After Life

Já ensaiei várias vezes o que eu escreveria ao encerrar esse espaço que me acompanhou por tanto tempo. Comecei inúmeras vezes uma despedida, deletava e retornava à página em branco, mas o fato é que esse blog e tudo que ele significava não faz mais muito sentido nessa minha vida atual. Acredito que a gente viva várias vidas mesmo que em pouco tempo e a chavezinha temporal começou a girar para mim. Estou salvando e backupeando tudo e em breve abrirei um novo espaço, um tanto distinto. Em meio à pandemia do Covid-19 e ao desgoverno surreal fascista sinto que preciso de novos ares digitais.

Agradeço às inúmeras pessoas que passaram por aqui – muitas foram e vieram, outras ficaram –  mas certos ciclos precisam ser encerrados para que novos projetos floresçam. A lot like life. Obrigada mesmo a todos que me leram, que acompanharam minhas digressões musicais, acadêmicas e sentimentais. Assim que tudo estiver reconfigurado, aviso por aqui.

Até breve e obrigada pelos peixes.

I just want to turn the lights on
in these volatile times
I just want to turn the lights on
in these volatile (volatile) times

 

Shake Up

Após um longo inverno chega uma primavera (ok, ainda tá friozinho aqui nas terras sulistas, mas já temos um cenário colorido e cheio de flores) trazendo mudanças. Depois da repercussão do meu texto desabafo por aqui, houve melhoras porque houve apoio de todos os lados, até dos mais inesperados. Creio que mais uma crise se foi e espero que tudo isso demore muito pra voltar ou nem volte mais. O que não quer dizer que os problemas em si acabaram, mas consegui até achar algumas possibilidades de saída e vi que a queda causou alguns ferimentos, embora não tenha sido o suficiente para me derrubar. Como em Shake Up do Mind.In.A.Box:

“I may let them see me
I may let them see me stumble,
but they will never see me fall.”

A grande novidade do momento é que finalmente, após um tempo planejando e me organizando – old habits die hard – adotamos uma gatinha, que está sendo paixão da casa. Uhura chegou pra comandar a Enterprise Amaral-Salvatore.

uhura

Uhura reutilizando sacolas de congresso

Esse post foi só pra me lembrar de que tudo simplesmente passa e apesar de ainda estar em processo de recuperação e bastante fragilizada, é preciso mirar no futuro e focar em quem somos, em quem está ao nosso lado e em objetivos mais tangíveis a curto prazo. Por hoje era isso. Volto em breve para comentar algumas coisas importantes, sobretudo os projetos novos do grupo de pesquisa como o programa de rádio Divã Pop e o Conversas Cultpop em parceria com a Galeria Acadêmica em Porto Alegre. Vem muita novidade por ai. Lady A is back bitches!

Sobre desapontamentos & fracassos

Minhas últimas semanas foram algumas das mais difíceis dos últimos seis anos, perdendo apenas para quando meu pai e minha mãe faleceram. Quem convive com os ciclos de um transtorno de humor sabe muito bem que pode passar anos, mas um belo dia a crise volta a dar as caras. Ao longo do tempo a gente aprende – ou pelo menos tenta – evitar, já conhece alguns dos gatilhos, vai percebendo os caminhos que funcionam ou não. No entanto, nunca temos uma certeza se vamos conseguir nos manter no trilho da estabilidade/sanidade.

Did I disappoint you?
Did I let you down?
Did I stand on the shore
And watch you as you drowned?
Can you forgive me?
I never knew
The pain you carried
Deep inside of you.

E eis que nesses últimos dias estou tentando digerir um fracasso daqueles retumbantes, uma frustração gigantesca, uma derrota sem precedentes na minha vida ordinária. Não que eu tenha tido vitórias épicas, grandes prêmios ou algo digno de sei lá, uma olimpíada. Porém, na medida do possível, tento me organizar, tento planejar e sei la, boa parte das coisas andam a partir do momento em que eu mobilizo uma energia para aquela tarefa ou ao menos assim eu acreditava. De maneira geral tinha dado certo, até o presente momento. Em geral, nunca vemos as pessoas falando dos momentos em que falharam. A narrativa do sucesso é muito mais sedutora.

You only see what your eyes want to see
How can life be what you want it to be
You’re frozen
When your heart’s not open

O primeiro passo da dificuldade é admitir e aceitar que aquilo que você investiu todo um aparato emocional simplesmente não vai acontecer. Na teoria até parece fácil, você respira, inspira, deixa o tempo passar e mais umas outras técnicas ai. Na prática, a vontade é se enfiar embaixo das cobertas e não sair de la até a dor desaparecer. Só que o trabalho, as contas pra pagar, e tudo mais na vida não te permitem fazer isso. O máximo que você consegue é ficar ainda pior.

You’re so consumed with how much you get
You waste your time with hate and regret
You’re broken
When your heart’s not open

Ai você nem conseguiu superar ainda a primeira etapa e já começam as auto-cobranças do tipo: Por que eu fiz assim e não assado? Como foi que eu cheguei a isso?  Se eu tivesse escolhido A em vez de B, teria dado certo? Fulano consegue, por que não eu? São tantas as variáveis que você vai se sentindo soterrada e tudo em volta fica ainda pior. Raiva, arrependimento e um monte de incertezas começam a te tirar do chão e a te fazer acreditar que você não tem capacidade ou, nesse caso específico que nenhuma das suas capacidades é boa o suficiente pra te tirar dessa enrascada na qual você mesma se colocou. Me sinto afundando e preciso continuar a sorrir e a agir naturalmente.

I can’t forget
Having to see
The words that knocked the wind
Right out of me
It’s not enough
I’ve come undone
Trying to find sense
Where there is none

E ai depois de muitos dias ruminando e sofrendo muito – incluindo um dia que eu sempre gosto muito de celebrar e que mal tinha forças pra sair da cama, o meu aniversário – decidi voltar algumas casas no jogo. [Além da melancolia natural e de enfrentar o fato de estar fazendo 41 anos assim, num piscar de olhos, juro, eu nunca me senti com essa idade. Sempre me senti ageless.] Falar da perda é vivê-la novamente, mas também  o único jeito de expurgar o que já estava escrito e eu não quis ver.

