Simpósio Mapeando Cenas da Música Pop: Cidades, Mediações, Arquivos

simposio

Nos dias 25 e 26 de agosto (quinta e sexta) vai rolar na Escola da Indústria Criativa da  Unisinos campus São Leopoldo o simpósio Mapeando Cenas da Música Pop: Cidades, Mediações, Arquivos. O evento é parte do projeto POA MUSIC SCENES, desenvolvido pela Unisinos em associação com a Universidade de Salford, na Inglaterra e organizado pelos grupos de pesquisa CULTPOP – Cultura Pop, Comunicação e Tecnologias e TCAV – TecnoCultura e Audiovisual.

Durante os dois dias, serão discutidos diversos temas que envolvem a relação entre música pop, sociedade, memória e experiência. A programação começa na quinta às 13h30 com apresentação do documentário sobre mulheres bateristas no Rio Grande do Sul, segue às 14h, com debates sobre as cenas musicais contemporâneas do Rio Grande do Sul e circulação musical em redes sociais. Às 18h30, os coordenadores do POA MUSIC SCENES discutirão os resultados da pesquisa. Às 19h30, haverá palestra da professora Simone Pereira de Sá, da Universidade Federal Fluminense, sobre as cenas do funk carioca e os usos das tecnologias pela música pop periférica, fechando o primeiro dia.

Na sexta, às 10h, a fala inicial será do professor Michael Goddard, da Universidade de Salford. Ao longo da tarde, será discutida a relação entre cenas musicais e experiência urbana, com trabalhos que enfocam Porto Alegre e cidades como Rio, Goiânia e Berlim além de discussões sobre memória e arquivo. Às 16h30, uma mesa especial que reunirá produtores locais que discutirão as muitas facetas das cenas de rock e de música eletrônica da capital gaúcha. A entrada no evento é gratuita.

Confira a programação do simpósio: http://tinyurl.com/progpoams

FESTA
Na sexta à noite após o evento, é hora de tomar o caminho para Porto Alegre: às 21h, a festa POA/MCR/POA – Panamá (after) Papers, que acontecerá no Panamá Estúdio Pub, na Cidade Baixa, marca o fim do evento, com shows das bandas The Gentrificators e Moldragon, além de discotecagem que reunirá o melhor já produzido em POA e Manchester pelos integrantes da pesquisa. A entrada é franca. Evento no Facebook:https://www.facebook.com/events/1634221333555148/

LABTICS
O simpósio marcará também a inauguração do Laboratório de Tecnologias da Informação e da Comunicação do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Unisinos, o LABTICS – um moderno espaço com capacidade para sessenta pessoas que, entre outras características, possibilita transmissões via streaming de alta qualidade por meio de três câmeras de alta resolução operadas por controle remoto.
Mais informações pelo site http://www.poamusicscenes.com.br/ ou pelo email portoalegrems@gmail.com

A ressurreição das práticas irritantes de pesquisa

Uns anos atrás publiquei um post sobre práticas acadêmicas irritantes. Esse post volta e meia traz pessoas ao blog, sobretudo depois que a Dora Garrido citou ele no seu blog há bem pouco tempo. O fato é que o assunto não se esgotou e aproveitando o espírito de ressurreição da Páscoa resolvi comentar mais algumas coisas que me incomodam quando leio trabalhos e que procuro, na medida do possível, evitar no meu trabalho.

