Sobre artigos e textões: algumas notas de intersecção

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Há uns dias a Dora Steimer publicou na TL dela um texto intitulado “A prolixidade dos pesquisadores brasileiros, ou, “escreva muito para mostrar que sabe” escrito por Paulla Pereira. A autora, bibliotecária e mestre em ciências da informação levanta alguns pontos críticos interessantes sobre a forma da escrita acadêmica no Brasil – mas não acho que seja uma exclusividade nossa, embora tenha um forte viés da questão da língua portuguesa e de como estruturamos nosso pensamento e as influências principais da academia brasileira nas humanidades – ponto pra discutir outro dia. Uns dias antes eu havia lido essa entrevista do Nick Sousanis , “Barreiras da academia são de linguagem e não de inteligência” autor de uma tese de doutorado em quadrinhos que esteve no Brasil recentemente (o livro, Desaplanar está na minha pilha de leituras mas ainda não consegui tempo para lê-lo). Entre esses dois textos há alguns pontos de contato bem interessantes, mesmo que as formas de abordagem e o conteúdo sejam diferentes, ambos tocam em um buraco que me incomoda bastante na Academia em certos momentos: a linguagem ou o modo como muitas pessoas obscurecem a linguagem para um não-entendimento fora de um certo circuito de pares. Ambos os textos ficaram ecoando aqui na minha mente, mas só hoje, ao voltar de um par de horas na emergência traumatológica (minha fasceite plantar voltou e não está sendo fácil) tive tempo pra rascunhar algumas ideias.

Nos últimos meses  participei de muitas bancas de qualificação e defesas de dissertações de mestrado e teses de doutorado em várias universidades, na área da comunicação, na Literatura e até na Psicologia Social e observei alguns fenômenos interessantes no sentido do formato do texto acadêmico. No lado positivo, pessoas tentando escrever de uma forma mais clara, leve e objetiva trazendo elementos do cotidiano e analogias com linguagens da cultura internética. Por outro lado, ainda uma devoção ao tentar emular Deleuze e “outros grandes” teóricos de uma forma que o texto fica quase ilegível para não-iniciados.

O texto de Paulla sobre a prolixidade inicia pela questão do tamanho/número de páginas/palavras indicando que um artigo não precisa necessariamente ter 15 páginas para ser um bom artigo e que há muita prolixidade. Concordo em muitos pontos com a autora, mas acredito que essa seja apenas uma pontinha desse iceberg (a problemática da mistura das fontes tem sido pra mim chocante, mas falarei disso outro dia). Um dos pontos centrais para mim é a questão das diferenças entre um formato ensaístico e um formato mais voltado ao relato dos resultados de pesquisa. Há também toda uma problemática na forma como os periódicos nacionais e estrangeiros demandam tipos de escritas diferentes. Percebo que há uma dificuldade de muitos colegas mais acostumados a uma formação ensaística com o embate em revistas que privilegiam resultados sistematizados. Enfim, a discussão vai longe.

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Acredito que as emulações de linguagem buscadas por autores-fãs de teóricos que muitas vezes querem repetir o estilo de seus ídolos seja uma das piores coisas que possa acontecer para qualquer artigo/tese/dissertação. Em vez de ir em busca de sua própria voz, a pessoa quer recortar e colar um palavreado que ela “acha bonito” ou que daria uma densidade e que muito provavelmente retirado de um determinado contexto não faça o menor sentido quando aplicado no fenômeno/campo empírico mais atual, se tornando uma grande forçação de barra tipo certa vez (la pelos idos de 2006) em que vi um projeto de um candidato a mestrado que queria “usar Nietzsche para estudar rádios comunitárias”. Isso poderia ser um projeto interessante? Até poderia. Mas o esforço de operacionalizar uma análise nietzscheana a um objeto desse porte precisaria passar por camadas de outros autores e talvez não levasse a uma reflexão que indicasse resultados novos e se perdesse em um discurso circular/aforístico fora de contexto. Imagino o que véio Frederico acharia disso, mas de qualquer forma isso é mera especulação e o tal candidato não passou na seleção naquele ano. Um outro problema é pegar um conceito consolidado por autores estrangeiros e tentar “aplicar” sem nenhuma mediação em um contexto nacional . Discutir sobre trollagem na internet por exemplo, boa parte da literatura estrangeira vai relacionar o termo ao cyberbullying. No contexto da cultura da internet no Brasil há outros significados vinculados à zombaria humorística.