I have a tale to tell
Sometimes it gets so hard to hide it well
I was not ready for the fall
Too blind to see the writing on the wall

Decidi pela primeira vez de forma consciente desistir de algo que eu queria muito e assumir que sim, eu fracassei e não vou mais insistir em tentar ir adiante com algo que só está me causando dor. Algo que não está nas minhas mãos nesse momento. Estou triste e desapontada comigo mesmo e com um conjunto de circunstâncias que de uma forma ou de outra me constituíram. “Eu sou eu e minhas circunstâncias”, aquela frase bem clichezona do Ortega Y Gasset. Mas é isso, acho que assumir que falhei já é um bom começo. É como eu posso tentar lidar com esse desgaste por hora. Infelizmente precisei sair de um impasse com uma escolha que é a menos pior. Não é o que eu desejava, não é o que eu queria ou como eu queria mas é como a vida me impôs e não há nada que eu possa fazer a não ser aceitar. Uma sensação de impotência indescritível, o que pra alguém acostumada a correr atrás de tudo até as ultimas conseqüências é aterrorizante.

Now there’s no point in placing the blame
And you should know I suffer the same
If I lose you
My heart will be broken
Love is a bird, she needs to fly
Let all the hurt inside of you die
You’re frozen
When your heart’s not open

Mas ai vão aparecendo alguns pequenos confortos: coisas legais de trabalho (fui convidada pra escrever uma espécie de prefácio pra um dos livros que eu mais gosto); amigos que desviam sua rota apenas porque você precisa conversar e vem na sua casa quando você mais precisa; a sobrinha que vem perguntar querendo saber de verdade como você está na inbox; o aniversário da Madonna que te faz escutar Frozen por horas no repeat e entender porque seu melhor amigo dizia pra prestar atenção nas letras; os bolsistas que estão trabalhando pelo evento de forma tão profissional; a saudade boa das festas e shows do ManRay Club em Harvard Square (Disappoint do Assemblage 23 era um hit); toda uma rede de afetividades que te lembram que nada é tão ruim que vá durar para sempre. Talvez desses grandes desapontamentos a gente tire alguma força inexplicável para seguir adiante. Ou como diria a musa Scarlet O´Hara: “Tomorrow is another day”

Don´t Panic

Meus últimos meses têm sido muito conturbados em termos profissionais, pessoais, familiares, etc, mas a partir dessa próxima semana em que retornam as aulas – e tem mais um aniversário pela frente-,  decidi que vou voltar a me disciplinar pra escrever no bloguinho que ficou ai abandonado novamente por uns meses [também estou me prometendo retomar os exercícios, fazer os exames pendentes, entre outras coisas que abandonei]. Na verdade estou tentando me disciplinar em alguns campos que andam defasados na vida. Tenho alguns pequenos posts já na cabeça: a experiência como professora/pesquisadora visitante na Alemanha entre maio e junho, os eventos na Inglaterra (sobre fãs e música brasileira), o seriado Jonathan Strange & Mr. Norrell, as mudanças no Instagram, a 6a temporada de Game of Thrones, minha vida de madrasta e outras aleatoriedades que podem ou não fazer sentido. Também preciso dar uma atualizada em uns artigos cujos links sumiram daqui. Primeiro fiz uma limpezona na minha casa física (escritório, quartinho da bagunça, etc), agora é hora de dar um jeito aqui.

Nessa altura do campeonato de ser adulta, apenas preciso comentar que fazia muito tempo em que não sentia tanto pânico: um medo atroz dos caminhos que me trouxeram até aqui, do que vem pela frente, do que se foi, do que virá e eu desconheço, medo de errar, medo de gente extremista em todos os espectros, medo de me arrepender, medo de ter mudado a ponto de não mais me reconhecer, medo de parecer sempre a mesma, medo de deixar algumas mágoas e ressentimentos tomarem conta e perder de vista a big picture, medo de surtar, medo de me esconder em camadas de precaução, medo de perder a mão, medo de não conseguir segurar as marimbas. Medo de ficar levando um 7 X 1 ad infinitum da vida. Todavia, simplesmente não posso deixar que todo esse  pânico me paralise, estamos ai, respirando e segurando nossa toalha pelas galáxias em busca de aventuras. Vamos repetir a frase clássica de Douglas Adams: “Don´t Panic”!

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Lápide do Escritor Douglas Adams no magnífico cemitério vitoriano HighGate Cemetery em Londres em um belo dia de sol. Crédito: Arquivo Pessoal Adri Amaral & Tarsis Salvatore

 

Sobre desistir, aleatoriedades e caos

Choose Life. Choose a job. Choose a career. Choose a family. Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and electrical tin openers. Choose good health, low cholesterol, and dental insurance. Choose fixed interest mortgage repayments. Choose a starter home. Choose your friends. Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suit on hire purchase in a range of fucking fabrics. Choose DIY and wondering who the fuck you are on Sunday morning. Choose sitting on that couch watching mind-numbing, spirit-crushing game shows, stuffing fucking junk food into your mouth. Choose rotting away at the end of it all, pissing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourselves. Choose your future. Choose life… (Trainspotting)

Não se preocupem, esse post não é sobre desistir da vida. Também não vou jogar tudo para o alto e virar hippie (não nessa vida por favor, ninguém me obriga a usar sandalinha de couro e saião e cantar a detestável Janis Joplin. Mais facil eu enlouquecer em uma masmorra ou em uma fabrica abandonada ouvindo :wumpscut). Esse post é sobre algumas coisas que vieram a minha mente após ter lido o texto inquietante da Aline Andrade intitulado Quando chega a hora de desistir. Fiquei pensando o quão diametralmente oposta estou no espectro e, ao mesmo tempo tão próxima. A vida acadêmica e suas agruras é parecida e diferente para pessoas tão distintas e sim, renderia bons produtos ficcionais, sejam livros, seriados ou filmes. Eu sempre quis escrever um sitcom com as situações bizarras e surreais que já passei – e não foram, nem são, poucas. De qualquer forma essa é uma realidade ainda pouco explorada pela TV (atenção diretores e produtores da HBO, GNT etc temos material de sobra, #chamanóis).

No texto Aline descreve com bastante acuidade algumas situações que todo mundo que já fez concurso ou prestou seleções conhece ou já ouviu. A vida acadêmica é bastante randômica e aleatória, apesar de todo o discurso meritocrático e peer review que contamos para nós mesmos o tempo todo. O caos no fim das contas acaba determinando alguns acontecimentos muito mais do que as escolhas que acreditamos fazer.

