Simpósio Mapeando Cenas da Música Pop: Cidades, Mediações, Arquivos

simposio

Nos dias 25 e 26 de agosto (quinta e sexta) vai rolar na Escola da Indústria Criativa da  Unisinos campus São Leopoldo o simpósio Mapeando Cenas da Música Pop: Cidades, Mediações, Arquivos. O evento é parte do projeto POA MUSIC SCENES, desenvolvido pela Unisinos em associação com a Universidade de Salford, na Inglaterra e organizado pelos grupos de pesquisa CULTPOP – Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias e TCAV – TecnoCultura e Audiovisual.

Durante os dois dias, serão discutidos diversos temas que envolvem a relação entre música pop, sociedade, memória e experiência. A programação começa na quinta às 13h30 com apresentação do documentário sobre mulheres bateristas no Rio Grande do Sul, segue às 14h, com debates sobre as cenas musicais contemporâneas do Rio Grande do Sul e circulação musical em redes sociais. Às 18h30, os coordenadores do POA MUSIC SCENES discutirão os resultados da pesquisa. Às 19h30, haverá palestra da professora Simone Pereira de Sá, da Universidade Federal Fluminense, sobre as cenas do funk carioca e os usos das tecnologias pela música pop periférica, fechando o primeiro dia.

Na sexta, às 10h, a fala inicial será do professor Michael Goddard, da Universidade de Salford. Ao longo da tarde, será discutida a relação entre cenas musicais e experiência urbana, com trabalhos que enfocam Porto Alegre e cidades como Rio, Goiânia e Berlim além de discussões sobre memória e arquivo. Às 16h30, uma mesa especial que reunirá produtores locais que discutirão as muitas facetas das cenas de rock e de música eletrônica da capital gaúcha. A entrada no evento é gratuita.

Confira a programação do simpósio: http://tinyurl.com/progpoams

FESTA
Na sexta à noite após o evento, é hora de tomar o caminho para Porto Alegre: às 21h, a festa POA/MCR/POA – Panamá (after) Papers, que acontecerá no Panamá Estúdio Pub, na Cidade Baixa, marca o fim do evento, com shows das bandas The Gentrificators e Moldragon, além de discotecagem que reunirá o melhor já produzido em POA e Manchester pelos integrantes da pesquisa. A entrada é franca. Evento no Facebook:https://www.facebook.com/events/1634221333555148/

LABTICS
O simpósio marcará também a inauguração do Laboratório de Tecnologias da Informação e da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, o LABTICS – um moderno espaço com capacidade para sessenta pessoas que, entre outras características, possibilita transmissões via streaming de alta qualidade por meio de três câmeras de alta resolução operadas por controle remoto.
Mais informações pelo site http://www.poamusicscenes.com.br/ ou pelo email portoalegrems@gmail.com

Sobre desapontamentos & fracassos

Minhas últimas semanas foram algumas das mais difíceis dos últimos seis anos, perdendo apenas para quando meu pai e minha mãe faleceram. Quem convive com os ciclos de um transtorno de humor sabe muito bem que pode passar anos, mas um belo dia a crise volta a dar as caras. Ao longo do tempo a gente aprende – ou pelo menos tenta – evitar, já conhece alguns dos gatilhos, vai percebendo os caminhos que funcionam ou não. No entanto, nunca temos uma certeza se vamos conseguir nos manter no trilho da estabilidade/sanidade.

Did I disappoint you?
Did I let you down?
Did I stand on the shore
And watch you as you drowned?
Can you forgive me?
I never knew
The pain you carried
Deep inside of you.

E eis que nesses últimos dias estou tentando digerir um fracasso daqueles retumbantes, uma frustração gigantesca, uma derrota sem precedentes na minha vida ordinária. Não que eu tenha tido vitórias épicas, grandes prêmios ou algo digno de sei lá, uma olimpíada. Porém, na medida do possível, tento me organizar, tento planejar e sei la, boa parte das coisas andam a partir do momento em que eu mobilizo uma energia para aquela tarefa ou ao menos assim eu acreditava. De maneira geral tinha dado certo, até o presente momento. Em geral, nunca vemos as pessoas falando dos momentos em que falharam. A narrativa do sucesso é muito mais sedutora.

You only see what your eyes want to see
How can life be what you want it to be
You’re frozen
When your heart’s not open

O primeiro passo da dificuldade é admitir e aceitar que aquilo que você investiu todo um aparato emocional simplesmente não vai acontecer. Na teoria até parece fácil, você respira, inspira, deixa o tempo passar e mais umas outras técnicas ai. Na prática, a vontade é se enfiar embaixo das cobertas e não sair de la até a dor desaparecer. Só que o trabalho, as contas pra pagar, e tudo mais na vida não te permitem fazer isso. O máximo que você consegue é ficar ainda pior.