  1. Linguagem – A velha questão forma e conteúdo. Ambos são importantes, mas o fato é que se um texto está muito truncado, ele atrapalha a leitura e o entendimento da complexidade da questão. Quanto mais o tempo passa, menos aprecio linguagem que tenta emular grandes autores. Filho, vc nunca será Foucault, Geertz, Kant, etc. Escreva com clareza, demonstre seus objetivos.Isso não quer dizer ser escolar ou excessivamente didático. Seja claro, seja leve. Erudição não significa colocar um monte de palavras obscuras, erudição é fazer boas conexões entre temáticas. Não exagere nos adjetivos publicitários e não escreva a profissão dos autores (isso é coisa de texto jornalístico), tipo Fulano de tal, sociólogo. Cuidado também para que o texto não seja informal demais. Na dúvida, vá no feijão com arroz (3a pessoa, frases curtas, etc), é melhor do que “fazer uma inovação” que vai soar como se você quisesse fazer o post de xoxo mídia engraçadalho. Isso quer dizer que você não pode experimentar? Claro que pode. Eu mesma adoro títulos bem humorados, mas é preciso achar um caminho do meio entre o seu estilo e as regras acadêmicas ou vai parecer forçado. Não force a mão para parecer um filósofo do século XIX e nem o hipster de rede social. Ache o seu caminho. Lembrem também que os avaliadores (pareceristas ou professores da banca) têm muita coisa para ler, quanto mais facilitado estiverem questões como objetivos, hipótese, problema de pesquisa, objeto, etc melhor é.
  2. Uso das fontes de pesquisa – Um cuidado que muitas vezes vejo subestimado é a questão das fontes. Não dá para misturar autores de diferentes correntes e fazer uma salada de fruta. Contextualizar é mais do que necessário. E, por vezes, sair do armário teórico também (no doutorado é um requisito). Existem tais e tais correntes, mas vamos seguir essa ou vamos fazer um combo de X + Y pelos motivos A, B e C. Uma explicação resolve. Outro fator que me incomoda diz respeito aos usos da Wikipedia e de dicionários. Ambos são fontes para olharmos como um pontapé inicial e não como algo a se ter efetivamente em um trabalho, a não ser que utilizemos isso para problematizar como o termo foi se complexificando ou como objeto (no caso da wikipedia) ou que não hajam outras fontes para o termo. Confesso que o dicionário me incomoda mais do que a Wikipedia, acima de tudo em trabalhos de nível de pós-graduação. Em caso de dúvida, use com parcimônia, confira em outras fontes e se jogue na problematização do conceito. Um outro problema é quando as pessoas não sabem distinguir um livro teórico de um livro de divulgação científica ou meramente um manual de marketing.
  3. Falta de acompanhamento histórico de uma questão – Se o trabalho tem como central o conceito Z e a pessoa cita o autor Beltrano que trabalhou essa questão em um livro de 15 anos atrás, é preciso conferir se esse Beltrano ou os outros comentadores já não avançaram o conceito ou a questão. Algumas áreas como a cultura digital avançam rapidamente e ver se o autor publicou coisas novas sobre o tema revisando conceitos ou pressupostos é dever de qualquer pesquisador. Não dá para ficar só citando o livro clássico que todo mundo cita e não ver coisas novas.
  4. Não acompanhar a bibliografia estrangeira e não citar os autores nacionais – Existe uma questão que tenho visto sobretudo em trabalhos da área de comunicação e cultura ou mídias digitais que é bastante problemática: o descompasso dos lançamentos de bibliografia. Não adianta, nessa área é preciso ler em língua estrangeira: inglês é básico. Eu nem deveria ter de escrever isso, mas quando vejo uma dissertação ou uma tese sem referências em língua inglesa nessa área, já sei que haverá problemas. Não é questão de se sentir subalterno ou ser colonizado, ou mesmo de achar que o que é feito fora é melhor, não é nada disso, simplesmente não há condições porque no Brasil os livros levam anos para serem traduzidos, isso quando chegam. O descompasso das traduções gera um abismo. Muita coisa é traduzida em espanhol também. Além disso, é preciso avançar e questionar se determinados conceitos/práticas metodológicas efetivamente funcionam em contextos diferentes. Não é porque funcionou nos EUA ou na França que vai funcionar no contexto daqui.  É preciso questionar. Por outro lado, há excelentes trabalhos produzidos no Brasil e observo que muitos ignoram. Talvez não tenham feito um bom estado da arte ou revisão de literatura, mas hoje com Google Acadêmico, bancos de dados online de teses e dissertações, anais de congressos, etc não há desculpas.
  5. Metodologia como mero rótulo demarcador (só para dizer que tem e que segue) –  Confesso que isso me incomoda muito. Prefiro a honestidade de saber como se deu o processo da pesquisa em si, de uma forma direta e até comentando possíveis falhas do que a pessoa que escreve como se tudo ocorresse da forma que os autores dizem porque né, sabemos que nenhuma tese ou dissertação funciona assim calibradinha. Informantes não dão retorno, transcrições são perdidas, sites saem fora do ar, estudos pilotos saem dos trilhos, bolas de neve derretem. Essa percepção da metodologia não pode se distanciar da construção teórica. Acho que essa é a parte mais difícil.

Bom, acredito que tirando minha resmunguice sejam apenas alguns pontos, passíveis de discussão, como tudo na pesquisa, mas que tento manter em mente .