Eu por exemplo, decidi que seria jornalista com sete anos de idade porque gostava de escrever e porque era fã dos repórteres heróis dos quadrinhos (Homem Aranha, Superman). Ao contrário de todos  meus colegas, durante o segundo grau (é ensino médio agora né? Acho que estou passando atestado de tiazona) eu não tinha nenhuma dúvida sobre qual graduação cursar. Mas meu último ano antes da faculdade foi caótico, aconteceram coisas que me tiraram do prumo e acabei fazendo um pouco de Letras, porque amava literatura de língua inglesa. Amava o curso (lingüística, teoria literária) mas não me via sendo professora. Olhem a ironia da vida. Hoje sou professora.

Um semestre depois entrei no jornalismo (levei ambos os cursos por um tempo mas não rolou) com a missão de trabalhar pra uma revista de música. Era esse meu ponto. Não tinha a menor vontade de escrever sobre buraco da rua, política (meu niilismo ja me fazia odiar ideologias de variados espectros) ou hard news. E la no andar do curso o que aconteceu? Primeiro que passei a gostar e andar com os amigos publicitários que ouviam música eletrônica – a maioria dos estudantes de jornalismo faziam a linha roqueirinho classico que naquele momento eu achava um saco –  e traziam novidades ao contrário dos colegas marxistas (rs)  que só reclamavam de tudo. Segundo, me tornei bolsista de IC e entrei num grupo de pesquisa em semiótica. Minha ideia era terminar o curso e ir para SP, achar meu lugar na “imprensa musical” (para a qual eu até frilei). No entanto, uma série de problemas familiares (doenças e um namorado que nunca se formava) me prenderam em POA.

Assim, um ano depois de formada eu efetivamente decidi entrar no Mestrado com a ideia de pesquisar cinema/audiovisual. Apresentei um artigo em um renomado congresso nacional específico da área sobre um filme que eu achava bacana, um filme cuja música era o epicentro. Ninguém comentou absolutamente nada sobre o meu texto, nem pra xingar, nem para fazer polêmica, nem para dizer que era um lixo. Foi uma deprê. Paralelo a isso eu trabalhava nessa área com alguns freelas e não me via passando a vida a debater sobre Glauber Rocha e outros cânones dessa área. Não era pra mim. Não foi consciente, mas retomei meu projeto de mestrado e acabei de uma forma um tanto tangencial falando sobre fãs. Um belo dia quando estava quase ao fim do mestrado (uma época muito difícil na minha vida pautada pela depressão e por uma sucessão de relacionamentos afetivos fracassados) decidi que tentaria o doutorado, afinal eu queria mesmo seguir na academia. Mesmo que nada estivesse dando muito certo naquele momento enquanto 60% dos meus colegas já dava aulas, tinha empregos no mercado e pareciam estar se encaminhando na vida.

Eis que num desses dias, Neuromancer do William Gibson cai na minha mão e assim surge meu projeto de doutorado. De forma completamente aleatória porque eu li algo sobre The Wanderer (uma canção do album obscuro Zooropa) e a relação dele com o livro e fui investigar. E assim entrei no doutorado, uma época igualmente complicada em que o país atravessava um período em que praticamente não haviam concursos em federais, tinham poucas bolsas, etc etc. Tudo muito diferente do cenário recente. Fiz doutorado com bolsa parcial , fazia freelas, traduções, me virava nos vinte e poucos enquanto meus colegas conseguiam empregos nas universidades particulares da região, compravam apartamentos, carros, viajavam nas férias de verão. Eu vivia uma vida com pouquíssima grana – não monástica porque não tenho menor vocação de não sair pra rua rs – e chegava a duvidar que conseguiria emplacar meu tema. Um dia, vou até a biblioteca e remexendo numa estante um livro da área de teoria literária literalmente cai no meu colo, um livro que continha um artigo que me ajudou a encontrar a hipótese da minha tese e que gerou um artigo com qual fui aceita pela primeira vez no congresso da Compós, que segundo diziam todos, era importante. Paralelo a isso, teve uma novela do doutorado-sanduiche em que eu quase não fui ( as bolsas eram muito escassas) e mais um monte de complicações que por si só dariam um livro, até coleguinha ironizando “pesquisar scifi” e burocracias que pareciam estar contra mim. No fim, acabei viajando e foi uma das melhores experiências que eu tive. Quando voltei ao Brasil começou a me bater o desespero, afinal o que eu faria da vida? Não haviam concursos, as contratações estavam escassas. O desespero batia a minha porta.

True life begins behind the border
That exists inside your head
You will never reach deep waters
And get away from there
Take a look around
And look at what you have
But you will never reach deep waters
If you do not change yourself

True Life – Lights of Euphoria

O fato é que defendi a tese e por mais uma dessas aleatoriedades da vida um mês depois disso estava em outra cidade, em outro estado, empregada em um PPG e morando junto com o namorado que na real eu conhecia muito pouco. Dali para adiante tudo estava resolvido? No way baby. Daquele dia em diante comecei a planejar a estar em um lugar melhor ou mesmo mais perto da familia e dos amigos. Apesar das dificuldades, fui sobrevivendo, criei redes com outros pesquisadores que admiro fora da cidade (aka centro do país) – , fiz amizades fora do circuito acadêmico, organizei festas, discotequei – e pasmem até ganhei alguns trocados com isso – enfim fiz um monte de coisas que alguns diziam não ser compatíveis com a “nova vida séria” que eu tinha. Fui julgada até porque usava uma pasta da Hello Kitty, o que convenhamos, nunca afetou minha produtividade #shoremhaters.

Enquanto isso, fui tocando as pesquisas e mirando num futuro, mirando em empregos melhores, trabalhando finais de semana, feriados, não tirava quase férias, tive 2 empregos por dois anos. Aos 34 anos e ao final do meu último ano naquela cidade obtive a Bolsa de Produtividade do CNPq. Mission almost accomplished.  Obviamente tudo tem um custo e minha vida emocional – sanidade mental + casamento + amizades + familia – flopou das mais variadas formas imagináveis com direito a mortes, doenças e separação. Eu tinha 30 e poucos anos e postergava quase tudo. Tem tempo, deixa pra depois, não é o momento, vou enfiar a cara nesses pareceres, vou dar um curso no interior de sei la onde, vou dar uma palestra nos confins do brazyu. E assim seguia.