You’re so consumed with how much you get
You waste your time with hate and regret
You’re broken
When your heart’s not open

Ai você nem conseguiu superar ainda a primeira etapa e já começam as auto-cobranças do tipo: Por que eu fiz assim e não assado? Como foi que eu cheguei a isso?  Se eu tivesse escolhido A em vez de B, teria dado certo? Fulano consegue, por que não eu? São tantas as variáveis que você vai se sentindo soterrada e tudo em volta fica ainda pior. Raiva, arrependimento e um monte de incertezas começam a te tirar do chão e a te fazer acreditar que você não tem capacidade ou, nesse caso específico que nenhuma das suas capacidades é boa o suficiente pra te tirar dessa enrascada na qual você mesma se colocou. Me sinto afundando e preciso continuar a sorrir e a agir naturalmente.

I can’t forget
Having to see
The words that knocked the wind
Right out of me
It’s not enough
I’ve come undone
Trying to find sense
Where there is none

E ai depois de muitos dias ruminando e sofrendo muito – incluindo um dia que eu sempre gosto muito de celebrar e que mal tinha forças pra sair da cama, o meu aniversário – decidi voltar algumas casas no jogo. [Além da melancolia natural e de enfrentar o fato de estar fazendo 41 anos assim, num piscar de olhos, juro, eu nunca me senti com essa idade. Sempre me senti ageless.] Falar da perda é vivê-la novamente, mas também  o único jeito de expurgar o que já estava escrito e eu não quis ver.

I have a tale to tell
Sometimes it gets so hard to hide it well
I was not ready for the fall
Too blind to see the writing on the wall

Decidi pela primeira vez de forma consciente desistir de algo que eu queria muito e assumir que sim, eu fracassei e não vou mais insistir em tentar ir adiante com algo que só está me causando dor. Algo que não está nas minhas mãos nesse momento. Estou triste e desapontada comigo mesmo e com um conjunto de circunstâncias que de uma forma ou de outra me constituíram. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”, aquela frase bem clichezona do Ortega Y Gasset. Mas é isso, acho que assumir que falhei já é um bom começo. É como eu posso tentar lidar com esse desgaste por hora. Infelizmente precisei sair de um impasse com uma escolha que é a menos pior. Não é o que eu desejava, não é o que eu queria ou como eu queria mas é como a vida me impôs e não há nada que eu possa fazer a não ser aceitar. Uma sensação de impotência indescritível, o que pra alguém acostumada a correr atrás de tudo até as ultimas conseqüências é aterrorizante.

Now there’s no point in placing the blame
And you should know I suffer the same
If I lose you
My heart will be broken
Love is a bird, she needs to fly
Let all the hurt inside of you die
You’re frozen
When your heart’s not open

Mas ai vão aparecendo alguns pequenos confortos: coisas legais de trabalho (fui convidada pra escrever uma espécie de prefácio pra um dos livros que eu mais gosto); amigos que desviam sua rota apenas porque você precisa conversar e vem na sua casa quando você mais precisa; a sobrinha que vem perguntar querendo saber de verdade como você está na inbox; o aniversário da Madonna que te faz escutar Frozen por horas no repeat e entender porque seu melhor amigo dizia pra prestar atenção nas letras; os bolsistas que estão trabalhando pelo evento de forma tão profissional; a saudade boa das festas e shows do ManRay Club em Harvard Square (Disappoint do Assemblage 23 era um hit); toda uma rede de afetividades que te lembram que nada é tão ruim que vá durar para sempre. Talvez desses grandes desapontamentos a gente tire alguma força inexplicável para seguir adiante. Ou como diria a musa Scarlet O´Hara: “Tomorrow is another day”

Don´t Panic

Meus últimos meses têm sido muito conturbados em termos profissionais, pessoais, familiares, etc, mas a partir dessa próxima semana em que retornam as aulas – e tem mais um aniversário pela frente-,  decidi que vou voltar a me disciplinar pra escrever no bloguinho que ficou ai abandonado novamente por uns meses [também estou me prometendo retomar os exercícios, fazer os exames pendentes, entre outras coisas que abandonei]. Na verdade estou tentando me disciplinar em alguns campos que andam defasados na vida. Tenho alguns pequenos posts já na cabeça: a experiência como professora/pesquisadora visitante na Alemanha entre maio e junho, os eventos na Inglaterra (sobre fãs e música brasileira), o seriado Jonathan Strange & Mr. Norrell, as mudanças no Instagram, a 6a temporada de Game of Thrones, minha vida de madrasta e outras aleatoriedades que podem ou não fazer sentido. Também preciso dar uma atualizada em uns artigos cujos links sumiram daqui. Primeiro fiz uma limpezona na minha casa física (escritório, quartinho da bagunça, etc), agora é hora de dar um jeito aqui.