50 dias

“Life moves pretty fast. If you don´t stop and look around once in a while you could miss it”. Essa é uma das citações mais conhecidas e paradigmáticas de Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller´s day off). Acho que de tantos filmes da minha geração, essa frase faz mais sentido a cada ano que passa, a cada aniversário que comemoro, a cada data em que observo essa passagem irreversível do tempo. Faz pouco mais de 50 dias que iniciei o período sabbathical bloody sabbathical aqui no Reino Unido e ainda não havia conseguido respirar e dar essa parada pra olhar ao redor.

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Morar em outro país, mesmo em um período de tempo não tão grande é sempre uma experiência formativa. No meu caso, sempre tive um enorme apreço pelas ilhas, sobretudo pela literatura e pela música alternativa que consumi em exaustão durante minha adolescência. Pois é, quem diria que todas aquelas horas na biblioteca lendo clássicos tipo Dickens, Austen, Byron, Wilde, irmãs Brontë, entre outros, enquanto meus colegas iam pras emocionantes e maravilhosas praias do Rio Grande do Sul em suas tchurminhas [insira aqui toda ironia possível]  me ajudariam a compreender ao menos em parte o ethos identitário brit e fizesse com que desde aquela época eu já tivesse uma certa afeição por tudo que diz respeito ao país. Depois disso, já estive aqui diversas vezes por conta de projetos de pesquisa, congressos e passeios, então sinto uma certa familiaridade mesmo que à distância.

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Foto do Tarsis Salvatore

Assim, sou uma estrangeira mas com vislumbres insiders. E a ideia de pesquisar aqui não é e nunca foi de subserviência, deslumbramento ou sobre “ser colonizada”, hashtag com a qual eu gosto de tirar sarro com quem não entende meu apreço por certos britanismos. Estou aqui aberta ao diálogo, lendo e observando coisas novas aqui produzidas, no entanto também trazendo articulações do que fazemos no Brasil, que em muitos casos não deixa nada a dever. Nos falta grana e possibilidades devido a diferenças econômicas, políticas etc, mas o diálogo é de igual para igual. Essa postura foi a mesma que adotei durante meu estágio de doutorado nos EUA e que adoto em qualquer congresso internacional.

O mais engraçado é que eu sofri mais bullying – não que hoje em dia ligue a mínima – em relação a temas ou objetos de pesquisa no Brasil – sobretudo durante meu doutorado por inumeros colegas – do que jamais sofri aqui. As humanas e sociais no Brasil em geral – e a comunicação também tem uma excessiva – ao meu ver que sou bem biased – subserviência a tudo que é teoria abstrata e parece distante da realidade. Parece que para passar no teste de “ser de humanas e fazer miçangas” é preciso ainda passar um “ar de olhem como estou distante do mundo e dos objetos e sou um autor complexo”,  independente do estado da arte da pesquisa, independente do que outras pessoas sejam latinos, sejam de quaisquer origem já escreveram. Ai você é considerado um super mega power über teórico, senão você é só um “pesquisador dos objetos”. Bem vindos ao meu clube, o clube dos mundanos, o clube dos que vivem os temas, o clube dos “não sou um intelectual, faço minhas pesquisas sobre os fenômenos que me mobilizam e me afetam”! Eu não sigo “linha teórica”, eu não sigo “autor”, eu me aproprio, eu remixo, eu dialogo, eu extraio tour de forces dos conceitos e os aplico a partir de dados e das minhas inferências e interpretações. Enfim, eu não divido as pesquisas por países ou por teoria X empiria, eu leio o que é pertinente aos meus temas e questões. Mas estou digredindo e esse é um outro assunto. É um problema da academia que muitas vezes se acha tão distante da moda, do mercado e do marketing, mas acaba sucumbindo aquilo mesmo que ela adora criticar,  e elegendo certos “best sellers”. Diga-se de passagem esse não é só um problema brasileiro, é um problema de todos os lugares, mas as vezes é mais opressivo no Brasil. Gente que lê apenas o autor da moda, gente que não cita trabalhos nacionais, gente que não dialoga com o que já foi escrito antes… enfim mas voltemos a vida aqui.