Por outro lado, uma questão conceitual é muitas vezes um emaranhado de significados de palavras, uma teia de sentido que precisa ser desvendada historica, social e filologicamente, dificultando o trabalho dos autores em suas explicações. Fenômenos complexos não resistem a 140 caracteres ou ao formato comentários no Facebook. De toda forma, é preciso sim explicar melhor, escrever de forma mais precisa, mais descritiva (no bom sentido) e menos empolada sem deixar a profundidade de lado.  O que descamba para um outro aspecto negativo que tenho observado recentemente, o da adjetivação ou do uso excessivo de coloquialismos do senso comum. Em outra esfera, observo também muitas apropriações de jargões acadêmicos como problematizar, desconstrução, entre outros como uma espécie de mera ostentação lingüística  utilizada em vários dos textões postados no FB que soam fora de lugar ou anacrônicos para esse tipo de ambiente (ok, vai ver eu sou a chata que enxerga trabalho 24/7 onde as pessoas vêem lacração e ativismo em forma de tentativa de commodity acadêmico). Eu sei, há muitas defesas possíveis em relação aos textões, mas peguei o gancho do texto da Paulla e da entrevista do Sousanis para dizer que certos tipos de textões também criam mais barreiras em vez de gerar pontes.

Assim, bem de canto de olho diria que enquanto há uma tendência para que o texto acadêmico se transforme e revise sua linguagem para um formato mais compreensível  para a leitura e condense melhor suas ideias centrais/teses; há uma outra tendência cujo valor é justamente tomar de empréstimo conceitos que são discutidos há anos para gerar valor performativo em textões de SRS e construir uma narrativa de si que simule uma teorização mas que não precise responder por ela entre os pares. Talvez haja uma interessante intersecção desses formatos (o artigo e o textão) que precisa ser avaliada de forma diacrônica  e genealógica. Ou para simplificar quando foi que o textão de redes social virou pseudo-ensaio acadêmico e o texto acadêmico começou a tentar negar suas origens e se tornar mais pop?

Para mim, o mais difícil é sempre o caminho do meio, o bom senso no tom. Complexidade e leveza não são fáceis de atingir, mas concordo com Sousanis, é preciso desenhar mais, explicar de forma mais sintética, é preciso dar mais sonoridade ao texto acadêmico sem que ele vire uma poesia ruim ou um mero devaneio como observamos muitas vezes por ai.

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“And it’s a long, long way (long way). From where you want to be”

2017 está transcorrendo de forma vertiginosa. Perdi a conta de quantas vezes quis retornar a esse espaço pra escrever algumas linhas e desovar algumas ideias meio desconexas. Fazia tempo que não tinha um semestre tão denso e com tanto por fazer.  Apesar das dificuldades e do excesso de trabalho posso destacar alguns pontos bem positivos (totalmente fora de ordem):

  • Show do Slowdive em SP em maio;
  • A chegada da baby Ororo, mais uma gatinha preta resgatada das ruas e que integra a família Amaral-Salvatore;
  • Filme da Mulher-Maravilha no qual chorei pra caramba de emoção – que me rendeu um texto para o jornal Zero Hora e uma entrevista pra Rádio Unisinos FM. (Das coisas que me rendem orgulho escrever e falar sobre Diana Prince estão no topo, mataria meu pai que era muito fã da personagem de orgulho #complexodeelektrafeelings );
  • Participação no simpósio Fantástico Brasileiro: Produção Literária e Mercado Editorial organizado pelo queridíssimo Eneias Tavares e que trouxe os melhores escritores, editores, tradudores do “movimento fantasista” (MANTAGRANO, 2017) do Brasil a POA (foi maravilhoso reencontrar todo esse povo);
  • Ver impresso meu Prefácio à nova tradução (da queridona Carol Chiovatto) de Orgulho & Preconceito da tia Jane Austen que saiu pela Giz Editorial;
  • Vice-coordenação do GT Estudos de Som e Música na Compós 2017 na Cásper Líbero em SP (o que possibilitou que eu encontrasse o querido casal whovian Thais Aux & Freddy Pavão e batesse um papo com a lindona Edi Fortini, rever amigos e a família paulistana é sempre um bom motivo pra ir àquela terra);
  • Organização – junto com a equipe do CULTPOP – do V CoMusica – Congresso de Comunicação e Música que vai rolar na Unisinos dias 01, 02 e 03 de Agosto de 2017.
  • Nova orientanda de Pós-Doutorado, Lucina Viana