Nessa altura do campeonato de ser adulta, apenas preciso comentar que fazia muito tempo em que não sentia tanto pânico: um medo atroz dos caminhos que me trouxeram até aqui, do que vem pela frente, do que se foi, do que virá e eu desconheço, medo de errar, medo de gente extremista em todos os espectros, medo de me arrepender, medo de ter mudado a ponto de não mais me reconhecer, medo de parecer sempre a mesma, medo de deixar algumas mágoas e ressentimentos tomarem conta e perder de vista a big picture, medo de surtar, medo de me esconder em camadas de precaução, medo de perder a mão, medo de não conseguir segurar as marimbas. Medo de ficar levando um 7 X 1 ad infinitum da vida. Todavia, simplesmente não posso deixar que todo esse  pânico me paralise, estamos ai, respirando e segurando nossa toalha pelas galáxias em busca de aventuras. Vamos repetir a frase clássica de Douglas Adams: “Don´t Panic”!

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Lápide do Escritor Douglas Adams no magnífico cemitério vitoriano HighGate Cemetery em Londres em um belo dia de sol. Crédito: Arquivo Pessoal Adri Amaral & Tarsis Salvatore

 

Sobre desistir, aleatoriedades e caos

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life… (Trainspotting)

Não se preocupem, esse post não é sobre desistir da vida. Também não vou jogar tudo para o alto e virar hippie (não nessa vida por favor, ninguém me obriga a usar sandalinha de couro e saião e cantar a detestável Janis Joplin. Mais facil eu enlouquecer em uma masmorra ou em uma fabrica abandonada ouvindo :wumpscut). Esse post é sobre algumas coisas que vieram a minha mente após ter lido o texto inquietante da Aline Andrade intitulado Quando chega a hora de desistir. Fiquei pensando o quão diametralmente oposta estou no espectro e, ao mesmo tempo tão próxima. A vida acadêmica e suas agruras é parecida e diferente para pessoas tão distintas e sim, renderia bons produtos ficcionais, sejam livros, seriados ou filmes. Eu sempre quis escrever um sitcom com as situações bizarras e surreais que já passei – e não foram, nem são, poucas. De qualquer forma essa é uma realidade ainda pouco explorada pela TV (atenção diretores e produtores da HBO, GNT etc temos material de sobra, #chamanóis).

No texto Aline descreve com bastante acuidade algumas situações que todo mundo que já fez concurso ou prestou seleções conhece ou já ouviu. A vida acadêmica é bastante randômica e aleatória, apesar de todo o discurso meritocrático e peer review que contamos para nós mesmos o tempo todo. O caos no fim das contas acaba determinando alguns acontecimentos muito mais do que as escolhas que acreditamos fazer.

Eu por exemplo, decidi que seria jornalista com sete anos de idade porque gostava de escrever e porque era fã dos repórteres heróis dos quadrinhos (Homem Aranha, Superman). Ao contrário de todos  meus colegas, durante o segundo grau (é ensino médio agora né? Acho que estou passando atestado de tiazona) eu não tinha nenhuma dúvida sobre qual graduação cursar. Mas meu último ano antes da faculdade foi caótico, aconteceram coisas que me tiraram do prumo e acabei fazendo um pouco de Letras, porque amava literatura de língua inglesa. Amava o curso (lingüística, teoria literária) mas não me via sendo professora. Olhem a ironia da vida. Hoje sou professora.

Um semestre depois entrei no jornalismo (levei ambos os cursos por um tempo mas não rolou) com a missão de trabalhar pra uma revista de música. Era esse meu ponto. Não tinha a menor vontade de escrever sobre buraco da rua, política (meu niilismo ja me fazia odiar ideologias de variados espectros) ou hard news. E la no andar do curso o que aconteceu? Primeiro que passei a gostar e andar com os amigos publicitários que ouviam música eletrônica – a maioria dos estudantes de jornalismo faziam a linha roqueirinho classico que naquele momento eu achava um saco –  e traziam novidades ao contrário dos colegas marxistas (rs)  que só reclamavam de tudo. Segundo, me tornei bolsista de IC e entrei num grupo de pesquisa em semiótica. Minha ideia era terminar o curso e ir para SP, achar meu lugar na “imprensa musical” (para a qual eu até frilei). No entanto, uma série de problemas familiares (doenças e um namorado que nunca se formava) me prenderam em POA.

Assim, um ano depois de formada eu efetivamente decidi entrar no Mestrado com a ideia de pesquisar cinema/audiovisual. Apresentei um artigo em um renomado congresso nacional específico da área sobre um filme que eu achava bacana, um filme cuja música era o epicentro. Ninguém comentou absolutamente nada sobre o meu texto, nem pra xingar, nem para fazer polêmica, nem para dizer que era um lixo. Foi uma deprê. Paralelo a isso eu trabalhava nessa área com alguns freelas e não me via passando a vida a debater sobre Glauber Rocha e outros cânones dessa área. Não era pra mim. Não foi consciente, mas retomei meu projeto de mestrado e acabei de uma forma um tanto tangencial falando sobre fãs. Um belo dia quando estava quase ao fim do mestrado (uma época muito difícil na minha vida pautada pela depressão e por uma sucessão de relacionamentos afetivos fracassados) decidi que tentaria o doutorado, afinal eu queria mesmo seguir na academia. Mesmo que nada estivesse dando muito certo naquele momento enquanto 60% dos meus colegas já dava aulas, tinha empregos no mercado e pareciam estar se encaminhando na vida.