Após inúmeras tentativas, finalmente consegui mudar de cidade/emprego (e não era só mudar de emprego né, era pra alguma cidade com a qual eu tivesse mais afinidade e rumar para um PPG mais renomado com mais nota e que me permitisse captar mais recursos em editais, e uma série de outros itens. A régua havia subido). Fiquei feliz, afinal, meu plano havia dado certo – do alto da minha arrogância dos 30 e poucos achava que sim tudo tinha seguido meu plano. Em compensação havia uma cratera no meu RV – como dizia Sherry Turkle nos anos 90 para falar sobre o plano da vida offline, o Resto de Vida. E ai começou toda uma nova saga. De la para cá se passaram seis anos. Perdi minha mãe, fui pra terapia, me separei, comprei um apartamento (o lado “sonho classe média” rs que 90% dos meus colegas realizaram quando ninguém me deu emprego na minha terra natal foi finalmente resolvido) casei novamente – dessa vez de um jeito totalmente diferente – e fiz um pósdoc onde eu queria, provavelmente em uma das ultimas levas de bolsas para o exterior desse período “rhykho” das agências.

Confesso que à exceção do pósdoc que ja estava em um planejamento, todo o resto foi absolutamente singular. E mesmo as circunstâncias que me levaram a ele, a escolha do lugar, de tudo, acabou se dando de forma caótica e randômica. Talvez porque ao contrário do que eu pensava, fui sim fazendo pequenas desistências, como no momento em que larguei de mão minhas intenções de pesquisar cinema e me joguei de cabeça nas questões da cibercultura e dei sorte de estar ali quando uma subárea de estudos se formava. Eu desisti de algo para fazer outro. Foi doloroso, mas sei la. É preciso perceber nossos limites.É o que tenho pensado em relação ao meu modo de encarar a vida cheio de metas e objetivos tracejados. Talvez eles me dêem uma falsa sensação de segurança e no momento, me sinto um poço de dúvidas e hesitações Sempre tive muitas certezas e agora não, desconfio de tudo no qual um dia acreditei.

Tudo isso apenas porque outras questões me atormentam e me fazem pensar em desistir a respeito de decisões anteriormente fechadas.Como falei no início do post,  minha “assim chamada” carreira já está mais ou menos delineada. – ok é dificil manter e à medida que o tempo passa outros objetivos vão surgindo mas as coisas estão constituídas. Também acredito que se um belo dia eu resolver sair disso, vou sair pela porta da frente e me jogar em algum outro abismo tendo certeza que dei minhas contribuições e elas foram suficientes para os meus propósitos.

O que trato aqui é sobre estar sempre pensando no desenho que “as vidas” da gente formam. Quando falo as vidas é porque não é uma só, são várias em um curto período de tempo. No meu caso, acho que foi o Pollock quem jogou umas tintas na tela, pois quando penso que está tudo estabilizado, algum lado  resolve berrar ardentemente. E assim, talvez eu  precise retroceder, relevar, deixar estar, rever o que deixei de lado e o que priorizei e ver que there´s no going back. Não é possível pegar uma TARDIS ou um De Lorean e voltar no tempo. O caos fez com que eu chegasse  até aqui e talvez ele não permita que eu altere algumas estruturas já definidas em um determinado ponto sem que se quebre alguns cristais. Como em Suedehead do Morrissey: “I´m so sorry”. Eu realmente sinto muito. Eu queria ter desistido antes, ter desistido a tempo de não perder o baile. Mas, talvez não haja tempo suficiente em uma única vida humana para que a gente consiga preencher a maior parte das lacunas  e dos desejos. Para um ego leonino e para alguém que odeia desistir – sou dessas que costuma ir até o fim –  talvez isso seja um aprendizado extremamente doloroso. Talvez desistir seja também resistir e encontrar algum tipo de paz. Ou talvez todo mundo seja só trollado o tempo todo por essa bitch chamada vida que vem cobrar os débitos que julgávamos já ter pago. Tem dias que eu acho que deixei a comanda do bar do vida pendurada 20 anos atrás e agora ela veio cobrar tudo de uma só vez . De qualquer forma desistir também é parte do amontoado de aleatoriedades sem sentido que construímos para nós mesmos e talvez até nos salve de sentir menos dor.

 

I’m feeling capable of saying it’s over

Stay where you are
Ever, after
Chasing things that we should run from

Tinha programado tudo para escrever um texto bem bacana falando sobre a finalização do período sabático, contando algumas coisas da pesquisa e do quão enriquecedora foi essa experiência de pouco mais de um semestre morando no meu país favorito (sorry Brazyu, eu te amo, mas nossa relação é de outra ordem). Foi – e ainda está sendo – muito difícil me despedir dessas ilhas que eu amo. No meio disso, tive uma série de questões pessoais pra resolver, uma palestra para dar no Centro de Estudos Góticos da Manchester Metropolitan University e claro, organizar o retorno ao Brasil.

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Enquanto eu ruminava o post na minha cabeça, na véspera da minha viagem para Porto Alegre, recebi um email que me comoveu muito. Não vou citar o nome da pessoa, nem trechos do email pois não seria ético – uma vez que não pedi permissão para isso e nem quero transformar tudo em algo que as pessoas possam chamar de marketing pessoal rs. Não é o objetivo do texto. Bom, nessa mensagem, uma moça com quem tenho muito pouco contato, não é minha amiga próxima e nem mora onde eu moro, me escreveu agradecendo pela ajuda indireta que eu dei a ela em 2015. Ela me contava muito por alto alguns problemas que ela tinha enfrentado e como as minhas palavras haviam sido importantes.

Will we ever get away from this place
It’s an image that’s burned on my chest
For a moment you need me to stay
Cold blooded and drifting away

Fiquei num misto de chocada e emocionada. Primeiro porque achei que o conteúdo seria algo a ver com a Academia. Normalmente as pessoas que não conheço tendem a me agradecer pelas minhas pesquisas, pelos meus artigos, etc. Mas não era nada disso. Ela me agradecia por postagens no blog, Twitter e FB, sobretudo algumas postagens bem pessoais, “gente como a gente”, que a tinham ajudado a superar uma série de problemas por compartilhar uma visão de mundo similar, de alguma forma. Fiquei emocionada porque não imaginei que poderia ajudar alguém dessa forma, sobretudo alguém com questões da ordem do feminino, que apesar de tantas discussões online, a meu ver, tem me parecido – serem abordadas por muitas e muitos de uma forma um tanto mascarada e moralista e que no discurso é inclusiva, mas na prática é perniciosa e tenta apagar as contradições e sofrimentos das condições de quem não se enquadra exatamente na olimpíada de sofrimentos, privilégios e traumas, que tem até uma ordem discursiva pré-pronta pra cada caixinha em vez de ser pensada mais subjetivamente. Mas esse é todo um outro tema que retomo outro dia.