Em meio a todo esse volume de atividades, a vida vai acontecendo entre altos e baixos, dias com saúde e dias mais abalados, encontros com amigos, desabafos, chateações, tédio, pequenas alegrias, amor, crise política no país e no mundo, problemas familiares, questões identitárias que nunca se consolidam – e a gente acha que com 40 já ia estar tudo resolvido né? Santa ingenuidade. Contudo, seguimos, mesmo ainda longe de onde pretendemos estar (it´s a long long way) vamos respirando e tentando localizar alguns pontos de respiro e desconexão. Que o segundo semestre seja mais leve!

CFP: Game of Thrones – An International Conference

CFP: Game of Thrones – An International Conference

6-8 September 2017

University of Hertfordshire, School of Creative Arts, College Lane, Hatfield, Hertfordshire,
AL10 9AB

Deadline for proposals: 30 March 2017

Email: GOTconf2017@herts.ac.uk

Widely rumoured to be moving into its final season, HBO’s
Game of Thrones (2011- ) has enjoyed 6 years of global popularity, attracting international scholarly and critical attention and reaching record-breaking audiences.  Famously adapted from George R.R. Martin’s book series, ‘A Song of Ice and Fire’, HBO’s
medieval fantasy world spans two continents, Westeros and Essos, and focuses on the power struggles between competing dynasties for possession of the Iron Throne and ultimate power over the Seven Kingdoms.  It is not only political intrigue that threatens
the inhabitants of this world, however, as dragons, witches, giants and whitewalkers also stalk its shores.

Not just a simple fantasy series, Game of Thrones has been likened to ‘The Sopranos in Middle-Earth’ by showrunner David Benioff and is notorious for its controversial storylines, particularly those centred on its women.  Rape, incest and power brokering through marriage reveal a patriarchal society in which political intrigue is not always gendered but inevitably leads to uneasy alliances between families – both friend and foe – and violent ends for many. Game of Thrones continues to enrage and enthral a global audience unsure if the series is misogynist, feminist or anti-feminist; or an uncomfortable blend of all three.

Populated by a large ensemble cast (reputedly the largest on television today), Game of Thrones is filmed in many global locations: Belfast to Morrocco and Dubrovnik to Iceland, the series has impacted upon the tourist economies as well as providing employment for a vast array of ‘behind-the scenes’ personnel from post production and special effects designers through to technicians, production designers, directors and producers to camera
operators, editors and carpenters (to name but a few).  The series has also spawned a vast merchandising enterprise from models to games and comics to spin-off books.  In short, the production of Game of Thrones has played a large part in the creative industries since 2010 through the many employment opportunities it has offered transnationally.

This international conference invites proposals on a wide range of subjects.  While there have been several significant studies on the seriesits adaptation from literature to television as well as its multimedia engagements, Lozano Delmar, Javier; Raya Bravo, Irene; López Rodríguez, Francisco Javier (Eds.), Reyes, Espadas, Cuervos Y Dragones. Estudio Del Fenómeno Televisivo Juego De Tronos. Madrid, Fragua. Colección Fragua Comunicación, 2013 (to name but three). This conference aims to widen the scope to include contributions from all aspects of the creative industries.  We hope this conference will offer an opportunity to open up the discussion, make links between practitioners and theorists, industry personnel and critics as well as key creative personnel who have worked on the series.

Short abstracts (250 words + bio) are invited on any Game of Thrones related subject by 30 March 2017.  Varied presentation styles are encouraged, including formal papers (20 mins), fully formed panels, poster and digital presentations as well as roundtable discussions, short/lightning presentations (5 mins) and PechaKucha (20X20).  Proposals for fully formed sessions will also be considered.  All abstracts and proposals will be peer-reviewed and a response will be sent by
31 May 2017.