Eis que num desses dias, Neuromancer do William Gibson cai na minha mão e assim surge meu projeto de doutorado. De forma completamente aleatória porque eu li algo sobre The Wanderer (uma canção do album obscuro Zooropa) e a relação dele com o livro e fui investigar. E assim entrei no doutorado, uma época igualmente complicada em que o país atravessava um período em que praticamente não haviam concursos em federais, tinham poucas bolsas, etc etc. Tudo muito diferente do cenário recente. Fiz doutorado com bolsa parcial , fazia freelas, traduções, me virava nos vinte e poucos enquanto meus colegas conseguiam empregos nas universidades particulares da região, compravam apartamentos, carros, viajavam nas férias de verão. Eu vivia uma vida com pouquíssima grana – não monástica porque não tenho menor vocação de não sair pra rua rs – e chegava a duvidar que conseguiria emplacar meu tema. Um dia, vou até a biblioteca e remexendo numa estante um livro da área de teoria literária literalmente cai no meu colo, um livro que continha um artigo que me ajudou a encontrar a hipótese da minha tese e que gerou um artigo com qual fui aceita pela primeira vez no congresso da Compós, que segundo diziam todos, era importante. Paralelo a isso, teve uma novela do doutorado-sanduiche em que eu quase não fui ( as bolsas eram muito escassas) e mais um monte de complicações que por si só dariam um livro, até coleguinha ironizando “pesquisar scifi” e burocracias que pareciam estar contra mim. No fim, acabei viajando e foi uma das melhores experiências que eu tive. Quando voltei ao Brasil começou a me bater o desespero, afinal o que eu faria da vida? Não haviam concursos, as contratações estavam escassas. O desespero batia a minha porta.

True life begins behind the border
That exists inside your head
You will never reach deep waters
And get away from there
Take a look around
And look at what you have
But you will never reach deep waters
If you do not change yourself

True Life – Lights of Euphoria

O fato é que defendi a tese e por mais uma dessas aleatoriedades da vida um mês depois disso estava em outra cidade, em outro estado, empregada em um PPG e morando junto com o namorado que na real eu conhecia muito pouco. Dali para adiante tudo estava resolvido? No way baby. Daquele dia em diante comecei a planejar a estar em um lugar melhor ou mesmo mais perto da familia e dos amigos. Apesar das dificuldades, fui sobrevivendo, criei redes com outros pesquisadores que admiro fora da cidade (aka centro do país) – , fiz amizades fora do circuito acadêmico, organizei festas, discotequei – e pasmem até ganhei alguns trocados com isso – enfim fiz um monte de coisas que alguns diziam não ser compatíveis com a “nova vida séria” que eu tinha. Fui julgada até porque usava uma pasta da Hello Kitty, o que convenhamos, nunca afetou minha produtividade #shoremhaters.

Enquanto isso, fui tocando as pesquisas e mirando num futuro, mirando em empregos melhores, trabalhando finais de semana, feriados, não tirava quase férias, tive 2 empregos por dois anos. Aos 34 anos e ao final do meu último ano naquela cidade obtive a Bolsa de Produtividade do CNPq. Mission almost accomplished.  Obviamente tudo tem um custo e minha vida emocional – sanidade mental + casamento + amizades + familia – flopou das mais variadas formas imagináveis com direito a mortes, doenças e separação. Eu tinha 30 e poucos anos e postergava quase tudo. Tem tempo, deixa pra depois, não é o momento, vou enfiar a cara nesses pareceres, vou dar um curso no interior de sei la onde, vou dar uma palestra nos confins do brazyu. E assim seguia.

Após inúmeras tentativas, finalmente consegui mudar de cidade/emprego (e não era só mudar de emprego né, era pra alguma cidade com a qual eu tivesse mais afinidade e rumar para um PPG mais renomado com mais nota e que me permitisse captar mais recursos em editais, e uma série de outros itens. A régua havia subido). Fiquei feliz, afinal, meu plano havia dado certo – do alto da minha arrogância dos 30 e poucos achava que sim tudo tinha seguido meu plano. Em compensação havia uma cratera no meu RV – como dizia Sherry Turkle nos anos 90 para falar sobre o plano da vida offline, o Resto de Vida. E ai começou toda uma nova saga. De la para cá se passaram seis anos. Perdi minha mãe, fui pra terapia, me separei, comprei um apartamento (o lado “sonho classe média” rs que 90% dos meus colegas realizaram quando ninguém me deu emprego na minha terra natal foi finalmente resolvido) casei novamente – dessa vez de um jeito totalmente diferente – e fiz um pósdoc onde eu queria, provavelmente em uma das ultimas levas de bolsas para o exterior desse período “rhykho” das agências.

