Ativismo de fãs: um tema em discussão

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Já faz um tempo que tenho me incomodado com a ideia de uma separação entre um suposto “mundo fútil do entretenimento” e um  “mundo da cidadania e da política ativista”, como se fosse ainda possível separar tais instâncias, como se tanto a política como tanto o entretenimento não estivessem articulados e como se não possuíssem ingerências e afetações um sobre o outro. A partir dessa premissa e das discussões que temos travado no CULTPOP, eu, Rosana Souza e Camila Monteiro escrevemos o artigo “De Westeros no #vemprarua à shippagem do beijo gay na TV brasileira”. Ativismo de fãs: conceitos, resistências e práticas na cultura digital brasileira apresentado na semana passada no GP Cibercultura da Intercom 2014 em Foz do Iguaçu.

Abaixo o resumo e as palavras-chave:

A partir do entendimento de que o ativismo de fãs é uma forma de resistência no âmbito  criativo e cultural, buscamos aqui discutir a mobilização desses grupos de fãs em prol de seus ídolos, bem como discutir sobre como a busca por intimidade e a relação de proximidade celebridade/fã são propulsoras de uma série de atividades que delineiam, (re)definem e ultrapassam as fronteiras do fandom. Observamos, a partir de reflexão teórica sobre tais fenômenos e discussão de exemplos do cotidiano, como o rico universo das práticas e produções digitais deste universo – fanfics, fanvids, fanzines, etc. – produzem reflexos socioculturais – rolezinho, crowdfunding, fanmades em protestos – ressignificando o que entendemos como resistência e problematizando a dualidade existente entre o “mundo do consumo e da cultura pop” e o “mundo da cidadania”.

Palavras-chave: ativismo de fãs; cultura digital; resistência; cultura pop

Comentários, discussões, debates são todos bem vindos 😉

Quarta-feira de cinzas em ritmo de volta ao trabalho

Estive afastada do blog devido ao feriadão de Carnaval. Passei esses dias em Curitiba descansando bastante – o início de semestre será pesado – revendo pessoas e acompanhando o Psycho Carnival, tradicional festival da cena psychobilly nacional. É impressionante como o evento cresceu. Fui em todas as edições a partir de 2006 (quando mudei para CWB) à exceção do ano passado, pois estava em processo de mudança. A cada ano que passa mais pessoas participam e o profissionalismo do evento aumenta. A organização desse ano está de parabéns novamente. Ótimos shows a preços acessíveis e infra-estrutura na medida certa. Essa cena e o próprio festival merece um trabalho etnográfico sério, preciso ver isso. Temos de admirar pessoas que conseguem fazer um festival internacional desse nível no Brasil e fazer com que ele dure 13 anos . Não é fácil. Todos que como eu já produziram eventos fora do mainstream entendem as dificuldades. É muito legal ver a popularização de um evento cujo foco é o rock n roll direto e sem firulas. Não sou membro dessa cena, embora a admire e não ganho um centavo divulgando nada. Faço isso porque acho bem louvável o empenho do pessoal que gerencia tudo isso. Em tempo, curti bastante a banda The Rocker Covers, de Brighton, Inglaterra. As versões e mashups de Cure, Ace of Base e Greenday em versões rockabilly e ska foram muito divertidas.

Dentre as tantas atividades que rolaram durante esses dias, a Zombie Walk CWB também cresceu bastante. Segundo o que me informou o Docca, um dos organizadores, os dados da PM indicaram que foram 4.500 pessoas marchando como zumbis em pleno domingo de carnaval. Percebi muita mistura de zumbis com cosplay. Há muitos cosplayers em Curitiba e na região, o que justifica essa vertente. Outra fator que me chamou a atenção foi a nítida influência do seriado The Walking Dead, o que certamente também deu visibilidade aos zumbis e ajudou a aumentar o número de participantes.

Novidades

Esse fevereiro tem sido muito produtivo para mim. É um período em que consigo me concentrar no andamento da minha pesquisa, colocar leituras em dia etc. No momento, tenho me detido basicamente em duas questões: 1) as mobilizações e disputas entre fãs e anti-fãs amplificadas nos sites de redes sociais, sobretudo no Twitter; 2) a performatização do gosto e suas manifestações subjetivas, mais especificamente a partir dos perfis do Facebook. Produzi um artigo novo sobre isso conjuntamente com a Camila Monteiro e assim que possível, comento mais detalhamente por aqui.