Please email all proposals to Kim Akass at
GOTconf2017@herts.ac.uk

Keynotes will be announced in the near future and publishing opportunities are currently being sought.

Shake Up

Após um longo inverno chega uma primavera (ok, ainda tá friozinho aqui nas terras sulistas, mas já temos um cenário colorido e cheio de flores) trazendo mudanças. Depois da repercussão do meu texto desabafo por aqui, houve melhoras porque houve apoio de todos os lados, até dos mais inesperados. Creio que mais uma crise se foi e espero que tudo isso demore muito pra voltar ou nem volte mais. O que não quer dizer que os problemas em si acabaram, mas consegui até achar algumas possibilidades de saída e vi que a queda causou alguns ferimentos, embora não tenha sido o suficiente para me derrubar. Como em Shake Up do Mind.In.A.Box:

“I may let them see me
I may let them see me stumble,
but they will never see me fall.”

A grande novidade do momento é que finalmente, após um tempo planejando e me organizando – old habits die hard – adotamos uma gatinha, que está sendo paixão da casa. Uhura chegou pra comandar a Enterprise Amaral-Salvatore.

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Uhura reutilizando sacolas de congresso

Esse post foi só pra me lembrar de que tudo simplesmente passa e apesar de ainda estar em processo de recuperação e bastante fragilizada, é preciso mirar no futuro e focar em quem somos, em quem está ao nosso lado e em objetivos mais tangíveis a curto prazo. Por hoje era isso. Volto em breve para comentar algumas coisas importantes, sobretudo os projetos novos do grupo de pesquisa como o programa de rádio Divã Pop e o Conversas Cultpop em parceria com a Galeria Acadêmica em Porto Alegre. Vem muita novidade por ai. Lady A is back bitches!

Simpósio Mapeando Cenas da Música Pop: Cidades, Mediações, Arquivos

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Nos dias 25 e 26 de agosto (quinta e sexta) vai rolar na Escola da Indústria Criativa da  Unisinos campus São Leopoldo o simpósio Mapeando Cenas da Música Pop: Cidades, Mediações, Arquivos. O evento é parte do projeto POA MUSIC SCENES, desenvolvido pela Unisinos em associação com a Universidade de Salford, na Inglaterra e organizado pelos grupos de pesquisa CULTPOP – Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias e TCAV – TecnoCultura e Audiovisual.

Durante os dois dias, serão discutidos diversos temas que envolvem a relação entre música pop, sociedade, memória e experiência. A programação começa na quinta às 13h30 com apresentação do documentário sobre mulheres bateristas no Rio Grande do Sul, segue às 14h, com debates sobre as cenas musicais contemporâneas do Rio Grande do Sul e circulação musical em redes sociais. Às 18h30, os coordenadores do POA MUSIC SCENES discutirão os resultados da pesquisa. Às 19h30, haverá palestra da professora Simone Pereira de Sá, da Universidade Federal Fluminense, sobre as cenas do funk carioca e os usos das tecnologias pela música pop periférica, fechando o primeiro dia.

Na sexta, às 10h, a fala inicial será do professor Michael Goddard, da Universidade de Salford. Ao longo da tarde, será discutida a relação entre cenas musicais e experiência urbana, com trabalhos que enfocam Porto Alegre e cidades como Rio, Goiânia e Berlim além de discussões sobre memória e arquivo. Às 16h30, uma mesa especial que reunirá produtores locais que discutirão as muitas facetas das cenas de rock e de música eletrônica da capital gaúcha. A entrada no evento é gratuita.