Por essas e outras eu tinha alguns planos em mente quando comecei a planejar esse sabático, ou eu retornaria aos EUA – mas iria para outra cidade –  ou viria para UK, mas como meus trabalhos nos últimos anos, sobretudo o que está relacionado à subculturas, fãs e metodologias tem um diálogo forte com as pesquisas daqui, optei por vir para a Inglaterra. O mais engraçado disso é que depois de tantas visitas ao norte, acabei morando no sul. Para quem não conhece, essas diferenças são muito mais do que meramente geográficas, são diferenças conceituais, de estilo de vida e que vem demarcadas naquilo que se faz mais vivo: o sotaque. Como dica, vale assistir a minissérie da BBC North & South que mostra essas diferenças na era vitoriana. São 4 episódios baseados no livro de mesmo nome da autora Elizabeth Gaskell.

A primeira vez em que estive no norte, mais especificamente em Manchester, em 2012, passei 15 minutos ouvindo um escocês e um mancunian falando em um pub quase bêbados sem entender praticamente nada. Era como se tivesse caído em outro planeta. Eu que me considerava boa em listening flopei miseravelmente rs. Com o tempo e as vindas fui me acostumando ao sotaque duro, aos tons mais altos ao R (érre) carregado que contém a história dessa gente de fibra, gente que trabalhou e lutou durante a revolução industrial, gente que criou o pós-punk e tudo mais. O sotaque do norte me lembra dois sotaques brasileiros: o do interior do RS, bem da fronteira; e do interior de SP com aquela abertura nos sons. Outra feita, em 2013, quando já estava acostumada ao “mancunian accent” passei um tempo debatendo com um vendedor de Liverpool, tentando entender e fruir aquela sonoridade que me soava cantada com os Beatles, cantada como Echo & The Bunnymen. Ou seria fruto do imaginário coletivo e de tanta música que ouvi na vida? Não sei dizer, mas foi divertido ouvir opiniões sobre Neymar e sobre o Brasil, uma percepção em que ele dizia ser “funky”, sim, somos funky porque precisamos sobreviver em uma instabilidade e isso nos dá um tipo de criatividade por um lado e por outro nos atrapalha.

Na minha recente viagem a Leeds e Bradford em agosto continuei observando os sotaques do norte, esse também diferentes do sotaque de Liverpool e de Manchester. Em Leeds , minha breve percepção me pareceu que o sotaque é um nortenho mais arrastado, mais lento e metálico como de Andrew Eldritch? Não sei, é dificil nao ser biased. E Bradford estava cheia de sotaques nativos e não nativos porque o povo que convivi no festival era cada um de canto, seja de UK ou de fora. No geral, fomos muito bem tratados no festival e eu realmente me senti parte de uma “comunidade de sentimentos” e afetos como fala o Benedict Anderson.

E ai me encontro aqui no sul, e os sotaques em geral são mais amenos, por vezes mais rápidos. Em Guildford e região tende a um inglês mais “padronizado”, ao menos no que tange os colegas de universidade – se bem que muitos deles não são dali. Londres não conta pq são tantos e inúmeros (ainda mais considerando os non native speakers como eu mesma por exemplo) que acho que nem uma vida toda daria conta desse mapeamento. Isso que nem estou fazendo aqui as demarcações sobre classe, que é todo um outro ponto, mas enfim, a língua e os sotaques são nossas mediações primeiras e principais com a cultura, isso não é novidade. Mas é bom poder perceber isso em outro país, observando e vivendo o cotidiano das inflexões, das dificuldades de comunicação quando por exemplo ontem no supermercado eu levei uns 5 segundos pra compreender uma piada/elogio do caixa indiano sobre a minha idade para estar comprando vinho.

Além desse fator, gostaria de destacar meu bom apreço à cultura dos parques, aos shows alternativos por um preço pagável (ainda tenho que fazer um post sobre o Electro London Festival) e das bibliotecas, extremamente fáceis de serem utilizadas e voltadas à comunidade. No meu bairro por exemplo, há todo um foco em autores e autoras negras e árabes. Na próximo mês vai ter toda uma programação sobre a questão dos escravos e pretendo assistir a um painel sobre negros na era vitoriana. Sim, quem me conhece sabe do meu apreço por essa era. Sem contar os cheiros de restaurantes mexicanos, árabes, portugueses, chineses, tailandeses, indianos, etc etc. Afinal, somos todos migrantes, somos todos de fora e estamos todos aqui. É tão fácil de compreender.