Também nesse mês fiz minha estreia como colunista/colaboradora da Revista Warung – veículo impresso do club de música eletrônica homônimo. Assim que a edição for lançada informo a todos. Em março chega às livrarias a segunda edição do livro Métodos de Pesquisa para Internet (editado pela Sulina e produzido a 6 mãos entre as colegas Raquel Recuero, Suely Fragoso e eu).

E, antes tarde do que nunca, parece que lentamente áreas mais tradicionais como a da Educação e a da Letras estão se interessando por fenômenos “mais contemporâneos”, sobretudo por conta da visibilidade alcançada pelas fan-fics na internet, pelo menos foi essa a ênfase da matéria “Fãs recriam na web novos caminhos para histórias consagradas”. Fan Fictions não são novidade para quem acompanha fandoms de sci-fi ou fantasia pelo menos desde os anos 60 (Star Trek, etc). Mas parece que alguns educadores estão finalmente compreendendo que essa prática pode sim ser um exercício de criatividade “legítimo”. Dei “alguns pitacos” como fonte na matéria acima.

Agora é juntar forças e se reorganizar para um início de semestre com muito trabalho e novidades. Tenho uma impressão bem boa a respeito desse ano, acho que ele vai ser de muita criatividade e execução de projetos profissionais e pessoais.

Atualizando o blog: 9o. Prêmio Sergio Motta + Bibliografia sobre Fãs

Apesar do recesso das aulas, essa foi uma semana de trabalho bastante intensa para mim. Se contarmos que ainda estou no meu período de inferno astral (LOL), até que as coisas andam bem:

1) Passei metade da semana em SP trabalhando como jurada na Comissão de Seleção do 9o. Prêmio Sergio Motta. Diria que foi uma experiência bastante rica e que fez com que eu refletisse bastante sobre as relações entre cultura, ciência, tecnologia, arte e sociedade como um todo. Além disso é um prêmio muito relevante para o contexto nacional, justamente pelo foco em Arte e Tecnologia e por premiar artistas iniciantes e em meio de carreira.

2) Fora trabalhar intensamente na comissão, consegui fugir para fazer umas comprinhas estilosas para minhas sobrinhas e babys de amigas que nasceram ou estão para nascer. Ando numa fase muito familiar 🙂

3) Devido a minha pesquisa sobre fandoms de música, fazia um tempo que eu queria compartilhar bibliografias (artigos, livros, monografias, dissertações e teses) sobre fãs e fandoms, uma vez que recebo muitos pedidos a respeito disso. Conjuntamente com a Camila Monteiro (@camisfm), minha orientanda de mestrado conseguimos dar início a isso através do tumblr Bibliografia de Pesquisa sobre Fandoms que fizemos com esse propósito. Logicamente esse é apenas o início.  Atualizaremos a lista na medida do possível e contamos com a ajuda da inteligência distribuida da rede para nos passar mais referências. Ou seja, se você não encontrar alguma referência não é nada pessoal, ou não conhecemos, ou esquecemos, mas basta nos enviar que colocamos lá 😉

Mais pesquisas sobre fãs e fandoms no Brasil

Estou atarefada por conta das avaliações do final de semestre da disciplina de Jornalismo Online I (vou fazer um post só sobre isso na semana que vem, apenas aguardo o término e entrega dos relatórios e notas);  da participação no #gtciber da Compós (mais informações e análise do que aconteceu esse ano no grupo através desse post da Raquel Recuero) e dos preparativos para uma viagem ao Rio de Janeiro, de onde escrevo, mais especificamente com o pessoal do Laboratório de Pesquisa em Culturas e Tecnologias da Comunicação, o LabCult do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, RJ.

Apesar de parecerem desconectados, citei esses acontecimentos porque eles estão diretamente relacionados ao tema desse post que é o aumento quanti e qualitativo das pesquisas sobre fãs e fandoms em geral no contexto acadêmico brasileiro. Embora não tivesse nenhum trabalho específico sobre fãs no #gtciber desse ano, em vários momentos a discussão acerca das mobilizações em sites de redes sociais, trending topics do twitter, etc acabaram apontando para esse fenômeno. Além disso, na terça-feira dia 14 de junho ocorreu a premiação de Teses e Dissertações da Compós – Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação.