Confira a programação do simpósio: http://tinyurl.com/progpoams

FESTA
Na sexta à noite após o evento, é hora de tomar o caminho para Porto Alegre: às 21h, a festa POA/MCR/POA – Panamá (after) Papers, que acontecerá no Panamá Estúdio Pub, na Cidade Baixa, marca o fim do evento, com shows das bandas The Gentrificators e Moldragon, além de discotecagem que reunirá o melhor já produzido em POA e Manchester pelos integrantes da pesquisa. A entrada é franca. Evento no Facebook:https://www.facebook.com/events/1634221333555148/

LABTICS
O simpósio marcará também a inauguração do Laboratório de Tecnologias da Informação e da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, o LABTICS – um moderno espaço com capacidade para sessenta pessoas que, entre outras características, possibilita transmissões via streaming de alta qualidade por meio de três câmeras de alta resolução operadas por controle remoto.
Mais informações pelo site http://www.poamusicscenes.com.br/ ou pelo email portoalegrems@gmail.com

Sobre desapontamentos & fracassos

Minhas últimas semanas foram algumas das mais difíceis dos últimos seis anos, perdendo apenas para quando meu pai e minha mãe faleceram. Quem convive com os ciclos de um transtorno de humor sabe muito bem que pode passar anos, mas um belo dia a crise volta a dar as caras. Ao longo do tempo a gente aprende – ou pelo menos tenta – evitar, já conhece alguns dos gatilhos, vai percebendo os caminhos que funcionam ou não. No entanto, nunca temos uma certeza se vamos conseguir nos manter no trilho da estabilidade/sanidade.

Did I disappoint you?
Did I let you down?
Did I stand on the shore
And watch you as you drowned?
Can you forgive me?
I never knew
The pain you carried
Deep inside of you.

E eis que nesses últimos dias estou tentando digerir um fracasso daqueles retumbantes, uma frustração gigantesca, uma derrota sem precedentes na minha vida ordinária. Não que eu tenha tido vitórias épicas, grandes prêmios ou algo digno de sei lá, uma olimpíada. Porém, na medida do possível, tento me organizar, tento planejar e sei la, boa parte das coisas andam a partir do momento em que eu mobilizo uma energia para aquela tarefa ou ao menos assim eu acreditava. De maneira geral tinha dado certo, até o presente momento. Em geral, nunca vemos as pessoas falando dos momentos em que falharam. A narrativa do sucesso é muito mais sedutora.

You only see what your eyes want to see
How can life be what you want it to be
You’re frozen
When your heart’s not open

O primeiro passo da dificuldade é admitir e aceitar que aquilo que você investiu todo um aparato emocional simplesmente não vai acontecer. Na teoria até parece fácil, você respira, inspira, deixa o tempo passar e mais umas outras técnicas ai. Na prática, a vontade é se enfiar embaixo das cobertas e não sair de la até a dor desaparecer. Só que o trabalho, as contas pra pagar, e tudo mais na vida não te permitem fazer isso. O máximo que você consegue é ficar ainda pior.

You’re so consumed with how much you get
You waste your time with hate and regret
You’re broken
When your heart’s not open

Ai você nem conseguiu superar ainda a primeira etapa e já começam as auto-cobranças do tipo: Por que eu fiz assim e não assado? Como foi que eu cheguei a isso?  Se eu tivesse escolhido A em vez de B, teria dado certo? Fulano consegue, por que não eu? São tantas as variáveis que você vai se sentindo soterrada e tudo em volta fica ainda pior. Raiva, arrependimento e um monte de incertezas começam a te tirar do chão e a te fazer acreditar que você não tem capacidade ou, nesse caso específico que nenhuma das suas capacidades é boa o suficiente pra te tirar dessa enrascada na qual você mesma se colocou. Me sinto afundando e preciso continuar a sorrir e a agir naturalmente.

I can’t forget
Having to see
The words that knocked the wind
Right out of me
It’s not enough
I’ve come undone
Trying to find sense
Where there is none

E ai depois de muitos dias ruminando e sofrendo muito – incluindo um dia que eu sempre gosto muito de celebrar e que mal tinha forças pra sair da cama, o meu aniversário – decidi voltar algumas casas no jogo. [Além da melancolia natural e de enfrentar o fato de estar fazendo 41 anos assim, num piscar de olhos, juro, eu nunca me senti com essa idade. Sempre me senti ageless.] Falar da perda é vivê-la novamente, mas também  o único jeito de expurgar o que já estava escrito e eu não quis ver.