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O fato é que ter ficado esses meses afastada me fez ter algumas outras perspectivas sobre mim. Sempre me achei alguém muito diferente da minha mãe, que era o tipo de pessoa que  ajudava todo mundo, muitas vezes se colocando em último lugar (e claro, como boa virginiana ela fazia aquele drama básico em cima disso rs). Sempre fui auto-centrada, focada no meu mundo, hedonista e algumas vezes erroneamente chamada de “egocêntrica”. No último episódio em que ouvi esse tipo de coisa cheguei a me afetar e isso quase estragou uma parte da minha viagem. Nunca curti/acreditei nessa vibe “altruísmo desprendido” que muita gente vende como branding de si mesmo. Também não curto quem se afunda numa só causa e fica obsessiva e compulsivamente falando nisso feito “seita” querendo converter a todos, mesmo que tenha uma boa finalidade. Conhecem o ditado né? De boas intenções o inferno está cheio.

I’m feeling capable of
Seeing the end

I’m feeling capable of
Saying it’s over

No fim das contas, acho que esse ano estou tendendo a acreditar no que algumas pessoas têm me falado, eu realmente consigo ajudar os outros, da minha maneira, numa espécie de transparência às avessas. Sou reservada, tendo  falar muito pouco de assuntos pessoais (ao menos não de uma forma muito direta) mas já percebi que quando falo, quando exponho, dificuldades e contradições isso, de alguma forma ajuda as pessoas. Eu sempre acho que isso é bem óbvio, que fazemos 50 coisas, 49 dão errado e apenas uma dá certo. No entanto, a maioria tende a enxergar e martelar apenas nesse 1. E ai surgem certas frases carregadas de ressentimentos como”Fulano consegue isso”, “Beltrana tem sorte”, “Tudo que Sicrana faz dá certo”. Não, não é assim. É sofrido para todo mundo. Tem sempre uma centena de obstáculos e depende apenas da gente decidir como vamos encarar isso: se vamos dançar com a parede e tirar sarro da gente mesmo, aprendendo a observar quando encerrar e quando continuar determinadas coisas; ou se vamos nos entregar ao meme da diferentona “só eu que não consigo”, “só eu que não supero”, “só comigo que as coisas não dão certo”. Não estou dizendo aqui que tudo se resolve com “força de vontade”, pelo contrário, existem doenças que nos impedem de produzir e de ser, como a depressão ou síndrome de pânico por exemplo. Eu mesma tenho meus transtornos e cuido deles com terapia, mas também com amigos e com minhas reflexões internas. Tem dias melhores, tem dias piores.

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Creio que finalmente posso encerrar mais uma etapa. Não acredito em mais ninguém que queira me ofender e minar minha auto-estima utilizando a palavra “egoísmo” ou “egocentrismo” em função do jeito como levo minha vida e de algumas escolhas que fiz. Sim, eu tenho algo da minha mãe e sou capaz de ajudar aos outros, do meu jeito meio estranho. E agradeço imensamente às pessoas que me ajudaram a perceber que esse estereótipo não me cabia, algumas amigas (vocês sabem quem são) e a essa moça que me escreveu de forma tão delicada. Você também me ajudou. Obrigada por me fazer ver o fim de uma auto-imagem que não correspondia à realidade. Já sou capaz de ver novos começos nessa correnteza.

np: Chvrches – Tether

50 dias

“Life moves pretty fast. If you don´t stop and look around once in a while you could miss it”. Essa é uma das citações mais conhecidas e paradigmáticas de Curtindo a vida adoidado (Ferris Bueller´s day off). Acho que de tantos filmes da minha geração, essa frase faz mais sentido a cada ano que passa, a cada aniversário que comemoro, a cada data em que observo essa passagem irreversível do tempo. Faz pouco mais de 50 dias que iniciei o período sabbathical bloody sabbathical aqui no Reino Unido e ainda não havia conseguido respirar e dar essa parada pra olhar ao redor.

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Morar em outro país, mesmo em um período de tempo não tão grande é sempre uma experiência formativa. No meu caso, sempre tive um enorme apreço pelas ilhas, sobretudo pela literatura e pela música alternativa que consumi em exaustão durante minha adolescência. Pois é, quem diria que todas aquelas horas na biblioteca lendo clássicos tipo Dickens, Austen, Byron, Wilde, irmãs Brontë, entre outros, enquanto meus colegas iam pras emocionantes e maravilhosas praias do Rio Grande do Sul em suas tchurminhas [insira aqui toda ironia possível]  me ajudariam a compreender ao menos em parte o ethos identitário brit e fizesse com que desde aquela época eu já tivesse uma certa afeição por tudo que diz respeito ao país. Depois disso, já estive aqui diversas vezes por conta de projetos de pesquisa, congressos e passeios, então sinto uma certa familiaridade mesmo que à distância.

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Foto do Tarsis Salvatore

Assim, sou uma estrangeira mas com vislumbres insiders. E a ideia de pesquisar aqui não é e nunca foi de subserviência, deslumbramento ou sobre “ser colonizada”, hashtag com a qual eu gosto de tirar sarro com quem não entende meu apreço por certos britanismos. Estou aqui aberta ao diálogo, lendo e observando coisas novas aqui produzidas, no entanto também trazendo articulações do que fazemos no Brasil, que em muitos casos não deixa nada a dever. Nos falta grana e possibilidades devido a diferenças econômicas, políticas etc, mas o diálogo é de igual para igual. Essa postura foi a mesma que adotei durante meu estágio de doutorado nos EUA e que adoto em qualquer congresso internacional.