Confesso que à exceção do pósdoc que ja estava em um planejamento, todo o resto foi absolutamente singular. E mesmo as circunstâncias que me levaram a ele, a escolha do lugar, de tudo, acabou se dando de forma caótica e randômica. Talvez porque ao contrário do que eu pensava, fui sim fazendo pequenas desistências, como no momento em que larguei de mão minhas intenções de pesquisar cinema e me joguei de cabeça nas questões da cibercultura e dei sorte de estar ali quando uma subárea de estudos se formava. Eu desisti de algo para fazer outro. Foi doloroso, mas sei la. É preciso perceber nossos limites.É o que tenho pensado em relação ao meu modo de encarar a vida cheio de metas e objetivos tracejados. Talvez eles me dêem uma falsa sensação de segurança e no momento, me sinto um poço de dúvidas e hesitações Sempre tive muitas certezas e agora não, desconfio de tudo no qual um dia acreditei.

Tudo isso apenas porque outras questões me atormentam e me fazem pensar em desistir a respeito de decisões anteriormente fechadas.Como falei no início do post,  minha “assim chamada” carreira já está mais ou menos delineada. – ok é dificil manter e à medida que o tempo passa outros objetivos vão surgindo mas as coisas estão constituídas. Também acredito que se um belo dia eu resolver sair disso, vou sair pela porta da frente e me jogar em algum outro abismo tendo certeza que dei minhas contribuições e elas foram suficientes para os meus propósitos.

O que trato aqui é sobre estar sempre pensando no desenho que “as vidas” da gente formam. Quando falo as vidas é porque não é uma só, são várias em um curto período de tempo. No meu caso, acho que foi o Pollock quem jogou umas tintas na tela, pois quando penso que está tudo estabilizado, algum lado  resolve berrar ardentemente. E assim, talvez eu  precise retroceder, relevar, deixar estar, rever o que deixei de lado e o que priorizei e ver que there´s no going back. Não é possível pegar uma TARDIS ou um De Lorean e voltar no tempo. O caos fez com que eu chegasse  até aqui e talvez ele não permita que eu altere algumas estruturas já definidas em um determinado ponto sem que se quebre alguns cristais. Como em Suedehead do Morrissey: “I´m so sorry”. Eu realmente sinto muito. Eu queria ter desistido antes, ter desistido a tempo de não perder o baile. Mas, talvez não haja tempo suficiente em uma única vida humana para que a gente consiga preencher a maior parte das lacunas  e dos desejos. Para um ego leonino e para alguém que odeia desistir – sou dessas que costuma ir até o fim –  talvez isso seja um aprendizado extremamente doloroso. Talvez desistir seja também resistir e encontrar algum tipo de paz. Ou talvez todo mundo seja só trollado o tempo todo por essa bitch chamada vida que vem cobrar os débitos que julgávamos já ter pago. Tem dias que eu acho que deixei a comanda do bar do vida pendurada 20 anos atrás e agora ela veio cobrar tudo de uma só vez . De qualquer forma desistir também é parte do amontoado de aleatoriedades sem sentido que construímos para nós mesmos e talvez até nos salve de sentir menos dor.

 

A ressurreição das práticas irritantes de pesquisa

Uns anos atrás publiquei um post sobre práticas acadêmicas irritantes. Esse post volta e meia traz pessoas ao blog, sobretudo depois que a Dora Garrido citou ele no seu blog há bem pouco tempo. O fato é que o assunto não se esgotou e aproveitando o espírito de ressurreição da Páscoa resolvi comentar mais algumas coisas que me incomodam quando leio trabalhos e que procuro, na medida do possível, evitar no meu trabalho.