I have a tale to tell
Sometimes it gets so hard to hide it well
I was not ready for the fall
Too blind to see the writing on the wall

Decidi pela primeira vez de forma consciente desistir de algo que eu queria muito e assumir que sim, eu fracassei e não vou mais insistir em tentar ir adiante com algo que só está me causando dor. Algo que não está nas minhas mãos nesse momento. Estou triste e desapontada comigo mesmo e com um conjunto de circunstâncias que de uma forma ou de outra me constituíram. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”, aquela frase bem clichezona do Ortega Y Gasset. Mas é isso, acho que assumir que falhei já é um bom começo. É como eu posso tentar lidar com esse desgaste por hora. Infelizmente precisei sair de um impasse com uma escolha que é a menos pior. Não é o que eu desejava, não é o que eu queria ou como eu queria mas é como a vida me impôs e não há nada que eu possa fazer a não ser aceitar. Uma sensação de impotência indescritível, o que pra alguém acostumada a correr atrás de tudo até as ultimas conseqüências é aterrorizante.

Now there’s no point in placing the blame
And you should know I suffer the same
If I lose you
My heart will be broken
Love is a bird, she needs to fly
Let all the hurt inside of you die
You’re frozen
When your heart’s not open

Mas ai vão aparecendo alguns pequenos confortos: coisas legais de trabalho (fui convidada pra escrever uma espécie de prefácio pra um dos livros que eu mais gosto); amigos que desviam sua rota apenas porque você precisa conversar e vem na sua casa quando você mais precisa; a sobrinha que vem perguntar querendo saber de verdade como você está na inbox; o aniversário da Madonna que te faz escutar Frozen por horas no repeat e entender porque seu melhor amigo dizia pra prestar atenção nas letras; os bolsistas que estão trabalhando pelo evento de forma tão profissional; a saudade boa das festas e shows do ManRay Club em Harvard Square (Disappoint do Assemblage 23 era um hit); toda uma rede de afetividades que te lembram que nada é tão ruim que vá durar para sempre. Talvez desses grandes desapontamentos a gente tire alguma força inexplicável para seguir adiante. Ou como diria a musa Scarlet O´Hara: “Tomorrow is another day”

Don´t Panic

Meus últimos meses têm sido muito conturbados em termos profissionais, pessoais, familiares, etc, mas a partir dessa próxima semana em que retornam as aulas – e tem mais um aniversário pela frente-,  decidi que vou voltar a me disciplinar pra escrever no bloguinho que ficou ai abandonado novamente por uns meses [também estou me prometendo retomar os exercícios, fazer os exames pendentes, entre outras coisas que abandonei]. Na verdade estou tentando me disciplinar em alguns campos que andam defasados na vida. Tenho alguns pequenos posts já na cabeça: a experiência como professora/pesquisadora visitante na Alemanha entre maio e junho, os eventos na Inglaterra (sobre fãs e música brasileira), o seriado Jonathan Strange & Mr. Norrell, as mudanças no Instagram, a 6a temporada de Game of Thrones, minha vida de madrasta e outras aleatoriedades que podem ou não fazer sentido. Também preciso dar uma atualizada em uns artigos cujos links sumiram daqui. Primeiro fiz uma limpezona na minha casa física (escritório, quartinho da bagunça, etc), agora é hora de dar um jeito aqui.

Nessa altura do campeonato de ser adulta, apenas preciso comentar que fazia muito tempo em que não sentia tanto pânico: um medo atroz dos caminhos que me trouxeram até aqui, do que vem pela frente, do que se foi, do que virá e eu desconheço, medo de errar, medo de gente extremista em todos os espectros, medo de me arrepender, medo de ter mudado a ponto de não mais me reconhecer, medo de parecer sempre a mesma, medo de deixar algumas mágoas e ressentimentos tomarem conta e perder de vista a big picture, medo de surtar, medo de me esconder em camadas de precaução, medo de perder a mão, medo de não conseguir segurar as marimbas. Medo de ficar levando um 7 X 1 ad infinitum da vida. Todavia, simplesmente não posso deixar que todo esse  pânico me paralise, estamos ai, respirando e segurando nossa toalha pelas galáxias em busca de aventuras. Vamos repetir a frase clássica de Douglas Adams: “Don´t Panic”!

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Lápide do Escritor Douglas Adams no magnífico cemitério vitoriano HighGate Cemetery em Londres em um belo dia de sol. Crédito: Arquivo Pessoal Adri Amaral & Tarsis Salvatore