não tenha nada a ver com a hashtag demonstra isso claramente (exemplo: “estou com fome, já volto #RestartnaEliana). Além disso, os fãs avisam uns aos outros a respeito da política de spam do Twitter. Para que isso seja evitando há um equilíbrio de twittagem entre os perfis individuais dos fãs e os perfis coletivos dos fandoms. Em relação às guerras com os anti-fãs, elas sempre existiram, acontecendo dentro de shows, lojas de música e de forma mais enfática nos fanzines e na mídia especializada como revistas de música (sobretudo nas seções de cartas dos leitores). Mas as diferenças estão nas dinâmicas e suas velocidades. Há uma compreensão crescente sobre esse tipo de dinâmica de mobilização através do Twitter ou do Facebook.

Outro ponto interessante foi a escolha pelo fandom da palavra “Família” (no caso do Restart essa auto-denominação do fandom se popularizou através da viralização de um vídeo que mostrava a insatisfação dos fãs por um show no qual fãs acabaram ficando de fora). Família é um termo carregado de significação que demonstra que a pessoa pertence ou está relacionada às outras por sangue ou por uma profunda relação, ou que vive na mesma casa ou que possui um ancestral em comum, como num clã. Para a química, família é constituída por um grupo de elementos que possuem as mesmas características. Então, a opção por utilizar esse termo é mais do que uma declaração, é a demonstração de um laço identitário que poderá ser motivo de constrangimento ou risada no futuro, mas é um laço identitário forte. Nesse caso específico é o poder dos “laços fortes da família do Fandom”contra os laços fortes de Granovetter.

Por outro lado, precisamos ser cautelosos e não ingênuos ao analisar esse poder emergente. Numa pesquisa realizada recentemente sobre fãs de bandas de happy rock gaúcho (Amaral & Amaral, 2011), eu e João Pedro descobrimos que os fãs estavam sendo engajados através de estratégias e hashtags criadas por uma agência de gerenciamento de imagem que os contactava através do Facebook. Assim, de um lado temos um processo de aprendizagem interessante a respeito do poder de mobilização das plataformas pelos fãs e por outro a percepção do valor disso por quem gerencia as estratégias digitais das bandas.

Os Trends do Brasil hoje (21/01/02) dominado por fãs e torcedores (fãs)

RR: Um efeito colateral do “poder do fandom” parece ser a emergência dos grupos de antifãs. Você concorda? Como você percebe a relação entre fãs e anti-fãs? As tecnologias (como o Twitter) aumentam as “Guerras dos Fãs”?

AA: Fãs e anti-fãs são dois lados da mesma moeda. A fama de um determinado artista sempre causa o efeito de criação de odiadores (haters). Uma das hashtags que os fãs estavam utilizando tem a ver diretamente com isso: #maisrespeitomenosinveja e está relacionada com duas categorias maniqueístas do comportamento humano. Onde quer que haja um fã, haverá um anti-fã ou hater, é parte da dinâmica. No Brasil, os torcedores/fãs de futebol são um exemplo sintomático. A diferença é que com o crescimento da popularização da internet no país, ambos os grupos (fãs e anti-fãs) tornam-se mais visíveis, bem como as possibilidades de arquivamento dessas discussões para pesquisas ou para objetivos mercadológicos. As apropriações e usos dessas redes como o Twitter amplificam esse tipo de engajamento.

Banner produzido por anti-fãs da saga Crepúsculo demarcando sua identidade

Mas há diferenças entre o fã e o anti-fã. Há uma questão de identidade que se revela através dessas guerras simbólicas no campo discursivo que estão relacionadas com o engajamento deles com a informação e com a interpretação e ressignificação de produtos comunicacionais como filmes, seriados, etc. O não-fã simplesmente não liga para um determinado artista ou franquia e, por conta disso, sua identidade se dá através da exclusão. Já o anti-fã constrói sua identidade (ou parte dela) pelo seu gosto “diferenciado”ou através da estratégia de mostrar as incoerências e mal-gosto do discurso dos fãs daquele produto (por exemplo, a saga Crepúsculo ou o cantor Michel Teló). De uma forma distorcida, o anti-fã é um tipo de fã, pois ele age de forma parecidamas com diferente nível de engajamento, muito menos organizado. O anti-fã também assiste, analisa, anota, avalia, classifica e gera significado sobre o conteúdo e produz conteúdo tanto quanto o fã, porém seu objetivo é diverso. Ele/ela quer “provar” o quanto o produto ou artista é ruim. Os anti-fãs demostram sua declaração de gosto para construir o seu não-pertencimento aquele grupo/tribo/subcultura, etc. É um empoderamento simbólico produzido atra’ves de práticas e discursos nos quais a identidade é demostrada a partir da oposição ao outro. Mas também não podemos assumir que todos os “haters”são anti-fãs. E há sempre aqueles que apenas querem “trollar”. No Brasil, a “trollagem” pode ser uma prática mais lúdica. E é nesse interstício que o fandom ganha novamente o seu poder (e atinge os Trending Topics por exemplo), porque os trolls, haters e anti-fãs não possuem a organização suficiente, são mais descentralizados e investem menos tempo.