Sobre a pesquisa em si, estou me dando ao luxo de ler muita coisa mesmo e me deixar por ora um pouco sem um corpus definido e recortado. Exatamente o oposto do que venho fazendo nos últimos anos. Uma espécie de retorno  a um flanar pelos textos e livros. Obviamente que ja estou recolhendo alguns materiais empíricos, mas não quero me adentrar nessas questões agora.

Em Outubro tenho uma nova inserção de campo no Halloween do Whitby Gothic Weekend, antes disso tem um evento sobre Lovecraft em Manchester e em Novembro tenho duas palestras para dar uma na University of Surrey no seminário dos mestrandos e dos pesquisadores e uma na University of Salford em Manchester. Dezembro tem o grande evento sobre Ada Lovelace totalmente interdisciplinar em Oxford, que vou apenas assistir porque o prazo para envio ja havia encerrado, mas ha toda uma track sobre steampunk que creio será bem interessante.

E last but not least, hoje o Depto de Sociologia de Surrey ao qual estou vinculada como pesquisadora visitante recebeu a notícia de que a universidade como um todo está em primeiro no ranking do Guardian das 10 melhores universidades e o depto de sociologia aparece em terceiro lugar, ficando atrás de Cambridge e Bath. Como escrevi hoje no Facebook, sabemos que esses rankings são sempre complicados e discutíveis, mas são indicadores de percepção, no mínimo. Very proud! I couldn´t have made a better choice. E a vida segue em seu ritmo acelerado, e por hoje consegui pausar um pouquinho pra olhar o entorno.

Uma semana de observações no Reino Unido

Dentro de algumas horas completo minha primeira semana de sabático aqui no Reino Unido. Tenho muitas observações, mas como ainda estamos no processo de transição de uma cultura à outra (bem como adaptação, e mudança de endereço etc) vou focar apenas nos pontos mais importantes desses primeiros dias:

  1. Como todos já sabem a libra está lá nas alturas (no dia que saí do Brasil 1 libra valia quase R$ 5,8)  e os preços de acomodação, comidas, etc estão caríssimos. Mesmo assim, em termos de custo-benefício muitas coisas são bem melhores de serem compradas aqui (livros, roupas pra durar, tênis, etc).
  2. Tenho várias observações a respeito das diferenças entre norte e sul do país. Por conta de congressos e projetos de pesquisa, nos últimos 3 anos tenho visitado bem mais o norte e dessa vez estou morando no sul com seu “posh style” e sotaque queens. Mais adiante, faço um post mais detalhado acerca dessas diferenças bem notórias que incluem além de questões estéticas e identitárias, questões de classe social;
  3. A universidade está em férias no geral, embora alguns departamentos de pós-graduação estejam trabalhando (pra variar, pesquisador trabalha muito em qualquer lugar do mundo). Minhas atividades começam na próxima semana. Foi bem difícil achar um lugar pra ficar que aceitasse short term (6 meses) e casal, já que a cidade é bem universitária, mas no fim das contas nos 45s do segundo tempo descolamos um lugar – embora só vamos nos mudar pra ele no dia 25/8.
  4. Mas, como faz parte do meu plano de estudos duas experiências de campo já estão em andamento. A primeira delas foi no Meltdown Festival com o show da banda de drone-noise-blackmetal deSeattle Sunn 0))) e abertura dos russos do Phurpa. Uma experiência sônica incrível sobre a qual comentarei em um post mais adiante. Já a segunda vai rolar na próxima semana: o Infest Festival, festival de industrial que vai rolar na Universidade de Bradford, perto de Leeds (no norte) de 28 a 30 de agosto.

Por enquanto era isso, assim que puder, retorno com o post sobre o show do Sunn 0)))

It’s time to set, the wheels in motion. I think it’s time to depart

Standing at a railwaystation
Embraced by a night so cold
I’ve been travelling almost every nation
But i still haven’t found those stories you told
All the knowledge i’ve been seeking
All the misery i have found
The commandement of reality
Made me stumble to the ground

A partir de hoje me aventuro em mais uma empreitada, saindo em um semestre sabático de muito estudo como pesquisadora-visitante na University of Surrey, em Guildford, ao sul de Londres na Inglaterra. Nesse novo projeto de Estágio Sênior, que conta com o apoio da CAPES, vou observar questões relacionadas à ageism/”idadismo”, relações de gênero e consumo em subculturas e fandoms, sobretudo em duas vertetes: aqueles relacionados à cultura pop/nerd e às subculturas relacionadas ao gótico, pós-punk, etc.