  1. Linguagem – A velha questão forma e conteúdo. Ambos são importantes, mas o fato é que se um texto está muito truncado, ele atrapalha a leitura e o entendimento da complexidade da questão. Quanto mais o tempo passa, menos aprecio linguagem que tenta emular grandes autores. Filho, vc nunca será Foucault, Geertz, Kant, etc. Escreva com clareza, demonstre seus objetivos.Isso não quer dizer ser escolar ou excessivamente didático. Seja claro, seja leve. Erudição não significa colocar um monte de palavras obscuras, erudição é fazer boas conexões entre temáticas. Não exagere nos adjetivos publicitários e não escreva a profissão dos autores (isso é coisa de texto jornalístico), tipo Fulano de tal, sociólogo. Cuidado também para que o texto não seja informal demais. Na dúvida, vá no feijão com arroz (3a pessoa, frases curtas, etc), é melhor do que “fazer uma inovação” que vai soar como se você quisesse fazer o post de xoxo mídia engraçadalho. Isso quer dizer que você não pode experimentar? Claro que pode. Eu mesma adoro títulos bem humorados, mas é preciso achar um caminho do meio entre o seu estilo e as regras acadêmicas ou vai parecer forçado. Não force a mão para parecer um filósofo do século XIX e nem o hipster de rede social. Ache o seu caminho. Lembrem também que os avaliadores (pareceristas ou professores da banca) têm muita coisa para ler, quanto mais facilitado estiverem questões como objetivos, hipótese, problema de pesquisa, objeto, etc melhor é.
  2. Uso das fontes de pesquisa – Um cuidado que muitas vezes vejo subestimado é a questão das fontes. Não dá para misturar autores de diferentes correntes e fazer uma salada de fruta. Contextualizar é mais do que necessário. E, por vezes, sair do armário teórico também (no doutorado é um requisito). Existem tais e tais correntes, mas vamos seguir essa ou vamos fazer um combo de X + Y pelos motivos A, B e C. Uma explicação resolve. Outro fator que me incomoda diz respeito aos usos da Wikipedia e de dicionários. Ambos são fontes para olharmos como um pontapé inicial e não como algo a se ter efetivamente em um trabalho, a não ser que utilizemos isso para problematizar como o termo foi se complexificando ou como objeto (no caso da wikipedia) ou que não hajam outras fontes para o termo. Confesso que o dicionário me incomoda mais do que a Wikipedia, acima de tudo em trabalhos de nível de pós-graduação. Em caso de dúvida, use com parcimônia, confira em outras fontes e se jogue na problematização do conceito. Um outro problema é quando as pessoas não sabem distinguir um livro teórico de um livro de divulgação científica ou meramente um manual de marketing.
  3. Falta de acompanhamento histórico de uma questão – Se o trabalho tem como central o conceito Z e a pessoa cita o autor Beltrano que trabalhou essa questão em um livro de 15 anos atrás, é preciso conferir se esse Beltrano ou os outros comentadores já não avançaram o conceito ou a questão. Algumas áreas como a cultura digital avançam rapidamente e ver se o autor publicou coisas novas sobre o tema revisando conceitos ou pressupostos é dever de qualquer pesquisador. Não dá para ficar só citando o livro clássico que todo mundo cita e não ver coisas novas.
  4. Não acompanhar a bibliografia estrangeira e não citar os autores nacionais – Existe uma questão que tenho visto sobretudo em trabalhos da área de comunicação e cultura ou mídias digitais que é bastante problemática: o descompasso dos lançamentos de bibliografia. Não adianta, nessa área é preciso ler em língua estrangeira: inglês é básico. Eu nem deveria ter de escrever isso, mas quando vejo uma dissertação ou uma tese sem referências em língua inglesa nessa área, já sei que haverá problemas. Não é questão de se sentir subalterno ou ser colonizado, ou mesmo de achar que o que é feito fora é melhor, não é nada disso, simplesmente não há condições porque no Brasil os livros levam anos para serem traduzidos, isso quando chegam. O descompasso das traduções gera um abismo. Muita coisa é traduzida em espanhol também. Além disso, é preciso avançar e questionar se determinados conceitos/práticas metodológicas efetivamente funcionam em contextos diferentes. Não é porque funcionou nos EUA ou na França que vai funcionar no contexto daqui.  É preciso questionar. Por outro lado, há excelentes trabalhos produzidos no Brasil e observo que muitos ignoram. Talvez não tenham feito um bom estado da arte ou revisão de literatura, mas hoje com Google Acadêmico, bancos de dados online de teses e dissertações, anais de congressos, etc não há desculpas.
  5. Metodologia como mero rótulo demarcador (só para dizer que tem e que segue) –  Confesso que isso me incomoda muito. Prefiro a honestidade de saber como se deu o processo da pesquisa em si, de uma forma direta e até comentando possíveis falhas do que a pessoa que escreve como se tudo ocorresse da forma que os autores dizem porque né, sabemos que nenhuma tese ou dissertação funciona assim calibradinha. Informantes não dão retorno, transcrições são perdidas, sites saem fora do ar, estudos pilotos saem dos trilhos, bolas de neve derretem. Essa percepção da metodologia não pode se distanciar da construção teórica. Acho que essa é a parte mais difícil.

Bom, acredito que tirando minha resmunguice sejam apenas alguns pontos, passíveis de discussão, como tudo na pesquisa, mas que tento manter em mente .

I’m feeling capable of saying it’s over

Stay where you are
Ever, after
Chasing things that we should run from

Tinha programado tudo para escrever um texto bem bacana falando sobre a finalização do período sabático, contando algumas coisas da pesquisa e do quão enriquecedora foi essa experiência de pouco mais de um semestre morando no meu país favorito (sorry Brazyu, eu te amo, mas nossa relação é de outra ordem). Foi – e ainda está sendo – muito difícil me despedir dessas ilhas que eu amo. No meio disso, tive uma série de questões pessoais pra resolver, uma palestra para dar no Centro de Estudos Góticos da Manchester Metropolitan University e claro, organizar o retorno ao Brasil.