O mais engraçado é que eu sofri mais bullying – não que hoje em dia ligue a mínima – em relação a temas ou objetos de pesquisa no Brasil – sobretudo durante meu doutorado por inumeros colegas – do que jamais sofri aqui. As humanas e sociais no Brasil em geral – e a comunicação também tem uma excessiva – ao meu ver que sou bem biased – subserviência a tudo que é teoria abstrata e parece distante da realidade. Parece que para passar no teste de “ser de humanas e fazer miçangas” é preciso ainda passar um “ar de olhem como estou distante do mundo e dos objetos e sou um autor complexo”,  independente do estado da arte da pesquisa, independente do que outras pessoas sejam latinos, sejam de quaisquer origem já escreveram. Ai você é considerado um super mega power über teórico, senão você é só um “pesquisador dos objetos”. Bem vindos ao meu clube, o clube dos mundanos, o clube dos que vivem os temas, o clube dos “não sou um intelectual, faço minhas pesquisas sobre os fenômenos que me mobilizam e me afetam”! Eu não sigo “linha teórica”, eu não sigo “autor”, eu me aproprio, eu remixo, eu dialogo, eu extraio tour de forces dos conceitos e os aplico a partir de dados e das minhas inferências e interpretações. Enfim, eu não divido as pesquisas por países ou por teoria X empiria, eu leio o que é pertinente aos meus temas e questões. Mas estou digredindo e esse é um outro assunto. É um problema da academia que muitas vezes se acha tão distante da moda, do mercado e do marketing, mas acaba sucumbindo aquilo mesmo que ela adora criticar,  e elegendo certos “best sellers”. Diga-se de passagem esse não é só um problema brasileiro, é um problema de todos os lugares, mas as vezes é mais opressivo no Brasil. Gente que lê apenas o autor da moda, gente que não cita trabalhos nacionais, gente que não dialoga com o que já foi escrito antes… enfim mas voltemos a vida aqui.

Por essas e outras eu tinha alguns planos em mente quando comecei a planejar esse sabático, ou eu retornaria aos EUA – mas iria para outra cidade –  ou viria para UK, mas como meus trabalhos nos últimos anos, sobretudo o que está relacionado à subculturas, fãs e metodologias tem um diálogo forte com as pesquisas daqui, optei por vir para a Inglaterra. O mais engraçado disso é que depois de tantas visitas ao norte, acabei morando no sul. Para quem não conhece, essas diferenças são muito mais do que meramente geográficas, são diferenças conceituais, de estilo de vida e que vem demarcadas naquilo que se faz mais vivo: o sotaque. Como dica, vale assistir a minissérie da BBC North & South que mostra essas diferenças na era vitoriana. São 4 episódios baseados no livro de mesmo nome da autora Elizabeth Gaskell.

A primeira vez em que estive no norte, mais especificamente em Manchester, em 2012, passei 15 minutos ouvindo um escocês e um mancunian falando em um pub quase bêbados sem entender praticamente nada. Era como se tivesse caído em outro planeta. Eu que me considerava boa em listening flopei miseravelmente rs. Com o tempo e as vindas fui me acostumando ao sotaque duro, aos tons mais altos ao R (érre) carregado que contém a história dessa gente de fibra, gente que trabalhou e lutou durante a revolução industrial, gente que criou o pós-punk e tudo mais. O sotaque do norte me lembra dois sotaques brasileiros: o do interior do RS, bem da fronteira; e do interior de SP com aquela abertura nos sons. Outra feita, em 2013, quando já estava acostumada ao “mancunian accent” passei um tempo debatendo com um vendedor de Liverpool, tentando entender e fruir aquela sonoridade que me soava cantada com os Beatles, cantada como Echo & The Bunnymen. Ou seria fruto do imaginário coletivo e de tanta música que ouvi na vida? Não sei dizer, mas foi divertido ouvir opiniões sobre Neymar e sobre o Brasil, uma percepção em que ele dizia ser “funky”, sim, somos funky porque precisamos sobreviver em uma instabilidade e isso nos dá um tipo de criatividade por um lado e por outro nos atrapalha.

Na minha recente viagem a Leeds e Bradford em agosto continuei observando os sotaques do norte, esse também diferentes do sotaque de Liverpool e de Manchester. Em Leeds , minha breve percepção me pareceu que o sotaque é um nortenho mais arrastado, mais lento e metálico como de Andrew Eldritch? Não sei, é dificil nao ser biased. E Bradford estava cheia de sotaques nativos e não nativos porque o povo que convivi no festival era cada um de canto, seja de UK ou de fora. No geral, fomos muito bem tratados no festival e eu realmente me senti parte de uma “comunidade de sentimentos” e afetos como fala o Benedict Anderson.

E ai me encontro aqui no sul, e os sotaques em geral são mais amenos, por vezes mais rápidos. Em Guildford e região tende a um inglês mais “padronizado”, ao menos no que tange os colegas de universidade – se bem que muitos deles não são dali. Londres não conta pq são tantos e inúmeros (ainda mais considerando os non native speakers como eu mesma por exemplo) que acho que nem uma vida toda daria conta desse mapeamento. Isso que nem estou fazendo aqui as demarcações sobre classe, que é todo um outro ponto, mas enfim, a língua e os sotaques são nossas mediações primeiras e principais com a cultura, isso não é novidade. Mas é bom poder perceber isso em outro país, observando e vivendo o cotidiano das inflexões, das dificuldades de comunicação quando por exemplo ontem no supermercado eu levei uns 5 segundos pra compreender uma piada/elogio do caixa indiano sobre a minha idade para estar comprando vinho.

Além desse fator, gostaria de destacar meu bom apreço à cultura dos parques, aos shows alternativos por um preço pagável (ainda tenho que fazer um post sobre o Electro London Festival) e das bibliotecas, extremamente fáceis de serem utilizadas e voltadas à comunidade. No meu bairro por exemplo, há todo um foco em autores e autoras negras e árabes. Na próximo mês vai ter toda uma programação sobre a questão dos escravos e pretendo assistir a um painel sobre negros na era vitoriana. Sim, quem me conhece sabe do meu apreço por essa era. Sem contar os cheiros de restaurantes mexicanos, árabes, portugueses, chineses, tailandeses, indianos, etc etc. Afinal, somos todos migrantes, somos todos de fora e estamos todos aqui. É tão fácil de compreender.

Sobre a pesquisa em si, estou me dando ao luxo de ler muita coisa mesmo e me deixar por ora um pouco sem um corpus definido e recortado. Exatamente o oposto do que venho fazendo nos últimos anos. Uma espécie de retorno  a um flanar pelos textos e livros. Obviamente que ja estou recolhendo alguns materiais empíricos, mas não quero me adentrar nessas questões agora.