Estarei trabalhando em colaboração com o pesquisador Paul Hodkinson, uma grande referência em pesquisa sobre subculturas juvenis online e offline, capital subcultural,etc. Quem pesquisar ai no blog vai ver que meus diálogos com esse tema – e com o Hodkinson – já vem de bastante tempo (desde os tempos da minha tese de doutorado sobre cyberpunk), mas só agora consegui materializar as questões em um projeto devidamente estruturado. Espero poder, à medida do possível, ir compartilhando os primeiros resultados dessa nova pesquisa por aqui.

But don’t forget, it takes a lot to change
It’s hard to rearrange
The modern process

I know it’s hard
Leaving all your memories behind
But you’ve got to try
To change your mind

Além dos estudos, é claro, estarei bastante imersa na cultura e nas cenas musicais britânicas e pretendo postar algumas de minhas observações e inferências para quem quiser acompanhar aqui nesse espaço que mantenho há 10 anos.

It’s time to set, the wheels in motion
I think it’s time to depart
It’s time to change my worn-out notions
To ease the pain inside my heart
All the knowledge i’ve been seeking
All the misery i have found
The commandement of reality
Made me stumble to the ground

E, além das questões de estudo/trabalho e culturais, terei muito tempo para repensar em questões existenciais e colocar meu foco bem pra fora dos “mundinhos”. Minha ideia durante esse período é diminuir bastante o tempo gasto com mídias sociais e focar na reflexão, já que meio ano vai passar voando, em meio a algumas conferências e visitas a outras instituições que preciso fazer quando estiver por lá. Então não estranhem o meu sumiço e quem quiser sabe onde me encontrar (email, skype, etc). Nada melhor que um #synthpop dos suecos do Elegant Machinery para fazer a trilha desse dia de partida e de recomeço. Hope to see ya soon. Best regards.

But don’t forget, it takes a lot to change
It’s hard to rearrange
The modern process

I know it’s hard
Leaving all your memories behind
But you’ve got to try
To change your mind

Mulheres e a pesquisa em cultura digital

Nesse dia da mulher eu não gostaria de reprisar coisas que são óbvias mas que mesmo assim algumas pessoas custam a entender a respeito de clichês, estereótipos, etc. No entanto, me bateu vontade de escrever. Um dia talvez eu exorcize na escrita algumas das coisas que já aconteceram comigo, afinal, infelizmente, acontecem em maior ou menor medida com todas nós desde criança. Mas esse momento não chegou e por hora deixo isso para a psicanálise. Já basta a dureza da vida acadêmica, rs e eis que me deu vontade de falar um pouco sobre essas mulheres, que assim como eu enfrentam o cotidiano da pesquisa nessa área específica.

Bom, a história da ciência, da filosofia, etc como um todo sempre relegou o papel das mulheres ao segundo plano. É relativamente recente o resgate da importância delas. Lembro que fiquei chocada de ver que no famoso Pantheon francês apenas Marie Curie está lá, mesmo assim depois de muita briga e após muito muito tempo.Além disso, o que vejo é que apesar dos avanços muitas coisas ainda são mais complicadas para as mulheres do que para os homens.

Até pouco tempo atrás as bolsistas sequer tinham direito à licença-maternidade caso engravidassem ao longo do curso, apenas para citar um exemplo. Sem contar os muitos “machismos” por vezes sutis que vivenciamos como por exemplo colegas homens que não fazem nenhuma tarefa em casa e, evidentemente, ganham mais tempo para produzir.  É muito comum ver, ainda hoje, uma predominância de homens como keynote speakers de grandes eventos. Sem contar alguns alunos que muitas vezes têm dificuldades maiores em aceitar uma professora- se for nova então pior –  numa sala de pós-graduação e dizem amém para qualquer coisa dita por um professor, ainda mais se ele for mais velho. Têm ainda as infames piadinhas que eu já escutei, inclusive de mulheres; como uma ex-colega que certa feita me disse que estudar cyberpunk no doutorado NÃO era uma coisa muito feminina porque afinal, ficção-científica é coisa de guri nerd; ou quando era casada e falavam sobre passar tempo demais viajando para congressos e conferências “longe do marido”, ou “como ele deixava” e uma outra que escutei certa feita numa sala dos professores que falava que a maioria das mulheres que tinham grande êxito na pesquisa era porque não tinham filhos e eram mal amadas e dai tinham tempo para publicar papers. Pasmem, eu ouvi isso uns anos atrás e da boca de mulheres!