A escolha da melhor tese de Doutorado fortalece as pesquisas de fãs, pois quem ganhou foi o Bruno Campanella com o trabalho “Perspectivas do cotidiano: um estudo sobre os fãs do Big Brother Brasil”. Eu já vinha acompanhando os primeiros resultados desse trabalho, orientado pelo colega João Freire Filho (UFRJ) desde a Compós de 2009. Acho ótimo que um tema desses tenha sido premiado, o que demonstra que lentamente estamos avançando em relação a certos preconceitos em relação a alguns objetos, e que isso não compromete a pesquisa. Não gosto de fazer #mimimi publicamente mas às vezes é preciso recorrer a esses subterfúgios. Também comento isso devido aos #mimimis que escutei sobre a área de games e de teorias.

Outra pesquisa defendida recentemente, dessa vez em nível de Mestrado foi a da Giovana Santana Carlos que pesquisou as práticas dos “scanlators” de mangá no Brasil, fãs tão devotados que scanneiam e traduzem mangás japoneses para o português, em um trabalho “amador”. Giovana foi minha orientanda no PPG em Comunicação e Linguagens da UTP (Universidade Tuiuti do Paraná), mas infelizmente quando me mudei para Porto Alegre não foi mais possível orientá-la. De qualquer forma, ela finalizou uma dissertação muito bacana no mês passado intitulada “O(s) fã(s) da cultura pop japonesa e a prática de Scanlation no Brasil“. Assim que as recomendações da banca forem incorporadas, a Gi vai postá-la online. Sim, escrevi isso porque assim ela se obriga a fazer 🙂

Por fim, ontem participei da banca de defesa de Mestrado do Lucas Leander Waltenberg (@luacs) que apresentou uma dissertação que gerou várias reflexões sobre a cultura da música em tempos de redes sociais. “Cultura da música na era digital: a reconfiguração da indústria fonográfica em tempos de participação” trouxe como estudo de caso a banda mineira Pato Fu e suas estratégias de presença online. Apesar de não ser um trabalho específico sobre os fãs do Pato Fu, em um capítulo e mesmo na análise, conceitos e categorias empíricas relacionadas aos fãs apareceram ora pela voz dos próprios como moderadores das comunidades sobre a banda ou nas observações coletadas através da entrevista com Fernanda Takai.

E quem souber de mais pesquisas sendo defendidas por favor, envie os links ai nos comentários. Juntamente com a @camisfm estou organizando um grande banco de dados sobre o tema e vamos compartilhando por aqui.

Antifãs e as disputas simbólicas nas redes

Essa semana a Revista Época publicou uma matéria sobre antifãs e suas mobilizações online e offline. Intitulada “Quando o barato é odiar“, a matéria trouxe como foco a organizações dos antifãs de bandas ou artistas (a maioria dos artistas citados tem público-alvo adolescente como Justin Bieber e Restart por exemplo) nos sites de redes sociais como Orkut, Facebook e Twitter. O enfoque da matéria foi mostrar o velho senso comum do “falem mal, mas falem de mim” como uma espécie de aliado na divulgação dos artistas. Entretanto, faltou mostrar o lado negativo que esse tipo de buzz gera, como por exemplo a estigmatização dos artistas dentro de um determinado gênero e a forma de lidar com essa mobilização específica.

Os estudos sobre fãs vem acontecendo no âmbito acadêmico com mais ênfase desde os anos 70, principalmente a partir da abordagem dos estudos culturais e da mídia comparada. Esse tipo de grupo organizado em torno de um determinado produto cultural midiático está engajado em práticas de formação de identidade e discussão e crítica em torno dos textos (entendidos aqui como músicas, filmes, séries, etc). Assim, a partir do momento que existe um grupo que se organiza em torno da afeição em relação a um determinado objeto de “culto”, existirão disputas e antagonistas. A questão dos antifãs é muito mais comportamental, estética e cultural do que tecnológica, embora é claro, os sites de redes sociais possibilitem uma maior pulverização e visibilidade desses fluxos interacionais.