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Enquanto eu ruminava o post na minha cabeça, na véspera da minha viagem para Porto Alegre, recebi um email que me comoveu muito. Não vou citar o nome da pessoa, nem trechos do email pois não seria ético – uma vez que não pedi permissão para isso e nem quero transformar tudo em algo que as pessoas possam chamar de marketing pessoal rs. Não é o objetivo do texto. Bom, nessa mensagem, uma moça com quem tenho muito pouco contato, não é minha amiga próxima e nem mora onde eu moro, me escreveu agradecendo pela ajuda indireta que eu dei a ela em 2015. Ela me contava muito por alto alguns problemas que ela tinha enfrentado e como as minhas palavras haviam sido importantes.

Will we ever get away from this place
It’s an image that’s burned on my chest
For a moment you need me to stay
Cold blooded and drifting away

Fiquei num misto de chocada e emocionada. Primeiro porque achei que o conteúdo seria algo a ver com a Academia. Normalmente as pessoas que não conheço tendem a me agradecer pelas minhas pesquisas, pelos meus artigos, etc. Mas não era nada disso. Ela me agradecia por postagens no blog, Twitter e FB, sobretudo algumas postagens bem pessoais, “gente como a gente”, que a tinham ajudado a superar uma série de problemas por compartilhar uma visão de mundo similar, de alguma forma. Fiquei emocionada porque não imaginei que poderia ajudar alguém dessa forma, sobretudo alguém com questões da ordem do feminino, que apesar de tantas discussões online, a meu ver, tem me parecido – serem abordadas por muitas e muitos de uma forma um tanto mascarada e moralista e que no discurso é inclusiva, mas na prática é perniciosa e tenta apagar as contradições e sofrimentos das condições de quem não se enquadra exatamente na olimpíada de sofrimentos, privilégios e traumas, que tem até uma ordem discursiva pré-pronta pra cada caixinha em vez de ser pensada mais subjetivamente. Mas esse é todo um outro tema que retomo outro dia.

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O fato é que ter ficado esses meses afastada me fez ter algumas outras perspectivas sobre mim. Sempre me achei alguém muito diferente da minha mãe, que era o tipo de pessoa que  ajudava todo mundo, muitas vezes se colocando em último lugar (e claro, como boa virginiana ela fazia aquele drama básico em cima disso rs). Sempre fui auto-centrada, focada no meu mundo, hedonista e algumas vezes erroneamente chamada de “egocêntrica”. No último episódio em que ouvi esse tipo de coisa cheguei a me afetar e isso quase estragou uma parte da minha viagem. Nunca curti/acreditei nessa vibe “altruísmo desprendido” que muita gente vende como branding de si mesmo. Também não curto quem se afunda numa só causa e fica obsessiva e compulsivamente falando nisso feito “seita” querendo converter a todos, mesmo que tenha uma boa finalidade. Conhecem o ditado né? De boas intenções o inferno está cheio.

I’m feeling capable of
Seeing the end

I’m feeling capable of
Saying it’s over

No fim das contas, acho que esse ano estou tendendo a acreditar no que algumas pessoas têm me falado, eu realmente consigo ajudar os outros, da minha maneira, numa espécie de transparência às avessas. Sou reservada, tendo  falar muito pouco de assuntos pessoais (ao menos não de uma forma muito direta) mas já percebi que quando falo, quando exponho, dificuldades e contradições isso, de alguma forma ajuda as pessoas. Eu sempre acho que isso é bem óbvio, que fazemos 50 coisas, 49 dão errado e apenas uma dá certo. No entanto, a maioria tende a enxergar e martelar apenas nesse 1. E ai surgem certas frases carregadas de ressentimentos como”Fulano consegue isso”, “Beltrana tem sorte”, “Tudo que Sicrana faz dá certo”. Não, não é assim. É sofrido para todo mundo. Tem sempre uma centena de obstáculos e depende apenas da gente decidir como vamos encarar isso: se vamos dançar com a parede e tirar sarro da gente mesmo, aprendendo a observar quando encerrar e quando continuar determinadas coisas; ou se vamos nos entregar ao meme da diferentona “só eu que não consigo”, “só eu que não supero”, “só comigo que as coisas não dão certo”. Não estou dizendo aqui que tudo se resolve com “força de vontade”, pelo contrário, existem doenças que nos impedem de produzir e de ser, como a depressão ou síndrome de pânico por exemplo. Eu mesma tenho meus transtornos e cuido deles com terapia, mas também com amigos e com minhas reflexões internas. Tem dias melhores, tem dias piores.