Mas estou saindo do meu tema que era  falar um pouco sobre o trabalho de algumas  mulheres que pesquisam cibercultura/ cultura digital/ mídias digitais/ TICS, etc (evidentemente existem N discussões sobre as diferentes terminologias, vou poupar a todas e todos disso porque aqui não é o lugar rs).  A área de comunicação em geral sempre teve uma maioria numérica de mulheres, o que NÃO quer dizer que elas sejam as autoras mais citadas e/ou reconhecidas  da área.Contudo, como eu disse, isso está em franca mudança.

De qualquer forma o trabalho seminal de algumas pesquisadoras dessa área me inspirou desde o princípio, sobretudo no que tange à pesquisa empírica ou aspectos metodológicos. Trabalhos pioneiros nos anos 90 como os de Janet Murray, Nancy Baym, Sherry Turkle, Susan Herring, Cristine Hine, Katherine N. Hayles, Donna Haraway, entre tantas outras, trouxeram aspectos interessantes para todo o campo. Enquanto fazia minha tese de doutorado inclusive me deparei com autoras que tratavam do ciberfeminismo e analisavam as questões de gênero relacionadas ao corpo na Ficção-Científica. Aquele foi um momento importante na minha vida teórica que me fez compreender uma série de articulações. O hoje clássico Manifesto Cyborg escrito por Donna Haraway foi um marco justamente por propôr esse embaralhamento dos gêneros através da figura dx cyborg. Não é à toa que no anime Ghost in the Shell II tem até uma personagem em homenagem a ela, a doutora que cuida dos ciborgues e se chama Haraway. Sem contar a influência que a poeta e ensaísta feminista  Kathy Acker, falecida em 1997, teve sobre as teorias produzidas na época. O trabalho dela centrava-se muito nas questões corpo, gênero e máquinas, como no aforismo a seguir: “Literature is that which denounces and slashes apart the repressing machine at the level of the signified”. É uma pena que a maioria desses trabalhos não tenha sido traduzido para o português. Aliás até hoje a maior parte das teorias e pesquisas sobre cultura digital NÃO está traduzida para o português e isso não é prerrogativa das mulheres (é que a maior parte das teorias do campo não está traduzida mesmo), mas é uma barreira para que várias alunas (os) continuem a  desconhecer a própria história do campo. Para não ficar apenas nos anos 90, dana boyd (ela pede que escrevam o nome todo em minúsculas), Gabriela Coleman, Elisenda Ardevol, entre muitas outras têm escrito sobre temas como sites de redes sociais, hackers/ativismo digital e metodologias.

E para não dizer que falei apenas do contexto anglo-saxão – evidentemente que existem  autoras de outras nacionalidades mas selecionei aqui aquelas teorias com as quais tenho mais contato devido a minha formação – temos uma série de pesquisadoras brasileiras cujo trabalho obtêm reconhecimento nacional e internacional e que não deixam NADA a dever para as estrangeiras. Não me arrisco a fazer uma lista para não criar discórdia rs , mas não podia deixar de nominar os trabalhos das amigas e colegas Simone Pereira de Sá, Raquel Recuero, Suely Fragoso, Fatima Regis, Sandra Montardo, Gisele Beiguelman, Beth Saad e as meninas do jornalismo digital Claudia Quadros Luciana Mielniczuk, Suzana Barbosa entre tantas com as quais já tive a oportunidade de trabalhar e aprender (por favor, não me matem, é muita gente). Raquel e Sandra foram minhas grandes companheiras de mestrado e doutorado, quando tais temas ainda eram novos no Brasil e muita gente torcia o nariz para os nossos objetos de pesquisa aqui no sul do país.

É legal destacar que Suely, salvo se a memória me engana foi a primeira coordenadora do GT Cibercultura da Compós (quando ele ainda se chamava TICS – Tecnologias da Informação e Comunicação)  e que atualmente ele é coordenado pela Fernanda Bruno. Nas questões ligadas à gênero e tecnologias sempre tivemos uma série de autoras nas ciências sociais (mais recentemente, Larissa Pelucio é uma referêncial, mas há muitas outras), embora  especificamente na comunicação ainda sejam poucas. Mais recentemente o trabalho da Graciela Natahnson vem tratando do assunto. Tenho o prazer de ter orientado  duas dissertações de mestrado sobre gênero e tecnologias no ano passado e em 2014, estou orientando uma dissertação sobre mulheres gamers.