Jon Bon Jovi X Kurt Cobain (hair metal X grunge)

Em tempos pré-internet, essas rixas se davam muito mais nas ruas, nos shows e também nos fanzines ou cartas de leitores das revistas de música. Na genealogia dos estilos subculturais as guerras simbólicas (e outras físicas de fato) estão incorporadas como características desde os seus primórdios. E toda a  literatura sobre o tema resgata por exemplo os classicos confrontos Mods X Rockers em Londres. No âmbito regional, a rixa fãs de Engenheiros do Hawaii X fãs de Nenhum de Nós nos anos 80 mobilizou jovens porto-alegrenses. Outro clássico, mas nos anos 90 foram as brigas entre integrantes de duas cenas musicais: Poseurs X Grunges. Essa briga até hj mobiliza discussões acerca da morte do “hair metal”, por exemplo e volta e meia dá as caras na imprensa especializada e nos foruns da rede. Atualmente muitas disputas se dão em torno das divas pop como Britney X Gaga por exemplo, além da adjetivação pejorativa do termo “coxinha” ao indie rock bom moço de bandas como Coldplay por exemplo. Esse tipo de disputa dá sentido à construção da “ontologia do fã” e de sua identidade.

A imprensa musical britânica sempre foi “mestre” em manipular essas manifestações e em contrapor fandoms de diferentes bandas desde o tempo de Beatles contra Stones até a briga entre os college boys do Blur e os desbocados fanfarrões do Oasis nos tempos em que o britpop viveu seu auge. A polarização entre duas bandas inglesas nas paradas e na crítica musical a cada semana gerava buzz e mantinha fãs e antifãs consumindo, debatendo e interpretando as capas de revista enquanto bebiam muitas pints of beer nos pubs ingleses.

Maggie’s Dream, banda de Robbie Rosa e o estigma ex-boyband

No quesito estigma, podemos apontar muitos exemplos, dentre eles o ex-Menudo Robby Rosa que ao deixar o grupo tentou uma carreira na cena hard rock e foi rechaçado com veemência. Jamais esquecerei da tentativa da banda dele Maggie’s Dream ao abrir para o Faith No More em Porto Alegre em 1991. Ele cantava de costas para o palco enquanto o público tocava latinhas e copos plásticos. Outros, como Marl Wahlberg (ex-teen idol Marky Mark) conseguem superar e reconstruir uma outra identidade  e assim afastar a movimentação dos antifãs. No caso de Wahlberg, que ficou sendo respeitado como ator de filmes sérios como Boogie Nights, ele precisou mudar de área, da música para o cinema. Mesmo assim, nos créditos do filme Rockstar, a produção “tira o maior sarro” de seu passado como teen idol.

Fãs e antifãs são faces da mesma moeda, o que significa que embora os antifãs pareçam também ajudar a gerar buzz e a citar o nome do artista, seu poder simbólico pode ser tão forte quanto o dos fãs e trazer sérios danos à marca do artista, então não podemos subestimá-los de forma tão leviana.

Em relação à maneira de lidar com os antifãs, não há uma receita pronta a ser seguida. É muito mais difícil conter a expressão de sentimentos transmutados em garrafadas dos headbangers em Carlinhos Brown em um festival uns anos atrás do que colocar Galvão Bueno para rir do Cala Boca Galvão nos Trending Topics em rede nacional. Tenho uma hipótese de que a questão dos antifãs está muito relacionada a algo palpável materialmente que se apresenta de forma corpórea, a uma estética fisiológica nietzscheana que pode incomodar tanto os sentidos a ponto de fazer alguém expressar esse repudio de forma verbal, escrita, etc.  Como já descreveu Wisnik (1999) em O som e o sentido:

A música não nomeia coisas visíveis como a linguagem verbal faz, mas aponta para uma força toda sua para o não verbalizável; atravessa certas redes defensivas que a consciência e a linguagem cristalizada opõem a sua ação e toca em pontos de ligação efetivos do mental e do corporal, do intelectual e do afetivo. Por isso mesmo é capaz de provocar as mais apaixonadas adesões e as mais violentas recusas”

Como fui fonte dessa matéria, decidi postar aqui no blog as respostas completas às perguntas que o jornalista Danilo Venticinque me fez (já que o online possui a vantagem do espaço sobre o impresso) para aprofundar um pouco o debate.

Época: O que uma pessoa precisa fazer para deixar de ser simplesmente alguém que não gosta de determinado artista e passar a ser considerada um antifã?