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Creio que finalmente posso encerrar mais uma etapa. Não acredito em mais ninguém que queira me ofender e minar minha auto-estima utilizando a palavra “egoísmo” ou “egocentrismo” em função do jeito como levo minha vida e de algumas escolhas que fiz. Sim, eu tenho algo da minha mãe e sou capaz de ajudar aos outros, do meu jeito meio estranho. E agradeço imensamente às pessoas que me ajudaram a perceber que esse estereótipo não me cabia, algumas amigas (vocês sabem quem são) e a essa moça que me escreveu de forma tão delicada. Você também me ajudou. Obrigada por me fazer ver o fim de uma auto-imagem que não correspondia à realidade. Já sou capaz de ver novos começos nessa correnteza.

np: Chvrches – Tether

2015: equilíbrio e dionísio

2015 foi um ano bizarro e incrível ao mesmo tempo. Muitos acontecimentos ruins para o mundo  em geral e para pessoas que conheço. Em termos pessoais não tenho do que reclamar, apenas agradecer. Foi um ano em que colhi resultados e materializei projetos que vinham de um certo tempo. Projetos que me fazem feliz e que ocupam minha mente. Ao mesmo tempo também foi um ano em que improvisei e apareceram coisas inesperadamente boas. Particularmente até algumas situações desagradáveis serviram para me ajudar, seja me fazendo ser mais paciente e compreendendo melhor alguns mecanismos burocráticos e subjetivos – não, não podemos controlar tudo – , seja com pessoas que revelaram sintonias muito distintas das minhas e que saem dessa temporada. Ficou a lição de perceber alguns sinais para que menos desse tipo de gente se aproxime nos próximos episódios. Dada a profundidade de alguns desses acontecimentos (alguns com desdobramentos que foram quase fatais , mas que foram revertidos a muito custo e sacrifício), manterei meu radar cada vez mais atento.

Creio que o principal desafio de 2015 foi encontrar equilíbrio. A falta de bom senso e equilíbrio em geral – eu inclusa em algumas situações específicas em que me deixei levar por esse potencial – transformou muitas ações bacanas e importantes em festivais de acusações e ressentimentos travestidos de pseudo-política. Acho que anda faltando divã e um certo recolhimento/reflexão para se pensar  antes de sair atirando pedras sob “um manto da defesa de uma causa ou luta justa”. É muito “fiel recém convertido” querendo apontar o dedo de forma moralista – no sentido mais estrito da palavra – até mesmo para quem está do mesmo lado, desde que certas críticas às mobilizações sejam varridas para baixo do tapete. Resta aquela pergunta clássica “Quem vigia os vigilantes?”.

Novamente retomo a questão do equilíbrio (ou caminho do meio para os que são afeitos às religiosidades orientais) para pensar que o que mais desejo para 2016 é que o embate subjetividades X coletividades diminua e se consiga dialogar sem demonizações. É utópico, eu sei, mas tais discursividades ou narrativas me fazem sentir cada vez menos vontade de pertencer a grupos, a coletividades, etc por mais empatia que eu tenha para com as pessoas e os problemas envolvidos. Como no poema de Carlos Drummond de Andrade, sou por demais “gauche” na vida para não perceber certas contradições – que me irritam – e portanto, ficar à margem e afastada de certos conflitos é o que farei mais nesse ano de 2016, processo que só consegui dar andamento ao final desse ano e que melhorou consideravelmente minha vida. Lidar com o volume de dados e informações dessa era não é nada fácil e desconectar do que nos faz mal é também um dever.

Nessa temporada, os roteiristas em geral nos deram muito o que pensar em reviravoltas imprevisíveis. Teve gente nova que chegou chegando, teve o retorno de antigos personagens. Tiveram conhecidos que ficaram mais próximos e subiram nos degraus de amizade. Teve amigos das antigas que sofreram e a quem emprestei de bom grado meu ombro, mesmo que virtual. Teve muito vinho, cerveja, whisky e coca-cola. E, claro, muitos shows, livros, passeios. Teve casamento sem pompa e circunstância mas com muito amor, nerdice e trevas. Teve mudança pra UK por conta do Estágio Sênior.

Foi difícil dar conta de todas essas coisas. Em alguns momentos queria jogar tudo para o alto e sumir. São muitas cargas para equacionar, de vários lados. As pessoas não vêm vazias, trazem consigo suas bagagens e experiências que nos aquecem o coração mas também nos fazem sofrer conjuntamente. Eu sabia que não seria fácil, sabia que teriam muitas questões envolvidas, mas me dou o direito à felicidade. Não aquela felicidade fake dos sorrisos de campanhas publicitárias, mas uma felicidade que pode estar em segurar um dos seus ídolos durante um mosh num show (Chris Corner, vivi para esse momento) ou em ver a realização de uma sobrinha em virar dona do seu negócio. Uma felicidade que só  é porque está envolta em momentos triviais e outros de tristeza. Certos rituais nos ajudam a pausar e a celebrar e esse ano foi pródigo em termos de demarcações de espaço, tempo, sociabilidade.

Ainda estou em dúvida se 2015 foi um ano de encerramento de um ciclo ou se uma nova estrada começou a ser trilhada nos meus 40 anos, creio que um pouco de cada. De qualquer forma quando o ano findar vou lembrar dele com carinho e para sempre como um ano em verdadeiro devir. Um ano dionisíaco pra caramba! Parece contraditório, mas eu valorizo as contradições, sobretudo quando são assumidas.