Meu objetivo nesse post era apenas citar o trabalho dessas pesquisadoras como uma espécie de tema motivador a outras mulheres. Não queria discorrer sobre a temática mulheres e tecnologias, embora essa discussão seja muito interessante,   é por demais ampla e transdisciplinar para um só post. A própria história da computação lentamente vai dando os devidos créditos a tantas pioneiras (Ada Lovelace, Hedy Lamarr, etc), mas tudo isso ainda precisa ser muito mais debatido e pesquisado. Quis aqui apenas falar do trabalho de autoras que me inspiraram e me inspiram e colegas com as quais eu tenho orgulho de ter trabalhado/trabalhar e que fazem avançar a pesquisa sobre os meios digitais.

Chamada para o VI Simpósio Nacional da ABCiber – Entretenimento Digital

Está aberta a chamada da  para o VI Simpósio Nacional da ABCiber que acontecerá entre os dias 06 e 08 de Novembro de 2012 na Universidade FEEVALE em Novo Hamburgo, RS. Nesse ano, a temática central será o Entretenimento Digital e a conferência de abertura será proferida pela pesquisadora norte-americana Nancy Baym,  Diretora de Pesquisa da Microsoft Research New England e uma das maiores referências em pesquisas sobre fãs. O deadline de envio das propostas é dia 30 de julho.

Eixos temáticos

Os trabalhos submetidos ao VI Simpósio da ABCiber devem estar inseridos em um dos 8 (oito) eixos temáticos seguintes:

  1. Educação, Processos de Aprendizagem e Cognição
  2. Jornalismo, Mídia livre e Arquiteturas da Informação
  3. Comunicação Corporativa e Práticas de Produção e Consumo Online
  4. Política, Inclusão Digital e Ciberativismo
  5. Entretenimento Digital
  6. Processos e Estéticas em Arte Digital
  7. Redes sociais na Internet e Sociabilidade online
  8. Imaginário Tecnológico e Subjetividades

Modalidades de Participação

São 4 (quatro) os tipos de propostas que os autores podem submeter ao VI Simpósio Nacional ABCiber – 2012:

Artigos científicos: Textos acadêmicos concentrados em torno dos eixos temáticos. O artigo deverá ter o mínimo de 10 e o máximo de 15 páginas (digitado em Times New Roman, corpo 12, espaço entre linhas 1,5). Use o modelo padrão de artigo científico. A submissão do artigo deve ser feita juntamente com a inscrição. (Ver modelo de artigo)

Mesas temáticas: Mesa sobre tema concernente à Cibercultura, respeitando os eixos temáticos, com a participação de no máximo 3 pesquisadores – incluindo o proponente, que será o coordenador da mesa. A duração dos trabalhos da mesa temática não poderá ultrapassar 150 minutos, incluindo apresentação, exposições e debate. Use o modelo padrão de proposta de mesa. A submissão da proposta de mesa deve ser feita juntamente com a inscrição. (Ver modelo de mesa temática)

Oficina (Workshop): Oficinas, com duração de quatro e oito horas, obedecendo aos eixos temáticos. Seguindo o modelo padrão de proposta de oficinas, a proposta deve conter: título, objetivos, público-alvo, metodologia, programa e duração. O transporte, a montagem e os materiais necessários são de responsabilidade exclusiva do proponente. Use o modelo padrão de proposta de oficina. A submissão da proposta de oficina deve ser feita juntamente com a inscrição. (Ver modelo de oficina)

Exposição: Exposição de propostas em Ciberarte de artistas, pesquisadores, ativistas, grupos e coletivos de arte e cultura digital, que atravessem os eixos temáticos do simpósio e que envolvam linguagens como instalação, videoarte, performance, música e fotografia, inseridas no contexto da Webarte, Gamearte ou Netarte, previstas para serem acessadas durante a duração do simpósio. Os artistas deverão apresentar memorial descritivo contendo: 1) título; 2) nome do artista; 3) mini-currículo do artista; 4) conceito; 5) detalhes de produção; 6) link para vídeo contendo a proposta. Os proponentes são responsáveis pela produção (material, infraestrutura, pessoal, etc.). Instruções mais detalhadas no modelo padrão de proposta. Use o modelo padrão de proposta de projeto de exposição. A submissão da proposta de exposição deve ser feita juntamente com a inscrição. (Ver modelo de exposição)