Adriana: Há uma diferença entre não-fã e antifã. É uma questão de construção de identidade que se dá através de lutas/disputas no domínio discursivo ao nível do engajamento com as informações e as possíveis interpretações através dos quais se articulam os produtos midiáticos, os produtores e os fãs. O não-fã simplesmente não gosta ou não liga o suficente para um determinado artista, filme, etc. Assim sua identidade se dá pela exclusão. Já o anti-fã se determina pela relação de “gosto” ou de localização de incoerências no discurso dos fãs. O anti-fã de certa forma também é um fã, afinal o antifã se engaja com o produto de forma bastante parecida com o fã, mas não pelo afeto e sim pela crítica (ou xingamento). O engajamento é de olhar, anotar, observar, avaliar, classificar, interpretar com o mesmo afinco do fã, apenas para demonstrar o quanto determinado produto/artista é ruim ou não presta. O anti-fã demonstra o seu “não-gostar” para caracterizar o não-pertencimento a um determinado grupo, tribo, etc. É uma forma simbólica de “empoderamento” através do discurso,  ao dizer “eu detesto X”, eu me demarco, demonstro minha identidade em oposição ao outro. Por exemplo, se alguém afirma odiar Lady Gaga e ocupa parte do seu tempo xingando ou criticando a cantora ou seus fãs pela internet, esse engajamento representa  uma vontade de se desvincular daquele grupo e se mostrar pertencente a um outro grupo, que pode se considerar mais “refinado”em seu gosto, por exemplo. Ou pode até ser uma questão de demarcação geracional.

Época: Quando os antifãs começaram a adquirir o peso que têm hoje? Na sua opinião, por que eles ganharam tanto espaço?

Adriana: Fãs e antifãs sempre existiram, onde existe um, existe o outro. Basta ver o exemplo dos esportes, no Brasil, o caso do futebol é sintomático. Discussões através de cartas em fanzines, em lojas de discos, shows, partidas nos estádios, entre outros locais sempre aconteceram. A diferença é que a partir da popularização da internet, ambos os grupos ganharam maior visibilidade e a possibilidade do arquivamento e rastreamento dessas discussões. As dinâmicas das redes digitais amplificam e potencializam esse tipo de engajamento e mobilização.

Época: Artistas que têm um grande número de antifãs (Rebecca Black, Justin Bieber, Restart, A banda mais bonita da cidade) podem se beneficiar do buzz gerado por eles? Ou o antifã atrapalha mais do que ajuda?

Acredito, a partir das pesquisas que vêm sendo realizadas, que existam relações de poder em constante fluxo. A proporção de fãs e antifãs se auto-organiza à medida que essas discussões e o buzz vão se perpetuando nas redes, no boca a boca e até mesmo na imprensa e na mídia massiva. Acredito que os antifãs são uma parte importante nas relações de sociabilidade e que podem inclusive mobilizar ainda mais a união dos fãs. Ou seja, se por um lado os antifãs fazem um “barulho” negativo e podem afetar a reputação dos artistas, por outro lado, eles estimulam a capacidade de organização dos fãs. É uma disputa simbólica de cabo de guera, em que o que está em questão são os “saberes” e os afetos.  Há um outro fator importante para saber se os antifãs atrapalham ou ajudam ‘e o quem está se posicionando em qual lado. O capital social e a reputação de um crítico musical ou de uma determinada celebridade, por exemplo, como fã ou antifã podem dar maior peso a esses discursos, do que o  de uma “pessoa comum”. Por ex, o Zeca Camargo se declarou “fã” da Rebecca Black (afirmou gostar). Por um lado essa afirmação dele convoca um grupo de pessoas mais velhas do que o público-alvo da cantora a talvez se posicionarem como fãs, uma vez que ele representa esse grupo, e ao mesmo, tempo pelo caráter massivo e popular da emissora pode criar ainda mais antifãs para ela, uma vez que quem não se identifica com o apresentador do Fantástico pode estabelecer uma relação de identificação ou rejeição com o artista.

Em resumo, para uma leitura de cenários e comportamentos dos fãs e antifãs é preciso olhar além dos sites de redes sociais e das tecnologias. É preciso compreender as apropriações de suas materialidadese, também é necessário resgatar o contexto histórico das cenas musicais, as questões relativas aos gêneros musicais e características da construção do ethos subcultural, entre vários outros aspectos sociais, antropológicos e estéticos.