Em Outubro tenho uma nova inserção de campo no Halloween do Whitby Gothic Weekend, antes disso tem um evento sobre Lovecraft em Manchester e em Novembro tenho duas palestras para dar uma na University of Surrey no seminário dos mestrandos e dos pesquisadores e uma na University of Salford em Manchester. Dezembro tem o grande evento sobre Ada Lovelace totalmente interdisciplinar em Oxford, que vou apenas assistir porque o prazo para envio ja havia encerrado, mas ha toda uma track sobre steampunk que creio será bem interessante.

E last but not least, hoje o Depto de Sociologia de Surrey ao qual estou vinculada como pesquisadora visitante recebeu a notícia de que a universidade como um todo está em primeiro no ranking do Guardian das 10 melhores universidades e o depto de sociologia aparece em terceiro lugar, ficando atrás de Cambridge e Bath. Como escrevi hoje no Facebook, sabemos que esses rankings são sempre complicados e discutíveis, mas são indicadores de percepção, no mínimo. Very proud! I couldn´t have made a better choice. E a vida segue em seu ritmo acelerado, e por hoje consegui pausar um pouquinho pra olhar o entorno.

2014 em algumas linhas

Eu queria ter me dedicado mais ao blog esse ano, mas a vida atropelou tudo. Por um lado é bom porque as experiências fora de tela são insubstituíveis. Por outro, queria ter tido tempo de documentar algumas coisas para posteridade porque 2014 foi realmente sui generis, sobretudo porque encontrei forças para resolver uma zica atrás da outra com muito mais calma do que em outros anos e meus exercícios de empatia tem surtido mais efeito. Ser andróide nesse mundo de humanos não é lá muito fácil, então tem certas coisas que eu ainda não entendo. Mas vejo que estou melhorando com novas programações da psicanálise robótica. O mais difícil para mim – como sempre foi – é lidar com situações que fujam dos protocolos da minha programação e lidar com coisas humanas tipo perguntas invasivas sem sentido em locais públicos, acima de tudo quando envolvem minhas escolhas pessoais. Mas, aos poucos, vou tentando fazer de conta que isso está dentro da minha compreensão.

O ano começou bem tranquilo entre amigos com champagne e sem alarde e foi uma espécie de prenúncio das férias que viriam logo na seqüência. No contra-fluxo em vez da praia subimos a serra paulistana e desapareci por alguns dias em uma pousada charmosa. Teve tb showzinho do Suicide Commando e encontro com os amigues de SP e do Rio. Foi um ano em que viajei bem menos do que o habitual e esse corte foi devido à intensidade do trabalho de pesquisa e a questões pessoais que precisava resolver , mas ao mesmo tempo consegui finalmente deixar a casa com a minha cara – com a ajuda do Társis – depois de tanto tempo sem vontade nenhuma de mexer em nada. Apesar de ter viajado menos, as viagens que fiz foram todas proveitosas incluindo os 15 dias em UK na parte exploratória da pesquisa, onde também tive a oportunidade de conhecer a University of Surrey. A Intercom em Foz do Iguaçu também foi excelente, o GP Cibercultura estava ótimo e a visita às Cataratas depois de tantos anos valeu muito a pena. Tive uma breve passagem pelo Rio onde pude reencontrar os amigues. Teve até Comic Con em SP.

Nunca lidei tanto com burocracias quanto em 2014, mas está valendo a pena coordenar o projeto POA-MCR e reunir uma equipe tão dedicada de pessoas trabalhando em uma pesquisa tão legal. Trabalhar em grupo é um desafio e tem suas próprias limitações e dificuldades, mas o resultado compensa e estou tendo a oportunidade bacaníssima de orientar meu primeiro pós-doutorando. Por falar nisso, meus orientandos nesse ano me deram muito orgulho desde os  TCCs, os mestrandos que defenderam e a primeira defesa de doutorado, todos trabalharam muito bem, cumprindo prazos e se dedicando.

2014 foi também um ano de perdas, de lembranças, de incomodações e de injustiças. Muitas delas inclusive foram levadas à justiça. As mais importantes foram resolvidas. Foi um ano em que tudo demorou pra engatar, papéis demoraram a sair, obras não saíram do papel, e muitas coisas e pessoas se arrastaram parecendo não querer sair da vida, que com muito esforço foram extirpadas. Também foi um ano de confirmar algumas falsidades e a ligar cada vez menos para quem fala o quê. Mas os amigos fiéis se mantiveram e isso é o que importa.

Depois de uns 07 meses de namoro ponte área POA-SP, o ano trouxe a mudança definitiva do meu amor para Porto Alegre e  fechando com chave de ouro a marcação do casamento que promete abrir os trabalhos de 2015 para felicidade da gente e dos que torcem por nós. Coisas totalmente inesperadas acontecem!

Um Feliz 2015 a todo mundo!

Sobre os meus brasis

Depois de ler tantos discursos de ódio e manifestações vexaminosas por parte de uma parcela preconceituosa da população nos sites de redes sociais, decidi dar meus breves pitacos sobre o caso.

Nos últimos 9 anos viajei pelas 5 regiões do país por conta de eventos, palestras, bancas, etc e posso dizer que cada lugar tem peculiaridades com as quais me identifico e outras que estão bem longe de mim. Morei  5 anos em Curitiba, lugar ao qual sou grata por ter me dado ótimas oportunidades de trabalho e conhecido algumas pessoas legais, mas que NÃO É a Europa brazuca como tanto paranaense acha que é. Foi nessa cidade tb que, certa feita,  vi uma face negra do regionalismo separatista com pessoas usando camisetas de Curitiba é meu país num show de rock de uma banda local cujo vocalista dizia que a cidade estava cheia de “estrangeiros” que não contribuíam. Me retirei e continuo acreditando que é  apenas um grupo que pessoas que não representam as pessoas que me acolheram por lá. Foi lá em CWB tb que tive a oportunidade de ir em várias edições do Psycho Carnival, um dos festivais mais legais de rock do país todo e cuja proposta deixa a maioria dos eventos ditos “roqueiros” no chinelo em relação ao resto do país. Para mim, esse lado de Curitiba é mais relevante que o marketing em torno do ônibus bi-articulado.

Faz 4 anos que retornei a morar em Porto Alegre, que tem coisas boas – a Feira do Livro por ex –  mas também não é o centro do universo, por mais que a galera de CTG e a imprensa vendam a imagem de #rsmelhoremtudo . Esse bairrismo ridículo muitas vezes impede a própria cidade e o estado de saírem desse discurso umbiguista e crescerem, sem ampliar o espectro de possibilidades. O conservadorismo gaúcho me incomoda e me choca, mas por outro lado, nem tudo mundo aqui acredita nisso e conheço uma penca de pessoas que se desprenderam até bem cedo e estão pelo mundo sem grandes apegos aos pampas ou à cidade do pôr-do-sol mais lindo (hahahahhahahaha que trollagem isso minha gente!)