Oi Cabeça discute o fenômeno do fandom : com Nancy Baym, Mauricio Mota e Pedro Carvalho

Recomendo o evento abaixo. Recomendo sempre o trabalho da Nancy Baym, com quem tive o prazer de compartilhar uma mesa na Aoir de 2009, tratando justamente sobre fandoms e o Last.fm. Aguardem para breve a resenha sobre o novo livro dela que vou dispobilizar por aqui.
No próximo dia 18, quarta, tem início no Oi Futuro do Flamengo (RJ), o Oi Cabeça. Com curadoria de Heloisa Buarque de Holanda e de Cristiane Costa, o evento promove uma série de encontros mensais para se discutir diferentes temas que envolve a literatura e a palavra.

Na noite de abertura, com o tema: O Fim da crítica e o auge dos fãs, está confirmada a presença da pesquisadora americana Nancy Baym, uma das principais especialistas no fênomeno do fandom, que vai do cosplay às fanfictions (pessoas que reconstroem histórias, recortam passagens de livros consagrados e fazem livre adaptação em outros suportes e mídias).
Ex-presidente da Aoir e professora da Universidade do Kansas, Nancy assina o site www.onlinefandom e é autora de “Personal Connections in the Digital Age” e “Tune in, Log on: Soap, Fandom e On-line Community”. Veja todas as suas publicações aqui: http://www.people.ku.edu/~nbaym/research2.html
Os brasileiros presentes são Mauricio Mota, da empresa Os Alquimistas, que descobre e gerencia histórias para marcas e instituições em qualquer plataforma para assim construir relacionamentos com público de interesses e gerar fãs; e o jovem Pedro Carvalho, 23 anos, que há 10 anos vem se especializando em cultura pop japonesa além de ser o criador do evento Rio Anime Club, feira de comportamento jovem e globalizado com público recorde de 40mil expectadores. Ele vai falar sobre a prática do Cosplay na América do Sul e a influência desse público na literatura.

Data: 18/05
Local: Oi Futuro do Flamengo
Horários: 19h30
Endereço: Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo / Rio de Janeiro
Informações: 21. 3131-3060
Entrada: Grátis

Oito pontos para refletir sobre a utilização das mídias sociais para engajamento dos fãs

Recentemente a pesquisadora Nancy Baym (University of Kansas) disponibilizou no site dela uma fala/lecture que ela ministrou num evento sobre mercado da música independente na Noruega a respeito de estratégias de utilização das mídias sociais, essencialmente na relação músicos-fãs.

O pdf chamado “Engaging Fans through social media” traz algumas reflexões e dicas bem práticas sobre como manter e mobilizar fãs (ela fala especificamente da música mas dá para ampliar para outros tipos de arte/mídias como quadrinhos, seriados, etc)  para uma melhor utilização e apropriação dessas plataformas. O material é grande (48 páginas), portanto eu não teria tempo de traduzir tudo. Assim, vou me concentrar nos oito pontos principais enfatizados por ela, adicionando os meus comentários a partir das pesquisas que venho realizando:

1. Mantenha o seu domínio próprio – Tenha o seu site como agregador e base dos fãs e não confie na durabilidade e no redirecionamento a repositórios como My Space por exemplo. Imagine se essa ou outra plataforma encerra suas atividades. Além disso, o domínio próprio facilita paras buscas e para as técnicas de SEO;

2. Utilize apenas aquilo que você pode manter – Muitos músicos se sentem pressionados a utilizarem todos os sites de relacionamento, o que é impossível e inviável. Utilize apenas os canais que estão mais de acordo com o seu estilo de vida enquanto músico ou os de sua preferência. Por exemplo se vc gosta de escrever longos textos aposte no blog combinado com uma divulgação via FaceBook ou, se vc prefere textos mais curtos e passa muito tempo na estrada, talvez o Twitter te dê uma maior mobilidade, e por ai vai. Também não sinta que vc precisa responder a todos os fãs o tempo tempo.

Outro tipo de uso pode ser pelo perfil do público ou a própria materialidade e características da plataforma. Por exemplo, pelas minhas observações, percebo que o SoundCloud tem funcionado muito para DJ Sets e música eletrônica, enquanto o Myspace funciona melhor para o formato bandas. O importante é não se jogar em todas as mídias e sem estratégias definidas deixá-las abandonadas. Também é possível não utilizar nenhum desses espaços, se estiver de acordo com o que você realmente quer passar. Recentemente li uma matéria na revista da Webjet sobre a cantora Céu dizendo que a assessoria dela optou por não ter nem FB, nem Twitter devido a algumas questões ideológicas e , claro, mercadológicas. Eles apenas mantiveram o MySpace mas sem grande interação, apenas para amostra das músicas. É um tipo de posicionamento que vai ter seus reflexos negativos ou positivos. No caso da cantora em questão, eles preferiram fechar uma parceria com a rede de cafés Starbucks que distribui o CD dela em suas lojas. [crítica minha] Some-se ao fato, e ai é uma suposição minha de que a Céu quer fazer a linha “sou tão descolada e cabeça que posso me dar ao luxo de renegar a internet, o que condiziria muito com  o seu tipo de imagem e seu público, hipsters e modernosos que ouvem mpb descoladinha

3 – Busque Ajuda – Se você acha que o gerenciamento das mídias está tirando tempo do seu “fazer musical” e tem como pagar por isso, contrate uma empresa de gerenciamento e/ou assessoria para lhe ajudar. Em dois casos que estou comparando para um artigo, isso é o que acontece. Mas, se essa possibilidade não está ao seu alcance, há a possibilidade de recrutar seus próprios fãs; como no caso de Trent Reznor que chamou fãs do NIN para trabalhar no forum do site oficial; ou num exemplo citado por Nancy sobre a cantora Jill Sobule que teve o encarte de seu CD e o próprio layout do seu site redesenhado por fãs.

4. Atualize a sua audiência –  Disponibilize informações, afinal ela é um bem valioso para os fãs. Datas de tours, lançamentos de álbum, eventos, etc. Ofereça também mercadorias como camisetas, buttons, lançamentos de edições especiais,  etc. Fãs são colecionadores e curadores de memorabilia, o que nos leva ao quinto ponto.

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5. Pergunte aos seus fãs quais objetos eles gostariam de adquirir – Parafraseando JFK, não é o que seu fã pode fazer por você, mas o que você pode fazer pelo seu fã. Nancy cita o caso de Paul Westerberg que é completamente offline, mas que localizou um fã-site e contactou a dona do mesmo para que ela ficasse responsabilizada pela distribuição de informações sobre a carreira dele.  Assim, Paul Westerberg (ex-Replacements) apenas envia um email semanal para ela com as novidades, que ela redistribui em seus canais de contato.

6. Questione que novos serviços a internet lhe oferece e o que ela possibilita que a sua audiência faça por vocês – Novas plataformas e meios de comunicação entre os fãs e os músicos podem ser testados como por exemplo live streams de shows, video chats privados com os artistas e fãs (a cantora Tori Amos tem feito isso), entre outros, o que talvez não atinja grandes audiências mas possibilita conexões mais interpessoais, o que pode ser muito valorizado pelos fãs. Lembre-se, a própria criatividade pode gerar buzz e também um bem simbólico a ser valorizado como no caso das fan-arts (remixes, vídeos, desenhos, etc).

7. Encoraje a criatividade dos fãs – Sua audiência irá produzir conteúdo, quer você os queira ou não. Saiba utilizar essa criatividade como troca. Música é emoção e a emoção também é compartilhada (para o bem ou para o mal) através dessas plataformas ;

metal fans

8. Deixe-os sentir o que eles sentem – Ou seja, a interpretação dos fãs sobre a sua música/arte e a maneira como eles se sentem deve ser respeitada. Fãs interpretam cortes de cabelo, letras de música, referências, etc.Essas interpretações podem não estar de acordo com o que o músico pensa ou podem ser até inapropriadas, mas é um direito deles interpretá-las dessa forma.

9.  “Saiba adquirir uma casca grossa” – Aqui em uma tentativa de tradução livre de (thick skin) quer dizer que o músico deve ser capaz de lidar com as críticas e com pessoas que vão falar bem e mal do seu trabalho, especialmente em sites que não são gerenciados por ele. É algo que leva tempo. Lembre-se que uma das coisas produzidas pela audiência de fãs é a construção de identidade e de coletividade e os músicos devem compreender suas dinâmicas.