Em Hellcife (como meus amigos nativos me ensinaram a dizer) aprendi que Pernambuco tb tem essa megalomania da maior avenida em linha reta e da briga pela literatura pernambucana em uma estante da Livraria Cultura. Aprendi sobre a disputa carnavalesca com Salvador – embora eu mesma não ligue a mínima pra carnaval, mas gosto de saber sobre culturas –  onde sou maravilhosamente bem tratada cada vez que apareço e que encontro ótimas interlocuções. Fui algumas vezes ao centro-oeste e ao norte e de lá só trouxe ótimas lembranças de gente acolhedora e sedenta por conhecimento. Muitas vezes por conta do estereótipo reverso,  quando ainda não me conheciam,  esperavam alguém mais “branca”, mais “loira” ou mais apegada a algum tipo de tradição dos pampas e se surpreendiam quando eu falava que não sei fazer chimarrão, que não escuto música regional e que chamo pessoal pilchado de cosplay gaudério, o que não me impede de achar O tempo e o vento uma baita obra épica que me emociona.

Meus amigos cariocas me ensinaram a adorar o Rio quando eu o detestava por birra e tb tinha uma visão estereotipada, sobretudo os queridos Vinicius Andrade Pereira e Simone Pereira de Sá, que dizem que sou a gaúcha menos gaúcha que já conheceram, no sentido do desapego  ao que retruco citando meu pai “sou porto alegrense”, o que não implica em demérito do interior do Estado, apenas em que não fui criada em uma família que ligasse pra isso. Meus amigos da academia e meus amigos das trevas cariocas me ensinaram a gostar de um riiiiooodejaneirooo mais caótico e mais debochado, para além das novelas do Manoel Carlos.

E SP, esse lugar ao qual sou sempre fascinada/agradecida/feliz que me trouxe os melhores shows, as melhores festas, uma aprendizagem ampliada sobre a sociedade brasileira desde quando eu era bem jovem e pegava ônibus e fazia 18h pra chegar de POA ate SP – ou tinha que economizar horrores pra comprar uma passagem de avião –  pra ir até lá curtir a noite, fazer cursos e todas as outras coisas legais de consumo, sem falar nos amigos queridos que tenho por lá e que sempre dão um jeitinho de me encontrarem abrindo brechas em suas agendas tipicamente corridas. SP foi uma escola de entendimento de subculturas que nenhum livro poderia ter me dado e que me ensinou a enfrentar reuniões burocráticas e políticas (e a me portar nelas), vejam só, parece contraditório, mas não é. Essa SP tb me fez conhecer meu amor, um gaúcho/paulista (que assim como eu não exerce a cidadania) e  que nunca havia morado na província, mas que depois que me conheceu resolveu morar  aqui, mesmo com todo os prós e contras, que eu mesma apontei. Mas o amor está ai pra superar as crises econômicas e de identidade.

Tudo isso apenas para dizer q não existe um Brasil, existem brasis e que cada um de nós é também responsável pelas apropriações que são feitas a partir das diferentes culturas nele presentes. É justamente isso que chama atenção quando eu e outros colegas vamos em algum congresso no exterior discutir de igual para igual. Por essas e outras, coisas como separatismo, xenofobia e racismo, além de serem preconceitos e discursos de ódio, NÃO fazem o menor sentido nesse país surreal e multifacetado. Sair do senso comum e da zona de conforto é um antídoto para tentarmos nos descontaminar de vários estereótipos que estão por ai e para nos abrirmos a novas experiências e afetos.

Hora do Reboot

Estive afastada por um bom tempo, mas não foi apenas do blog, foi de mim mesma. É bom estar de volta após um período em que achei que não mais me encontraria e que estava presa em uma teia de areia de sentimentos ruins. Foi um longo processo que se iniciou há um ano, com o que convencionei chamar de “dezembro da depressão”. Janeiro de 2013 teve início e eu estava mais perdida que cusco em tiroteio – pra usar uma expressão regional. Tive que juntar os caquinhos e repensar em tudo, mas ainda não estava pronta para a mudança. Uma amiga me disse que para as religiões afro e de acordo com os orixás,  2013 seria um ano de revelações, das pessoas mostrarem quem elas são, ou como diz o clichê: “máscaras iriam cair”. Para mim foi um ano de trabalho duro e de tentar entender o que estava por trás de tudo aquilo, de uma indecisão que só me prejudicava e machucava. E o mais importante, um ano de decidir o que REALMENTE eu queria para mim.  Com alguém MUITO importante aprendi que é preciso escolher se queremos sempre ter razão ou se queremos ser felizes. Eis que ser feliz é uma escolha. E dai decidi começar o reboot da minha própria franquia, com uma certa ajudinha dos roteiristas da vida que criaram umas viradas na narrativa dessa temporada.

Não posso me queixar pois o ano em si foi muito proveitoso. O trabalho rendeu e as parcerias nacionais e internacionais prometem pra 2014. Fiz coisas inusitadas como ser paraninfa da #comdig2010, conheci a Amazônia, tive a presença de amigos para dar risada ou para sofrer junto, passei dias muito bacanas no verão europeu, vi coisas novas como o Despacio Sound System e experimentei caminhar pela trilha de Orgulho e Preconceito no meio da Inglaterra, resgatei minhas origens musicais vendo o Cure e o Peter Murphy em São Paulo.  E por essas ironias e coincidências da vida, o momento da virada aos 45min do segundo tempo se deu justamente em plena Avenida Paulista, esse lugar em que fui tantas e tantas vezes, por vezes correndo, por vezes apressada. É claro, todo um percurso de mudanças internas já havia se estabelecido, foi apenas um daqueles momentos em que absolutamente TUDO converge e que entendemos que é necessário sair da zona de conforto. Decidi nietzscheanamente me jogar no abismo, porque eu mereço e não me nego.

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Para 2014 estou sendo modesta só quero dar continuidade no reboot. Sou a diretora, produtora executiva e protagonista de mim mesmo, mas dessa vez acho que acertei na escolha da parceria afinal: Han shot first!

Que a força esteja com vocês!